{"id":1373,"date":"2015-06-23T18:05:09","date_gmt":"2015-06-23T18:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1373"},"modified":"2015-06-23T18:05:09","modified_gmt":"2015-06-23T18:05:09","slug":"arvore-contorcionista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/arvore-contorcionista\/","title":{"rendered":"\u00c1rvore contorcionista"},"content":{"rendered":"<p>A cidade \u00e9 um gigante gordo, lento, desastrado mas ca\u00f3tico. Ao mesmo tempo em que se move freneticamente, devido \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o hiperativa, impaciente e preocupada apenas em ganhar dinheiro, ela possui uma paisagem que pouco muda, com pr\u00e9dios que est\u00e3o eternamente no mesmo lugar e ruas que t\u00eam sempre os mesmos nomes. Contudo, creio que ainda haja salva\u00e7\u00e3o para ela, j\u00e1 que a vida e a natureza a derrotaram, e continuar\u00e3o a derrot\u00e1-la diariamente.<\/p>\n<p>Refa\u00e7o essa reflex\u00e3o sempre que passo pela esquina da Francisco Ribas (que n\u00e3o sei por que diachos antes da Vicente Machado tem outro nome, Paula Xavier) com a Comendador Mir\u00f3, onde est\u00e1 aquela \u00e1rvore torta. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil descrev\u00ea-la. Ela \u00e9 grande e tem uma copa enorme que fica exatamente sobre a rua. Seu caule \u00e9 grosso e sobe alguns metros na vertical, segue quase dois metros na horizontal e depois assume a posi\u00e7\u00e3o vertical novamente. S\u00e3o dois \u00e2ngulos de 90 graus, um invertido em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Mas penso n\u00e3o haver geometria espec\u00edfica para defini-la. Na parte horizontal, ela faz ainda uma leve curva para frente (frente no sentido centro bairro, que \u00e9 o da m\u00e3o da Francisco Ribas).<\/p>\n<p>Trata-se de um contorcionismo de sobreviv\u00eancia. Plantaram-na sob a marquise de um pr\u00e9dio (qual seria o nome daquele edif\u00edcio? Ser\u00e1 que ele tem um nome?) e em algum est\u00e1gio de sua exist\u00eancia deparou-se com o concreto frio daquela laje que lhe enturvava o contato com o sol. Contorceu-se ent\u00e3o para fugir de uma morte certa, qual a cidade lhe predestinara. Dobrou-se em busca da luz solar, driblando com desenvoltura, estilo e eleg\u00e2ncia a marquise que lhe sufocava. Deixou o concreto, aparentemente mais forte, desconcertado.<\/p>\n<p>Ela cresceu em meio aos altos edif\u00edcios. Enganou-os, pois eles s\u00e3o frios, duros, mortos, e n\u00e3o possuem a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o que a vida tem. Restou-lhes apenas observar o caule deslizar por entre suas sombras at\u00e9 aparecer com a frondosa copa bem no meio da rua. Por meio de seu ardiloso e belo trejeito suas folhas podem agora receber os vivificantes raios solares. Fico imaginando com que inveja os gigantes de concreto devem t\u00ea-la observado dobrar-se, algo que eles jamais ser\u00e3o capazes de fazer.<\/p>\n<p>Sabe-se l\u00e1 h\u00e1 quantos anos a \u00e1rvore est\u00e1 ali, frondosa, bonita, exuberante, com sua nada impercept\u00edvel anormalidade. Bem no centro da cidade que tentou roubar-lhe a vida. Parece estar fazendo uma rever\u00eancia ao robusto e envidra\u00e7ado pr\u00e9dio da Caixa Econ\u00f4mica Federal. \u00c9 um contraste mais que interessante. De um lado da esquina a \u00e1rvore curvada, milhares de tons que v\u00e3o do verde ao marrom (dif\u00edcil definir), cheia de vida; do outro, o robusto e alto p\u00e9 direito do pr\u00e9dio da Caixa, uma pilastra de concreto nu e, portanto, cinza.