{"id":1534,"date":"2015-02-12T00:58:47","date_gmt":"2015-02-12T00:58:47","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1534"},"modified":"2015-02-12T00:58:47","modified_gmt":"2015-02-12T00:58:47","slug":"prisioneiros-da-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/prisioneiros-da-realidade\/","title":{"rendered":"Prisioneiros da realidade"},"content":{"rendered":"<p>Os sussurros e barulhos no assoalho supostamente indicam a presen\u00e7a de algu\u00e9m na mans\u00e3o. Com a pele p\u00e1lida, cabelos negros e express\u00e3o triste, ele corre pelos corredores e acena para as pessoas da janela do s\u00f3t\u00e3o. H\u00e1 d\u00e9cadas aprisionado, o menino j\u00e1 n\u00e3o ri mais, n\u00e3o brinca mais. As boas lembran\u00e7as da vida foram esquecidas e deram lugar ao desespero de permanecer num mundo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais dele.<\/p>\n<p>Alberto Thielen mandou construir a mans\u00e3o em 1926 para presentear a esposa, Hilda Thielen. Os 600m\u00b2 do casar\u00e3o est\u00e3o marcados por quadros, esculturas e hist\u00f3rias. Hist\u00f3rias de amor, hist\u00f3rias de dramas, hist\u00f3rias de horror&#8230; A Vila Hilda foi tombada como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico do Paran\u00e1 em 1990, e \u00e9 na arquitetura francesa neocl\u00e1ssica em art-nouveau que habita o mais famoso fantasma de Ponta Grossa: o menino da Vila Hilda.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo quem ele \u00e9 ou como chegou l\u00e1. Poderia ser um filho bastardo de Alberto Thielen ou cria de algum dos empregados da casa. Ou ambos. A verdade, por\u00e9m, permanece oculta nos l\u00e1bios do menino que j\u00e1 n\u00e3o ri mais. Real ou fruto da imagina\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de ponta-grossenses, ele est\u00e1 na mans\u00e3o, esperando pela hora do julgamento. Hora da liberdade.<\/p>\n<p>O n\u00famero 936 da Rua Julia Wanderley, no Centro de Ponta Grossa, atualmente \u00e9 a sede da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Vila Hilda, como \u00e9 conhecida. A cren\u00e7a popular j\u00e1 concretizou o local como habita\u00e7\u00e3o do menino fantasma, mas isto, aparentemente, n\u00e3o \u00e9 um incomodo para quem trabalha l\u00e1.<\/p>\n<p>Funcion\u00e1ria do local h\u00e1 tr\u00eas meses, a assessora de imprensa da Secretaria de Cultura, Maria Fernanda Teixeira, afirma n\u00e3o se incomodar com as hist\u00f3rias do jovem fantasma: \u201cOu\u00e7o passos e barulhos estranhos, \u00e0s vezes, como uma bola rolando no ch\u00e3o. Isto n\u00e3o me incomoda, se o menino est\u00e1 aqui, melhor que esteja brincando\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que os indiv\u00edduos cada vez mais caminhem para a s\u00edndrome de S\u00e3o Tom\u00e9 \u2013 s\u00f3 acreditar naquilo que se v\u00ea \u2013 ainda existem pessoas que mudam o caminho para evitar passar pela Vila Hilda \u00e0 noite. \u201cO menino est\u00e1 l\u00e1 sozinho h\u00e1 anos, n\u00e3o quero que ele me chame para fazer companhia\u201d, brinca o vendedor Hil\u00e1rio Coutinho. \u201cDepois de tantos anos e as pessoas ainda acreditam que ele est\u00e1 l\u00e1, \u00e9 porque deve estar mesmo, n\u00e3o \u00e9?\u201d, conclui.<\/p>\n<p><strong>Um buqu\u00ea de sonhos perdidos<\/strong><\/p>\n<p>Com vestido branco manchado de sangue e l\u00e1grimas ela vaga em busca do amor perdido. Noite ap\u00f3s noite, incans\u00e1vel, a espera continua. O corredor entre t\u00famulos representa para ela o corredor da igreja. Seu p\u00fablico, os mortos. A marcha nupcial \u00e9 o pio das corujas. Dela foi roubado o sonho de se casar, mas ela n\u00e3o se foi, ela continuar\u00e1 esperando at\u00e9 que o matrim\u00f4nio lhe seja concedido.<\/p>\n<p>Toda cidade tem sua hist\u00f3ria de noiva assassinada no dia do casamento, e em Ponta Grossa n\u00e3o \u00e9 diferente. Conforme o coveiro do Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jos\u00e9, no Centro de Ponta Grossa, Jos\u00e9 Maria Pereira, quem d\u00e1 vida, ou morte, \u00e0 lenda da noiva cad\u00e1ver ponta-grossense \u00e9 Maria Augusta Silva. A jovem de 23 anos organizava os preparativos para o casamento quando foi assassinada junto com a m\u00e3e em 1941.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, cidad\u00e3os juram t\u00ea-la visto rondando o Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jos\u00e9, onde foi enterrada, \u00e0 procura do noivo. Aqueles que a descrevem, contam que est\u00e1 desolada pelo impedimento de realizar seu maior sonho. Ant\u00f4nia Lima mora pr\u00f3ximo ao Cemit\u00e9rio h\u00e1 37 anos e relata ter ouvido os choros da noiva em diversas noites. \u201cEla se debru\u00e7a em l\u00e1pides e chora a aus\u00eancia do amado. Principalmente na \u00e9poca da quaresma\u201d, conta.