{"id":1443,"date":"2017-10-08T19:32:34","date_gmt":"2017-10-08T19:32:34","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1443"},"modified":"2017-10-08T19:32:34","modified_gmt":"2017-10-08T19:32:34","slug":"o-mito-da-alcatra-no-espeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-mito-da-alcatra-no-espeto\/","title":{"rendered":"O mito da Alcatra no Espeto:"},"content":{"rendered":"<p>(Mat\u00e9ria publicada originalmente na revista laboratorial Nuntiare,<br \/>\nproduzida pelos estudantes do 4o ano do Curso de Jornalismo da<br \/>\nUniversidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em 2017)<\/p>\n<p>Na gastronomia, a representa\u00e7\u00e3o de costumes culturais \u00e9 definida, normalmente, por duas palavras: \u201cprato t\u00edpico\u201d. Precisamente no Paran\u00e1, temos um exemplo da import\u00e2ncia do valor cultural dessa pr\u00e1tica gastron\u00f4mica. Quem vai at\u00e9 as proximidades de Curitiba, capital do estado, principalmente a turismo, n\u00e3o pode deixar de ir a Morretes, para comer o Barreado, prato tradicionalmente conhecido como t\u00edpico do litoral paranaense e um dos mais lend\u00e1rios do estado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 em Ponta Grossa esta tem\u00e1tica gera questionamentos desde a promulga\u00e7\u00e3o da lei do prato t\u00edpico da cidade: a nomea\u00e7\u00e3o da \u201cAlcatra no Espeto\u201d. A Lei n\u00ba 10.200, sancionada em 23 de mar\u00e7o de 2010, explica que o prato t\u00edpico foi caracterizado como \u201ct\u00edpico\u201d pelo Sindicato HBRCG (Sindicato de Bares e Restaurantes dos Campos Gerais). Genilson Fagundes, estudante de licenciatura em Hist\u00f3ria da Universidade Estadual de Ponta Grossa tem uma vis\u00e3o cr\u00edtica sobre a escolha e relatou que o prato virou um \u201cboato\u201d nas discuss\u00f5es culturais da cidade. \u201cO prato t\u00edpico \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o elitista. Os crit\u00e9rios de escolha de um prato t\u00edpico est\u00e3o vinculados a caracter\u00edsticas de uma determinada classe social, geralmente de uma elite, que dita os procedimentos que os beneficiem com fatores econ\u00f4micos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Alcatra no qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Caminhando pelo centro da cidade, perto da hora do almo\u00e7o, fui \u00e0 busca do prato t\u00edpico. Entre entradas e sa\u00eddas dos lugares em busca de um local que vendesse a \u201cAlacatra no Espeto\u201d, encontrei Endyon. Ele, que \u00e9 atendente de uma lanchonete e restaurante da regi\u00e3o central da cidade, me relatou que h\u00e1 quatro anos foi gar\u00e7om de um restaurante que vendia a \u201cfamosa\u201d alcatra no espeto, e tinha como um de seus pratos especializados, o prato t\u00edpico. Segundo ele, na \u00e9poca, o local vendia mais de 10 pratos da alcatra no espeto em uma noite.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o envolve outra demanda: a especializa\u00e7\u00e3o das churrascarias da cidade. Depois de encontrar Endyon, caminhei por mais tr\u00eas quarteir\u00f5es e resolvi entrar em um restaurante popular, localizado na regi\u00e3o central da cidade. Quando abordei a atendente no caixa e perguntei a ela se o estabelecimento vendia o que eu procurava, ela me lan\u00e7ou outra pergunta que se repetiu algumas vezes naquele dia:<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alcatra no qu\u00ea?