<\/p>\n<p>Parece mais um totem gigante, s\u00edmbolo de algum deus que tenta impor-se pela grandeza. Talvez o deus do concreto, ou do dinheiro, j\u00e1 que \u00e9 o pr\u00e9dio de um banco. Acho estranho a \u00e1rvore parecer estar em posi\u00e7\u00e3o de reverencia \u00e0quele monumento, gosto de imagin\u00e1-la fazendo esse gesto com um tom de sarcasmo, como se ao faz\u00ea-lo estivesse satirizando todo aquele concreto em seu entorno.<\/p>\n<p>Se a cidade fosse um pouco mais humilde e sensata \u00e9 ela quem se curvaria, se distorceria para dar passagem \u00e0 \u00e1rvore. Mas ela \u00e9 est\u00fapida e se acha maior que toda a natureza, considera-se no direito ao matar todas as formas de vida com seu concreto grosseiro. Ent\u00e3o a \u00e1rvore teve que usar sua desenvoltura e for\u00e7a, entortar-se e mostrar \u00e0 ca\u00f3tica ordin\u00e1ria que n\u00e3o se dava por vencida. Teve que exigir respeito e conquistar seu direito de viver. Deu \u00e0 cidade uma merecida li\u00e7\u00e3o, criando uma curva onde apenas as linhas retas predominam.<\/p>\n<p>\u00c9 importante observar tamb\u00e9m outra caracter\u00edstica marcante da natureza na \u00e1rvore, a humildade. Pois ela precisou arcar-se, dobrar-se, ajoelhar-se frente \u00e0 soberba da cidade. A natureza \u00e9 s\u00e1bia. Sabe que \u00e9 preciso ser humilde para tornar-se forte frente aos seus mais orgulhosos advers\u00e1rios e \u00e9 por isso que o oceano est\u00e1 abaixo de todos os continentes, para ser maior do que todos eles. A \u00e1rvore curvou-se, avan\u00e7ou mais de um metro na horizontal para ent\u00e3o ressurgir exuberante no meio da rua. E sua sinuosa curva contrasta com a quadratura da cidade, com suas linhas paralelas e seus \u00e2ngulos retos, assim como as curvas das letras que agora tra\u00e7o contrastam com a linha sobre qual as escrevo.<\/p>\n<p>E agora \u00e9 o asfalto que n\u00e3o pode ter contato com o sol. A \u00e1rvore vingou-se, deu o troco. A urbe, utilizando-se dos pr\u00e9dios, tentou privar a \u00e1rvore dos raios solares. Mas ela venceu. Elevou sua copa e agora faz sombra sobre o asfalto. Esse t\u00edpico piso citadino, preparado para o escoamento das \u00e1guas da chuva e acostumado ao sol escaldante ter\u00e1 que viver na sombra, pois a \u00e1rvore arqueou-se sobre ele com sua densa folhagem.<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o como as pessoas destoam da cidade. A Cidade \u00e9 dura, e cada modifica\u00e7\u00e3o nela \u00e9 lenta, vagarosa, quase impercept\u00edvel. J\u00e1 as pessoas n\u00e3o param. Elas est\u00e3o sempre a caminhar, devagar ou apressadamente, sempre se movendo. A \u00e1rvore contorcionista tamb\u00e9m \u00e9 lenta e n\u00e3o sair\u00e1 do lugar exceto se algu\u00e9m resolver tir\u00e1-la de l\u00e1. Mas ela n\u00e3o concordou em se integrar com a imobilidade t\u00edpica da cidade que tentou sufoc\u00e1-la. Ela demonstrou movimento, sutil e belo. H\u00e1 um movimento intr\u00ednseco naquele caule que n\u00e3o \u00e9 como o movimento das pessoas. \u00c9 o movimento t\u00edpico da natureza. Ele destoa de todos os outros movimentos urbanos.