{"id":1730,"date":"2015-11-24T23:27:25","date_gmt":"2015-11-24T23:27:25","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1730"},"modified":"2015-11-24T23:27:25","modified_gmt":"2015-11-24T23:27:25","slug":"grafiteiros-trazem-vida-a-periferia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/grafiteiros-trazem-vida-a-periferia-2\/","title":{"rendered":"Grafiteiros trazem vida \u00e0 periferia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\" align=\"center\"><em>Por Bruna Fernandes, Gabriela Gambassi e Nilson de Paula<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">1945: O imperador japon\u00eas assina um termo de rendi\u00e7\u00e3o para o presidente dos Estados Unidos. Esse \u00e9 o \u00faltimo de uma cadeia de fatos que d\u00e1 fim \u00e0 guerra que ficaria conhecida como Segunda Guerra Mundial. O mundo comemora o rein\u00edcio da paz. Os pracinhas brasileiros, que lutaram em solo do Eixo, n\u00e3o ficam de fora. O soldado Odorico Dias de G\u00f3es espera ansiosamente o momento de voltar para casa e para a esposa, com quem casou um m\u00eas antes de partir para a batalha. Por\u00e9m, esse caminho n\u00e3o seria t\u00e3o f\u00e1cil quanto o esperado<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">\u00a02015: O mundo comemora o septuag\u00e9simo anivers\u00e1rio do fim dessa Guerra. Em Ponta Grossa, no Paran\u00e1, o major reformado Odorico Dias de G\u00f3es, com 95 anos, relembra os eventos que viveu na It\u00e1lia durante aqueles anos de guerra. E o anivers\u00e1rio do seu casamento, com Anna Roza, tamb\u00e9m faz 70 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">Recebendo os rep\u00f3rteres trajados com o seu uniforme do ex\u00e9rcito e incapaz de conter o orgulho na voz (um tanto vacilante em raz\u00e3o de um AVC sofrido recentemente), Odorico brada que j\u00e1 deu \u2018at\u00e9 palestras\u2019 sobre os acontecidos durante a Guerra. Antes mesmo de come\u00e7ar a entrevista, se apressa para mostrar suas medalhas e condecora\u00e7\u00f5es recebidas por seus atos em campo de batalha, que ele lamenta n\u00e3o estarem pendurados na parede, j\u00e1 que a casa est\u00e1 em reformas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">\u2013 N\u00e3o me sinto um her\u00f3i nacional.<\/p>\n<p>E ele \u201cn\u00e3o \u00e9\u201d porque acredita n\u00e3o ter feito mais que a sua obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A entrada tardia do Brasil na Guerra, em 1942, foi motivada pelo ataque alem\u00e3o aos submarinos da Marinha Brasileira. Esse fato hist\u00f3rico, questionado por historiadores que acreditam ter sido uma arma\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos para for\u00e7ar Get\u00falio Vargas a escolher um lado, \u00e9 tido como consumado pelo major. O primeiro grupo ponta-grossense do 13\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria Blindada (13 BIB) a ser convocado partiu no come\u00e7o de 1944 para a It\u00e1lia. O grupo de seu Odorico partiu mais tarde naquele mesmo ano.<\/p>\n<p><strong>As cinzas da Grande Guerra e as frutas da esta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em 1920 no distrito de Guaragi, seu Odorico viveu sua inf\u00e2ncia com poucos bens materiais. Filho de Odorico de G\u00f3e e Maria Dias.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o cheguei a conhecer meu pai. Ele faleceu em outubro de 1920, e nasci em 5 de novembro. A \u00fanica heran\u00e7a de meu pai foi o nome Odorico de G\u00f3es.<\/p>\n<p>Quando tinha 13 anos, a sua fam\u00edlia mudou-se para Ponta Grossa, para procurar lugares melhores para viver.