{"id":1478,"date":"2015-08-04T00:19:16","date_gmt":"2015-08-04T00:19:16","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1478"},"modified":"2015-08-04T00:19:16","modified_gmt":"2015-08-04T00:19:16","slug":"corina-portugal-a-santa-dos-pontagrossenses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/corina-portugal-a-santa-dos-pontagrossenses\/","title":{"rendered":"Corina Portugal: a santa dos pontagrossenses"},"content":{"rendered":"<p>Por Mariana Tozetto<\/p>\n<p>Est\u00e1 escrito nos documentos que no momento de sua morte, a mulher de cabelos longos e negros lia um livro de Machado de Assis. A menina que cresceu \u00f3rf\u00e3 de m\u00e3e, criada pela av\u00f3 se chamava Corina Portugal. Casou-se ainda muito cedo, com apenas 14 anos, com um homem onze anos mais velho, chamado Alfredo Marques de Campos. Alguns anos depois foi assassinada com 32 facadas pelo seu marido. Toda a trama de sua morte tr\u00e1gica \u00e9 envolvida por ci\u00fames e pol\u00edtica, ainda no ano de 1889. A hist\u00f3ria se passa na \u00e9poca da monarquia no Brasil, mas se trouxermos para os dias de hoje, ainda \u00e9 atual, j\u00e1 que o pa\u00eds ocupa o 7\u00ba lugar entre os pa\u00edses que possuem a maior taxa de mortalidade feminina.<\/p>\n<p>No dia 26 de abril deste ano a morte de Corina completou \u00a0126 anos. Como parte das atividades que relembram o caso, um grupo de pontagrossenses se uniu e pretende colocar em pauta, o projeto para a mudan\u00e7a do nome da Avenida Vicente Machado, uma das principais da cidade, onde se concentram lojas de com\u00e9rcio, varejo e pr\u00e9dios, para\u00a0 Avenida Corina Portugal. O motivo? Simples. Vicente Machado nada mais foi que o advogado que absolveu a pris\u00e3o do assassino de Corina, al\u00e9m de ter sido um influente pol\u00edtico que comandou o Estado do Paran\u00e1 no fim do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Um dos participantes do movimento, o engenheiro agr\u00f4nomo Mauro Marcolino, conta que j\u00e1 foi conversou-se com dois vereadores da cidade e a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o pedido chegue at\u00e9 o prefeito. \u201cEstamos em um momento de revisar nossa hist\u00f3ria, pass\u00e1-la a limpo. O establishment princesino tentou acobertar o que houve com Corina, deturpando sua imagem para proteger um criminoso. Com o tempo tentaram apagar o crime atrav\u00e9s da religiosidade. Tornaram Corina sagrada aos olhos do povo, at\u00e9 para se esquecer do assassino e de quem o defendeu \u2013 Vicente Machado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDesvelar essa hist\u00f3ria \u00e9 passar a limpo as mentiras que nos contaram por toda a vida. O movimento troca Vicente por Corina mexe com as estruturas erigidas por um grupo que escreveu a hist\u00f3ria da cidade baseada num assassinato de uma mulher e para que se tornasse verdade deturparam e jogaram na lama essa pessoa. Esse movimento vem apenas resgatar a verdade sobre Corina e seus detratores\u201d, complementa Mauro.<\/p>\n<p>Corina \u00e9 vista por muitos pontagrossenses, como santa, mesmo que n\u00e3o-can\u00f4nica, pois apesar de acreditar-se que ela realiza milagres, ainda n\u00e3o foi reconhecida pela igreja cat\u00f3lica. Seu t\u00famulo fica no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jos\u00e9. Na entrada vira-se a esquerda, segue reto e logo a direita \u00e9 poss\u00edvel encontra-lo: t\u00famulo de n\u00famero 1258, cheio de plaquinhas de agradecimentos, flores, fotos, chaves, cartas para o amor n\u00e3o correspondido.<\/p>\n<p>O t\u00famulo cor de rosa, n\u00e3o possui nenhuma foto, apenas uma gravura com a cidade do Rio de Janeiro ao fundo (cidade natal de Corina) e uma frase: \u201cUm anjo de Luz a conceder milagres e trazer esperan\u00e7as aos que padecem\u201d. O auxiliar de servi\u00e7os gerais, Ezequiel de Lima, que trabalha no cemit\u00e9rio conta que quem cuida da l\u00e1pide s\u00e3o os devotos e adoradores da \u2018santa\u2019: \u201cVem gente de tudo quanto \u00e9 tipo, mulheres e \u00a0idosos. \u00c9 o t\u00famulo mais visitado do cemit\u00e9rio. E s\u00e3o eles que cuidam, pintam, colocam plaquinha. A placa de cer\u00e2mica com o retrato dela foram eles que mandaram fazer\u201d, diz. Como Corina era do Rio de Janeiro e n\u00e3o teve filhos, ningu\u00e9m da fam\u00edlia visita o t\u00famulo.