{"id":1415,"date":"2014-12-17T18:54:36","date_gmt":"2014-12-17T18:54:36","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1415"},"modified":"2014-12-17T18:54:36","modified_gmt":"2014-12-17T18:54:36","slug":"um-homem-de-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/um-homem-de-epoca\/","title":{"rendered":"Um homem de \u00c9poca"},"content":{"rendered":"<p><em>Produ\u00e7\u00e3o realizada para o Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa.<\/em><\/p>\n<p>Quando a porta abre, l\u00e1 dentro, o sino avisa. Algu\u00e9m entrou. Os passos movem-se lentos e curtos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada, e a visita \u00e9 convidada a entrar.\u00a0 Na acolhida por quem vem de fora, Aristides Sp\u00f3sito, que cuida de todas as chaves do lugar, abre seu mundo de antiguidades, o Museu \u00c9poca.<\/p>\n<p>Com cabelos brancos e roupas engomadas, se apresenta e faz um pedido brusco: \u201cFale alto!\u201d. Aos 63 anos, mal enxerga ou escuta, resultado de anos de dedica\u00e7\u00e3o ao seu museu privado, no qual guarda mais de quatro gera\u00e7\u00f5es em objetos.<\/p>\n<p><strong>Museu de um s\u00f3 homem<\/strong><\/p>\n<p>O casar\u00e3o que Aristides limpa, conserva, reforma e mant\u00e9m tem 164 anos. Desde o afresco nas portas, at\u00e9 o escrito nos cartazes pendurados, s\u00e3o cuidados aos olhos atentos do homem das chaves.<\/p>\n<p>O local pertenceu como resid\u00eancia ao primeiro prefeito de Ponta Grossa, Bonif\u00e1cio Vilela, depois cedeu lugar \u00e0 primeira Biblioteca Municipal. Ap\u00f3s passar de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, Aristides comprou a casa dos herdeiros em 1972. Para conseguir quitar o im\u00f3vel, trabalhava em lavouras do Paran\u00e1 e Santa Catarina e, ap\u00f3s quatro anos, a d\u00edvida foi paga.<\/p>\n<p>\u201cTudo come\u00e7ou com a minha singela cole\u00e7\u00e3o de moedas, quando vi, tinha tudo isso\u201d, conta Aristides. Os seis c\u00f4modos e por\u00e3o abrigam aproximadamente 10 mil pe\u00e7as. O resto das pe\u00e7as, que afirma serem 99% doa\u00e7\u00f5es, foi trazido pelo carrinho de m\u00e3o. No esfor\u00e7o em montar um acervo grande, Seu Sp\u00f3sito conseguia as doa\u00e7\u00f5es, limpava e levava diretamente ao Museu.<\/p>\n<p>Tudo fruto de um trabalho solit\u00e1rio de quatro d\u00e9cadas. Aristides faz quest\u00e3o de levar ao conhecimento do que tem no interior do Museu, e mostra pe\u00e7a por pe\u00e7a. \u201cAqui tudo \u00e9 original, menos eu, que sou o que envelhece mais r\u00e1pido\u201d, brinca.<\/p>\n<p>Com uma m\u00e9dia de 100 visitas por m\u00eas, o local fica em portas fechadas para proteger o dono, que cuida de tudo sozinho e n\u00e3o quer que as pe\u00e7as sejam furtadas.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a mais antiga de todas s\u00e3o os floretes, datados do s\u00e9culo XVII. Mas Aristides tem por mais estima a cruz da Capela Sant\u2019Ana, conseguida ap\u00f3s tr\u00eas audi\u00eancias p\u00fablicas. A cruz est\u00e1 cravada na parede acima de uma cristaleira, e uma luz, especialmente reservada, fica acima para iluminar somente ela.