<\/p>\n<p>Tenho a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o que s\u00f3 em Ponta Grossa existe uma \u00e1rvore como aquela. E como n\u00e3o acredito em acaso, fico me perguntando o que ela tem a dizer sobre n\u00f3s, ponta-grossenses. E digo que muito de n\u00f3s estamos em constante conflito com nossa pr\u00f3pria cidade, assim como aquela \u00e1rvore. Conhe\u00e7o poucos que v\u00eaem o lugar onde moram como um amigo, como um aliado na tarefa di\u00e1ria de sobreviver.<\/p>\n<p>O ponta-grossense tem a necessidade quase que compulsiva de rivalizar com a cidade, de v\u00ea-la como inimiga e tentar super\u00e1-la, mas sem a humildade caracter\u00edstica da \u00e1rvore, pois ele \u00e9 um gabola e fica contando vantagem a todo mundo quando consegue a proeza de derrot\u00e1-la. Conhe\u00e7o muitos concidad\u00e3os que vivem a contar como ganharam dinheiro e \u201csubiram na vida\u201d em Ponta Grossa, como se a tivessem vencido uma batalha medieval.<\/p>\n<p>A \u00e1rvore n\u00e3o. Ela fica em sil\u00eancio e se n\u00e3o olhamos para ela nem nos damos conta de sua exist\u00eancia. Suas \u00fanicas demonstra\u00e7\u00f5es de vit\u00f3ria s\u00e3o sua exuberante copa no meio da rua e seu caule torto, caracter\u00edsticas necess\u00e1rias para sua sobreviv\u00eancia e pela quais um observador desatento passa batido. Dever\u00edamos aprender mais com ela.<\/p>\n<p>J\u00e1 ouvi muitas discuss\u00f5es sobre como se escreve \u201cponta-grossense\u201d, se com h\u00edfen ou sem h\u00edfen, e acho que jamais devemos abolir esse sinal de nosso gent\u00edlico, pois esse h\u00edfen \u00e9 aquele um metro e tanto de tronco que est\u00e1 na horizontal. Ou seja, todo o ponta-grossense traz em sua designa\u00e7\u00e3o etn\u00f4nima a parte mais ex\u00f3tica e peculiar daquela \u00e1rvore, afinal, quantas vezes na vida temos a oportunidade de ver o caule de uma \u00e1rvore na horizontal enquanto ela ainda est\u00e1 presa ao solo? Quem mora em Ponta Grossa tem essa oportunidade toda vez que passa pela esquina da Francisco Ribas com a Comendador Mir\u00f3.<\/p>\n<p>Eu sou da opini\u00e3o que n\u00f3s ponta-grossenses dever\u00edamos inventar um novo sinal ortogr\u00e1fico, utilizar um novo sinal gr\u00e1fico no lugar do h\u00edfen, algo semelhante a um til. Dever\u00edamos utilizar \u201cponta~grossense\u201d como gent\u00edlico, por que esse sinal \u00e9 torto como o tronco daquela \u00e1rvore do centro, e como tortos somos n\u00f3s, transeuntes euf\u00f3ricos nessas retas linhas citadinas. Desafiar a natureza \u00e9 uma enorme burrice que a humanidade tem cometido.<\/p>\n<p>Repito que ela \u00e9 s\u00e1bia e saber\u00e1 dar o troco, com paci\u00eancia, que \u00e9 como ela age. Em Ponta Grossa, ela venceu a cidade. N\u00e3o importa o quanto de adversidade lhe impuseram ela se sobressaiu por que \u00e9 maior e melhor. A \u00e1rvore contorcionista est\u00e1 ali na esquina a nos ensinar isso todo o dia. Basta olhar para ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cidade \u00e9 um gigante gordo, lento, desastrado mas ca\u00f3tico. 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