{"id":1104,"date":"2012-12-10T00:58:18","date_gmt":"2012-12-10T00:58:18","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1104"},"modified":"2012-12-10T00:58:18","modified_gmt":"2012-12-10T00:58:18","slug":"estrada-eu-vou-estrada-eu-sou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/estrada-eu-vou-estrada-eu-sou\/","title":{"rendered":"\u201cEstrada eu vou, estrada eu sou&#8230;\u201d"},"content":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a chora, a m\u00e3e reclama. As horas caminham lentas e a ansiedade aumenta. O movimento dos passageiros \u00e9 t\u00e3o grande quanto a fila que aguarda em p\u00e9 a chegada do metropolitano. Os oito port\u00f5es de embarque marcados em ordem alfab\u00e9tica s\u00e3o as fronteiras que dividem as expectativas da partida e os ve\u00edculos das via\u00e7\u00f5es. Como na maioria das rodovi\u00e1rias que possuem grande fluxo de \u00f4nibus com destino a cidades pequenas, h\u00e1, pelo menos, um fardo de comida ou cesta b\u00e1sica em um dos port\u00f5es de embarque.<\/p>\n<p>Farinha, leite e gr\u00e3os em geral s\u00e3o os alimentos que mais aparecem na rodovi\u00e1ria. Seus donos cuidam dos mantimentos como se fossem fr\u00e1geis porcelanas que podem quebrar com uma simples rajada de vento. \u201cMo\u00e7o, embala bem porque se n\u00e3o fura!\u201d, ou \u201cImagine se derrama esse leite!\u201d. Com a chegada de supermercados na cidade que vendem a pre\u00e7o de atacado, h\u00e1 cerca de oito meses, a presen\u00e7a de fardos de alimentos cresceu visivelmente na rodovi\u00e1ria. \u00c9 engra\u00e7ado dividir o assento com 5kg de farinha.<\/p>\n<p><strong>O espa\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Os lugares para esperar a viagem s\u00e3o dispostos em bancos de metal, mais confort\u00e1veis no ver\u00e3o devido a sensa\u00e7\u00e3o refrescante proporcionada pelo material que o assento foi feito. Sensa\u00e7\u00e3o, esta, n\u00e3o t\u00e3o desejada nas noites frias de inverno que Ponta Grossa \u00e9 acostumada a oferecer. As pessoas sentam-se com certa dist\u00e2ncia uma das outras. Em m\u00e9dia, \u2018um assento\u2019 \u00e9 a medida do espa\u00e7o que separa um viajante de outro. Quando \u00e9 v\u00e9spera de feriado, esse limite de dist\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aparente, mesmo ainda existindo. Mas, ainda \u00e9 poss\u00edvel ver pessoas que optam por permanecer em p\u00e9 a ocupar um lugar t\u00e3o pr\u00f3ximo de um desconhecido. Cenas de conversas entre os ocupantes dos lugares n\u00e3o s\u00e3o frequentes. A maioria delas s\u00e3o entre pessoas que se j\u00e1 se conhecem e est\u00e3o a esperar o mesmo \u00f4nibus.<\/p>\n<p>No centro do teto da rodovi\u00e1ria h\u00e1 um rel\u00f3gio digital, que marca as horas com precis\u00e3o. Por\u00e9m, a temperatura, tamb\u00e9m marcada pelo rel\u00f3gio, sempre gira em torno dos 30\u00b0C nos dias quentes de outubro. Inimagin\u00e1veis, por exemplo, em uma tarde fria de julho.\u00a0 A fila nas duas lanchonetes instaladas dentro do local ficam maiores, e as poucas mesas dispon\u00edveis para desfrutar o alimento ali adquirido s\u00e3o disputadas. Quem \u00e9 mais r\u00e1pido, ou mais esperto, coloca a mala em cima da mesa e marca o lugar.\u00a0 O pre\u00e7o salgado dos itens vendidos nas lanchonetes fazem quem tem sede desembolsar quase o dobro do pre\u00e7o de uma lata de coca-cola.<\/p>\n<p>A Lan house n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o visitada. A falta de fregueses, talvez, se de pela internet wireless oferecida pela rodovi\u00e1ria. A conex\u00e3o \u00e9 boa, r\u00e1pida e consegue ser captada fora do local, quando se est\u00e1 com sorte, at\u00e9 as proximidades da Receita Federal. No piso superior onde placas indicam a presen\u00e7a de banheiros \u00e9 dif\u00edcil perceber a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, exceto a de seguran\u00e7as e vigias. A presen\u00e7a de rampas ou acess\u00f3rios que propiciem o acesso de passageiros com defici\u00eancia f\u00edsica s\u00e3o prec\u00e1rios. Singelas rampas na entrada, meio apagadas pelo tempo e desgaste de quem passa s\u00e3o uma das poucas marcas da democratiza\u00e7\u00e3o ao acesso do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Confusa \u00e9 a venda das passagens. H\u00e1 empresas que possuem guich\u00eas na parte externa, outras internas. As que est\u00e3o na parte de fora s\u00e3o prejudicas pelo tempo em \u00e9poca de chuva. Dependendo da dire\u00e7\u00e3o do vento, quando cai a garoa, banho em casa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>No passado<\/strong><\/p>\n<p>Nem sempre a rodovi\u00e1ria possu\u00eda de \u2018confortos\u2019.