{"id":1827,"date":"2016-01-06T00:52:37","date_gmt":"2016-01-06T00:52:37","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1827"},"modified":"2016-01-06T00:52:37","modified_gmt":"2016-01-06T00:52:37","slug":"sentados-nas-calcadas-artesaos-de-rua-enfrentam-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/sentados-nas-calcadas-artesaos-de-rua-enfrentam-preconceito\/","title":{"rendered":"Sentados nas cal\u00e7adas, artes\u00e3os de rua enfrentam preconceito"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Lucas Feld<\/em><\/p>\n<p>\u201cO artesanato vem de dentro, de dentro para fora. Voc\u00ea vai descobrindo uma forma de articular as pessoas e o lugar onde passa, porque cada lugar \u00e9 uma mat\u00e9ria diferente. Voc\u00ea vai trabalhar totalmente a mat\u00e9ria que t\u00e1 no lugar. Ent\u00e3o voc\u00ea vai adquirir conhecimento e criatividade\u201d. \u00c9 o que diz Nego Tom, que h\u00e1 15 anos vende seu artesanato em meio \u00e0s andan\u00e7as pela Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Encontrei Nego Tom sentado na sombra de uma \u00e1rvore, na pequena faixa de grama entre o Terminal Central e o fluxo da Vicente Machado. Quando terminei de me apresentar e explicar o que estava fazendo, e puxei o celular pra gravar com Tom, chegou uma menina que fazia furinhos na borda de um tecido emborrachado roxo, com um pequeno alicate. Era Luana, que ficou de croque ao nosso lado. Explico-me novamente e logo come\u00e7o a entrevista-los simultaneamente. Tom \u00e9 do interior de S\u00e3o Paulo e est\u00e1 viajando rumo a Santa Catarina. Luana \u00e9 daqui e diz que o artesanato surgiu h\u00e1 pouco tempo em sua vida.<\/p>\n<p>\u201cFoi o momento que eu me libertei das garras do sistema e fui viver do meu sonho que \u00e9 fazer artesanato. Viver do que \u00e9 seu\u201d, diz ela. Tom arremata em seguida: \u201cprincipalmente do sistema, do capitalismo, da mesmice. A gente trabalha pra gente mesmo, n\u00e3o precisa pagar o imposto e ganhar aquele sal\u00e1rio m\u00ednimo que eles querem pagar pra gente\u201d.<\/p>\n<p>Da boca de Andr\u00e9 Azevedo ouvi: \u201cEu domino modelagem, domino serra de ourives, pintura, aerografia. A parte de trabalho em cord\u00e3o; tecer, macram\u00ea, feston\u00e9, outros pontos. Filigrana, que \u00e9 a amarra\u00e7\u00e3o de metal sem solda. Malhas de metal com argolas, malha inglesa, malha turca, corrente peruana e algumas outras. Nesses 20 anos eu aprendi um bocado de coisa, n\u00e9, cara\u201d. Ele relata o que aprendeu em duas d\u00e9cadas ao som de Bezerra da Silva, que toca em seu celular, e dos \u00f4nibus que manobram atr\u00e1s da grade onde ele se senta.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 conta que \u00e9 de Pelotas, RS, mas vive em Ponta Grossa h\u00e1 sete anos. J\u00e1 viajou por a\u00ed como Tom. Sempre teve sua fonte de renda no artesanato, assim como Valter Dalcol e Juliano Lara. Valter produzia uma pe\u00e7a, recostado na \u00e1rvore, de bermuda e chinelo. Juliano arrumava seus produtos e veio sentar ao nosso lado fugindo do sol.<\/p>\n<p>Pelo Cal\u00e7ad\u00e3o da Coronel Cl\u00e1udio conversei com Jorge Lagadinofe, artes\u00e3o h\u00e1 25 anos. \u201cMera sobreviv\u00eancia, antes foi por op\u00e7\u00e3o agora \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia\u201d, afirma. Ele lembra a regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o por meio de decreto em setembro de 2015. \u201cAgora a gente se tornou profissional\u201d, reitera.