{"id":1542,"date":"2015-02-14T13:12:24","date_gmt":"2015-02-14T13:12:24","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1542"},"modified":"2015-02-14T13:12:24","modified_gmt":"2015-02-14T13:12:24","slug":"a-palestina-vive-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-palestina-vive-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"A Palestina vive em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p>Do outro lado da rua pode-se ver a porta aberta. Todos s\u00e3o bem-vindos. O sil\u00eancio reina no lugar e a \u00fanica regra para entrar \u00e9 estar descal\u00e7o, um sinal de respeito. Ao entrar, pisar no ch\u00e3o coberto de tapetes e ver que n\u00e3o h\u00e1 bancos, p\u00falpitos ou velas, percebe-se que nada se parece com um templo crist\u00e3o. A Sociedade Beneficente Isl\u00e2mica mant\u00e9m sua mesquita pr\u00f3xima ao centro e, h\u00e1 mais de 15 anos, acolhe mu\u00e7ulmanos e pessoas de outras religi\u00f5es, como forma de divulgar sua cultura e princ\u00edpios.<\/p>\n<p>\u201cEssa mesquita \u00e9 para a cidade, para qualquer um que quiser conhecer. N\u00e3o importa a cor ou a religi\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o podemos deixar o espa\u00e7o aberto o dia todo, porque todo mundo que cuida trabalha\u201d, conta o liban\u00eas, que vive desde 1989 na cidade, Hussein Ataya. Receptivo, ele convida a sentar ao fundo da mesquita, que tem duas prateleiras com livros e alguns quadros religiosos na parede.<\/p>\n<p>Todos que frequentam o lugar buscam um ponto de ora\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a Meca, cidade sagrada para os mu\u00e7ulmanos. Para eles, n\u00e3o importa culto ou missa, mas orar \u00e9 obrigat\u00f3rio, pelo menos cinco vezes ao dia, segundo a doutrina isl\u00e2mica.<\/p>\n<p>Hussein explica que existe um costume de purifica\u00e7\u00e3o do corpo antes das ora\u00e7\u00f5es, para que n\u00e3o haja impurezas na hora da adora\u00e7\u00e3o. Antes de se ajoelhar e levar a cabe\u00e7a ao ch\u00e3o, ele sai do templo, desce alguns lances de escada e vai ao banheiro para lavar as m\u00e3os, bra\u00e7os, p\u00e9s e cabe\u00e7a. \u201cSe for necess\u00e1rio, troco at\u00e9 de roupa. N\u00e3o podemos estar sujos fisicamente para falar com Deus. Tudo ter que ser o mais natural e limpo poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Ao se lavar, Hussein entra novamente no templo e se diz \u201cpronto para orar\u201d. Antes de come\u00e7ar, l\u00ea algumas passagens do Alcor\u00e3o, o livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos, e pega uma pedra para apoiar a testa ao se curvar. \u201cMuita gente diz que adoramos essa pedra que eu apoio a cabe\u00e7a, mas n\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00f3s usamos esse objeto porque \u00e9 preciso se apoiar em algo org\u00e2nico, natural, n\u00e3o nesse tapete sint\u00e9tico da Mesquita. Se eu estivesse na grama, poderia me curvar sem utilizar objeto algum\u201d, explica.<\/p>\n<p>Para que as ora\u00e7\u00f5es possam chegar a Deus, segundo ele, tudo deve ser pronunciado em \u00e1rabe, por ser a \u00fanica l\u00edngua verdadeira e completa, segundo os isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>Enquanto Hussein ora, um jovem rapaz se aproxima e escreve seu nome numa pequena lousa perto da porta: Jubes Ahmed. Ele diz, em um portugu\u00eas incompleto, que sente saudades de seu pa\u00eds, Bangladesh, mas que o Brasil, apesar de n\u00e3o conhecer a cultura dele, acolhe muito bem os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A m\u00eddia, segundo os \u00e1rabes<\/strong><\/p>\n<p>Acompanhar o notici\u00e1rio \u00e1rabe \u00e9 rotina para Hussein Ataya. Todos os dias, quando acorda e faz suas ora\u00e7\u00f5es, ele tamb\u00e9m fica atento ao que acontece em sua regi\u00e3o de origem. Conta que derrubaram\u00a0mais de 40 pr\u00e9dios na Palestina para plantar atentados e reclama que, aqui, s\u00f3 se ouve not\u00edcia do lado de Israel. \u201cN\u00f3s escutamos semana passada que palestinos mataram quatro estudantes e um rabino, mas um dia antes, enforcaram um motorista de \u00f4nibus palestino e ningu\u00e9m noticiou isso\u201d.<\/p>\n<p>A m\u00eddia ocidental\u00a0\u00e9 alvo de reclama\u00e7\u00f5es por parte dos \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanos que vivem no Brasil. Hussein Mohamad Taha, formado em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Geopol\u00edtica em Curitiba, diz que\u00a0 tanto a m\u00eddia\u00a0 brasileira, quanto ocidental, deturpa as informa\u00e7\u00f5es fazendo com que os \u00e1rabes mu\u00e7ulmanos sejam os terroristas, os culpados pela escalada de viol\u00eancia na regi\u00e3o. \u201cAlgumas televis\u00f5es \u00e1rabes como Al Manar TV, e Almayadeen, duas emissoras do L\u00edbano, pertencentes ao grupo de resist\u00eancia liban\u00eas Hezbollah, e a Hispan TV do Iran s\u00e3o exemplos de TVs que explicam e informam a verdadeira situa\u00e7\u00e3o\u00a0do Oriente M\u00e9dio\u201d, analisa.