<\/p>\n<p>\u00c9 nas tardes de segunda-feiras que os devotos se re\u00fanem no t\u00famulo de Corina para a realiza\u00e7\u00e3o de novenas com dura\u00e7\u00e3o de oito semanas, fazendo diversos pedidos e\u00a0 agradecimentos. Criou-se pelos fi\u00e9is at\u00e9 mesmo uma ora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para Corina Portugal, que caso a gra\u00e7a seja alcan\u00e7ada deve-se fazer 100 c\u00f3pias e deixar junto ao t\u00famulo. Segue uma parte da ora\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Se voc\u00ea \u00e9 m\u00e3e, esposa ou filha que enfrenta problemas dif\u00edceis do lar, no relacionamento com seu marido, companheiro ou namorada, se voc\u00ea est\u00e1 sem trabalho, vai prestar exames ou concursos, se voc\u00ea \u00e9 alvo da cal\u00fania feia por pessoas maldosas, n\u00e3o se abata e nem aceite passivamente todo esse estado de coisas. Invoque a intercess\u00e3o da suave e sempre atenta CORINA PORTUGAL que foi m\u00e1rtir, inocente, sacrificada pela insanidade do esposo e motivo de esc\u00e1rnio de uma sociedade hip\u00f3crita<\/em>.\u201d<\/p>\n<p><strong>Corina em livro<\/strong><\/p>\n<p>O advogado e escritor, Josu\u00e9 Corr\u00eaa Fernandes, intrigava-se com o t\u00famulo e a hist\u00f3ria de Corina todas as vezes que ia ao cemit\u00e9rio. Foi quando come\u00e7ou a pesquisar sobre a hist\u00f3ria da jovem.\u00a0 \u201cEu sempre que ia ao Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jos\u00e9 via o t\u00famulo pequeno ali sempre cheio de flores, velas e tal, muitas plaquinhas. Fui procurar o processo criminal da morte da Corina e n\u00e3o achei no f\u00f3rum, o que me deixou ainda mais interessado. Procurei nos livros de registros de atas do tribunal do j\u00fari e consegui achar a ata do primeiro julgamento do marido dela. Ali eu senti, na leitura da ata, que havia um condimento diferente no caso dela, talvez at\u00e9 pol\u00edtico.\u201d O resultado dada pesquisa foi o livro \u201cHist\u00f3rias de Sangue e Luz\u201d que conta a hist\u00f3ria de vida de Corina Portugal.<\/p>\n<p>O escritor encontrou a certid\u00e3o de casamento e nascimento de Corina, jornais da \u00e9poca que retrataram o desenlace do caso do assassinato e tamb\u00e9m algumas correspond\u00eancias que Corina trocava com o pai dela, que morava no Rio de janeiro. A conclus\u00e3o que o escritor chegou foi que Alfredo aproveitou da intimidade criada com o m\u00e9dico Dr. D\u00f3ria, amigo do casal na \u00e9poca, para acus\u00e1-lo de adult\u00e9rio com Corina, e na noite em 26 de abril de 1889 matou a esposa com 32 facadas. Antes disso h\u00e1 relatos de maus tratos e viol\u00eancia f\u00edsica feitas pelo marido contra Corina Portugal. Ao matar a mulher denunciando um suposto adult\u00e9rio, que na \u00e9poca era justificativa para um assassinato, Alfredo foi absolvido. No per\u00edodo entre a morte e o julgamento a cidade viu-se dividida entre a vers\u00e3o do marido e a de Corina, descrita em uma carta enviada \u00a0meses antes para seu pai, descrevendo sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Tozetto Est\u00e1 escrito nos documentos que no momento de sua morte, a mulher de cabelos longos e negros lia um livro de Machado de Assis. A menina que cresceu \u00f3rf\u00e3 de m\u00e3e, criada pela av\u00f3 se chamava Corina Portugal. Casou-se ainda muito cedo, com apenas 14 anos, com um homem onze anos mais&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":535,"featured_media":1489,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1478"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/535"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1478\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}