{"id":1822,"date":"2016-01-06T00:49:40","date_gmt":"2016-01-06T00:49:40","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1822"},"modified":"2016-01-06T00:49:40","modified_gmt":"2016-01-06T00:49:40","slug":"o-embaixador-do-rap","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-embaixador-do-rap\/","title":{"rendered":"O embaixador do Rap"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Melissa Moura e Jos\u00e9 Gabriel Tramontin<\/em><\/p>\n<p>O apelido foi a av\u00f3 quem colocou, justificando que essa foi a primeira palavra que saiu da sua boca. Mal sabia ela que da boca de um homem que at\u00e9 hoje, com 38 anos, \u00e9 chamado pela primeira palavra que falou, saem rimas que pretendem mudar vidas.<\/p>\n<p>O Hip Hop em Ponta Grossa vem crescendo e mostrando for\u00e7a nos \u00faltimos anos. Grupos at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos na cidade j\u00e1 est\u00e3o gravando discos e conseguindo visibilidade em programas de televis\u00e3o e internet. Apresenta\u00e7\u00f5es em outras cidades da regi\u00e3o s\u00e3o frequentes. O Rap princesino j\u00e1 \u00e9 respeitado.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os agentes por tr\u00e1s dessa evolu\u00e7\u00e3o. Um dos principais tem um nome j\u00e1 conhecido, e n\u00e3o tem medo de tomar a frente em qualquer quest\u00e3o que diga respeito ao Hip Hop: Ismael Alves dos Santos, o Gueg.<\/p>\n<p>Natural de Ponta Grossa, Gueg tem um est\u00fadio em um c\u00f4modo de sua casa, onde funciona a sua produtora de rap, a \u201cFabrik\u201d. Localizado na Ronda, a estrutura \u00e9 modesta. Para quem entra na pequena sala, \u00e9 dif\u00edcil acreditar que \u00e9 ali que se realizam sonhos de meninos e homens da cidade inteira. \u00c9 l\u00e1 que ele recebe todo dia muitos garotos dispostos a lutar por reconhecimento e uma vida melhor atrav\u00e9s da m\u00fasica. \u201cO Gueg racha com a galera, enquanto \u2018os boy\u2019 grava em outros est\u00fadios\u201d, conta Jefferson Ara\u00fajo, o Kiko Mc, um dos muitos rapazes que gravam no est\u00fadio da Fabrik.<\/p>\n<p>A casa em que Gueg recebeu a reportagem era mais uma casa comum de bairro ponta-grossense. Casa de periferia. O port\u00e3o que se abriu para a nossa entrada, n\u00e3o corria perfeitamente, e a rampa de acesso ao est\u00fadio era de cimento cru. Ficava evidente que o est\u00fadio havia sido incorporado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o posteriormente. E foi o que Gueg confirmou logo depois<\/p>\n<p>&#8211; Esse est\u00fadio foi constru\u00eddo por mim e pela minha mulher, tijolo por tijolo.<\/p>\n<p>A simpatia e a boa recep\u00e7\u00e3o impressionaram desde os primeiros momentos. Realmente se tratava de uma grande figura p\u00fablica, um embaixador.<\/p>\n<p><strong>\u2018Todo mundo tem as mesmas oportunidades\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Gueg aprendeu a fazer tudo sozinho.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje em dia todo mundo tem as mesmas oportunidades, o cara que quer realizar corre atr\u00e1s de conhecimento e realiza o que quer<\/p>\n<p>Foi pesquisando muito na internet e conversando com amigos que ele aprendeu a masterizar as faixas gravadas, conhecer os equipamentos e alcan\u00e7ar seus objetivos.<\/p>\n<p>Desde 1996 ele organiza excurs\u00f5es para shows de rap em outras cidades, coisa que faz at\u00e9 hoje frequentemente. Todo m\u00eas em seu perfil do Facebook \u00e9 poss\u00edvel encontrar algum convite para excurs\u00e3o, seja para shows no estado ou fora dele. Realmente ele valoriza a cultura de outras localidades, mas tamb\u00e9m pensa que a cultura de sua pr\u00f3pria cidade tamb\u00e9m tem valor fora dela mesma. Tanto \u00e9 que, em 1998 come\u00e7ou a fazer shows pelo estado, com apenas 17 anos. Foi assim que se tornou o maior nome do Hip Hop de Ponta Grossa.