{"id":1387,"date":"2014-12-06T18:22:58","date_gmt":"2014-12-06T18:22:58","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1387"},"modified":"2014-12-06T18:22:58","modified_gmt":"2014-12-06T18:22:58","slug":"as-construcoes-que-resistem-ao-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/as-construcoes-que-resistem-ao-tempo\/","title":{"rendered":"As constru\u00e7\u00f5es que resistem ao tempo"},"content":{"rendered":"<p><em>Mat\u00e9ria produzida para o curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa<\/em><\/p>\n<p>Os detalhes de contornos delicados e um tanto rebuscados comp\u00f5em a edifica\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de paredes duplas. A estrutura por vezes centen\u00e1ria \u00e9 parte de um panorama que muda facilmente. A constru\u00e7\u00e3o ganha rua asfaltada em torno, fios de energia el\u00e9trica, um pr\u00e9dio de linhas retas ao lado. Mas, por algum motivo, o espa\u00e7o n\u00e3o foi substitu\u00eddo por outro nos moldes atuais.<\/p>\n<p>S\u00e3o 54 os im\u00f3veis tombados em Ponta Grossa pelo Conselho Municipal de Patrim\u00f4nio Cultural, o Compac. Outros oito espa\u00e7os s\u00e3o tombados pelo Governo do Estado. Quase quarenta constru\u00e7\u00f5es est\u00e3o inventariadas, ou seja, em processo para poss\u00edvel tombamento. O decreto n\u00ba 25\/37 defende: \u201cConstitui o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e art\u00edstico nacional o conjunto dos bens m\u00f3veis e im\u00f3veis existentes no pa\u00eds e cuja conserva\u00e7\u00e3o seja de interesse p\u00fablico, quer por sua vincula\u00e7\u00e3o a fatos memor\u00e1veis da hist\u00f3ria do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueol\u00f3gico ou etnogr\u00e1fico, bibliogr\u00e1fico ou art\u00edstico\u201d.<\/p>\n<p>O tombamento pode ser solicitado pelo Governo Municipal, por membros do Compac, pelos propriet\u00e1rios dos im\u00f3veis e pelos cidad\u00e3os em geral. O Conselho foi institu\u00eddo pela lei n\u00b0 6183\/1999 e \u00e9 composto por 21 membros. Tem fun\u00e7\u00e3o consultiva, deliberativa e normativa em rela\u00e7\u00e3o a patrim\u00f4nios culturais em Ponta Grossa.<\/p>\n<p><strong>A cartilha<\/strong><\/p>\n<p>Em agosto deste ano a Funda\u00e7\u00e3o Municipal de Cultura divulgou uma cartilha sobre a import\u00e2ncia de preserva\u00e7\u00e3o dos patrim\u00f4nios culturais. Al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es sobre processos de tombamento, o material traz as multas e infra\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a poss\u00edveis danos causados aos im\u00f3veis.<\/p>\n<p>A diretora do Departamento de Patrim\u00f4nio, Carolyne Abilh\u00f4a, explica que a cartilha foi pensada para expor \u00e0 popula\u00e7\u00e3o algumas determina\u00e7\u00f5es do Departamento. \u201cBuscamos regular as decis\u00f5es em uma resolu\u00e7\u00e3o. Acreditamos que o respeito vem a partir do conhecimento. A cartilha divulga o trabalho e a import\u00e2ncia de preserva\u00e7\u00e3o\u201d, explica. A diretora acrescenta que o propriet\u00e1rio deve fazer a manuten\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel tombado. \u201cCaso haja alguma depreda\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso realizar o conserto. Nos bens tombados, 70% do IPTU retorna para o im\u00f3vel\u201d, explica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que espa\u00e7os como a Esta\u00e7\u00e3o Saudade, Mans\u00e3o Vila Hilda e Cine-Teatro \u00d3pera s\u00e3o patrim\u00f4nios tombados. Ma h\u00e1 outras constru\u00e7\u00f5es menos conhecidas que tamb\u00e9m possuem esse t\u00edtulo. Alguns s\u00e3o im\u00f3veis do munic\u00edpio, outros constru\u00e7\u00f5es particulares. De qualquer maneira, todas precisam conservar a fachada original, podendo fazer modifica\u00e7\u00f5es internas.