{"id":1546,"date":"2015-02-18T13:21:25","date_gmt":"2015-02-18T13:21:25","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1546"},"modified":"2015-02-18T13:21:25","modified_gmt":"2015-02-18T13:21:25","slug":"uma-cultura-de-tudo-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/uma-cultura-de-tudo-para-todos\/","title":{"rendered":"Uma cultura de tudo, para todos"},"content":{"rendered":"<p>M\u00fasicos, atletas, dan\u00e7arinas, atrizes e atores&#8230; Todos deficientes visuais. S\u00e3o artistas que est\u00e3o cada vez mais presentes na sociedade. Eles comprovam que a arte, al\u00e9m de uma terapia, \u00e9 ferramenta para a inclus\u00e3o social, melhora a autoestima e, consequentemente, o quadro cl\u00ednico de quem tem uma defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Odete Alves Scheifer conhece bem essa realidade. Deficiente visual devido a sequelas de diabetes, ela integra a equipe de alunos da Associa\u00e7\u00e3o de Pais e Amigos do Deficiente Visual (APADEVI), em Ponta Grossa. &#8220;Uma das muitas atividades que fa\u00e7o na APADEVI \u00e9 o coral. Al\u00e9m das melhorias para n\u00f3s mesmos, como autoestima e prova de que somos capazes, atividades assim v\u00eam para romper barreiras de preconceitos, muitas vezes presentes devido \u00e0 defici\u00eancia visual&#8221;, conta Odete, que se sente feliz com suas apresenta\u00e7\u00f5es de coral e confec\u00e7\u00f5es artesanais.<\/p>\n<p>Diante de limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, sensoriais ou psicol\u00f3gicas, o medo, inseguran\u00e7a e vergonha s\u00e3o comuns. E \u00e9 nesse momento que a arte pode agir na vida da pessoa e mostrar outra realidade, menos dura, em um mundo mais colorido. &#8220;A arte promove a representa\u00e7\u00e3o de sentimentos, sensibilidade e criatividade de cada um. Este processo pode ser valioso para a pessoa, que se sentindo capaz de criar algo, acredita em si mesma, vivendo melhor e mais feliz&#8221;, conta a assistente social da APADEVI, Regina Pedrozo.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 cultura para deficientes visuais em Ponta Grossa \u00e9 um tanto prec\u00e1rio. No come\u00e7o de 2014, estudantes cegos e com baixa vis\u00e3o foram impedidos de frequentar as aulas no Conservat\u00f3rio Maestro Paulino devido \u00e0 falta de professores capacitados para este atendimento. Estudar piano sempre foi o sonho de Rose Amaral, ex-aluna da APADEVI. H\u00e1 dois anos, quando ainda n\u00e3o morava na cidade, ela ganhou uma bolsa em uma institui\u00e7\u00e3o e passou a estudar o instrumento. Por conta de uma mudan\u00e7a de \u00faltima hora de trabalho da filha, precisou mudar-se para Ponta Grossa.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 cidade, orientaram que ela procurasse a institui\u00e7\u00e3o de ensino Conservat\u00f3rio Maestro Paulino, existente h\u00e1 mais de 40 anos e financiada, sobretudo, com dinheiro p\u00fablico. Esperava com a procura encontrar um local que fornecesse boa forma\u00e7\u00e3o musical de modo gratuito, ou mesmo, com valores mais acess\u00edveis. Mas seus planos, assim como os de, no m\u00ednimo, outros cinco alunos da APADEVI que t\u00eam interesse em receber forma\u00e7\u00e3o em algum instrumento, n\u00e3o deram certo. \u201cEles falaram que n\u00e3o podia fazer as aulas porque n\u00e3o possu\u00edam professores capacitados para nos ensinar\u201d, diz Rose.