{"id":1406,"date":"2014-12-10T18:45:54","date_gmt":"2014-12-10T18:45:54","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1406"},"modified":"2014-12-10T18:45:54","modified_gmt":"2014-12-10T18:45:54","slug":"fim-da-linha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/fim-da-linha\/","title":{"rendered":"Fim da linha"},"content":{"rendered":"<p><em>Produ\u00e7\u00e3o realizada para o Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa.<\/em><\/p>\n<p>O dia 30 de setembro entrou para a hist\u00f3ria da internet. O site de relacionamentos Orkut, que por muito tempo foi a rede social mais visitada no Brasil, com mais de 30 milh\u00f5es de usu\u00e1rios em terras tupiniquins, encerrou as atividades.<\/p>\n<p>A p\u00e1gina do simp\u00e1tico design de cor azul-beb\u00ea foi desativada pela empresa gestora, o Google, depois de uma d\u00e9cada de atividade. Agora, resta apenas um \u201cmemorial\u201d no mesmo endere\u00e7o: um acervo que disponibiliza todo o conte\u00fado publicado em cerca de 51 milh\u00f5es de comunidades.<\/p>\n<p>Com o fim do site, se vai tamb\u00e9m boa parte da vida de muitas pessoas. D\u00e1 at\u00e9 para dizer que o Orkut foi a primeira experi\u00eancia online da maioria dos brasileiros. Sob algumas camadas de folclore, breguice e imaturidade adolescente, o Orkut foi o suporte para in\u00fameras discuss\u00f5es, conversas \u00edntimas, depoimentos e amizades.<\/p>\n<p>Engra\u00e7ado pensar que todas essas coisas eram, na verdade, in\u00fameras sequ\u00eancias bin\u00e1rias, t\u00e3o f\u00e1ceis de deletar. Em uma sociedade onde as rela\u00e7\u00f5es afetivas transitam entre a vida \u2018real\u2019 e a virtual, isso significa que boa parte da mem\u00f3ria afetiva da gera\u00e7\u00e3o Orkut, registrada em bits e bytes, se perdeu.<\/p>\n<p>As campanhas publicit\u00e1rias e a internet reagiram com bom humor, lembrando dos aspectos engra\u00e7ados da rede social, que n\u00e3o s\u00e3o poucos. Por\u00e9m, no fim das contas, a sensa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de nostalgia.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Cultura Plural\u00a0<\/strong>conversou com alguns dos antigos usu\u00e1rios do Orkut. Os relatos revelam os muitos usos do site, que variam do simples entretenimento ao romance e at\u00e9 mesmo \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p><strong>Baile de m\u00e1scaras<\/strong><\/p>\n<p>Um perfil falso para manter o anonimato, \u2018fu\u00e7ar\u2019 os recados alheios ou simplesmente para bagun\u00e7ar. Os\u00a0<em>fakes<\/em>, que s\u00e3o identidades virtuais alternativas, proliferavam no Orkut. O Facebook, por exemplo, costuma deletar sumariamente esse tipo de conta.<\/p>\n<p>As pessoas se sentiam tentadas a assumir um\u00a0<em>alter-ego\u00a0<\/em>virtual por v\u00e1rios motivos. O primeiro deles vinha de uma funcionalidade exclusiva do Orkut: a infame ferramenta que permitia ao usu\u00e1rio saber quem visualizava seu perfil. Assim, para\u00a0<em>stalkear<\/em>\u00a0sem culpa e sem vergonha, uma identidade secreta vinha bem a calhar. Outra motiva\u00e7\u00e3o era a facilidade de dar opini\u00f5es sem ter vergonha ou medo de repres\u00e1lias.<\/p>\n<p>Quase sempre, o\u00a0<em>fake<\/em>\u00a0usava o nome e a foto de um famoso ou de um personagem de fic\u00e7\u00e3o. Eduardo Soriano, que come\u00e7ou a usar o Orkut em 2006, praticamente s\u00f3 usava perfis falsos. Chegou a apagar sua conta original. O motivo? Uma mistura de vontade de anarquizar com um anseio por falar o que desse na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cUma das grandes divers\u00f5es daquela \u00e9poca de adolescente desocupado era fazer fakes para zoar em comunidades. Tamb\u00e9m me sentia mais confort\u00e1vel para expor opini\u00f5es na rede, ainda quanto a assuntos pol\u00eamicos\u201d, relata.<\/p>\n<p><strong>Amor na rede<\/strong><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ava com um scrap ou depoimento, ou at\u00e9 mesmo um coment\u00e1rio em fotos. Para n\u00e3o dar t\u00e3o na cara, era preciso caprichar nas indiretas. O Facebook simplificou o flerte online com a op\u00e7\u00e3o de \u2018cutucar\u2019 o pretendido, mas o Orkut exigia estrat\u00e9gias um pouco mais complexas.