<\/p>\n<p>A TV Jazeera, principal fonte de not\u00edcias para os jornalistas ocidentais, n\u00e3o \u00e9 vista com bons olhos pelos \u00e1rabes. Por\u00e9m, aqui no Brasil e no Ocidente, se tornou a \u00fanica fonte que os jornalistas recorrem, desde 11 de setembro de 2001. A trajet\u00f3ria da \u2018Guerra contra o Terror\u2019, que se consolidou nos anos seguintes, colocaram a emissora \u00e1rabe como um ve\u00edculo importante na Europa e nas Am\u00e9ricas. Os escrit\u00f3rios instalados em locais estrat\u00e9gicos, como Londres, Buenos Aires e o principal no Catar, facilitam a distribui\u00e7\u00e3o do conte\u00fado da emissora.<\/p>\n<p>A ex-editora do Jornal do SBT de S\u00e3o Paulo, Adriana Coca, conta que havia uma inseguran\u00e7a, durante os atentados de 11 de setembro, se de fato a TV Al Jazeera era uma fonte segura. \u201cCome\u00e7amos a usar as imagens com a ressalva: \u2018n\u00e3o se sabe a veracidade dessas imagens, fontes ainda n\u00e3o oficiais\u2019. O fato \u00e9 que tamb\u00e9m foi a Al Jazeera que primeiro mostrou a imagem de Osama Bin Laden, na ocasi\u00e3o da invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelas tropas americanas\u201d.<\/p>\n<p>Os mu\u00e7ulmanos de Ponta Grossa n\u00e3o assitem a TV Al Jazeera. Grupos de m\u00eddia como a crist\u00e3 OTV e a Al Jadeed trazem not\u00edcias em tempo real do mundo isl\u00e2mico. O liban\u00eas Hussein Ataya, que mora h\u00e1 25 anos em Ponta Grossa, e apoia a causa palestina, diz que as not\u00edcias da Al Jazeera n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras. \u201c\u00c9 um jornal corrupto, s\u00f3 busca lucro. Ela representa o Catar, que \u00e9 um governo que n\u00e3o gosta de S\u00edria, eles sempre d\u00e3o o notici\u00e1rio a favor dos reis de l\u00e1. Malditos reis, como falam. Temos alguns jornais muito melhores que a Al Jazeera, onde se pode ver tudo ao vivo\u201d. Ataya fala que, com muito orgulho, apoia grupos de resist\u00eancia palestinos, como o Hezbollah.<\/p>\n<p><strong>O conflito, a pol\u00edtica e o preconceito<\/strong><\/p>\n<p>Existem mais de 40 fam\u00edlias mu\u00e7ulmanas em Ponta Grossa. Dentre elas, muitas\u00a0possuem parentes e amigos no Oriente M\u00e9dio e, mais especificamente, na Palestina. Alguns nasceram na regi\u00e3o do conflito, e possuem la\u00e7os fortes com o pa\u00eds, mesmo sendo libaneses ou s\u00edrios, que s\u00e3o a maioria dos imigrantes \u00e1rabes no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cOs imigrantes defendem os ideais e a causa palestina aqui no Brasil, com palestras e aulas de esclarecimento dos fatos hist\u00f3ricos nas escolas, com os sindicatos, para a sociedade civil em geral, que infelizmente n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es, recebendo apenas not\u00edcias totalmente mentirosas, em que os valores e os fatos s\u00e3o distorcidos\u201d, explica o profissional em rela\u00e7\u00f5es internacionais e geopol\u00edtico, Hussein Mohamad Taha.<\/p>\n<p>Apesar de viverem pacificamente com judeus aqui no Brasil, os defensores da causa palestina s\u00e3o contra a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e afirmam que ainda voltar\u00e3o a ocupar seu pa\u00eds de origem: \u201cNa verdade, a Palestina nunca foi Israel, nunca vai ser Israel. Eles podem at\u00e9 reconhecer na ONU, mas para n\u00f3s n\u00e3o, o nome dela \u00e9 Palestina, toda a vida vai ser Palestina, e vai voltar a ser um dia\u201d, defende Hussein Ataya<\/p>\n<p>Segundo os apoiadores, a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o de um povo estranho\u00a0em meio ao povo palestino, uma forma do imp\u00e9rio norte-americano. \u201cIsrael tem\u00a0influ\u00eancia na regi\u00e3o, tanto militar quanto pol\u00edtica, al\u00e9m de destruir a Palestina hist\u00f3rica. Desde a cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel, a Palestina perdeu quase que a totalidade de seu territ\u00f3rio para este estado invasor\u201d, explica Taha.<\/p>\n<p>O preconceito por ser de outra etnia, religi\u00e3o e ideologia \u00e9 percebido por quem vive e herdou a cultura do mundo \u00e1rabe. Hussein Taha conta que j\u00e1 sofreu discrimina\u00e7\u00f5es por parte dos brasileiros. \u201cHoje, ser \u00e1rabe, palestino ou mu\u00e7ulmano no Brasil \u00e9 sin\u00f4nimo de ser terrorista. Muitas mulheres sofrem preconceito por usarem o v\u00e9u, outros, por falarem \u00e1rabe. Eu j\u00e1 sofri com piadinhas e brincadeiras como, por exemplo: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 carregando nenhuma bomba?&#8221; ou\u00a0&#8221; olha o parente do Bin Laden a\u00ed&#8221;, entre outras\u201d, completa o geopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=J%C3%A9ssica%20Natal\">J\u00e9ssica Natal<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do outro lado da rua pode-se ver a porta aberta. Todos s\u00e3o bem-vindos. O sil\u00eancio reina no lugar e a \u00fanica regra para entrar \u00e9 estar descal\u00e7o, um sinal de respeito. 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