<\/p>\n<p>A prostituta Evangeline Star, que trabalha no entorno do Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jos\u00e9, afirma nunca ter visto ou ouvido qualquer lamento de noiva fantasma. \u201cO que acontece, \u00e9 que jovens desocupados invadem o espa\u00e7o do Cemit\u00e9rio para se drogar ou fazer sexo e as pessoas preferem colocar a culpa nos mortos a culpar os vivos\u201d, relata.<\/p>\n<p><strong>Uma carona para o al\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p>Nas ruas escuras da Rodovia do Caf\u00e9, todas as noites, ela pede carona. Na esperan\u00e7a de ser tirada do esquecimento e seguir adiante, a mo\u00e7a loira de vestido branco acena para os caminhoneiros em busca de transporte. Seu destino? Ningu\u00e9m sabe. Aqueles que param para lev\u00e1-la s\u00e3o surpreendidos pelas l\u00e1grimas incans\u00e1veis da jovem, que cessam somente no momento em que ela desaparece.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe quem ela \u00e9 ou para onde ela quer ir. Ningu\u00e9m sabe o que a mant\u00e9m na Rodovia do Caf\u00e9 ou como ela foi parar l\u00e1. Ela apenas est\u00e1 l\u00e1, cumprindo seu papel. Extravasando em cada l\u00e1grima derramada um pedacinho da hist\u00f3ria que a acorrenta neste plano, impedida de seguir em frente. A loira do caf\u00e9 est\u00e1 condenada a seguir para lugar nenhum.<\/p>\n<p>Segundo o frentista Jos\u00e9 Carlos Kawan, o esp\u00edrito da mo\u00e7a loira assombra os viajantes da noite na Rodovia do Caf\u00e9 desde antes dele nascer. \u201cFoi meu pai quem me contou e ele ouviu do pai dele. O fantasma da loira do Caf\u00e9 est\u00e1 na rodovia desde antes dela ser uma rodovia, \u00e9 da \u00e9poca dos tropeiros, ainda\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com Kawan, a hist\u00f3ria sempre \u00e9 a mesma: a mo\u00e7a loira acena pedindo carona, algu\u00e9m para, ela embarca e come\u00e7a a chorar. L\u00e1grimas incontrol\u00e1veis escorrem pelo rosto da dama at\u00e9 que, misteriosamente, ao cruzar o viaduto da entrada de Ponta Grossa, ela desaparece. \u201cJ\u00e1 perdi as contas de quantos caminhoneiros pararam assustados aqui relatando a mesma hist\u00f3ria e descrevendo a mesma mulher\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>A verdade depende de quem acredita<\/strong><\/p>\n<p>Hist\u00f3rias de fantasma s\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a humanidade. O ser humano tende a justificar com o sobrenatural tudo aquilo que n\u00e3o \u00e9 capaz de compreender a partir de explica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas. Milagres, folclore e lendas urbanas fazem parte da cultura e realidade de sociedades desde que o mundo \u00e9 mundo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da mais importante igreja de Ponta Grossa, a Catedral Sant\u2019Anna, por exemplo, \u00e9 contada atrav\u00e9s da lenda das pombinhas \u2013 duas pombas brancas com fitas vermelhas presas \u00e0s pernas foram soltas e pousaram no lugar exato em que deveria ser constru\u00edda a igreja. Acredita-se que foi um sinal do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Para o pesquisador de Folclore da Universidade do Contestado, Marc\u00edlio Fernandes, a cren\u00e7a nas hist\u00f3rias transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es \u00e9 extremamente importante para a preserva\u00e7\u00e3o da cultura e costumes de todas as comunidades. \u201cAs pessoas se apegam a estas lendas e hist\u00f3rias, \u00e9 importante para elas acreditar. Al\u00e9m disto, quando algo se torna senso comum entre um grupo de pessoas, deixa de ser uma crendice e se torna uma verdade\u201d, explica.<\/p>\n<p>Fernandes explica que a exist\u00eancia de fantasmas nunca foi comprovada, assim como a n\u00e3o exist\u00eancia. \u201cCada um tem liberdade para crer naquilo que lhe \u00e9 mais conveniente. Eu nunca vi um fantasma, mas n\u00e3o desacredito naqueles que dizem ter visto\u201d. O professor ainda acrescenta que existe a possibilidade das pessoas acreditarem tanto em algo que projetam imagens e acabam vendo o que imaginam ser real.<\/p>\n<p>O menino que acena no s\u00f3t\u00e3o da Vila Hilda, a noiva que chora o compromisso nunca firmado e a loira que pede carona na Rodovia do Caf\u00e9 s\u00e3o hist\u00f3rias contadas e aceitas por um n\u00famero significativo de pessoas e, portanto, verdades para todos aqueles que acreditam. Mesmo hoje, na era dos fatos e da ci\u00eancia, existem indiv\u00edduos que buscam consolo e compreens\u00e3o nas explica\u00e7\u00f5es sobrenaturais.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Crystian%20K%C3%BChl\">Crystian K\u00fchl<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sussurros e barulhos no assoalho supostamente indicam a presen\u00e7a de algu\u00e9m na mans\u00e3o. Com a pele p\u00e1lida, cabelos negros e express\u00e3o triste, ele corre pelos corredores e acena para as pessoas da janela do s\u00f3t\u00e3o. H\u00e1 d\u00e9cadas aprisionado, o menino j\u00e1 n\u00e3o ri mais, n\u00e3o brinca mais. 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