\u00a0 Naquela \u00e9poca, a cidade esperava ansiosamente o seu centen\u00e1rio, dali tr\u00eas anos, e passava por um crescimento econ\u00f4mico expressivo. Uma nova leva de imigrantes chegava, fugida da Grande Guerra (mais tarde viria a se chamar Primeira Guerra Mundial), terminada na Europa h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Embora o mundo comemorasse o fim da Primeira Guerra, a situa\u00e7\u00e3o no continente europeu n\u00e3o era pac\u00edfica; a humilha\u00e7\u00e3o sentida pelos alem\u00e3es quando foram for\u00e7ados a assinar o Tratado de Versalhes deixa a Europa tensa. Para Odorico, entretanto, isso n\u00e3o tinha import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O menino estava mais preocupado em vender as frutas da esta\u00e7\u00e3o para os passageiros e os maquinistas dos trens que paravam no rio Guara\u00fana se abastecer de \u00e1gua. O sucesso das vendas dependia do bom humor do maquinista, que parava em outro rio se n\u00e3o quisesse ajudar Odorico e os irm\u00e3os, hoje todos falecidos.<\/p>\n<p>&#8211; Fiquei s\u00f3 eu pra semente.<\/p>\n<p>Esse talento para o com\u00e9rcio se revelou \u00fatil na It\u00e1lia, muitos anos mais tarde. O pa\u00eds vivia uma economia de guerra; coisas sup\u00e9rfluas tinham um pre\u00e7o alto, ainda mais para a popula\u00e7\u00e3o desgastada por quatro anos de batalha. O ex\u00e9rcito brasileiro, rec\u00e9m-chegado e ainda financeiramente est\u00e1vel, tinha suprimentos que eram preciosos para os italianos. Um deles era o sab\u00e3o. Cada soldado tinha direito a uma barra de sab\u00e3o. Odorico viu a\u00ed sua oportunidade. Com uma gargalhada, diz:<\/p>\n<p>\u2013 Banquei o esperto.<\/p>\n<p>Ao se oferecer para levar as trouxas dos demais soldados para as lavadeiras italianas respons\u00e1veis pelo servi\u00e7o, Odorico lhe entregava apenas uma barra de sab\u00e3o. As demais, escondia no casaco onde ele pr\u00f3prio costurava bolsos, e revendia a outras pessoas.<\/p>\n<p>E essa n\u00e3o foi a \u00fanica situa\u00e7\u00e3o pitoresca da Guerra por ele relembrada. Mais uma vez com sorriso nos l\u00e1bios, o seu Odorico revela mais um de seus causos, desta vez, sobre seus momentos de distra\u00e7\u00e3o durante o cessar-fogo. Quando estava no acampamento com seus colegas, costumava tocar a \u00fanica m\u00fasica que ele sabia em sua gaita de fole de oito baixos, mas estranhava que ao longo do tempo, o fole n\u00e3o fechava mais. Ent\u00e3o, cansados de ouvirem sempre o mesmo ritmo, os outros militares juntaram dinheiro para comprar o sil\u00eancio e a gaita do soldado Odorico para que tivessem um descanso da m\u00fasica.<\/p>\n<p>&#8211; Me pagaram muito bem pela gaitinha, at\u00e9 deu para ficar um pouco feliz!<\/p>\n<p>Seu Odorico conta ent\u00e3o que os militares penduraram a gaita de fole no galho de uma \u00e1rvore, e fizeram uma fogueira logo abaixo, para queim\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Da\u00ed saiu tudo quanto \u00e9 bicho de dentro da gaita! Era barata, ratinho, aranha&#8230;. Me apavorei! &#8211; Caindo no riso mais uma vez.<\/p>\n<p><strong>Na guerra e no amor<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto conta e relembra as hist\u00f3rias de tantos anos atr\u00e1s, seu Odorico n\u00e3o tira o sorriso do rosto, as medalhas tilintando em seu peito constantemente durante a conversa. \u00c9 uma pessoa expansiva, divertida e falante, diferente de sua esposa Anna Roza, uma mulher fechada e de poucas palavras. Apesar disso (ou, talvez, por isso), eles est\u00e3o juntos h\u00e1 71 anos. \u00a0Hoje com cinco filhos, onze netos e treze bisnetos, o major alega:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca brigamos!