{"id":1166,"date":"2012-03-09T01:53:42","date_gmt":"2012-03-09T01:53:42","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1166"},"modified":"2012-03-09T01:53:42","modified_gmt":"2012-03-09T01:53:42","slug":"dona-tania-personagem-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/dona-tania-personagem-feminina\/","title":{"rendered":"Dona T\u00e2nia, personagem feminina"},"content":{"rendered":"<p class=\"ecxwestern\">No Jardim Santa Luiza, tomando como refer\u00eancia o pres\u00eddio Hildebrando de Souza e seguindo a linha de \u00f4nibus coletivo at\u00e9 a \u00faltima parada do Santa Maria, fica a Associa\u00e7\u00e3o Afro-Brasileira Cacique Pena Branca. Mais precisamente na Rua Adolfo de Siqueira Filho, n\u00ba 100. O endere\u00e7o abriga o restaurante Sinh\u00e1 Vit\u00f3ria, o clube de motoqueiros Hienas, um barrac\u00e3o onde s\u00e3o feitas as reuni\u00f5es e atividades da Associa\u00e7\u00e3o e ainda, o Terreiro de Candombl\u00e9.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">A presidente da entidade, T\u00e2nia Mara Batista,<span class=\"ecxapple-converted-space\">\u00a0<\/span><em>Dona T\u00e2nia ou ainda M\u00e3e T\u00e2nia,<\/em><span class=\"ecxapple-converted-space\">\u00a0<\/span>\u00e9 tamb\u00e9m fundadora da Casa da Aprendizagem Crian\u00e7a Feliz, sacerdotisa da candombl\u00e9, representante do movimento quilombola, artes\u00e3 e cozinheira. E mais importante, segundo ela, \u201ca gente n\u00e3o serve apenas como presidente da Institui\u00e7\u00e3o, serve tamb\u00e9m como amiga e conselheira na comunidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Era uma tarde de segunda-feira estranhamente quente. Por volta das tr\u00eas da tarde, depois de 45 minutos de \u00f4nibus, fui recebida por Dona T\u00e2nia em uma salinha repleta de livros e imagens sacras, como S\u00e3o Jorge, Iemanj\u00e1, est\u00e1tuas de ciganos, Preto Velho, e ter\u00e7o, representando a diversidade e miscigena\u00e7\u00e3o cultural e religiosa. Sentamo-nos \u00e0 mesa coberta por uma toalha branca com bordados de renda, onde estava o tar\u00f4&#8230;<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\"><strong>M\u00e3e T\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">\u201cQuando ouv\u00edamos falar em mediunidade era como sin\u00f4nimo de coisa do diabo. Fomos criados no catolicismo, que interpretava o que eu sentia como possess\u00e3o. At\u00e9 mesmo hoje, em alguns cultos, eles utilizam entidades do Candombl\u00e9 como sin\u00f4nimos do dem\u00f4nio\u201d, explica dona T\u00e2nia.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Sacerdotisa da candombl\u00e9, M\u00e3e T\u00e2nia conta que aos oito anos sua mediunidade se manifestou pela primeira vez. \u201cPor causa da ignor\u00e2ncia e do desconhecimento, fui internada diversas vezes no Hospital Psiqui\u00e1trico Franco da Rocha ou medicada com fortes tranquilizantes. Minha mediunidade se manifestava atrav\u00e9s da incorpora\u00e7\u00e3o de Iemanj\u00e1, que \u00e9 a m\u00e3e dos oceanos\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">T\u00e2nia explica que \u2018incorporar\u2019 \u00e9 dar passagem a esp\u00edritos para que, atrav\u00e9s do controle do corpo, d\u00eaem orienta\u00e7\u00e3o a quem pede e fa\u00e7am at\u00e9 mesmo curas. \u201cCada vez que incorporava, eu era internada como convulsiva e medicada com<span class=\"ecxapple-converted-space\">\u00a0<\/span><em>Gardenal\u201d.<\/em><\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Segundo ela, seu pai, Antonio Batista, foi quem percebeu que n\u00e3o eram crises convulsivas nem possess\u00e3o demon\u00edaca. \u201cEle buscou compreender o que estava acontecendo se aprofundando na \u00e1rea espiritual. Foi ele quem me conduziu a tamb\u00e9m entender o que estava acontecendo\u201d. Aos 14 anos, T\u00e2nia foi a Salvador onde ingressou nas religi\u00f5es de matrizes africanas.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">\u201cEu conhe\u00e7o Seicho-no-ie, o Budismo, a \u00e1rea evang\u00e9lica e a cat\u00f3lica. Participei de trabalhos de \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d e at\u00e9 mesmo exorcismo. Busquei o conhecimento em todas as \u00e1reas para descobrir que a minha era o Candombl\u00e9. Pois a religi\u00e3o, na verdade, \u00e9 o que voc\u00ea tem no cora\u00e7\u00e3o. O princ\u00edpio b\u00e1sico deve ser o amor e o respeito\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\"><strong>Presidente T\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">\u201cA Prefeitura est\u00e1 dizendo que vai tirar o nosso alvar\u00e1 de A\u00e7\u00e3o Social porque n\u00e3o estamos \u201cdentro da lei\u201d. O que eles querem s\u00e3o cabides de emprego. Agora, est\u00e3o exigindo que contratemos uma nutricionista. Eles sempre imp\u00f5em barreiras para que a gente n\u00e3o trabalhe\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Dona T\u00e2nia se mostra bastante indignada com os \u00faltimos acontecimentos. Ela explica que a Prefeitura est\u00e1 exigindo a contrata\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios. \u201cAqui na Institui\u00e7\u00e3o todos s\u00e3o volunt\u00e1rios. Quem trabalha com as crian\u00e7as, os m\u00e9dicos, professores, assistentes sociais e as cozinheiras, todos se dedicam por amor. N\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de pagar sal\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Ela explica que a verba \u00e9 proveniente de doa\u00e7\u00f5es de particulares, bazares e eventos. \u201cInclusive promovemos uma cavalgada para arrecadar fundos para comprar pelo menos dois computadores e voltar a atender as crian\u00e7as\u201d, diz dona T\u00e2nia, que tamb\u00e9m realiza bazares beneficentes.