{"id":1668,"date":"2016-06-09T22:50:54","date_gmt":"2016-06-09T22:50:54","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1668"},"modified":"2016-06-09T22:50:54","modified_gmt":"2016-06-09T22:50:54","slug":"os-livros-que-a-vida-me-deu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/os-livros-que-a-vida-me-deu\/","title":{"rendered":"Os livros que a vida me deu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por\u00a0Melissa Moura<\/p>\n<p class=\"western\">Reinaldo Rauch pega o \u00f4nibus rumo ao Terminal de Uvaranas diariamente \u00e0s 7h30. De dentro de sua mochila tira seu e-reader e l\u00ea um de seus 30 livros comprados em formato digital. A prefer\u00eancia \u00e9 por romances e mang\u00e1s, mas a rotina pede que use seus trinta minutos de viagem para ler livros t\u00e9cnicos em ingl\u00eas sobre programa\u00e7\u00e3o, exig\u00eancia profissional para o aperfei\u00e7oamento do bacharelado em engenharia de software.<\/p>\n<p class=\"western\">Reinaldo conta que apenas uma vez reconheceram o que ele estava lendo. O cidad\u00e3o ponta-grossense n\u00e3o tem costume de conversar com estranhos. \u201cIsso pode ser tamb\u00e9m por eu sempre escutar m\u00fasica com headphones enquanto eu leio\u201d, ele ri.<\/p>\n<p class=\"western\">O caminho de volta tem a mesma finalidade, o e-reader com marcas do seu uso por tr\u00eas anos segue parceiro do \u00f4nibus das 22h \u00e0s 23h at\u00e9 a sua casa. A l\u00f3gica \u00e9 simples: livros t\u00e9cnicos s\u00e3o lidos no e-reader, os romances s\u00e3o comprados em livros f\u00edsicos.<\/p>\n<p class=\"western\">A leitura de e-books t\u00e9cnicos tamb\u00e9m acontece a dez quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, na casa do ilustrador Cesar Andrade, que l\u00ea sobre arte e t\u00e9cnicas de desenho entre seus 300 livros em formato digital. Tamb\u00e9m gosta de contos, fic\u00e7\u00e3o e romance, por\u00e9m o aprendizado ocupa lugar fundamental em sua leitura di\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"western\">Uma meta foi lan\u00e7ada na vida de Cesar: ler pelo menos uma hora por dia. Sem rotina, sem hor\u00e1rio fixo, conforme o tempo livre lhe permite devido ao seu trabalho como freelancer. Reinaldo e Cesar n\u00e3o se conhecem, mas compartilham o mesmo aparelho de leitura digital.<\/p>\n<p class=\"western\">O que mais interessa Cesar em e-reader \u00e9 que em uma biblioteca virtual n\u00e3o acumula espa\u00e7o, al\u00e9m da facilidade de ler v\u00e1rios livros ao mesmo tempo e poder acompanhar atrav\u00e9s do aplicativo a porcentagem j\u00e1 lida dos livros. \u201cTem v\u00e1rios livros antigos que podem ser baixados gratuitamente, al\u00e9m de dar para ler livros que ainda n\u00e3o chegaram ao Brasil pela demora do processo de tradu\u00e7\u00e3o\u201d, conta Cesar, que mesmo assim prefere comprar lan\u00e7amentos em formato f\u00edsico.<\/p>\n<p class=\"western\">A dificuldade em encontrar quem compre e-books \u00e9 evidente, representa 5% da popula\u00e7\u00e3o de Ponta Grossa, como aponta a pesquisa de H\u00e1bitos Culturais de Ponta Grossa, uma pesquisa que envolvia respostas m\u00faltiplas e espont\u00e2neas. A pesquisa tamb\u00e9m mostra outras oito formas de adquirir livros na cidade, em que o primeiro colocado \u00e9 o empr\u00e9stimo de livros de outras pessoas, com 83% das respostas, de um total de 293%.