<\/p>\n<p>Geralmente, depois de puxar papo, o caminho era adicionar o contato no Messenger, programa de troca de mensagens de texto instant\u00e2nea que tamb\u00e9m foi desativado e reativado em outro formato recentemente.<\/p>\n<p>Muita gente que j\u00e1 se conhecia s\u00f3 de rosto ou de nome acabou usando o Orkut para iniciar aquelas conversas que n\u00e3o teriam coragem de iniciar pessoalmente. Mais! Muita gente acabou se conhecendo pelo Orkut para s\u00f3 depois marcar algum encontro na vida real.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Thais Schreiber e Elder Sardinha. A garota, catarinense radicada no interior de S\u00e3o Paulo, conheceu o garoto, carioca, em uma comunidade sobre m\u00fasica. Papo vai, papo vem, aconteceu algo esquisito: estavam apaixonados por algu\u00e9m que s\u00f3 conheciam atrav\u00e9s das telas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s oito meses de conversas virtuais, assumiram o namoro e se encontraram em Valinhos, onde Tha\u00eds morava na \u00e9poca. O romance n\u00e3o durou muito, por\u00e9m. Em menos de um ano, j\u00e1 estavam separados. Ainda assim, Tha\u00eds acredita que um relacionamento desse tipo pode dar t\u00e3o certo quanto um mais \u201ctradicional\u201d \u2013 se \u00e9 que essa separa\u00e7\u00e3o ainda faz sentido.<\/p>\n<p>\u201cAtualmente as rela\u00e7\u00f5es afetivas, por mais perto de voc\u00ea esteja do parceiro, dependem da comunica\u00e7\u00e3o virtual. Pode ser que n\u00e3o exista mais uma diferen\u00e7a entre esses tipos de relacionamentos\u201d, diz<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Dep\u00f3sito cultural<\/strong><\/p>\n<p>Quando se fala no Orkut, quase todo mundo lembra s\u00f3 do lado tragic\u00f4mico do site. Depoimentos comprometedores, fotos vexat\u00f3rias, recados engra\u00e7ados&#8230; Entretanto, n\u00e3o foi s\u00f3 de frivolidades que a rede sobreviveu durante os dez anos em que esteve ativa.<\/p>\n<p>Algumas comunidades serviam como um meio de divulga\u00e7\u00e3o cultural, seja ao disponibilizar material livre para download ou ao permitir o contato entre pessoas com interesses em comum na m\u00fasica, literatura ou artes visuais.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de grupos como o\u00a0<em>Discografias<\/em>, direcionado para o download (ilegal, \u00e9 bom dizer \u2013 mas quem nunca clicou em um link por l\u00e1 que atire a primeira pedra) das obras de in\u00fameras bandas e cantores nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Constantemente amea\u00e7ada por entidades de defesa da ind\u00fastria musical e dos direitos autorais, a comunidade acabou j\u00e1 em 2009. Era um exemplo de como o site servia, tamb\u00e9m, para a livre difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Grupos voltados para o download de filmes, s\u00e9ries e livros tamb\u00e9m abundavam. Em uma era da internet em que quase ningu\u00e9m sabia usar torrents e servi\u00e7os pagos como\u00a0<em>Netflix<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Spotify<\/em>\u00a0nem sonhavam em existir, disponibilizar um acervo de links era um enorme servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Alexandre Romansine, paulistano de 23 anos, foi usu\u00e1rio do Orkut entre 2006 e 2013. Ele, que se considera um \u2018escritor nas horas vagas\u2019, costumava usar o site como fonte de inspira\u00e7\u00e3o. \u201cLivros, filmes, m\u00fasicas&#8230; Procurava e geralmente encontrava tudo por l\u00e1. Tamb\u00e9m participei de alguns grupos de escritores e outros de discuss\u00f5es filos\u00f3ficas, que me serviram como base para muitos textos e reflex\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>Alexandre acredita que a decad\u00eancia do Orkut aconteceu gra\u00e7as a uma queda na qualidade do servi\u00e7o, e n\u00e3o por simples desinteresse dos usu\u00e1rios. \u201cAs qualidades do Orkut n\u00e3o partiam da rede e sim dos usu\u00e1rios. O uso que era feito da rede social garantiu seu sucesso e \u00e9 uma pena termos perdido tanto por algumas atualiza\u00e7\u00f5es falhas no servi\u00e7o\u201d, opina.