{"id":1739,"date":"2015-12-01T23:43:56","date_gmt":"2015-12-01T23:43:56","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1739"},"modified":"2015-12-01T23:43:56","modified_gmt":"2015-12-01T23:43:56","slug":"seu-gracindo-em-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/seu-gracindo-em-campo\/","title":{"rendered":"Seu Gracindo em campo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\" align=\"center\"><em>Por Carine Cruz e Gabriel Panice<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">O verde que se v\u00ea no campo do Germano Kr\u00fcger n\u00e3o passa despercebido. Hoje, \u00e9 um dos melhores gramados do interior do pa\u00eds. Jogadores e torcida concordam: n\u00e3o tem buracos, a bola desliza suavemente pela grama bem aparada e verde e a drenagem \u00e9 perfeita, n\u00e3o h\u00e1 po\u00e7as. Tudo isso gra\u00e7as ao Seu Gracindo, que \u00e9 respons\u00e1vel pelo campo do Germano Kr\u00fcger. H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o se via um tapete como o que se tem hoje no GK. Sua liga\u00e7\u00e3o com o gramado vai al\u00e9m de s\u00f3 cuidar dele. O tapete verde faz parte do seu roteiro de caminhada cotidiana, ponto de parada para tomar mais uma cuia de chimarr\u00e3o e palco da era de ouro de Seu Gracindo em campo.<\/p>\n<p>Todos os dias, desde que se lembra, seu Gracindo, \u00e0s seis horas da manh\u00e3, pega a cuia com chimarr\u00e3o, uma chaleira de \u00e1gua quente e sai caminhando pelas ruas da cidade. Antigamente, ia de sua casa, pr\u00f3xima ao Est\u00e1dio Germano, at\u00e9 Olarias, numa caminhada de aproximadamente cinco quil\u00f4metros. Agora os h\u00e1bitos s\u00e3o outros. Seu Gracindo, mais velho e menos disposto, mudou o roteiro da caminhada, por\u00e9m jamais abandonou a bebida ga\u00facha, sua parceira nas andan\u00e7as. Vai de sua casa at\u00e9 o Germano e l\u00e1 fica, d\u00e1 voltas e voltas no est\u00e1dio, analisa o campo verde, bebe o chimarr\u00e3o e quando a \u00e1gua est\u00e1 morna, quase fria, vai buscar os companheiros de trabalho. Somente a\u00ed ele sossega, quando o dever o obriga a sentar.<\/p>\n<p>\u00c9 costume na fam\u00edlia de Seu Gracindo beber chimarr\u00e3o, a mulher Katia e o filho Marcelo se habituaram a beber a erva, \u00e0 tarde, e desistiram de convidar Seu Gracindo a se reunir com eles. N\u00e3o tem jeito, para o Seu Gracindo, s\u00f3 vale tomar chimarr\u00e3o de p\u00e9 e em movimento. Sentado, segundo ele, n\u00e3o tem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Gracino Sobrinho, conhecido como \u2018Seu Gracindo\u2019, foi e \u00e9 funcion\u00e1rio do Oper\u00e1rio Ferrovi\u00e1rio Esporte Clube. Na sua \u00e9poca de ouro, jogou para o Fantasma, ajudando o time a crescer. Atualmente, Seu Gracindo continua a trabalhar dentro do campo, mas agora com as sete d\u00e9cadas de viv\u00eancias e experi\u00eancias ele conta todas essas hist\u00f3rias com muito entusiasmo, sempre lembrando como o futebol entrou na sua vida para nunca mais sair.<\/p>\n<p><strong>Pilantr\u00e3o desde pequeno<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em 1944, na cidade de Birigui, S\u00e3o Paulo, Seu Gracindo, filho de dono de m\u00e1quina de arroz e s\u00edtio de caf\u00e9, se mudou para Rol\u00e2ndia, cidade no norte do Paran\u00e1, aos 10 anos.<\/p>\n<p>Seu Gracindo, o mais velho de tr\u00eas filhos, admite ter sido muito levado quando crian\u00e7a. Menino muito esperto e muito cheio de vida amava jogar futebol, e amava tanto, que at\u00e9 embaixo de chuva ele jogava. Foi em um campinho de terra perto do s\u00edtio da fam\u00edlia em Rol\u00e2ndia, onde come\u00e7ou sua conex\u00e3o com o futebol, que ele deu seus primeiros passos no esporte.