{"id":1811,"date":"2016-03-19T00:46:38","date_gmt":"2016-03-19T00:46:38","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1811"},"modified":"2016-03-19T00:46:38","modified_gmt":"2016-03-19T00:46:38","slug":"o-cacador-do-terminal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-cacador-do-terminal\/","title":{"rendered":"O \u2018ca\u00e7ador\u2019 do Terminal"},"content":{"rendered":"<p>Por Daniel Schneider<\/p>\n<p>A chuva ca\u00eda naquela tarde, em Ponta Grossa, alternando-se entre uma garoa e pancadas mais fortes, nunca mantendo a mesma intensidade. Os passageiros iam e vinham, cada qual preocupado com seus afazeres e obriga\u00e7\u00f5es, sem prestar muita aten\u00e7\u00e3o ao que estava acontecendo ao seu redor. Os \u00f4nibus lotados entravam e sa\u00edam do Terminal Central, como em qualquer outro dia.<\/p>\n<p>Entre idas e vindas de rostos sisudos, pouco recept\u00edveis a uma conversa com estranhos, um garoto chama a minha aten\u00e7\u00e3o. Franzino, cabelos loiros cortados em \u2018tigelinha\u2019, camisa gola polo listrada e uma mochila presa \u00e0s costas. A julgar pela apar\u00eancia, \u00e9 apenas mais um, dentre muitos meninos de 16 ou 17 anos que passam diariamente pelo terminal de \u00f4nibus, sem nenhum motivo especial para que algu\u00e9m repare nele.<\/p>\n<p>Sentado em um dos poucos bancos dispon\u00edveis nas plataformas, vi esse garoto passar correndo por mim, saindo de um \u00f4nibus vindo do Terminal Uvaranas. Mas n\u00e3o aquela \u2018corridinha\u2019 que voc\u00ea d\u00e1 para chegar ao ve\u00edculo que est\u00e1 saindo, o menino disparava a toda a velocidade pela plataforma, passos largos, sem olhar para tr\u00e1s para ver se havia esbarrado em algu\u00e9m ou ouvir os gritos de \u201cvai tirar o pai da forca?!\u201d.<\/p>\n<p>Olhei ao redor para entender o que estava acontecendo e vi um \u00f4nibus, j\u00e1 de portas fechadas e posto em movimento. O garoto perseguia o carro que havia partido h\u00e1 pouco. Mesmo com o ve\u00edculo andando o menino o perseguia, implac\u00e1vel, obstinado, desviando das pessoas como podia ou as pessoas desviando dele.<\/p>\n<p>Inconsciente do passageiro deixado para tr\u00e1s, o motorista do \u00f4nibus aumentava a marcha, fazendo crescer a diferen\u00e7a entre ambos. Ainda assim o garoto n\u00e3o esmorecia, afoito por chegar em casa, empreendeu o m\u00e1ximo de esfor\u00e7o que conseguia, na esperan\u00e7a de ser visto pelo motorista ou por algum passageiro, o que faria o ve\u00edculo parar para que ele pudesse embarcar. Fiquei a observar os dois, garoto e \u00f4nibus, a se afastarem, tanto de mim quanto um do outro. Foram ficando cada vez menores, at\u00e9 fugirem do meu campo de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa breve ruptura da normalidade dos fatos no Terminal Central, voltei minha aten\u00e7\u00e3o ao \u00f4nibus que demorava a aparecer e \u00e0 chuva, que ia acalmando-se. Mais alguns minutos de espera e a condu\u00e7\u00e3o finalmente apareceu. Dentro do ve\u00edculo, apenas tr\u00eas pessoas, o motor e uma leve garoa quebravam o sil\u00eancio que imperava no lugar. Dentre tantas pessoas dentro do \u00f4nibus, rostos fatigados ap\u00f3s um dia de trabalho, avisto um garoto, franzino, cabelos loiros em \u2018tigelinha\u2019, camisa gola polo listrada e mochila preta \u00e0s costas. O mesmo que eu vira no Terminal correndo atr\u00e1s do \u00f4nibus. Naquele instante, tive ainda mais pena dele. O carro, que tanto se esfor\u00e7ara por alcan\u00e7ar, n\u00e3o era o que ele precisava pegar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Schneider A chuva ca\u00eda naquela tarde, em Ponta Grossa, alternando-se entre uma garoa e pancadas mais fortes, nunca mantendo a mesma intensidade. Os passageiros iam e vinham, cada qual preocupado com seus afazeres e obriga\u00e7\u00f5es, sem prestar muita aten\u00e7\u00e3o ao que estava acontecendo ao seu redor. 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