<\/p>\n<p>Os dois casaram em 30 de setembro de 1944. Um m\u00eas depois disso, Odorico, ent\u00e3o com 24 anos, foi convocado para fazer parte da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira e combater os alem\u00e3es em solo italiano. O rapaz, logicamente, preocupou-se com a esposa. Ela, por\u00e9m, surpreendeu-o.<\/p>\n<p>&#8211; Ih! Ela deu foi gra\u00e7as de eu ser convocado. Nem sei por que ela casou comigo, sou muito feio!<\/p>\n<p>Mesmo tendo dado gra\u00e7as por sua convoca\u00e7\u00e3o, a \u2018sua senhora\u2019 foi quem pediu para a banda do Ex\u00e9rcito receber os pracinhas quando de sua chegada na Esta\u00e7\u00e3o Saudade depois da Guerra. A cidade inteira, de acordo com ele, apareceu para receb\u00ea-los; Odorico nem conseguiu sair do trem inicialmente, tendo que esperar a multid\u00e3o se dispersar um pouco.<\/p>\n<p>Depois disso, a banda seguiu-o at\u00e9 a sua casa, n\u00e3o muito longe da Esta\u00e7\u00e3o; o problema \u00e9 que a casa era pequena, e dona Anna Roza n\u00e3o tinha preparado comida suficiente para todo mundo. A solu\u00e7\u00e3o foi a banda ficar tocando do lado de fora da casa.<\/p>\n<p>A chegada em Ponta Grossa, por\u00e9m, foi s\u00f3 uma das etapas vividas por Odorico entre o fim do conflito e a volta a vida normal. O primeiro deles foi um passeio pela Europa com os demais pracinhas; come\u00e7ando pela It\u00e1lia, onde conheceram o Papa Pio XII e dele receberam uma ben\u00e7\u00e3o escrita (que seu Odorico lamenta n\u00e3o poder mostrar, j\u00e1 que foi comida pelas tra\u00e7as), os soldados foram at\u00e9 Portugal, onde \u2018viveram de gra\u00e7a\u2019, j\u00e1 que os portugueses insistiam em lhes oferecer tudo gratuitamente.<\/p>\n<p>Seu Odorico ainda serviu no Ex\u00e9rcito por mais 26 anos, em v\u00e1rias bases militares do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>E depois?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A vida em Ponta Grossa \u00e9 acompanhado de um passatempo predileto: a pescaria. Como todo pescador, por\u00e9m, suas hist\u00f3rias tem que ser observadas com um tanto de cuidado. Todo faceiro, conta a hist\u00f3ria de quando foi atacado por uma on\u00e7a e matou o bicho no bra\u00e7o. Depois, acrescenta rapidamente, com uma piscadela e uma gargalhada:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas sabem que n\u00e3o conto mentira, n\u00e9&#8230; Al\u00e9m da on\u00e7a, seu Odorico tamb\u00e9m conta (essa hist\u00f3ria, sim, mais cred\u00edvel) que, certa vez, sentiu sua isca puxando com for\u00e7a e come\u00e7ou a lutar contra o \u2018peixe\u2019, para depois descobrir que a linha ficou presa na boca de um gato-do-mato.<\/p>\n<p>Hoje em dia, seu Odorico passa a maior parte dos seus dias em casa, cuidando dos seus adorados passarinhos, enquanto a esposa e a filha cuidam da casa. O lar ainda traz lembran\u00e7as da experi\u00eancia mais marcante da sua vida: os enfeites de mesa s\u00e3o pequenos canh\u00f5es e uma cigarreira com o s\u00edmbolo da FEB.<\/p>\n<p>Esse ano, o major veterano foi dono de uma grande honra, que conta com seu caracter\u00edstico sorriso: hasteou o Pavilh\u00e3o Nacional antes do in\u00edcio do desfile em comemora\u00e7\u00e3o a Independ\u00eancia do Brasil. Um presente mais do que merecido por seus feitos h\u00e1 setenta anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruna Fernandes, Gabriela Gambassi e Nilson de Paula 1945: O imperador japon\u00eas assina um termo de rendi\u00e7\u00e3o para o presidente dos Estados Unidos. Esse \u00e9 o \u00faltimo de uma cadeia de fatos que d\u00e1 fim \u00e0 guerra que ficaria conhecida como Segunda Guerra Mundial. O mundo comemora o rein\u00edcio da paz. 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