<\/p>\n<p>Ele lembra que num desses dias de chuva seu pai pediu para que ele n\u00e3o fosse jogar, com receio que ele se sujasse, mas crian\u00e7a sapeca que era ou em suas palavras, \u2018pilantr\u00e3o\u2019, deu um jeito de ir para o campinho. Seu Gracindo conta, rindo, que se jogava na lama da chuva e fazia uma lamban\u00e7a para jogar. Quando chegou em casa levou uma surra assim que seu pai viu o estado que o menino Gracino se encontrava.<\/p>\n<p><strong>De time em time<\/strong><\/p>\n<p>A estreia de Seu Gracindo foi em Rol\u00e2ndia, no Nacional, time da cidade. E tamb\u00e9m foi no Nacional que se tornou profissional. Jogou l\u00e1 por cinco anos, at\u00e9 seus 21 anos de idade. Mas o clube passou por dificuldades financeiras e seu Gracindo foi liberado.<\/p>\n<p>Mas Seu Gracindo, talentoso que era, n\u00e3o ficou sem clube. Os diretores do Gr\u00eamio Oeste, de Guarapuava, j\u00e1 vinham acompanhando o trabalho do jovem volante \u2013 passou a jogar como lateral em Guarapuava. Convidaram alguns jogadores do Nacional para ir disputar o Campeonato Paranaense pelo Gr\u00eamio Oeste. E assim foram Seu Gracindo e seus companheiros para Guarapuava, cidade muito importante para ele, pois foi onde conheceu sua esposa e casou-se.<\/p>\n<p>L\u00e1 jogou de 1967 a 1970. Logo em seu primeiro ano, Seu Gracindo ajudou a subir o Gr\u00eamio Oeste para a Primeira Divis\u00e3o do Campeonato Paranaense. Depois, disputou tr\u00eas vezes a elite do futebol paranaense pelo clube.<\/p>\n<p><strong>Parece que o jogo virou, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/strong><\/p>\n<p>Certo dia, ele e seus companheiros do Gr\u00eamio Oeste iriam para Cianorte para uma peleja pelo Campeonato Paranaense. O jogo estava marcado para o domingo, por\u00e9m no s\u00e1bado uma chuva muito forte atingiu a regi\u00e3o. A viagem estava marcada para o domingo pela manh\u00e3, duas Kombis levariam os jogadores e todos os materiais.<\/p>\n<p>Com a chuva, a estrada ainda sem asfalto n\u00e3o estava nas melhores condi\u00e7\u00f5es e as Kombis atrasaram. Apenas uma delas chegou a tempo para o in\u00edcio do jogo. Ou seja, o time tinha apenas 11 jogadores e nenhum material para jogar. Para que o jogo acontecesse e n\u00e3o fosse adiado, a equipe do Cianorte teve que emprestar tudo para os jogadores do Gr\u00eamio Oeste, camisa, cal\u00e7\u00e3o, meias e at\u00e9 chuteiras.<\/p>\n<p>Um goleiro teve que jogar na linha, inclusive, lembra Seu Gracindo. Como era de se esperar, o jogo foi bastante truncado e com poucas chances de gol. E, apesar de todas as condi\u00e7\u00f5es adversas, o Gr\u00eamio Oeste venceu o jogo por 1 a 0. Contrariando as apostas do Cianorte, que acreditava estar com a vit\u00f3ria garantida, pois tinha todo o material necess\u00e1rio e o time completo. Com o sorriso no rosto, Seu Gracindo lembra que at\u00e9 hoje quando volta a Cianorte, os jogadores do time da \u00e9poca ainda comentam aquela amarga derrota:<\/p>\n<p>\u2014 Nem n\u00f3s esper\u00e1vamos ganhar aquele jogo. Eles ficaram loucos com a gente. At\u00e9 hoje quando volto l\u00e1 comentam sobre a nossa vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ele ainda conta, rindo \u00e0 toa, que a outra Kombi chegou quando faltavam 10 minutos para acabar a partida:<\/p>\n<p>\u2014 Chegaram s\u00f3 para comemorar.<\/p>\n<p><strong>Uma hist\u00f3ria agridoce\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 1969, Seu Gracindo teve a mais importante aventura futebol\u00edstica de sua carreira. Foi emprestado ao Coritiba para a disputa da Ta\u00e7a Roberto Gomes Pedrosa. Ficou apenas seis meses, mas o suficiente para guardar boas hist\u00f3rias. Quando contava sua experi\u00eancia no time da capital, Seu Gracindo, com um ar nost\u00e1lgico, lembra-se das viagens para o Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte. E foi em uma dessas viagens que ele teve sua melhor atua\u00e7\u00e3o como jogador profissional. Sem hesita\u00e7\u00e3o, ele responde:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, a minha melhor atua\u00e7\u00e3o foi contra o Atl\u00e9tico Mineiro, l\u00e1 em Minas, jogando pelo Coritiba.