<\/p>\n<p>Agora, com o fim da rede social e em busca de um ambiente semelhante, Alexandre migrou para um servi\u00e7o ainda pouco conhecido dos brasileiros: um site conhecido pela sigla algo enigm\u00e1tica de \u201cVK\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Para onde vamos agora?<\/strong><\/p>\n<p>O orkuteiro \u00e9 diferente do usu\u00e1rio do Facebook e das demais redes sociais do momento. Ainda que a rede de Mark Zuckerberg tenha roubado grande parte dos frequentadores do Orkut em meados de 2011, certamente muitos internautas ficaram \u00f3rf\u00e3os do site. De acordo com os saudosistas, o principal diferencial, que nenhuma outra rede conseguiu imitar com sucesso ainda, era o sistema de f\u00f3rum das comunidades.<\/p>\n<p>Geralmente, os demais sites de relacionamento s\u00e3o centrados em perfis e p\u00e1ginas, onde apenas um fala para todos os demais, que podem apenas comentar. O Orkut se organizava em torno de t\u00f3picos: algu\u00e9m iniciava a discuss\u00e3o, mas todos os participantes tinham espa\u00e7o e visibilidade iguais.<\/p>\n<p>Em busca de um sistema semelhante, alguns dos frequentadores do Orkut migraram para uma rede social que ainda \u00e9 desconhecida do grande p\u00fablico. Trata-se do site russo VK, abrevia\u00e7\u00e3o de VKontakte \u2013 que significa, literalmente, \u201cem contato\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que ainda desconhecido no ocidente, o site j\u00e1 registra mais de 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, a maioria do Leste Europeu: russos, ucranianos e bielo-russos, principalmente. Desde 2009, o site tenta ampliar o alcance e j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel em mais de 10 l\u00ednguas, o portugu\u00eas entre elas.<\/p>\n<p>Nicolas Ferreira foi outro usu\u00e1rio do Orkut que participou desse \u00eaxodo em dire\u00e7\u00e3o ao site russo. Ainda assim, \u00e9 um usu\u00e1rio bastante ativo no Facebook, onde administra um grupo de discuss\u00e3o sobre heavy metal. Para ele, a grande vantagem da rede russa \u00e9 unir o melhor das duas plataformas.<\/p>\n<p>\u201cO VK \u00e9 bastante parecido com o Orkut: tem um f\u00f3rum e pouco enfoque em postagens num mural como o Facebook tem. Mas tamb\u00e9m re\u00fane algumas coisinhas desse \u00faltimo, como um painel de atualiza\u00e7\u00f5es dos amigos. \u00c9 a perfeita jun\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 \u00fatil desses dois sites\u201d, diz.<\/p>\n<p>Mesmo que em decad\u00eancia, o finado Orkut ainda mantinha um p\u00fablico fiel. Algumas comunidades eram bastante movimentadas, com v\u00e1rias pessoas conectadas e interagindo. Elas j\u00e1 deram mostras que as outras redes sociais n\u00e3o lhes satisfazem completamente \u2013 e para algum lugar, seja o VK ou outro site, eles ir\u00e3o.<\/p>\n<p>Um webdesigner brasileiro chegou a criar um site chamado Orkuti \u2013 isso mesmo, apenas com uma letra I a mais no nome. Praticamente um clone da original, a rede social atraiu tanta gente que j\u00e1 teve at\u00e9 os servidores derrubados. Isso em um dia de opera\u00e7\u00e3o! Resta saber se tudo isso \u00e9 apenas nostalgia ou um verdadeiro nicho de mercado.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Rodrigo%20Menegat%20Schuinski\">Rodrigo Menegat Schuinski<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Produ\u00e7\u00e3o realizada para o Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. O dia 30 de setembro entrou para a hist\u00f3ria da internet. O site de relacionamentos Orkut, que por muito tempo foi a rede social mais visitada no Brasil, com mais de 30 milh\u00f5es de usu\u00e1rios em terras tupiniquins, encerrou as atividades. A&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":524,"featured_media":1407,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[42],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1406"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/524"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1406"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1406\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}