{"id":1840,"date":"2016-01-12T00:59:04","date_gmt":"2016-01-12T00:59:04","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1840"},"modified":"2016-01-12T00:59:04","modified_gmt":"2016-01-12T00:59:04","slug":"a-beleza-da-diversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-beleza-da-diversidade\/","title":{"rendered":"A beleza da diversidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Carine Cruz<\/em><\/p>\n<p>O Coro Cidade Ponta Grossa, em 2015, protestou contra a apropria\u00e7\u00e3o cultural. O termo, muito utilizado nas plataformas online, refere-se \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de uma cultura dominante, como esta apropria-se de certo c\u00f3digo e o usa num contexto diferente do original. Em seu trabalho \u201cNegritude, apropria\u00e7\u00e3o cultural e a \u2018crise conceitual\u2019 das identidades na modernidade\u201d, Lizandra Pinheiro afirma que o termo \u00e9 o \u201cato de se utilizar ou adotar h\u00e1bitos, objetos ou comportamentos espec\u00edficos de uma cultura, por pessoas e\/ou grupos culturais diferentes\u201d.<\/p>\n<p>Com o desafio de entender o conceito de apropria\u00e7\u00e3o cultural o tema anual do Coro foi materializado com o \u201cAbrace, Abra-se\u201d, que partiu da maestrina do Coro, Carla Roggenkamp. Para ela, a sociedade \u201ctem vivido, de forma assustadora, um retrocesso cultural sobre a aceita\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam do outro, de uma realidade que seja religiosa, ideol\u00f3gica, pol\u00edtica, g\u00eanero e de etnia\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, os espet\u00e1culos do Coro priorizam entender o contexto hist\u00f3rico, cultural e musical da obra escolhida. Do folclore brasileiro a can\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XIX da Alemanha, o cuidado em respeitar a arte \u00e9 vital para o espet\u00e1culo. \u201cQuando a gente traz m\u00fasica de outras culturas, nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mostrar para o p\u00fablico que o mundo \u00e9 maior que isso, nossa escolha nunca \u00e9 meramente porque \u00e9 &#8216;bonitinha&#8217;. \u00c9 sempre pensado a partir do hist\u00f3rico, conceito e contexto para que compreendam outras culturas\u201d, afirma Carla.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 complexidade do assunto, o Coro, \u00e0s vezes, enfrenta resist\u00eancia do p\u00fablico, seja por n\u00e3o conhecer a obra ou n\u00e3o entender seu prop\u00f3sito. Carla insiste: \u201cna pr\u00e1tica isso \u00e9 muito dif\u00edcil, por\u00e9m, \u00e9 um trabalho que tem que ser feito. Me chamam de idealista, mas se ningu\u00e9m fizer, para que lado a gente vai?\u201d E explica o prop\u00f3sito do &#8216;Abrace, Abra-se&#8217; \u201co Abra-se \u00e9 exatamente abrir-se para esta experi\u00eancia, tentar ouvir e conhecer coisas diferentes. E o Abrace \u00e9 permitir-se receber alguns dos c\u00f3digos est\u00e9ticos que as pessoas apreciam\u201d.<\/p>\n<p>A maestrina do Coro mostra seu conhecimento quanto ao debate. \u201cA apropria\u00e7\u00e3o, a meu ver, parece um pouco negligente. Uma apropria\u00e7\u00e3o \u00e9 escolher um s\u00edmbolo que para o grupo tenha um car\u00e1ter forte, seja religioso ou ideol\u00f3gico, e colocar numa parede s\u00f3 porque achei \u2018bonitinho\u2019, ou seja, descontextualizar e usar de outra forma. Corrompe-se aquele s\u00edmbolo, seja m\u00fasica, objeto ou um rito\u201d.<\/p>\n<p>Carla ainda diferencia: \u201ca aprecia\u00e7\u00e3o, por outro lado, \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio, se permite gostar, compreender e respeitar a import\u00e2ncia daquele s\u00edmbolo. Ent\u00e3o, quando n\u00f3s trabalhamos m\u00fasicas de outras culturas, a gente tenta falar um pouco do que foi a \u00e9poca, o acontecimento, sua representatividade, mas a nossa proposta ao trazer isso para o palco \u00e9 extremamente estudada. \u00c9 trabalhar a partir do simb\u00f3lico, n\u00e3o foi uma simples imita\u00e7\u00e3o vulgar, a gente estuda contexto, roteiro, o que a gente faz \u00e9 uma releitura, nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 homenagear e trazer ao p\u00fablico o conhecimento de uma outra \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p><strong>O canto da cidade<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">O Coro Cidade de Ponta Grossa foi fundado em 2008 pela Secretaria de Cultura, que tamb\u00e9m apoia o projeto financeiramente. Sob a reg\u00eancia da maestrina Carla Roggenkamp, o grupo tem 24 bolsistas e um estagi\u00e1rio e seu objetivo \u00e9 trazer m\u00fasica para o cen\u00e1rio cultural de Ponta Grossa.<\/p>\n<p align=\"center\">Ao longo dos sete anos de exist\u00eancia, j\u00e1 apresentou desde espet\u00e1culos folcl\u00f3ricos a m\u00fasicas sacras, mostrando sua diversidade. