{"id":1391,"date":"2014-12-04T18:26:14","date_gmt":"2014-12-04T18:26:14","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1391"},"modified":"2014-12-04T18:26:14","modified_gmt":"2014-12-04T18:26:14","slug":"luthieria-a-arte-de-produzir-a-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/luthieria-a-arte-de-produzir-a-musica\/","title":{"rendered":"Luthieria: a arte de produzir a m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p><em>Mat\u00e9ria produzida para o curso de Jornalismo da UEPG.<\/em><\/p>\n<p>Luthier. Palavra francesa para profissional que produz ou repara instrumentos de corda. Mas, em certos casos, pode se estender para outros. Adilson Chauchuty \u00e9 luthier de instrumentos de sopro. O profissional aprendeu a tocar clarinete logo na inf\u00e2ncia: ficou dos dez aos dezoito anos na Banda Escola Lyra dos Campos. Em seguida trabalhou no Ex\u00e9rcito Brasileiro por 25 anos. Durante 13 anos dos 25 que permaneceu no Ex\u00e9rcito, Adilson foi clarinetista da Orquestra Sinf\u00f4nica de Ponta Grossa.<\/p>\n<p>O luthier tamb\u00e9m adquiriu o t\u00edtulo de segundo sargento m\u00fasico durante a carreira militar: \u201cfui para a Amaz\u00f4nia na cidade de Marab\u00e1 e depois para Bag\u00e9 no Rio Grande do Sul. J\u00e1 trabalhava com manuten\u00e7\u00e3o de instrumental nesses lugares. Faz cinco anos e meio que voltei para Ponta Grossa\u201d, relata Adilson. O luthier acrescenta que n\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas na regi\u00e3o que trabalham com manuten\u00e7\u00e3o de instrumentos de sopro. E a car\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 em profissionais, j\u00e1 que maioria dos materiais vem de outros estados ou de fora do pa\u00eds. \u201cO material vem de Minas, S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, t\u00eam muitas coisas vindas da China. \u00c9 preciso usar a criatividade para trabalhar tamb\u00e9m. Uso instrumentos de ortodontista como ferramenta\u201d, explica Adilson.<\/p>\n<p>\u201cO instrumento musical \u00e9 como um carro: precisa de manuten\u00e7\u00e3o mesmo que n\u00e3o apresente defeitos. E o profissional que faz a manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem de escola, n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o. Adquire com o tempo, se aperfei\u00e7oando\u201d, esclarece Adilson. O luthier tamb\u00e9m restaura instrumentos com tempo maior se uso. Um exemplo \u00e9 um clarinete alem\u00e3o com cerca de 20 anos: \u201cUm instrumento semelhante, caso seja comprado novo, custa cerca de mil reais\u201d, calcula.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que os instrumentos antigos eram feitos com materiais de melhor qualidade, mais dur\u00e1veis. Atualmente, o material utilizado na confec\u00e7\u00e3o necessita de mais manuten\u00e7\u00f5es. \u201cDependendo do instrumento d\u00e1 para saber quanto tempo tem. Estou concertando um saxofone com quase 50 anos, a qualidade do material \u00e9 muito boa. Os materiais do mercado chin\u00eas s\u00e3o mais descart\u00e1veis\u201d, esclarece oluthier.<\/p>\n<p>Adilson atende m\u00fasicos ponta-grossenses, mas diversos instrumentos s\u00e3o de fora. \u00a0\u201cJ\u00e1 veio de Jacund\u00e1 no Par\u00e1, muitos v\u00eam do norte do Paran\u00e1, de Londrina ou Maring\u00e1, alguns de Curitiba, outros de Minas Gerais. Eu tamb\u00e9m converso e divulgo meu trabalho pelas redes sociais\u201d, diz.