<\/p>\n<p>Perdido em meio \u00e0s mem\u00f3rias daquela tarde em que ele jogara no Mineir\u00e3o contra um dos melhores times da \u00e9poca, primeiro campe\u00e3o brasileiro dois anos depois, Seu Gracindo lembra que foi a partir daquela atua\u00e7\u00e3o que se firmou na lateral direita do Coritiba. Apesar de jogar bem, as mem\u00f3rias daquele dia n\u00e3o s\u00e3o das melhores. O Coritiba perdeu e Seu Gracindo esteve envolvido diretamente no lance que causou a derrota.\u00a0 O jogo estava 1 a 1 at\u00e9 um p\u00eanalti ser cometido por ele. Mesmo ap\u00f3s mais de 40 anos, ele ainda reclama da arbitragem:<\/p>\n<p>\u2014 Eu acabei fazendo um p\u00eanalti. Quer dizer, eu n\u00e3o fiz o p\u00eanalti, o juiz marcou, mas n\u00e3o foi \u2013 conta ainda indignado com a marca\u00e7\u00e3o \u2013 Eu matei a bola no peito e o juiz disse que eu matei no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao final da competi\u00e7\u00e3o, seu contrato de empr\u00e9stimo tamb\u00e9m acabava e ele deveria retornar ao Gr\u00eamio Oeste. O Coritiba at\u00e9 tentou sua contrata\u00e7\u00e3o em definitivo, lembra Seu Gracindo. Por\u00e9m os altos valores pedidos pelos dirigentes do Gr\u00eamio Oeste impediram que a negocia\u00e7\u00e3o se concretizasse. Entristecido pela oportunidade perdida, Seu Gracindo lembra:<\/p>\n<p>\u2014 O pessoal l\u00e1 quis ganhar dinheiro em cima de mim, sabe? Eles pediram o dobro que o Coritiba ofereceu. N\u00e3o teve conversa.<\/p>\n<p><strong>Finalmente em casa<\/strong><\/p>\n<p>No ano seguinte, o Gr\u00eamio Oeste deixou de existir. Mais uma vez Seu Gracindo ficara sem clube. Mas n\u00e3o por muito tempo. Foi chamado para jogar na Associa\u00e7\u00e3o Pontagrossense de Desportos, clube ent\u00e3o formado pela fus\u00e3o entre Oper\u00e1rio e Guarani. Seu Gracindo vem para Ponta Grossa, onde morava num quartel. Ele jogou at\u00e9 1973 na Pontagrossense, ano de extin\u00e7\u00e3o do clube.<\/p>\n<p>Casado, Seu Gracindo n\u00e3o queria se mudar de novo, por isso aceitou o convite para jogar no Oper\u00e1rio, que iria retomar as atividades ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o da Pontagrossense. Entre 1974 e 1981 ele conciliou a carreira de jogador e seu trabalho na prefeitura. Ap\u00f3s parar de jogar profissionalmente, Seu Gracindo continuou trabalhando na prefeitura, por onde se aposentou. Por\u00e9m, nunca deixou de jogar bola, at\u00e9 hoje Seu Gracindo de ter\u00e7a a domingo bate uma bolinha com seus amigos. E agora sem responsabilidades, com churrasco e cerveja ap\u00f3s a pelada.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesta d\u00e9cada e aposentado, ele volta pro Oper\u00e1rio, dessa vez n\u00e3o mais como jogador, mas para cuidar do gramado e numa esp\u00e9cie de \u201cfaz-tudo\u201d para o clube. Seus companheiros de trabalho agora s\u00e3o outros.<\/p>\n<p>Para Luciano Dobzinske, apelidado por Seu Gracindo de \u201cPolaquinho\u201d, Seu Gracindo \u00e9 uma pessoa muito extrovertida, sempre fazendo piadas e brincando com seus colegas de trabalho. Quando chegamos para a entrevista com Polaquinho, ele estava no carrinho, aparando o gramado e tentando atropelar Seu Gracindo, que fugia \u00e0s gargalhadas. Polaquinho se defende:<\/p>\n<p>\u2014 Ele tentou me atropelar ontem! S\u00f3 estava dando o troco hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carine Cruz e Gabriel Panice O verde que se v\u00ea no campo do Germano Kr\u00fcger n\u00e3o passa despercebido. 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