\u00a0 At\u00e9 o fim da d\u00e9cada de 1960 Ponta Grossa n\u00e3o possu\u00eda rodovi\u00e1ria. Quem precisava viajar, adquiria sua passagem no posto de vendas, localizado na Pra\u00e7a Bar\u00e3o de Guara\u00fana, onde se localiza hoje, o antigo Cine Imp\u00e9rio. Foi em 20 de setembro de 1970 que a cidade recebia sua primeira Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, tendo como prefeito de Ponta Grossa Cyro Martins.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o crescimento da cidade e a falta de cuidado para com a esta\u00e7\u00e3o tornaram o terminal velho, ultrapassado, sendo necess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o de uma reforma, ou mesmo a cria\u00e7\u00e3o de um novo pr\u00e9dio. Houve tentativas de melhoras, com pinturas e reparos, mas nada que resolvesse o problema. No anivers\u00e1rio de 182 anos de Ponta Grossa, o governador Roberto Requi\u00e3o, ao fazer uma visita \u00e0 cidade, anunciou que aplicaria 5 milh\u00f5es de reais para a constru\u00e7\u00e3o de um novo terminal rodovi\u00e1rio no munic\u00edpio e, cumprindo sua promessa, a partir de 2 de agosto de 2006, iniciou-se\u00a0 a demoli\u00e7\u00e3o da antiga rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Passatempo ou o tempo n\u00e3o passa?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas passam o tempo de formas distintas dentro do espa\u00e7o da rodovi\u00e1ria. Algumas, acompanhadas, ou ent\u00e3o, as mais dispostas e simp\u00e1ticas, conversam.\u00a0 Jogam assuntos cotidianos fora. Falam geralmente da cidade em que est\u00e3o prestes a chegar. As que est\u00e3o com exames de clinicas m\u00e9dicas da cidade geralmente s\u00e3o caladas, e quando falam, contam das idas e vindas da sa\u00fade. As conversas que mais fluem s\u00e3o as masculinas. Parece ver menos inibi\u00e7\u00e3o da parte dos homens na troca de ideias e das constata\u00e7\u00f5es cotidianas.<\/p>\n<p>Mulheres quando conversam falam dos filhos, ou com os filhos. Telefones s\u00e3o mais preferidos pelas senhoras para esbanjar conversa do que trocar palavras ao vivo, com outras pessoas. Por\u00e9m, a maioria das pessoas, quase sem distin\u00e7\u00e3o de idade, utilizam fone de ouvido para fugir da realidade do local. A distra\u00e7\u00e3o \u00e9 tanta que \u00e9 preciso ajuda para n\u00e3o perder a viagem. \u201cEi! \u00c9 Ipiranga, t\u00e3o chamando. \u00c9 teu \u00f4nibus!\u201d.<\/p>\n<p>O que \u00e9 de se reparar que n\u00e3o h\u00e1 aparelho de TV. No lugar do \u201crel\u00f3gio-term\u00f4metro\u201d, um tanto falho e confuso, seria um bom local para uma televis\u00e3o. Para quem n\u00e3o conversa, n\u00e3o l\u00ea e n\u00e3o houve m\u00fasica, assistir \u00e0 programa\u00e7\u00e3o televisiva poderia ser mais proveitoso (e menos f\u00fatil) do que gastar o tempo reparando na bagagem dos que chegam ou saem do local.<\/p>\n<p><strong>Mania de passageiro<\/strong><\/p>\n<p>Dizem que a personalidade ou o status de algu\u00e9m \u00e9 percept\u00edvel pelo corte ou cor de cabelo, marca de roupa ou sapato. Na rodovi\u00e1ria de Ponta Grossa n\u00e3o \u00e9 diferente, por\u00e9m, o que caracteriza cada viajante \u00e9 a mala.<\/p>\n<p>S\u00e3o de v\u00e1rias cores, tamanhos e formas. Os homens preferem as malas de m\u00e3o, ou nas costas. S\u00e3o geralmente de cores fortes e escuras, oscilam do verde escuro, passam pelo azul, marrom, cinza e preto. Na maioria das vezes s\u00e3o malas pequenas e de f\u00e1cil transporte. J\u00e1 as mulheres parecem disputar na aten\u00e7\u00e3o das malas, principalmente as mo\u00e7as mais jovens. Cores e estampas s\u00e3o das mais diferenciadas. Algumas levam mais de uma. \u00c9 comum carregarem tamb\u00e9m, al\u00e9m da mala, a famosa frasqueira, que pode ser tanto to mesmo material da mala ou n\u00e3o. Os olhos e a vaidade de cada mulher da rodovi\u00e1ria \u00e9 voltada sempre \u00e0s malas de cada presen\u00e7a feminina ao entrar no local, como se fosse uma disputa da mala que mais combina com a roupa, com a personalidade, que comporta mais bagagem ou mais futilidade.<\/p>\n<p>Estudantes na v\u00e9spera de feriado s\u00e3o os que mais marcam presen\u00e7a quando se trata do quesito bagagem. Gravado em bordado, pintura, ou graficamente, surgem os estudantes universit\u00e1rios. Enfermagem, medicinas, diversos ramos da engenharia e das ci\u00eancias s\u00f3cias. A bolsa nesse caso, serve como identifica\u00e7\u00e3o, como pertencimento a uma classe, refor\u00e7ada no espa\u00e7o p\u00fablico rodovi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Reportagem de Ang\u00e9lica Szeremeta<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crian\u00e7a chora, a m\u00e3e reclama. As horas caminham lentas e a ansiedade aumenta. O movimento dos passageiros \u00e9 t\u00e3o grande quanto a fila que aguarda em p\u00e9 a chegada do metropolitano. 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