<\/p>\n<p>Adilson explica que apesar de realizar um trabalho cuidadoso, a pr\u00e1tica permite que concerte alguns instrumentos em um ou dois dias. Outro processo interessante \u00e9 para verificar o \u201cvazamento\u201d de som dos instrumentos como saxofone, clarinete e flauta. \u201cTem que ser \u00e0 noite; coloco uma mangueira de LED dentro do saxofone. A\u00ed posso descobrir se tem vazamento de som\u201d, explica.<\/p>\n<p>Outra parte dos instrumentos que normalmente precisam ser trocados s\u00e3o as sapatilhas. Essa pe\u00e7a do instrumento \u00e9 produzida por l\u00e3 tran\u00e7ada, couro e papel\u00e3o. A l\u00e3 vem de minas e o couro de S\u00e3o Paulo. \u00a0A pe\u00e7a fica entre os instrumentos e as \u201cteclas\u201d.<\/p>\n<p>Alex Oliveira \u00e9 professor de m\u00fasica e trabalha em umas das lojas que Adilson d\u00e1 assist\u00eancia: \u201c\u00c9 importante ter algu\u00e9m que possa fazer a conserva\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 f\u00e1cil vender o instrumento. Dif\u00edcil \u00e9 garantir a manuten\u00e7\u00e3o, o aux\u00edlio para o cliente\u201d, esclarece Alex. O saxofonista explica que o instrumento constru\u00eddo por um luthier \u00e9 mais refinado e tem maior leveza ao tocar: \u201cfica mais harmonizado, o material \u00e9 melhor e as regulagens s\u00e3o mais refinadas. Se torna um instrumento adaptado para a pessoa. Por mais que seja um instrumento novo, produzido em s\u00e9rie, \u00e9 preciso levar para um profissional fazer essa personaliza\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta Alex.<\/p>\n<p>O m\u00fasico explica que mesmo que o instrumento n\u00e3o apresente defeitos, leva o seu saxofone no luthier para fazer a manuten\u00e7\u00e3o. Assim, a vida \u00fatil do instrumento se estende. \u201cToco em barzinho, ent\u00e3o o instrumento precisa estar em dia para ter uma resposta legal\u201d, explica Alex.<\/p>\n<p>Confira os dois VTs produzidos, na coluna da direita desta mat\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>As cordas<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 faz 25 anos que Jo\u00e3o do Prado trabalha com a luthieria original: de instrumentos de cordas. Mas, s\u00f3 h\u00e1 quatro anos o profissional divulgou o trabalho mais amplamente: \u201ceu era bombeiro. N\u00e3o tornava t\u00e3o p\u00fablico em raz\u00e3o da demanda, para n\u00e3o acumular muito servi\u00e7o. Fazia nos hor\u00e1rios de folga\u201d, relata Prado. Agora, em aposentadoria parcial, o luthier se dedica integralmente \u00e0 arte.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com a paix\u00e3o pelas guitarras, ainda na inf\u00e2ncia. Prado j\u00e1 fazia alguns instrumentos, mas sem a t\u00e9cnica profissional. \u201cSempre gostei (de m\u00fasica), via as bandas tocando e os meus pais n\u00e3o podiam dar um instrumento na \u00e9poca. Talvez isso tenha me impulsionado a iniciar um trabalho parecido com uma guitarra na \u00e9poca, claro que n\u00e3o saia aquele som bacana, mas para quem tinha pouco conhecimento, estava bom\u201d, relembra Prado.<\/p>\n<p>Os anos passaram e o luthier aprendeu mais t\u00e9cnicas e aprimorou as antigas. Prado fez cursos com luthiers de Tel\u00eamaco Borba e Rio de Janeiro, por exemplo. Apesar de j\u00e1 confeccionar os instrumentos, algumas t\u00e9cnicas ele ainda desconhecia: \u201co \u00faltimo aprendizado que fiz foi ac\u00fastica de violino. J\u00e1 tinha feito o instrumento, mas sem muita t\u00e9cnica\u201d, conta Prado.