<\/p>\n<p>A diretora da APADEVI, Cilmara Buss, aponta que as aulas de m\u00fasica que a entidade oferece s\u00e3o muito b\u00e1sicas. \u201cO que estes alunos buscam \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o e isso a gente n\u00e3o consegue dar, pois s\u00f3 uma institui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica pode certificar, eu imagino\u201d. O contato com a m\u00fasica, dentro da institui\u00e7\u00e3o, vem atrav\u00e9s do coral e das aulas de musicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o diretor do conservat\u00f3rio, Jairo Ferreira, a solu\u00e7\u00e3o que se pode ter no momento \u2013 j\u00e1 que os instrutores do Maestro Paulino n\u00e3o sabem ainda guiar musicalmente cegos e pessoas com baixa vis\u00e3o \u2013 \u00e9 formar professores da APADEVI para ent\u00e3o repassar esse conte\u00fado aos alunos. \u201cQuem sabe eles consigam desenvolver alguma t\u00e9cnica, por j\u00e1 desenvolverem este trabalho, que n\u00f3s ainda n\u00e3o dominamos\u201d, diz Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cApesar das dificuldades, contudo, \u00e9 espantoso como uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica ainda n\u00e3o tenha se adequado \u00e0 acessibilidade\u201d, finaliza Cilmara.<\/p>\n<p><strong>M\u00e3es ativas, cultura dissipada<\/strong><\/p>\n<p>O artesanato \u00e9 algo bem presente nas diversas manifesta\u00e7\u00f5es culturais da APADEVI. Quando levavam seus filhos para a aula, a sala de espera na recep\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o ficava repleta de m\u00e3es. Sentadas na frente de uma televis\u00e3o, elas ficavam conversando, esperando o tempo passar, assistindo TV, dormindo. Aquilo causou um inc\u00f4modo na assistente social Regina Pedrozo. \u201cO tempo ocioso precisava ser transformado em resultados de grandes criatividades\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Pensando nisso, ela idealizou o Clube de M\u00e3es da APADEVI. Ainda sem nome, o grupo se re\u00fane de segunda a quarta, durante a tarde. Guirlandas, bonecos de material recicl\u00e1vel, carrinhos, bonecas de pano&#8230; Todo material poss\u00edvel \u00e9 aproveitado para ser transformado em produtos.<\/p>\n<p>M\u00e3e da pequena Vit\u00f3ria, de 9 anos, Marcia Reju \u00e9 uma das m\u00e3es do grupo. Segundo ela, mais do que uma aceita\u00e7\u00e3o da comunidade para a produ\u00e7\u00e3o do Clube de M\u00e3es, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia que as pessoas da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o se envolvam. \u201cN\u00e3o s\u00e3o todos que gostam de mexer com artesanato, com trabalhos manuais. Mas no nosso grupo, temos muitas pessoas que est\u00e3o envolvidas e est\u00e3o buscando uma utilidade boa, que venha somente a somar no trabalho da APADEVI\u201d, afirma Marcia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Um novo olhar sob as artes c\u00eanicas<\/strong><\/p>\n<p>Envolvimento, integra\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o de dificuldades. O Grupo Teatral UNIDEV (Uni\u00e3o dos Deficientes Visuais) atua no cen\u00e1rio cultural ponta-grossense buscando transmitir os mais variados valores para o p\u00fablico. A iniciativa partiu de pessoas da Associa\u00e7\u00e3o Unidev em 2007.<\/p>\n<p>Helo\u00edsa Pereira, atual diretora volunt\u00e1ria do grupo teatral, afirma que os primeiros ensaios come\u00e7aram no box do Mercad\u00e3o Municipal. \u201cEm 2009 dei continuidade aos ensaios nas manh\u00e3s de quarta-feira na antiga sede da Unidev\u201d, conta. O teatro com pessoas cegas e com baixa vis\u00e3o utiliza os sentidos para a elabora\u00e7\u00e3o do mundo e do universo do personagem, na memoriza\u00e7\u00e3o dos textos, nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, bem como na locomo\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o c\u00eanico.