{"id":1433,"date":"2014-12-13T19:20:49","date_gmt":"2014-12-13T19:20:49","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1433"},"modified":"2014-12-13T19:20:49","modified_gmt":"2014-12-13T19:20:49","slug":"o-dom-de-ajudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-dom-de-ajudar\/","title":{"rendered":"O dom de ajudar"},"content":{"rendered":"<p>\u201cIsso eu conto pra muita gente e nunca esque\u00e7o. Eu sonhava direto que eu estava ajudando algu\u00e9m, que minha casa era cheia de gente, de fazer fila e eu estava toda vestida de branco. Eu subia em um barranquinho, abria os bra\u00e7os e voava.\u201d Esta \u00e9 a lembran\u00e7a de uma das benzedeiras mais antigas de Ponta Grossa: Vilma Gon\u00e7alves, que se dedica integralmente \u00e0 fam\u00edlia e, nas horas vagas, ainda usa os conhecimentos populares para atender a sociedade. Mas a sua hist\u00f3ria come\u00e7a muito antes das benze\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Nascida no dia 24 de outubro de 1939, Dona Vilma foi a terceira mulher em uma fam\u00edlia de seis\u00a0filhos. Para ajudar no sustento da fam\u00edlia, come\u00e7ou a trabalhar muito cedo. Com nove anos de idade, j\u00e1 ajudava a m\u00e3e a lavar roupa para fora. \u201cA gente era muito pobrezinho e ao inv\u00e9s de estudar, tinha que trabalhar\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Levou a lavagem de roupas como ganha-p\u00e3o at\u00e9 os 17 anos, quando se casou e passou a trabalhar como zeladora em um col\u00e9gio p\u00fablico da cidade. \u201cNaquela \u00e9poca tinha muita oportunidade de emprego em Ponta Grossa e como minha fam\u00edlia toda j\u00e1 tinha trabalhado l\u00e1 no col\u00e9gio, tamb\u00e9m consegui uma vaga\u201d.<\/p>\n<p>A benzedeira conta que come\u00e7ou a trabalhar como zeladora quando sua m\u00e3e, ap\u00f3s se separar do marido, foi trabalhar um tempo em S\u00e3o Paulo. \u201cEla ficou desgostosa sem o papai e n\u00e3o quis mais ficar na cidade\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o era poss\u00edvel manter a casa apenas como zeladora. Para aumentar um pouco a renda, Vilma trabalhava como diarista no per\u00edodo da manh\u00e3, e como massagista e depiladora durante a noite. \u201cA gente n\u00e3o tinha carteira assinada, muito menos algum direito como trabalhadora. S\u00f3 tinha que fazer o servi\u00e7o render para ser reconhecido pelo patr\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Trabalhou at\u00e9 a casa dos 40 anos e se aposentou por invalidez, quando precisou fazer uma cirurgia de h\u00e9rnia de disco. O problema de sa\u00fade foi causado pelo excessivo trabalho com massagens, em que Dona Vilma precisava se abaixar e fazer muito esfor\u00e7o com as costas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo aposentada e cansada, a benzedeira diz que gostava de ajudar o marido e achava injusto ficar pedindo dinheiro para tudo. \u201cFeliz da mulher que ganha o seu dinheiro, n\u00e3o d\u00e1 pra ficar na &#8216;fi\u00faza&#8217; do marido. Ficar pedindo tudo para ele \u00e9 muito ruim\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, vi\u00fava h\u00e1 nove anos, a benzedeira lembra do marido com carinho. Foi casada durante 47 anos com o mesmo homem, com quem tinha uma rela\u00e7\u00e3o de muito amor e companheirismo. \u201cMeu marido fazia anivers\u00e1rio em setembro e eu em outubro, mas ele n\u00e3o gostava de comemorar. Dizia para s\u00f3 fazer festa no meu anivers\u00e1rio e eu fazia. Mas n\u00e3o deixava de chamar os seus amigos para comemorar com ele tamb\u00e9m. Era teimoso, mas depois ficava feliz\u201d.<\/p>\n<p>Dona Vilma \u00e9 m\u00e3e de tr\u00eas filhos: dois homens e uma mulher. Seriam duas mulheres, se a primeira filha n\u00e3o tivesse morrido no parto. A benzedeira ainda precisa mimar doze netos e cinco bisnetos.<\/p>\n<p>Atualmente, ela vive com um filho e uma neta. Mas afirma que a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 das mais unidas. Nas festas de fim de ano, nunca consegue juntar todo mundo. \u201cEu gosto que eles venham me visitar, mas quando todos decidem vir juntos, \u00e9 dif\u00edcil de agradar todo mundo, d\u00e1 muita briga. Seria melhor se um n\u00e3o quisesse cuidar da vida da outro, mas \u00e9 dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>Vilma conta que outro problema \u00e9 quando os filhos querem leva-la para passear de carro. \u201cSe voc\u00ea vai em algum lugar de carro, tem que pagar &#8216;zona azul&#8217;, \u00e9 dif\u00edcil achar lugar para estacionar. Eu gosto mesmo \u00e9 de andar a p\u00e9 e sozinha, porque ningu\u00e9m tem paci\u00eancia. Eu gosto de ver vitrine, nem que seja para n\u00e3o comprar nada, s\u00f3 por olhar mesmo\u201d, explica.