<\/p>\n<p><strong>A margem da beleza<br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u201cAqui [ao lado do Terminal Central] a gente n\u00e3o tem problema. Foram nos tirando de l\u00e1 e de c\u00e1. \u2018Aqui n\u00e3o pode, ali n\u00e3o pode, tal, tal, tal&#8230; fiquem ali!\u2019 Nos deixaram aqui, n\u00e3o tem um alvar\u00e1, mas a pr\u00f3pria fiscaliza\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o municipal nos permitiu ficar aqui\u201d, comenta Azevedo sobre o local de trabalho. Segundo ele, os artes\u00e3os de rua sempre ficam \u00e0 margem, no escanteio, mesmo gerando renda no munic\u00edpio. Ele protesta que assim surge a marginaliza\u00e7\u00e3o. \u201cA gente por estar na rua \u00e9 marginalizado o tempo todo. N\u00e3o h\u00e1 um espa\u00e7o legal pra trabalhar, a gente poderia estar trabalhando mais ao centro, pr\u00f3ximo do com\u00e9rcio, da popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Da Igreja dos Polacos at\u00e9 o terminal foram muitos os pontos por onde tentaram vender artesanato, segundo Lara. J\u00e1 Lagadinofe afirma ter licen\u00e7a provis\u00f3ria renovada ano a ano pela Prefeitura. Assim, tem o direito de vender em um dos \u201cquadradinhos\u201d ao lado do Condor, sem se preocupar com fiscaliza\u00e7\u00e3o. Ele divide o espa\u00e7o com mais quatro artes\u00e3os. \u201cEu vendi no antigo Cine-Imp\u00e9rio, na avenida Vicente Machado, arredores do Terminal e depois pelo Brasil todo\u201d; Lagadinofe viajou durante 18 anos pela Am\u00e9rica do Sul e Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>\u201cNem todos os servi\u00e7os s\u00e3o f\u00e1ceis, existe descrimina\u00e7\u00e3o em todos os lugares\u201d, reitera Tom.<\/p>\n<p><strong>Cria\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o<\/strong><strong><br \/>\n<\/strong>\u201cComo posso te dizer, quando a gente tiver com paz dentro do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o hor\u00e1rio melhor pra fazer o artesanato. Ent\u00e3o n\u00e3o tem lugar, n\u00e3o tem hora\u201d, reflete Tom. Luana, por sua vez, diz: \u201ctem muito essa liga\u00e7\u00e3o espiritual, voc\u00ea consigo mesmo. Toda hora \u00e9 hora\u201d. Tom produz pulseiras, filtro dos sonhos e colares. Trabalha com pedras, cord\u00f5es met\u00e1licos, fio encerado, sementes, entre outros.<\/p>\n<p>Segundo Azevedo, parte de seus materiais s\u00e3o encontrados em armarinhos de Ponta Grossa, mas ele tamb\u00e9m coleta outros e reaproveita. Dentre os materiais, utiliza sementes e cascas e recicla rolinho de papel higi\u00eanico para fazer embalagens e metais, com o emprego da t\u00e9cnica da serra de ourives. \u201cTem um investimento, uma parte voc\u00ea compra, outra coleta, recicla\u201d, afirma Tom.<\/p>\n<p>Azevedo produz em casa e na rua, mas fala que \u00e0s vezes fica sem fazer nada, dependendo do momento. Ele reconhece que algumas cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas pelo dom\u00ednio de t\u00e9cnicas, muda-se apenas cores e pe\u00e7as. \u201cUm pulseira de macram\u00ea, que \u00e9 um ponto que a gente faz, vai ser sempre uma pulseira de macram\u00ea, n\u00e3o requer um momento de inspira\u00e7\u00e3o. Tem que fazer pra vender\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucas Feld \u201cO artesanato vem de dentro, de dentro para fora. Voc\u00ea vai descobrindo uma forma de articular as pessoas e o lugar onde passa, porque cada lugar \u00e9 uma mat\u00e9ria diferente. Voc\u00ea vai trabalhar totalmente a mat\u00e9ria que t\u00e1 no lugar. 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