<\/p>\n<p>Todo esse esfor\u00e7o j\u00e1 foi premiado em n\u00edvel nacional. Gueg j\u00e1 venceu o pr\u00eamio preto Gh\u00f3ez em 2010, com uma hist\u00f3ria um tanto curiosa. Para aumentar as suas chances de levar para casa o pr\u00eamio de 13 mil reais, ele se inscreveu em todas as categorias. M\u00fasica, v\u00eddeo clipe, site, radio e inclusive a de programa de TV, coisa que nunca havia feito na vida. As etapas do concurso foram passando e ele chegou \u00e0 final em todas, e o resultado foi o mais inesperado poss\u00edvel. Ele ganhou justamente o pr\u00eamio de programa televisivo, com um programa piloto, feito no improviso pela primeira vez em sua vida. O valor foi todo investido no est\u00fadio e em equipamentos.<\/p>\n<p>Resultado disso, hoje ele apresenta o programa Hip Hop PG, produzido pela \u00c9tv, onde abre espa\u00e7o para personagens do cen\u00e1rio Hip Hop princesino exporem seus trabalhos como m\u00fasicas e v\u00eddeo clipes.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca tinha apresentado um programa de televis\u00e3o na vida, mas hoje j\u00e1 estou tranquilo em frente \u00e0s c\u00e2meras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, comanda o site de mesmo nome, no qual posta as produ\u00e7\u00f5es de artistas locais, not\u00edcias de eventos e tamb\u00e9m calend\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>A Fabrik de sonhos<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi f\u00e1cil percorrer toda essa estrada, mas Gueg n\u00e3o se arrepende de nada e ainda tirou muitas li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; O sucesso \u00e9 relativo, qualquer um pode fazer, pois \u00e9 quest\u00e3o de grana. Pra mim, o que importa \u00e9 a rapazeada.<\/p>\n<p>Essa li\u00e7\u00e3o se evidencia quando acompanhamos o seu trabalho no est\u00fadio.<\/p>\n<p>A produtora Fabrik trabalha com um pre\u00e7o \u00fanico: R$ 50,00. Por esse valor \u00e9 poss\u00edvel comprar um<em>\u00a0beat<\/em>(a batida de um Rap) composto por Gueg, gravar uma faixa de composi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ou ainda gravar um clipe de sua m\u00fasica. O valor \u00e9 praticamente irris\u00f3rio comparado ao que est\u00fadios tradicionais cobram pela grava\u00e7\u00e3o de uma faixa. Os servi\u00e7os oferecidos d\u00e3o conta do recado, mesmo feitos com equipamentos relativamente baratos. O steadycam (suporte para a grava\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos em movimento), foi feito por um amigo torneiro mec\u00e2nico, e o seu funcionamento perfeito \u00e9 motivo de orgulho para Gueg.<\/p>\n<p>&#8211; Fui eu que projetei.<\/p>\n<p>Enquanto um rapper grava a sua voz, outros esperam a vez fora do est\u00fadio, atentos a cada detalhe captado pelo. O produtor d\u00e1 o veredito:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ruim, pode gravar de novo.<\/p>\n<p>E assim ele passa o dia, dando conselhos para todos os jovens que passam por ali. \u00c9 tocante o n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o que os garotos recebem.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 mandei um cara vazar daqui e n\u00e3o aparecer mais para gravar nada. O cara j\u00e1 tinha uns cinco discos gravados com umas quinze faixas cada um, mas e da\u00ed? Ficava s\u00f3 nisso, n\u00e3o evoluia, n\u00e3o melhorava de vida!<\/p>\n<p>Gueg j\u00e1 trabalhou em uma empresa de log\u00edstica. Antigamente conciliava o Rap com o trabalho, mas h\u00e1 alguns anos decidiu trabalhar full time com o que ama: o Hip Hop. Tudo o que faz \u00e9 para enaltecer essa cultura e dar esperan\u00e7a na vida de quem precisa. A sua esposa, Patr\u00edcia dos Santos tamb\u00e9m cantava, e acabaram se conhecendo nesse meio. Hoje ela trabalha como agente educacional na penitenciaria estadual, outra ocupa\u00e7\u00e3o para ajudar nas despesas da casa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, ela \u00e9 tudo pra mim. Me apoia em tudo e \u00e9 muito guerreira. Sem falar que \u00e9 super inteligente. Fez um concurso do estado para professora e ficou em primeiro lugar. Sempre foi muito esfor\u00e7ada e estudiosa. Ela \u00e9 demais! Sem ela eu n\u00e3o teria nada disso.