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"CENTER\"><strong>O medo dos que n\u00e3o voltaram<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">Dos 250 livros da estudante de Direito Ana Simionato, ela conta que pelo menos 30 ela j\u00e1 emprestou para seus conhecidos \u2013 alguns nunca voltaram. A cole\u00e7\u00e3o come\u00e7ou aos 11 anos, quando leu seu primeiro best-seller, Crep\u00fasculo, que at\u00e9 hoje guarda a marca de uma borboleta que entrou no seu quarto no momento em que fechou o livro.<\/p>\n<p class=\"western\">Por\u00e9m, a hist\u00f3ria \u00e9 um pouco mais antiga. A paix\u00e3o mesmo veio pelos livros da Bruxa Onilda, que lia todas as semanas na hora da leitura do col\u00e9gio quando tinha oito anos. Quando leu todos os livros das aventuras da velha bruxa de len\u00e7o roxo, come\u00e7ou a procurar colegas para contar as hist\u00f3rias. \u201cEra s\u00f3 o que eu queria fazer\u201d, relembra com um ar de nostalgia. Hoje l\u00ea muitos cl\u00e1ssicos da literatura e livros nacionais.<\/p>\n<p class=\"western\">Para Ana, a fila do banco e a hora de dormir s\u00e3o os hor\u00e1rios mais prop\u00edcios para a leitura. Dos livros que pegou emprestado, nunca estragou nenhum \u2013 garante, por\u00e9m prefere emprestar os seus livros para pessoas confi\u00e1veis ou pr\u00f3ximas para evitar estragos ou (mais) perdas.<\/p>\n<p class=\"western\">A biografia de Ozzy Osbourne e o livro O Hobbit foram o que salvaram a hist\u00f3ria conturbada de leitura de Daniel Queiroz Torno, advogado que reclama que a escola foi um desestimulador de leitura. \u201cO problema sempre foi a metodologia do ensino, indicar cl\u00e1ssicos da literatura e da l\u00edngua portuguesa para pr\u00e9-adolescentes em um pa\u00eds que culturalmente l\u00ea pouco reflete at\u00e9 na vida dos professores que deveriam ser estimuladores \u00e0 literatura na vida dos alunos\u201d.<\/p>\n<p class=\"western\">Em toda a sua vida acad\u00eamica, com 22 anos, conheceu apenas uma professora que era leitora voraz de livros. Segundo a \u00faltima pesquisa do Pr\u00f3-livro de 2011, cada brasileiro l\u00ea apenas doislivros inteiros por ano \u2013 mais dois livros em partes. Daniel l\u00ea cinco ou seis por m\u00eas. Ana j\u00e1 chegou a ler mais de tr\u00eas por m\u00eas.<\/p>\n<p class=\"western\">Hoje, Daniel coleciona livros e filmes, sua biblioteca pessoal possui cerca de 400 livros. Tudo isso come\u00e7ou quando, em 2008, sua paix\u00e3o pelo Senhor dos An\u00e9is e Ozzy, mais a quantia de 60 reais no bolso permitissem que comprasse por intuito os dois livros que leu extraordinariamente r\u00e1pido. O mundo da literatura entrou na vida de Daniel.<\/p>\n<p class=\"western\">Desde ent\u00e3o, busca em outros livros o mesmo sentimento que teve quando leu os livros que marcaram o in\u00edcio da sua vida de leitor, seja em terror, fic\u00e7\u00e3o e fantasia, seus g\u00eaneros favoritos, ou em outros g\u00eaneros \u2013 a busca de novos g\u00eaneros e novos tipos de leitura \u00e9 uma outra forma de adquirir conhecimento, ele ressalta.<\/p>\n<p class=\"western\">Para ele, emprestar algo seu \u00e9 emprestar um pouco de si. \u201cQuando sei que a pessoa ler\u00e1 de fato, empresto com maior prazer ainda, por isso empresto apenas para quem eu sei que ler\u00e1 e que n\u00e3o ir\u00e1 sujar, rasgar ou se apropriar de algo que n\u00e3o \u00e9 deles\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\"western\">Seu trauma vem do Nietzche que nunca voltou, dos livros de fantasia que voltaram amarelados e com chocolate, al\u00e9m do suspense que veio com batom e cheiro de cigarro.