<\/p>\n<p>Sobre os materiais usados, Prado explica que apesar de alguns clientes terem certo encantamento por madeiras europeias, as nacionais s\u00e3o de \u00f3tima qualidade. \u201cO que torna o instrumento caro \u00e9 a madeira. Mas, nunca fa\u00e7o com material ruim, j\u00e1 que todas as vezes o meu nome vai junto com o instrumento para determinada banda, por exemplo\u201d. Falando em bandas, s\u00e3o os profissionais delas os principais clientes do luthier.<\/p>\n<p>E os m\u00fasicos s\u00e3o exigentes. Prado destaca que, principalmente nas orquestras, o refinamento do instrumento \u00e9 ainda mais requisitado. \u201cO m\u00fasico percebe a diferen\u00e7a entre um instrumento industrial e outro feito a m\u00e3o, por um luthier\u201d, diz.<\/p>\n<p>Assim como Adilson, Prado divulga e interage com outros profissionais via Internet: \u201csempre digo que n\u00e3o conhece muita coisa quem n\u00e3o navega, explora esse recurso\u201d, acrescenta. Al\u00e9m de auxiliar na divulga\u00e7\u00e3o do trabalho, o meio tamb\u00e9m propicia compra de materiais que n\u00e3o s\u00e3o encontrados na cidade. Mas, para manter uma boa clientela, n\u00e3o basta apenas divulgar o trabalho.<\/p>\n<p>Prado explica que a madeira dos instrumentos precisa ser bem seca e que \u00e9 preciso respeitar o padr\u00e3o de medidas sem que a personaliza\u00e7\u00e3o interfira na ac\u00fastica do instrumento: \u201calguns clientes d\u00e3o liberdade para fazer algo mais do meu estilo. Mas tem pessoas que j\u00e1 vem com uma ideia. Fa\u00e7o a configura\u00e7\u00e3o que o cliente quer. Um trabalho nunca \u00e9 id\u00eantico ao outro. Apesar de por vezes n\u00e3o gostar de um estilo, respeito e fa\u00e7o\u201d, esclarece o luthier.<\/p>\n<p><strong>A pequena m\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p>A kalimba \u00e9 um instrumento de origem africana. De uma pequena semente, nasce o porongo, muito utilizado para produzir cuias de chimarr\u00e3o, por exemplo. O fruto demora cinco meses para crescer. Depois disso, ele seca na planta por mais um tempo at\u00e9 ser retirado e armazenado em um local seco. Todo o processo dura um ano. A\u00ed, tem-se a mat\u00e9ria prima pra produ\u00e7\u00e3o da kalimba.<\/p>\n<p>Ruben Bagatello confecciona os instrumentos desde a sementinha: \u201cToda essa parte d\u00e1 cor ao processo, pois vejo a \u00e1rvore crescer. Vejo at\u00e9 as tormentas que ela toma, at\u00e9 quando tenho que olhar pela janela e pensar se o fruto ir\u00e1 resistir\u201d, relata Ruben. Mais que um instrumento, a kalimba \u00e9 parte da hist\u00f3ria. Elas s\u00e3o at\u00e9 hoje tocadas por n\u00f4mades africanos, enquanto contam as hist\u00f3rias e os folclores de sua terra.<\/p>\n<p>Em tr\u00eas mil anos de evolu\u00e7\u00e3o, o instrumento sofreu altera\u00e7\u00f5es. Antes, apenas uma placa de madeira com teclas de bambu constitu\u00edam a chamada embira. Em seguida, essa estrutura foi colocada dentro do porongo apenas, pois os tocadores tinham a necessidade de fazer o som ressoar.<\/p>\n<p>Atualmente a kalimba, m\u00e3e ou irm\u00e3 da embira, \u00e9 constitu\u00edda pelo porongo com um furo (que pode ser cortado de diversas formas), acoplado a uma placa de madeira. Em cima da estrutura s\u00e3o colocadas as teclas de metal. \u201cParece uma bobagem, pois \u00e9 apenas o porongo com teclas de metais. Mas se voc\u00ea pergunta a algu\u00e9m com origem na \u00c1frica, o folclore foi passado, na sua maioria, oralmente e a kalimba faz parte disso\u201d, relata Ruben.