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o de ambos \u00e9 muito grande para os desafios encontrados. Incentivos de outras entidades s\u00e3o cada vez mais raros. A prefeitura da cidade n\u00e3o costuma ter em sua programa\u00e7\u00e3o eventos onde o hip hop seja destaque, e n\u00e3o existe nenhum edital que preveja verba para incentivo a esse tipo de produ\u00e7\u00e3o. Nessas situa\u00e7\u00f5es o rap ainda sofre com preconceito.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria que existisse espa\u00e7o para o rap em projetos como o \u2018Sexta \u00e0s Seis\u2019 sabe? Que envolvem mais dinheiro e a cidade toda abra\u00e7a. Ainda somos escanteados em algumas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por esses fatores, a demanda pelo trabalho realizado por Gueg n\u00e3o acaba.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s vezes d\u00e1 uma diminu\u00edda no movimento, mas da\u00ed eu j\u00e1 fa\u00e7o alguma promo\u00e7\u00e3o e a rapazeada j\u00e1 volta a colar aqui no est\u00fadio.<\/p>\n<p><strong>Passeio com um Cidad\u00e3o Honor\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Depois de quase tr\u00eas horas de entrevista, eu pe\u00e7o* para tirar algumas fotos dele e do lugar. Ele liga uma batida e come\u00e7a a ensaiar umas rimas, enquanto isso, eu fotogr\u00e1fo. Mas o ato n\u00e3o dura nem dois minutos. Logo ele interrompe.<\/p>\n<p>&#8211; Preciso buscar minha mulher.<\/p>\n<p>Eu ainda n\u00e3o tinha as fotos, mal tinha arrematado a entrevista. Quase morro de decep\u00e7\u00e3o. Dou um sinal de que tudo bem, vou-me embora, e a\u00ed vem a surpresa:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vai embora n\u00e3o. Vamos comigo buscar ela, \u00e9 coisa de dez minutos. Depois eu me troco e voc\u00ea faz as fotos.<\/p>\n<p>Entramos em um autom\u00f3vel utilit\u00e1rio, que logo ele explica ter comprado para caber todas as bugigangas que precisa levar para os shows. No caminho ele vai me contando mais hist\u00f3rias e identificando os locais por onde passamos. O destino final \u00e9 o bairro Santa Maria, mais especificamente na penitenci\u00e1ria estadual, onde sua esposa j\u00e1 saiu do trabalho.<\/p>\n<p>Olhando para o rel\u00f3gio, descubro que se passaram muito mais de dez minutos sem que eu percebesse.<\/p>\n<p>Gueg \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de hist\u00f3rias, e bom humor. Um guerreiro da periferia que se tornou cidad\u00e3o honor\u00e1rio da cidade em 2013 e reconhecido em todos os cantos pelo seu trabalho invej\u00e1vel em favor n\u00e3o apenas do movimento hip hop, mas tamb\u00e9m por dar oportunidades a pessoas escanteadas por todo o resto da sociedade.<\/p>\n<p>&#8211; O que eu quero \u00e9 que essa rapazeada da periferia fa\u00e7a o seu trabalho, agarre as oportunidades e saia pro mundo. Saia fazendo seus shows, se apresentando. Fa\u00e7am acontecer e n\u00e3o fiquem esperando!<\/p>\n<p>*Gueg foi entrevistado por um dos rep\u00f3rteres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Melissa Moura e Jos\u00e9 Gabriel Tramontin O apelido foi a av\u00f3 quem colocou, justificando que essa foi a primeira palavra que saiu da sua boca. Mal sabia ela que da boca de um homem que at\u00e9 hoje, com 38 anos, \u00e9 chamado pela primeira palavra que falou, saem rimas que pretendem mudar vidas. 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