<\/p>\n<p><strong>As constru\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Na rua Coronel Dulc\u00eddio, esquina com a Marechal Deodoro, funciona a Sede do Conselho Municipal da Crian\u00e7a e do Adolescente h\u00e1 quase 18 anos. A assistente social Rose Bortuline explica que, antes do Conselho funcionar no pr\u00e9dio tombado, utilizavam uma sala da Concha Ac\u00fastica. \u201cPleite\u00e1vamos sede pr\u00f3pria, porque precis\u00e1vamos de um local mais espa\u00e7oso j\u00e1 que o Conselho come\u00e7ou a crescer e ter mais identidade\u201d, relembra. A assistente social acrescenta que na \u00e9poca foi realizado um levantamento de pr\u00e9dios municipais que poderiam ser usados. \u201cTinha rec\u00e9m sa\u00eddo deste local uma associa\u00e7\u00e3o de xadrezistas. Ele (o pr\u00e9dio) estava desativado e nos ofereceram. O local passou por uma reforma com pequenas adapta\u00e7\u00f5es\u201d, conta.<\/p>\n<p>Rose diz que frequentemente crian\u00e7as v\u00eam at\u00e9 o local para perguntar a hist\u00f3ria e fotografar a constru\u00e7\u00e3o para trabalhos escolares. \u201cN\u00e3o \u00e9 tanto por curiosidade, mas sim uma necessidade. Fa\u00e7o quest\u00e3o de mostrar (aos estudantes) que \u00e9 original e que temos o pr\u00e9dio tal qual era\u201d, esclarece. A assistente social explica que os funcion\u00e1rios cuidam da parte interna do local para que se mantenha preservado. Mas, como qualquer constru\u00e7\u00e3o antiga, \u00e9 preciso fazer algumas restaura\u00e7\u00f5es. H\u00e1 mais de um ano o Conselho solicitou uma nova reforma do assoalho e do teto da constru\u00e7\u00e3o, assim como pintura externa.<\/p>\n<p>\u201cAlguns visitantes t\u00eam curiosidade em saber como \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o. Com isso estamos fazendo duas coisas: preservando e tornando funcional um pr\u00e9dio que estaria em desuso ou sendo mal utilizado\u201d, acredita.<\/p>\n<p>J\u00e1 na rua Sete de Setembro, a Resid\u00eancia de Fl\u00e1vio Carvalho Guimar\u00e3es abriga um escrit\u00f3rio de advocacia para clientes internos. Fabiana Aparecida Poloni trabalho no local e explica que o im\u00f3vel sofreu poucas modifica\u00e7\u00f5es internas e externas. \u201cSoube que funcionava uma pens\u00e3o, ent\u00e3o foram modificadas algumas divis\u00f3rias na parte interna. No outro pr\u00e9dio (que faz parte do mesmo tombamento) trocaram a janela, mas mantiveram a estrutura, essa parte hist\u00f3rica, de deixar o antigo e n\u00e3o trocar por algo mais novo ou moderno\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Na mesma rua funciona o N\u00facleo da Divis\u00e3o Estadual de Narc\u00f3ticos (Denarc), um \u00f3rg\u00e3o da policia civil especializado na investiga\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o ao tr\u00e1fico de drogas. Eduardo de Oliveira, delegado chefe do Denarc PG, explica que o N\u00facleo precisaria funcionar em um im\u00f3vel central, com p\u00e1tio e \u00e1rea interna que comportasse as necessidades da equipe de investiga\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00e3o procur\u00e1vamos necessariamente um im\u00f3vel antigo ou tombado, mas foi o local que melhor satisfez as nossas necessidades para o trabalho\u201d, relata.<\/p>\n<p>O delegado conta que o espa\u00e7o tem mais de cem anos e desperta curiosidade nos poucos visitantes do local. \u201cO uso p\u00fablico no nosso caso, como n\u00e3o temos atendimento direto, talvez fique um pouco frustrado. Mas como qualquer outra destina\u00e7\u00e3o que fosse dada ao local, mantemos a preserva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d, diz.<\/p>\n<p>Na Francisco Ribas outra moradia tombada \u00e9 um escrit\u00f3rio de advocacia. Mas, o uso \u00e9 do pr\u00f3prio dono da constru\u00e7\u00e3o, o advogado Helenton Fonseca: \u201cA casa era da minha bisav\u00f3 e foi passando de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o. Depois de meu pai, me tornei o propriet\u00e1rio. Foi a casa da minha inf\u00e2ncia, onde eu posava com frequ\u00eancia. Tem um estilo interessante, pois apesar de ser constru\u00edda em 1917, era moderna para \u00e9poca\u201d, relata.<\/p>\n<p>O advogado explica que a casa foi indicada para tombamento pelo seu valor hist\u00f3rico e que a fam\u00edlia concordou. Helenton acrescenta que, apesar do abatimento no IPTU, o valor n\u00e3o \u00e9 suficiente para a manuten\u00e7\u00e3o da edifica\u00e7\u00e3o: \u201cS\u00f3 a \u00faltima restaura\u00e7\u00e3o que fiz h\u00e1 tr\u00eas anos custou 90 mil reais\u201d, diz.