<\/p>\n<p>Um dos filhos da benzedeira conta que \u00e9 dif\u00edcil faz\u00ea-la sair de casa. &#8220;Ela n\u00e3o gosta muito de sair mesmo, acho que \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o dela ficar em casa e ajudar as pessoas que v\u00eam aqui nas quartas-feiras&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Benze\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Entretanto, a vida de Dona Vilma n\u00e3o foi s\u00f3 trabalho e fam\u00edlia. Segundo ela, sua hist\u00f3ria fica interessante aos 39 anos, quando descobre o seu dom de ajudar as pessoas. Nessa \u00e9poca, Vilma come\u00e7ou a ter sonhos frequentes, em que sua casa estava cheia de gente e ela aben\u00e7oava todo mundo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s contar para uma amiga sobre os sonhos, surgiu a ideia de come\u00e7ar a benzer as pessoas. Mesmo sem dominar as t\u00e9cnicas m\u00edsticas das benze\u00e7\u00f5es, Dona Vilma conta que queria muito ser benzedeira e ent\u00e3o decidiu iniciar o novo trabalho. A primeira pessoa benzida foi uma mo\u00e7a que dizia sentir muita dor de cabe\u00e7a. Dias depois da benze\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o sentiu mais dores.<\/p>\n<p>Depois do primeiro atendimento, a informa\u00e7\u00e3o de que havia uma benzedeira no bairro foi se e espalhando e cada vez mais pessoas com perturba\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e mentais recorriam a Dona Vilma como salva\u00e7\u00e3o. \u201cFoi como uma corrente, um passando para o outro. Daqui a pouco chegava um, chegava outro e a minha casa ia ficando cheia de gente\u201d. Ap\u00f3s iniciar os benzimentos, ela nunca mais teve sonhos parecidos com aqueles.<\/p>\n<p>A benzedeira nunca teve restri\u00e7\u00f5es para os atendimentos: homem, mulher, crian\u00e7a. Vilma atende todo mundo, independente do pedido de ora\u00e7\u00e3o. Mas hoje, 36 anos depois de come\u00e7ar os benzimentos, ela afirma que mudou um pouco a rotina. \u201cAntes eu atendia todos os dias, de segunda a segunda, no hor\u00e1rio que fosse. A\u00ed fui diminuindo um pouco as benze\u00e7\u00f5es para tr\u00eas dias na semana e hoje em dia eu s\u00f3 atendo \u00e0s quartas-feiras, das tr\u00eas \u00e0s cinco da tarde\u201d. A benzedeira explica que tamb\u00e9m tem seus afazeres de casa e as obriga\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Apesar de dedicar um tempo s\u00f3 para isso, Vilma afirma n\u00e3o cobrar nada pelo servi\u00e7o. \u201c\u00c9 um dom que eu tenho e n\u00e3o precisei pagar nada para aprender, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 justo cobrar\u201d. Ela explica que a maior recompensa \u00e9 quando as pessoas voltam para contar que se curaram. Entretanto, a benzedeira diz que n\u00e3o faz o servi\u00e7o sozinha. \u201cN\u00e3o adianta a pessoa vir se benzer sem f\u00e9, sen\u00e3o n\u00e3o cura mesmo. Porque quem me ajuda nisso \u00e9 Deus, ent\u00e3o a pessoa tem que ter f\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>O material de trabalho \u00e9 bem simples: um ter\u00e7o, um galinho de arruda e um copo d&#8217;\u00e1gua. O procedimento \u00e9 feito em frente a um altar com imagens de santos da Igreja Cat\u00f3lica. Mas no in\u00edcio n\u00e3o havia nada disso e a benzedeira precisava improvisar. \u201cQuando n\u00e3o tem arruda, qualquer matinho verde que eu pegue, eu benzo. J\u00e1 benzi at\u00e9 com capim\u201d.<\/p>\n<p>Vilma confia muito em sua forma de benze\u00e7\u00e3o, mas em nenhum momento desdenha da medicina. \u201cEu fa\u00e7o simpatias quando as crian\u00e7as est\u00e3o doentes, mas sempre alerto \u00e0s m\u00e3es para n\u00e3o deixarem de levar no m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n<p>Dona Vilma j\u00e1 morou em todos os cantos da cidade, o que fez muita gente perder o contato com ela. \u201cJ\u00e1 morei no centro, na Ronda, em Olarias e, por me mudar muito, o pessoal acabou me perdendo de vista. Mas ainda vem bastante gente aqui, gente que me conhece desde que eu comecei com as benze\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A dona de casa Valdete Portugal recorre \u00e0 benzedeira h\u00e1 seis anos e afirma confiar fervorosamente nos m\u00e9todos. \u201cTodo mundo que conhece a Dona Vilma fala bem dela. Sempre que a gente vem aqui, a gente se cura\u201d.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Bianca%20Machado\">Bianca Machado<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cIsso eu conto pra muita gente e nunca esque\u00e7o. Eu sonhava direto que eu estava ajudando algu\u00e9m, que minha casa era cheia de gente, de fazer fila e eu estava toda vestida de branco. 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