<\/p>\n<p>Lucas Perdonsin, propriet\u00e1rio de restaurante h\u00e1 sete anos descreveu que os estabelecimentos que optam por ter esses pratos s\u00e3o raros, pois afirmou que n\u00e3o h\u00e1 apoio de setores p\u00fablicos por essas quest\u00f5es. Ele acredita tamb\u00e9m que as pessoas que vem a cidade por turismo, j\u00e1 vem instru\u00eddas de que lugares podem encontrar o prato, por isso raramente algum cliente seu faz o pedido do prato t\u00edpico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Aspectos Hist\u00f3ricos e Culturais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um fator que pode denominar se um povo \u00e9 faz parte daquela cultura ou n\u00e3o, \u00e9 s\u00e3o seus costumes, suas tradi\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo seus valores culturais. Na express\u00e3o corporal, pode ser o Bumb\u00e1 &#8211; Meu- Boi &#8211; costume forte na regi\u00e3o nordeste; a Quadrilha pr\u00e1tica conhecida no pa\u00eds inteiro e que pode ser facilmente reconhecida se estiver ao som de \u201cPula fogueira i\u00e1 i\u00e1\u201d ou at\u00e9 mesmo Vaner\u00e3o e a Dan\u00e7a Ga\u00facha no Rio Grande do Sul. Essas pr\u00e1ticas chamadas de \u201ct\u00edpicas\u201d s\u00e3o atreladas muito facilmente \u00e0s localidades em que foram geradas. Por exemplo, se eu falar de Samba, estarei certa que voc\u00ea pensaria no calor, e no Rio de Janeiro ou na Bahia. Salvador. Brasil. Porque o samba, de origem ind\u00edgena, \u00e9 por descend\u00eancia baiana. Ao mesmo passo de que se eu falar do tango, voc\u00ea n\u00e3o hesitaria em pensar na Argentina.<\/p>\n<p>Essas tradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o adventos de ra\u00edzes culturais de cada regi\u00e3o e localidade. Daniel Frances, professor de Hist\u00f3ria nos ajudou a entender essa quest\u00e3o e explicou que o prato t\u00edpico \u00e9 uma heran\u00e7a de comportamento, costumes e h\u00e1bitos da hist\u00f3ria de uma localidade. \u00a0\u201cUm prato t\u00edpico guarda em si a ess\u00eancia de um povo colonizador de um legado de hist\u00f3ria. N\u00e3o creio que ele continua com o mesmo valor que tinha em d\u00e9cadas passadas devido \u00e0s mudan\u00e7as comportamentais e infelizmente a perda gradativa das ra\u00edzes culturais de muitas pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Daniel Frances relatou que a escolha de pratos t\u00edpicos que levem em considera\u00e7\u00e3o outras demandas que n\u00e3o as de car\u00e1ter hist\u00f3rico e cultural, trazem um impacto paradoxo. Segundo ele, por um lado a escolha pode atrair pessoas de outras localidades atrav\u00e9s do turismo, mas ao mesmo tempo a mesma escolha pode anular outros pratos devido \u00e0 supervaloriza\u00e7\u00e3o de um elemento apenas. \u00a0\u201cMinha vis\u00e3o \u00e9 bem cr\u00edtica porque a escolha teve um car\u00e1ter mais comercial do que tradicional. Mesmo se tendo estudos e pessoas muitos capazes para poder definir valores alimentares de tradi\u00e7\u00e3o com mais profundidade e conhecimento isto acaba sendo delegado a grupos de poder sem capacidade de ter o olhar cr\u00edtico e verdadeiro da cidade em suas \u00e9pocas remotas\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Professora de gastronomia do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC), Silvana Graudenz Muller, relatou que trata a gastronomia que identifica uma localidade como cozinha tradicional, e n\u00e3o precisamente de \u201cPrato T\u00edpico\u201d. Para Silvana a cozinha tradicional ou prato t\u00edpico vai para al\u00e9m de uma quest\u00e3o hist\u00f3rica e contempla tamb\u00e9m as quest\u00f5es de Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial e tamb\u00e9m o Turismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Professora relatou que a palavra \u201ct\u00edpico\u201d pode ter uma rela\u00e7\u00e3o equivocada, pois pode ser um prato que tem uma rela\u00e7\u00e3o local e hist\u00f3rica, ou ainda aquele que as pessoas encontram facilmente. \u00a0\u201cAqui em Florian\u00f3polis pessoas de fora do contexto da cidade fizeram uma pesquisa de amplitude rasa a respeito de pratos t\u00edpicos e os turistas e leigos na quest\u00e3o de identidade apontaram como um dos pratos sendo sushi, pois tinha em muitos lugares, muitos bares, restaurantes e tele entrega de sushi. Fizemos um movimento com um grande grupo\u00a0<em>Gestou,<\/em>\u00a0compostos por v\u00e1rias entidades, inclusive universidades para retomarmos a pesquisa e com crit\u00e9rios bem fundamentados na hist\u00f3ria e cultura de Florian\u00f3polis, exclu\u00edmos o sushi e permaneceram aqueles pratos que tinham respaldo quanto ao uso por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Silvana explicou ainda que a discuss\u00e3o sobre escolhas de pratos t\u00edpicos de regi\u00f5es e localidades \u00e9 uma quest\u00e3o divergente, pois contemplam demandas que envolvem o turismo, produ\u00e7\u00e3o\u00a0e pluralidade da cozinha.<\/p>\n<p>\u201cEm Florian\u00f3polis, estamos buscando fazer uma distin\u00e7\u00e3o bem clara do que \u00e9 cozinha tradicional e cozinha contempor\u00e2nea. Temos a tainha escalada, a casquinha de siri, o pir\u00e3o de peixe, entre outros, j\u00e1 classificados em pesquisa como pratos tradicionais de Florian\u00f3polis e executados pela popula\u00e7\u00e3o. E temos a ostra (de cultivo) como um exemplar da cozinha contempor\u00e2nea. Por\u00e9m, muitas vezes uma cidade n\u00e3o tem somente um prato tradicional, pode ter no caso de Ponta Grossa, tanto a Alcatra no Espeto mais da elite como tamb\u00e9m outro prato mais popular, uma n\u00e3o exclui a outra. Elas podem conviver juntos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A professora do Departamento de Turismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Rubia Mascarenhas, que acaba de lan\u00e7ar o livro \u201cGastronomia nos Campos Gerais\u201d, tamb\u00e9m questiona a escolha dos pratos t\u00edpicos das cidades. \u00a0\u201cFoz do Igua\u00e7u, por exemplo, fez a escolha do prato t\u00edpico da seguinte forma: chamaram doze chefes de cozinha de hot\u00e9is renomados colocaram todos dentro de uma sala fechada e surgiu ent\u00e3o o prato t\u00edpico. Hoje aquele prato \u00e9 considerado t\u00edpico por for\u00e7a da lei, mas ele n\u00e3o \u00e9 comercializado\u201d<\/p>\n<p>Rubia defende que \u00e9 imposs\u00edvel elencar somente um prato como t\u00edpico, considerando a pluralidade na cultura e na gastronomia da regi\u00e3o dos Campos Gerais. Ela conta que tem defendido mais o termo \u201cpratos tur\u00edsticos\u201d, que d\u00e3o maior possibilidade de uma mescla e combina\u00e7\u00e3o de pratos por regi\u00e3o. \u00a0\u201c\u00c9 necess\u00e1rio ter prato t\u00edpico? Se tem que ter prato t\u00edpico tem que pensar, mas ele \u00e9 realmente t\u00edpico?.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Mat\u00e9ria publicada originalmente na revista laboratorial Nuntiare, produzida pelos estudantes do 4o ano do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em 2017) Na gastronomia, a representa\u00e7\u00e3o de costumes culturais \u00e9 definida, normalmente, por duas palavras: \u201cprato t\u00edpico\u201d. 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