<\/p>\n<p>Marcia Dropa d\u00e1 aula sobre patrim\u00f4nios culturais e tur\u00edsticos h\u00e1 15 anos, tem doutorado na \u00e1rea e est\u00e1 encerrando sua participa\u00e7\u00e3o no Compac. A professora defende que, caso o Conselho determine que uma casa t\u00eam valor hist\u00f3rico e precisa ser tombada, \u00e9 necess\u00e1rio analisar o lado do propriet\u00e1rio. Afinal, uma casa tombada tem venda ou aluguel mais dificultados: \u201cQuais ser\u00e3o as vantagens? O abatimento no IPTU. Mas n\u00e3o \u00e9 o suficiente para manuten\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, por que o propriet\u00e1rio sozinho tem que carregar o \u00f4nus de preserva\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria e identidade da cidade?<\/p>\n<p><strong>Deteriora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Se a maioria dos patrim\u00f4nios se mant\u00e9m conservada, h\u00e1 algumas exce\u00e7\u00f5es. A casa Justus na Rua Baldu\u00edno Taques, por exemplo, est\u00e1 desocupada e com os vidros quebrados. \u00c9 poss\u00edvel enxergar a parte interna do pr\u00e9dio, que possui lixo e fia\u00e7\u00e3o el\u00e9trica solta. Segundo o Departamento de Patrim\u00f4nio da Funda\u00e7\u00e3o de Cultura, h\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o permanente de fiscaliza\u00e7\u00e3o, em que servidores da Funda\u00e7\u00e3o ou cidad\u00e3os comuns podem fazer a den\u00fancia. Se for verificado algum problema na estrutura do patrim\u00f4nio, o propriet\u00e1rio \u00e9 notificado.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a casos como esse, Marcia Dropa explica que nada pode ser feito a partir do munic\u00edpio, porque n\u00e3o se pode investir dinheiro p\u00fablico em propriedades privadas: \u201ctoda e qualquer obrigatoriedade de conserva\u00e7\u00e3o e restauro \u00e9 de responsabilidade do propriet\u00e1rio\u201d, esclarece.<\/p>\n<p><strong>A cultura do Patrim\u00f4nio<\/strong><\/p>\n<p>Marcia acredita que o tombamento \u00e9 umas das formas de conserva\u00e7\u00e3o. Mas, antes dele, h\u00e1 tentativas de sensibiliza\u00e7\u00e3o da comunidade, a\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico, divulga\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia e, ainda, educa\u00e7\u00e3o patrimonial a partir das escolas. Caso essas tentativas n\u00e3o apresentem resultados, a medida mais radical \u00e9 o tombamento. \u201cSe existissem pol\u00edticas de preserva\u00e7\u00e3o efetivas, n\u00e3o teria necessidade de tombamento. E se n\u00e3o tivesse tombamento em Ponta Grossa, estaria tudo no ch\u00e3o\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Marcia defende o uso de locais tombados pelo p\u00fablico n\u00e3o apenas ligado a museus ou galerias de arte. \u201cA ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 excelente. Temos que mudar o pensamento que progresso significa constru\u00e7\u00e3o nova e desenvolvimento significa derrubar o que \u00e9 antigo e retr\u00f3grado para substituir por pr\u00e9dio de cimento, ferro e vidro\u201d, diz. A professora explica que \u00e9 preciso pensar na acessibilidade desses pr\u00e9dios, unindo crescimento econ\u00f4mico e urban\u00edstico \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 t\u00e3o congelado. S\u00f3 n\u00e3o pode descaracterizar os elementos do local. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 aliar a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica e a identidade da cidade.\u201d<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Gabrielle%20Rumor%20Koster\">Gabrielle Rumor Koster<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria produzida para o curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa Os detalhes de contornos delicados e um tanto rebuscados comp\u00f5em a edifica\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de paredes duplas. A estrutura por vezes centen\u00e1ria \u00e9 parte de um panorama que muda facilmente. 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