{"id":1440,"date":"2015-01-09T19:28:41","date_gmt":"2015-01-09T19:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1440"},"modified":"2015-01-09T19:28:41","modified_gmt":"2015-01-09T19:28:41","slug":"o-dia-em-que-ponta-grossa-parou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-dia-em-que-ponta-grossa-parou\/","title":{"rendered":"O dia em que Ponta Grossa parou"},"content":{"rendered":"<p>No dia 14 de maio de 1989, Raul Seixas visitava Ponta Grossa pela primeira vez. O show que encheu quadra e arquibancadas do Gin\u00e1sio de Esportes Oscar Pereira fazia parte da turn\u00ea &#8220;Panela do Diabo&#8221;, que tamb\u00e9m batizou o derradeiro disco feito em parceria com o conterr\u00e2neo Marcelo Nova e que seria lan\u00e7ado no mercado dois dias antes da morte do roqueiro baiano, no dia 21 de agosto do mesmo ano.<\/p>\n<p>Algumas lendas, ou hist\u00f3rias sem comprova\u00e7\u00e3o, d\u00e3o conta da passagem de Raul por Ponta Grossa. Algo comum em se tratando de uma figura t\u00e3o m\u00edstica quanto alcoolizada. A falta de registros por parte do p\u00fablico, foto ou ingresso, \u00e9 compensada pela mem\u00f3ria de quem esteve presente. Gian Hey tinha 13 anos em 1989 e n\u00e3o teve problemas em convencer a fam\u00edlia a deix\u00e1-lo ver de perto, e pela \u00fanica vez, o seu \u00eddolo na m\u00fasica. &#8220;O show foi curto, Raul estava visivelmente b\u00eabado, eu fiquei muito feliz, espremido pelo p\u00fablico, mas emocionado&#8221;.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Raul no palco n\u00e3o ultrapassou os 25 minutos, tempo suficiente para apenas cinco m\u00fasicas, fingindo tocar guitarra e escudado por uma banda de mais quatro competentes m\u00fasicos paulistanos. O restante do show foi conduzido por Marcelo Nova, entre m\u00fasicas de sua carreira solo e do repert\u00f3rio que daria no disco &#8220;A panela do diabo&#8221;. &#8220;Raul chegou a cair no palco e depois disso o Marcelo Nova levou a apresenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim, mas o p\u00fablico n\u00e3o vaiou&#8221;, conclui o f\u00e3.<\/p>\n<p>Outro f\u00e3 presente ao show, Michel de Carvalho, guarda outra mem\u00f3ria. &#8220;Raul ficava pendurado nos ombros dos caras da banda, estava cambaleando e caiu, recebeu uma vaia e saiu do palco&#8221;, difere o f\u00e3 que se encontrava no mesmo bar em que ocorreu uma parte da estadia de Raul na cidade.<\/p>\n<p><strong>Doses e garrafas<\/strong><\/p>\n<p>O propriet\u00e1rio do Bar Martins, Paulo Martins, n\u00e3o foi ao show, mas j\u00e1 presenciou hist\u00f3rias sobre a passagem do maluco beleza pelo bar, que no final da d\u00e9cada de 80 tinha outro propriet\u00e1rio e levava o nome de Bar do Baiano. &#8220;O que contam \u00e9 que ele veio aqui e tomou uma dose de u\u00edsque naquele canto&#8221;, afirma, desviando o olhar para uma parte do bar ao lado da parede do banheiro. As mesas de f\u00f3rmica vermelha que pertenciam ao Bar do Baiano e que receberam Raul naquela tarde ainda duraram mais alguns anos at\u00e9 darem espa\u00e7o para as mesas de pl\u00e1stico encontradas hoje no Bar Martins, propriedade de Paulo desde 1993.<\/p>\n<p>Sobre a bebida consumida n\u00e3o cabe muitos questionamentos, apesar de o fot\u00f3grafo Rui Mendes afirmar que esta n\u00e3o era a bebida usual do Raul Seixas, mais adepto a duas cervejas no caf\u00e9 da manh\u00e3, seguida por doses de vodca com suco de laranja, composi\u00e7\u00e3o esta que levava pouco suco e muito do destilado. &#8220;Visitei Raul Seixas em 1987 e fizemos um ensaio fotogr\u00e1fico que durou horas. Raul nem sequer tirou o\u00a0 pijama&#8221;, diz o fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Raul sempre esteve cercado de lendas. Algumas verdadeiras, como a vez em que foi expulso do palco pelo pr\u00f3prio p\u00fablico em um show no Guaruj\u00e1, litoral de S\u00e3o Paulo. O estado et\u00edlico do roqueiro baiano causou d\u00favida na plateia que acreditava estar diante de um impostor. O caso foi resolvido na delegacia e s\u00f3 teve fim ap\u00f3s os documentos de Raul Seixas serem trazidos de S\u00e3o Paulo para a comprova\u00e7\u00e3o de identidade ao delegado de plant\u00e3o. As lendas se perpetuaram e couberam bem \u00e0 fama de doid\u00e3o que pregava ideias alternativas.