<\/p>\n<p>O Grupo Teatral UNIDEV tem como miss\u00e3o conscientizar o maior n\u00famero de pessoas atrav\u00e9s de apresenta\u00e7\u00f5es em escolas, entidades civis e religiosas, em festivais, como tamb\u00e9m levar arte \u00e0s pessoas que n\u00e3o t\u00eam acesso ao teatro convencional. Para atingir esse objetivo, optou-se pela simplifica\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rio. Em todos os espet\u00e1culos h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em passar uma mensagem de respeito e inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o no grupo auxiliou na supera\u00e7\u00e3o de dificuldades para os deficientes visuais. Para o ator Marcos Germano, a integra\u00e7\u00e3o no teatro agu\u00e7ou seus outros sentidos. \u201cN\u00e3o enxergo, mas posso sentir de v\u00e1rias formas a rea\u00e7\u00e3o da plateia\u201d, conta. Al\u00e9m da supera\u00e7\u00e3o corporal, a timidez \u00e9 algo que vem sendo superado.<\/p>\n<p><strong>E o acesso \u00e0 cultura para os deficientes visuais em PG?<\/strong><\/p>\n<p>Em um mundo em que tudo \u00e9 constru\u00eddo e planejado para quem possui todos os cinco sentidos em perfeito estado, \u00e9 \u2018comum\u2019 que o diferente seja ignorado, esquecido ou nem sequer cogitado. Imagine poder s\u00f3 ouvir um filme&#8230; Assim como outras formas de entretenimento, como programas de televis\u00e3o, espet\u00e1culos de dan\u00e7a e pe\u00e7as de teatro, o cinema \u00e9 constru\u00eddo para quem v\u00ea. O sil\u00eancio entre as personagens, a transi\u00e7\u00e3o de uma cena a outra e at\u00e9 a trilha sonora subindo gradativamente para criar tens\u00e3o n\u00e3o funcionam sem estarem associados \u00e0 imagem. Essa barreira manteve \u2013 e ainda mant\u00e9m \u2013 muitos deficientes visuais longe do consumo de produtos culturais.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador de Comunica\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Municipal de Cultura, Eduardo Godoy, a Funda\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o oferece de forma satisfat\u00f3ria a quest\u00e3o da acessibilidade para pessoas com defici\u00eancia visual, por\u00e9m est\u00e3o caminhando para mudar este quadro. \u201cNa Biblioteca P\u00fablica, por exemplo, o acesso j\u00e1 \u00e9 facilitado, com indica\u00e7\u00f5es em braile nos corrim\u00f5es, elevador e entrada sem desn\u00edvel. Al\u00e9m disso, o acervo conta com audiolivros, livros com textura e livros com op\u00e7\u00f5es sonoras\u201d, afirma.<\/p>\n<p>H\u00e1 dificuldades tamb\u00e9m em direcionar eventos espec\u00edficos para o p\u00fablico com defici\u00eancia visual. \u201cPara deficientes f\u00edsicos e auditivos, a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura conseguiu levar atividades do Festival Nacional de Contadores de Hist\u00f3rias este ano e pretende ampliar as a\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Godoy.<\/p>\n<p>Para o professor de coral da APADEVI, Renato Costa, n\u00e3o deve haver distin\u00e7\u00e3o de p\u00fablico: \u201cacredito sim que deva haver oferta de arte para quem goste da arte, seja cego, surdo, branco ou negro. Quem gosta a encontra, ou acaba por fazer parte daquela que lhe agrada\u201d.<\/p>\n<p>Na medida do poss\u00edvel, busca-se apoiar qualquer grupo que procure a Funda\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma avalia\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia, abrang\u00eancia, capacidade t\u00e9cnica e seriedade do grupo. O apoio \u00e9 feito atrav\u00e9s da disponibilidade de transporte, alimenta\u00e7\u00e3o, recursos t\u00e9cnicos, hospedagem e cess\u00e3o de espa\u00e7os, mas tudo dependendo das possibilidades da Funda\u00e7\u00e3o de Cultura. \u201cN\u00e3o temos uma linha de apoio espec\u00edfica para um nicho da popula\u00e7\u00e3o, como os deficientes visuais, mas buscamos atender a todos, sem distin\u00e7\u00e3o\u201d, finaliza Godoy.<\/p>\n<p>Reportagem de\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/www.culturaplural.com.br\/search?SearchableText=Larissa%20Rosa\">Larissa Rosa<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00fasicos, atletas, dan\u00e7arinas, atrizes e atores&#8230; Todos deficientes visuais. S\u00e3o artistas que est\u00e3o cada vez mais presentes na sociedade. 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