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Em 2008, por causa das fortes chuvas, o barrac\u00e3o em que todas as atividades s\u00e3o feitas foi destelhado. Por falta de verba, o ambiente ficou exposto por quase dois anos. Com isso grande parte da estrutura foi perdida, \u201co ch\u00e3o estragou, as vigas do telhado apodreceram, e os equipamentos como computadores e geladeiras estragaram\u201d. O resultado foi a interrup\u00e7\u00e3o das aulas de inform\u00e1tica \u00e0s crian\u00e7as e adultos.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">As crian\u00e7as sempre foram uma grande preocupa\u00e7\u00e3o de Dona T\u00e2nia. Ela conta que h\u00e1 21 anos, quando se mudou para o Jardim Santa Luiza, via pessoas escondendo drogas em meio \u00e0s arvores de terrenos vagos. \u201cMuita gente andava por aqui, mas o mais preocupante era a quantia de crian\u00e7as\u201d. Essa foi uma das motiva\u00e7\u00f5es para abrir a institui\u00e7\u00e3o, \u201ctentar tirar essas crian\u00e7as desse caminho. Eu as chamava para fazer um lanche e orientava. Percebemos que o tr\u00e1fico diminuiu na regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">A maior parte das pessoas atendidas s\u00e3o moradores do bairro Ouro Verde. \u201cO tr\u00e1fico est\u00e1 muito presente na comunidade, buscamos atender os menores para evitar que entrem para as drogas\u201d. Outro foco s\u00e3o as adolescentes que acabam entrando na prostitui\u00e7\u00e3o, \u201cmuitas vezes por falta de estrutura de apoio. Muitas das crian\u00e7as que n\u00f3s atend\u00edamos, hoje vemos nessas situa\u00e7\u00f5es, faltam-nos condi\u00e7\u00f5es de manter esses adolescentes aqui\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">T\u00e2nia conta que nos finais de semana, a institui\u00e7\u00e3o disponibiliza aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o para a terceira idade. \u00c0s ter\u00e7as e quintas \u201crecebemos cerca de 30 mulheres para os cursos de artesanato do clube de m\u00e3es, e para as quase 40 crian\u00e7as que vem acompanhar as m\u00e3es, incentivamos o resgate da cultura quilombola atrav\u00e9s da dan\u00e7a e da religi\u00e3o\u201d. Al\u00e9m dessas atividades, s\u00e3o trazidas palestras sobre sexualidade, doen\u00e7as e gravidez. \u201cTudo volunt\u00e1rio. Todos que vem ensinar s\u00e3o volunt\u00e1rios. Fazem por amor.\u201d<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\"><strong>Dona T\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">T\u00e2nia nasceu em Ponta Grossa em 1955. Estudou o Gin\u00e1sio no Col\u00e9gio Sagrada Fam\u00edlia e iniciou a faculdade de Teologia, \u201cmas prefiro a aprendizagem pr\u00e1tica, n\u00e3o tenho paci\u00eancia com livros, por isso abandonei o curso\u201d. Conta que prefere buscar o conhecimento pr\u00e1tico, \u201cfoi assim que aprendi em casa\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Filha de Antonio Anuqu\u00e9rcio Batista e Os\u00edris de Abreu Batista conta que morou em Cambar\u00e1 e Santo Antonio da Platina por causa do trabalho do pai, que era Policial Militar e Chefe da Ciretran. T\u00e2nia e seus tr\u00eas irm\u00e3os cresceram em meio ao catolicismo, \u201cmas cada um dos filhos escolheu uma religi\u00e3o. Eu sou do Candombl\u00e9, minha irm\u00e3 \u00e9 ateia, um dos meus irm\u00e3os \u00e9 Esp\u00edrita Kardecista, e o outro \u00e9 Testemunha de Jeov\u00e1\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">Sua m\u00e3e, Os\u00edris Batista, \u00e9 costureira e tem descend\u00eancia negra e ind\u00edgena. Foi com ela que Dona T\u00e2nia aprendeu culin\u00e1ria e o artesanato. \u201cSempre gostei de trabalhos manuais e cozinhar, tudo que sei aprendi com minha m\u00e3e, que aprendeu com minha av\u00f3. A gente toda vida se criou assim\u201d.<\/p>\n<p class=\"ecxwestern\">E \u00e9 esse artesanato que Dona T\u00e2nia ensina \u00e0s mulheres do Clube de M\u00e3es. As bonecas de pano confeccionadas por elas s\u00e3o vendidas at\u00e9 mesmo para clientes nos Estados Unidos. \u201cPor causa das feiras de artesanato e dos f\u00f3runs de que participei, acabei conhecendo o Brasil todo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Jardim Santa Luiza, tomando como refer\u00eancia o pres\u00eddio Hildebrando de Souza e seguindo a linha de \u00f4nibus coletivo at\u00e9 a \u00faltima parada do Santa Maria, fica a Associa\u00e7\u00e3o Afro-Brasileira Cacique Pena Branca. Mais precisamente na Rua Adolfo de Siqueira Filho, n\u00ba 100. 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