<\/p>\n<p>Outra antiguidade, conseguida por doa\u00e7\u00f5es, \u00e9 pequena em tamanho, mas grande em quantidade: 45 mil negativos em fotos de lugares e pessoas de Ponta Grossa. O dono do Museu menciona com \u00e2nimo que guarda registros de muitos dos acontecimentos mais importantes, e at\u00e9 de casas antigas que n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p>O maior acervo de todos \u00e9 guardado em uma pe\u00e7a pequena. Roupas, cartazes, uniformes e medalhas, rel\u00edquias dos Pracinhas que participaram da 2\u00aa Guerra Mundial. O doador dos objetos foi o ex-pracinha Alfredo Klas, do qual Aristides relembra emocionado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s abrir sala por sala e explicar o que cada objeto significa, olhando para tr\u00e1s, tocando no que construiu, o homem do \u00c9poca provoca: \u201cSe eu souber que voc\u00ea tem uma pe\u00e7a antiga na tua casa, vou puxar sua orelha at\u00e9 voc\u00ea doar ao Museu \u00c9poca\u201d.<\/p>\n<p><strong>O trabalho que n\u00e3o cansa<\/strong><\/p>\n<p>As m\u00e3os, que um dia j\u00e1 foram jogadoras profissionais de basquete e handebol, hoje est\u00e3o calejadas e sujas de restauro. \u201cN\u00e3o servem nem para jogar bola-de-gude mais\u201d, diz o diretor do Museu \u00c9poca.<\/p>\n<p>A rotina de Aristides \u00e9 a mesma h\u00e1 22 anos: levanta \u00e0s 5h para atividades f\u00edsicas, e \u00e0s 6h30 j\u00e1 est\u00e1 na frente do Museu para varrer a rua. S\u00f3 para quando vai almo\u00e7ar e jantar. O trabalho \u00e9 constante: \u201cfa\u00e7o o trabalho de jardineiro, carpinteiro, restaurador e zelador daqui, n\u00e3o recebo ajuda dos governantes\u201d, reclama Aristides, que s\u00f3 recebe ajuda de uma senhora que limpa, uma vez por semana, o local.<\/p>\n<p>Casado pela segunda vez e com cinco filhos que moram do Rio de Janeiro, o dono do \u00c9poca mora aos fundos de sua constru\u00e7\u00e3o e vive de aposentadoria e pens\u00e3o. \u201cN\u00e3o bebo e n\u00e3o fumo, todas as doen\u00e7as que tenho, acumulei aspirando o p\u00f3 dos objetos e me machucando ao restaurar tudo\u201d.<\/p>\n<p><strong>O destino de uma \u00c9poca<\/strong><\/p>\n<p>Se Aristides dorme pouco? \u201cEu acordo 2h30 da madrugada com receio do que ser\u00e1 disso tudo aqui quando eu morrer, dona\u201d, conta aos prantos. A exposi\u00e7\u00e3o de moedas no por\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 brilhante, segundo ele, porque \u00e9 fruto de limpezas nas madrugadas a fio, sem sono.<\/p>\n<p>\u201cMeus filhos falam que s\u00f3 eu para cuidar de um museu inteiro sozinho n\u00e3o d\u00e1, eles n\u00e3o v\u00e3o cuidar quando eu morrer, ent\u00e3o, vou deixar tudo isso para o poder p\u00fablico\u201d, diz, afirmando que ainda demorar\u00e1 a \u201cbater as botas\u201d.<\/p>\n<p>O dono do Museu afirma que s\u00f3 poder\u00e1 deixar o lugar para o munic\u00edpio, caso alguma institui\u00e7\u00e3o o compre.<\/p>\n<p>O Museu Campos Gerais est\u00e1 fazendo um dossi\u00ea com todas as pe\u00e7as existentes no \u00c9poca e levar\u00e1 o resultado ao Minist\u00e9rio da Cultura, para que seja tombado como patrim\u00f4nio do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mostrar tudo o que conseguiu construir, Seu Aristides se emociona mais uma vez. Reclama da falta de apoio e reconhecimento da popula\u00e7\u00e3o com a import\u00e2ncia do \u00fanico Museu privado que n\u00e3o cobra entrada para visita\u00e7\u00e3o no Paran\u00e1.\u00a0\u201cN\u00e3o sou de ferro, n\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=J%C3%A9ssica%20Natal\">J\u00e9ssica Natal<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Produ\u00e7\u00e3o realizada para o Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Quando a porta abre, l\u00e1 dentro, o sino avisa. Algu\u00e9m entrou. 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