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conhecida como \u201cpiano de polegar\u201d ou \u201cpequena m\u00fasica\u201d, a kalimba pode ser tocada intuitivamente, al\u00e9m da maneira profissional. Portanto, \u00e9 muito usada em musicoterapia e terapia alternativa: \u201ccada um dos chakras se harmoniza com uma nota. Ent\u00e3o, como a kalimba possui boa vibra\u00e7\u00e3o, \u00e9 aproveitada para harmonizar esses chakras\u201d, explica Rube.<\/p>\n<p>Sobre a parte profissional ao tocar o instrumento Ruben desenvolveu, ap\u00f3s quatro meses de trabalho, a kalimba eletroac\u00fastica, para ser ouvida nos palcos junto com bandas.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m de ser um instrumento artesanal, a kalimba recebe um pouco mais de arte. Irina Lucero, esposa de Ruben, \u00e9 artista pl\u00e1stica e fot\u00f3grafa e faz desenhos nas kalimbas. A princ\u00edpio, apenas motivos africanos eram desenhados. Com o tempo os clientes pediam personaliza\u00e7\u00f5es diferenciadas: \u201cuma vez Irina desenhou um elefante indiano. Foi primeira vez que sa\u00edmos da linha da \u00c1frica. Falei: mas como vamos vender uma kalimba africana com um elefantinho indiano?\u201d, relembra Rub\u00e9n, bem humorado. \u201cDias depois, uma terapeuta pediu um instrumento. Disse que havia viajado para \u00cdndia e que queria um desenho relacionado ao lugar. Eu disse: \u2018eu tenho a tua kalimba!\u2019\u201d<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m da m\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNa orquestra, quando eu toquei, era por amor. Era pelo ch\u00e1 e a bolacha no intervalo. Era pelo prazer de tocar e n\u00e3o pelo dinheiro. A gente gostava de m\u00fasica. Hoje a parte financeira j\u00e1 envolve mais.\u201d Mais do que o conserto, a m\u00fasica faz parte de Adilson, luthier de instrumentos de sopro. Foi enquanto tocava clarinete na orquestra da cidade que conheceu a esposa. \u201cEu tocava clarinete e ela cantava. E faz\u00edamos apresenta\u00e7\u00e3o juntos. Namoramos e casamos\u201d, relembra Adilson.<\/p>\n<p>Com a kalimba n\u00e3o foi diferente. Ruben tem a parceria de Irina na produ\u00e7\u00e3o dos instrumentos: \u201c\u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o das duas energias, assim como eu fa\u00e7o a moldura dos desenhos dela\u201d, explica Rub\u00e9n. Essa paix\u00e3o pelo instrumento se estende tamb\u00e9m para aqueles que adquirem a kalimba.<\/p>\n<p>Rub\u00e9n conta que uma mo\u00e7a gr\u00e1vida pediu que confeccionasse uma kalimba para ela. Gostaria de tocar para seu beb\u00ea ainda na barriga. Depois que a crian\u00e7a, chamada Dante, nasceu, Rub\u00e9n recebeu um v\u00eddeo da fam\u00edlia e relata: \u201cna imagem o beb\u00ea est\u00e1 dormindo, o pai se senta ao lado da cama e n\u00e3o diz nada, s\u00f3 toca. O beb\u00ea acorda, olha para um lado, procurando algo, depois olha para o outro lado, onde o pai est\u00e1. Quando ele v\u00ea de onde v\u00ea o som, sorri e volta a dormir. Tudo que o eu acreditava, da influ\u00eancia do instrumento, tive certeza naquele momento. Foi evidente que ele reconhecia o som\u201d.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Gabrielle%20Rumor%20Koster\">Gabrielle Rumor Koster<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria produzida para o curso de Jornalismo da UEPG. Luthier. Palavra francesa para profissional que produz ou repara instrumentos de corda. Mas, em certos casos, pode se estender para outros. Adilson Chauchuty \u00e9 luthier de instrumentos de sopro. 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