<\/p>\n<p>Ainda sobre o show de Ponta Grossa, outro dado n\u00e3o confirmado diz sobre a tentativa de um jornalista local tentar uma entrevista com a ilustre visita daquele dia. A entrevista n\u00e3o aconteceu, pois Raul j\u00e1 se encontrava abra\u00e7ado \u00e0 garrafa no sagu\u00e3o do hotel onde se hospedou. Os dois jornais locais em circula\u00e7\u00e3o naquele ano n\u00e3o deram um palavra sobre a vinda do Raul Seixas, nem sobre o show, muito menos sobre sua morte.<\/p>\n<p>Contudo, a falta de comprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui a lenda, que tamb\u00e9m d\u00e1 conta de uma caminhada de Raul sozinho do Hotel Vila Velha at\u00e9 o gin\u00e1sio Oscar Pereira. Entretanto, Alceu Bortolanza n\u00e3o acredita nestas hist\u00f3rias. &#8220;Raul n\u00e3o estava na sua melhor fase, mas era um cara reconhecido, ele n\u00e3o caminharia tranquilamente pelas ruas, at\u00e9 porque ele estava bastante debilitado naqueles dias&#8221;.<\/p>\n<p>Alceu planejou presenciar um de seus artistas preferidos, mas desistiu ao ver a fila que dobrava esquina da rua Baldu\u00edno Taques. &#8220;Estava cansado e fui para casa. Liguei o r\u00e1dio e sintonizei na Central, a transmiss\u00e3o do show foi uma surpresa. Peguei uma fita cassete e gravei tudo&#8221;, afirma o dono da loja de discos Arco da Velha. A grava\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a prova definitiva, est\u00e1 dispon\u00edvel no Youtube.<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo disco<\/strong><\/p>\n<p>O disco que surgiu ap\u00f3s os 50 shows de 1989 com a dupla Raul Seixas e Marcelo Nova se tornou o \u00faltimo registro de Raul em est\u00fadio. Outros lan\u00e7amentos p\u00f3stumos se seguiram, assim como reedi\u00e7\u00f5es dos discos que atualizaram grande parte da discografia do maluco beleza.<\/p>\n<p>Em &#8220;A panela do diabo&#8221;, a voz de Raul n\u00e3o passa de um fiapo, o que gerou opini\u00f5es controversas dos f\u00e3s sobre um poss\u00edvel aproveitamento do parceiro Marcelo Nova. Conhecedor da discografia de Raul, Alceu Bortolanza divide desta controv\u00e9rsia. &#8220;O Marcelo Nova tem um papel importante por dar apoio financeiro e art\u00edstico, mas ele tamb\u00e9m se aproveitou desta situa\u00e7\u00e3o. Na verdade, eu fiquei com d\u00f3 do Raul&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Depois do show em Ponta Grossa, a turn\u00ea seguiu por Curitiba e Londrina. O \u00faltimo show aconteceu em Bras\u00edlia, poucos dias antes de sua morte. Na manh\u00e3 de 21 de agosto uma pancreatite aguda causada pelo alcoolismo e uma diabete descuidada levou Raul ao encontro de seus \u00eddolos Elvis e John Lennon. Com este \u00faltimo, Raul chegou a travar contato e at\u00e9 mesmo tentou com o ex-Beatle a chance de ter alguma avalia\u00e7\u00e3o do seu trabalho, quem sabe a possibilidade de ter uma de suas letras na voz de um de seus mestres. \u00c9 o que diz mais uma das lendas em torno do Raul.<\/p>\n<p>As lendas sobre Raul n\u00e3o cessaram nos anos seguintes. Clones e covers se espalham pelo Brasil, seus discos seguem em cat\u00e1logo e at\u00e9 mesmo a aura m\u00edstica que o pr\u00f3prio Raul havia abdicado nos anos 80 segue atualizada em meio a um ide\u00e1rio hippie renascido e localizado.<\/p>\n<p>Seu nome \u00e9 lembrado toda vez que uma banda brasileira sobe em um palco. At\u00e9 mesmo o roqueiro norte-americano Bruce Springsteen reverenciou o baiano. Em sua \u00faltima passagem no Brasil, Bruce abriu seus shows com uma vers\u00e3o fiel de &#8220;Sociedade alternativa&#8221;, para a surpresa de muitos.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Marcelo%20Mara\">Marcelo Mara<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 14 de maio de 1989, Raul Seixas visitava Ponta Grossa pela primeira vez. 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