<\/p>\n<p class=\"western\"><strong>A liga\u00e7\u00e3o do passado com o futuro<\/strong><\/p>\n<p class=\"western\">O passado de Celia Bayer marcado pela leitura teve consequ\u00eancias para o futuro de sua fam\u00edlia e das pessoas que passaram pela sua vida. Tudo come\u00e7ou em sua inf\u00e2ncia, que repassada pela sua m\u00e3e, leitora \u00e1vida, contava hist\u00f3rias antes de dormir. \u201cLembro de chorar com a hist\u00f3ria de Jo\u00e3o e Maria, nossa m\u00e3e amea\u00e7ava nunca mais contar, mas depois ped\u00edamos que contasse de novo e faz\u00edamos sempre a mesma coisa\u201d, ela ri. Como isso resultou em sua profiss\u00e3o como t\u00e9cnica em biblioteconomia atualmente, com 52 anos, j\u00e1 explico.<\/p>\n<p class=\"western\">O amor do pai pelos gibis e os parentes de Porto Alegre e da Alemanha tamb\u00e9m proporcionaram o grande contato com livros desde a inf\u00e2ncia. Durante o magist\u00e9rio que finalizou em 1999, a oportunidade de trabalhar como professora na pr\u00e9-escola permitiu que sua paix\u00e3o fosse repassada para seus primeiros alunos. Celia lia um livro por dia para os alunos. Nesta \u00e9poca, a experi\u00eancia em casa j\u00e1 era repassada para seus tr\u00eas filhos, Eveline, Eduardo e Enrique, que entraram na escola j\u00e1 alfabetizados em casa.<\/p>\n<p class=\"western\">O lema da fam\u00edlia \u201cA heran\u00e7a que podemos deixar para os filhos \u00e9 o estudo\u201d norteou a casa. Na inf\u00e2ncia com a ajuda das mulheres que trabalharam em sua casa, Odete, em Santa Rita do Oeste (SP), e Claudia, em Cangu\u00e7u (RS).\u201cAs crian\u00e7as receberam leituras como a coloniza\u00e7\u00e3o de Santa Rita do Oeste e mais hist\u00f3rias infantis atrav\u00e9s das mulheres que trabalharam em casa que foram figuras divertidas e importantes na vida deles.\u201d, diz Celia.<\/p>\n<p class=\"western\">Ap\u00f3s o final do magist\u00e9rio, o processo seletivo para trabalhar na biblioteca do Col\u00e9gio Padre Carlos Zelesny foi o que trouxe ao seu atual trabalho no Jardim Sabar\u00e1. L\u00e1, Celia percebeu que a paix\u00e3o pela leitura n\u00e3o se modificou com o advento das tecnologias, o prazer que sente ao folhear ou cheirar um livro ainda v\u00ea nas crian\u00e7as e nos jovens.<\/p>\n<p class=\"western\">Para as crian\u00e7as do Sabar\u00e1 descobrirem o que gostam de ler, Celia l\u00ea pelo menos tr\u00eas livros por m\u00eas da biblioteca. \u201cMuitos vem para pegar livro e me dizem de qual estilo gostam, como leio de tudo tenho sempre alguma sugest\u00e3o, por causa desta t\u00e1tica j\u00e1 consegui que muitos alunos se tornassem leitores\u201d, conta. A id\u00e9ia \u00e9 permitir que levem um livro e tragam no dia seguinte, at\u00e9 conseguirem ler um livro at\u00e9 o final.<\/p>\n<p class=\"western\">Para o futuro, Celia j\u00e1 come\u00e7ou a pequena biblioteca da neta de um ano, que conta<\/p>\n<p class=\"western\">com mais de 10 hist\u00f3rias. Os livros fazem parte da hist\u00f3ria da fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0Melissa Moura Reinaldo Rauch pega o \u00f4nibus rumo ao Terminal de Uvaranas diariamente \u00e0s 7h30. De dentro de sua mochila tira seu e-reader e l\u00ea um de seus 30 livros comprados em formato digital. 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