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m comandou g\u00eaneros como \u00f3pera, m\u00fasica latina, cl\u00e1ssica, natalina, entre outros.<\/p>\n<p align=\"center\">Segundo a assessoria do Coro, o objetivo do coral \u00e9 \u201cdisponibilizar uma m\u00fasica de qualidade para a popula\u00e7\u00e3o da cidade nos mais variados g\u00eaneros\u201d.\u00a0 S\u00f3 em 2015, o Coro apresentou 28 espet\u00e1culos. Alguns concertos acontecem em igrejas, pois a ac\u00fastica do local \u00e9 melhor para um coral com 24 cantores diferente de um teatro que, em algumas situa\u00e7\u00f5es, pode abafar o som.<\/p>\n<p align=\"center\">Para o doutorando em F\u00edsica e integrante do Coro Cidade Ponta Grossa, Jo\u00e3o Luiz Gomes, o Coro se difere de outros corais e grupos musicais pela diversidade cultural nas m\u00fasicas. \u201cPor exemplo, no come\u00e7o do ano fizemos um repert\u00f3rio bem brasileiro, ent\u00e3o passamos para um repert\u00f3rio espanhol e agora estamos em um alem\u00e3o, mais europeu\u201d, declara.<\/p>\n<p align=\"center\">Luciana Souza, tamb\u00e9m integrante do Coro, afirma que o diferencial \u00e9 profissionalismo. E completa: \u201cos m\u00fasicos que ela escolhe para a gente interpretar ajudam na qualidade do espet\u00e1culo, como agora, que vamos trabalhar m\u00fasicas do romantismo. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es excelentes que n\u00e3o tocam mais, mas ficaram a\u00ed e a Carla sabe selecion\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\">Para o teste seletivo do Coro \u00e9 necess\u00e1rio dominar a partitura e ter v\u00ednculo com a UEPG ou com a Orquestra. Os bolsistas ganham R$800,00.<\/p>\n<p align=\"center\">A bolsista Mariene Silva v\u00ea a aprecia\u00e7\u00e3o cultural como tentativa de mostrar diversas culturas, trabalhar com o desconhecido num combate ao preconceito cultural. \u201cCom a comercializa\u00e7\u00e3o da m\u00fasica de massa, as pessoas se esquecem de voltar os olhos \u00e0 m\u00fasica mais hist\u00f3rica e elaborada. A m\u00fasica que fazemos \u00e9 para ser ouvida por todos. N\u00e3o existe aquele que \u00e9 \u2018mais ou menos culto\u2019\u201d, afirma.<\/p>\n<p align=\"center\">Os bolsistas do Coro, al\u00e9m de cantarem, fazem parte efetivamente da produ\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos. S\u00e3o eles tamb\u00e9m quem confeccionam o cen\u00e1rio, divulgam, fazem a montagem de palco e ensaiam. O Coro n\u00e3o usa instrumentos, s\u00e3o os cantores que produzem os sons atrav\u00e9s de suas vozes.<\/p>\n<p><strong>Com m\u00e3os de ferro, Carla rege o Coro Cidade Ponta Grossa<\/strong><\/p>\n<p>Carla Roggenkamp \u00e9 natural de Ponta Grossa, tem 38 anos e canta em corais desde os seis. Aos 15 cantava em nove corais, como no Coro Juvenil e, tamb\u00e9m, em coros adultos como da Igreja e Universidade. Na mesma \u00e9poca, Carla assumiu o coro da Igreja Luterana, no qual todos os integrantes eram mais velhos que ela. O desafio, na \u00e9poca, era manejar a lideran\u00e7a num grupo de pessoas mais velhas sendo t\u00e3o nova.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica sempre foi incentivada na casa da maestrina. Carla tem mais duas irm\u00e3s, a mais velha, Maria, \u00e9 professora de m\u00fasica e tamb\u00e9m canta. A mais nova, diferente das outras, n\u00e3o gosta de cantar. Nas palavras de Carla: \u201cela aplaude bem\u201d.<\/p>\n<p>Maria lembra que Carla antes de aprender a falar ou andar j\u00e1 balbuciava algumas melodias e quando crian\u00e7a j\u00e1 come\u00e7ou a cantar e tocar. Hoje, adultas, a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 familiar como profissional. As irm\u00e3s trabalham no Coro, Carla como maestrina e Maria como cantora. Segundo a irm\u00e3 mais velha, elas se veem mais no ambiente de trabalho do que em conv\u00edvio familiar.<\/p>\n<p>Aos 12 anos Carla conheceu Gunda Gutknecht na igreja e desde ent\u00e3o s\u00e3o amigas. As duas, atrav\u00e9s da igreja, formaram o grupo de coral, Delfas, juntamente com mais quatro amigas. O grupo acabou, por\u00e9m, a amizade continuou forte. Ap\u00f3s Carla perder os pais, Gunda diz que se sentiu respons\u00e1vel pela amiga, como uma irm\u00e3.<\/p>\n<p>Carla lembra que, quando terminou o ensino m\u00e9dio, as universidades n\u00e3o ofereciam curso de M\u00fasica. Por isso, sem condi\u00e7\u00f5es de pagar a forma\u00e7\u00e3o fora da cidade, decidiu prestar vestibular para Pedagogia, curso que estudou durante um ano. N\u00e3o sendo seu plano original, j\u00e1 que amava m\u00fasica, Carla trancou o curso e come\u00e7ou a trabalhar com coros de escolas particulares e com o coro infantil da UEPG. Em 1999 surgiu a oportunidade de trabalhar por um ano com o Grupo M, coral itinerante formado por 32 cantores do Brasil.<\/p>\n<p>Em 2001, Carla foi para Curitiba estudar m\u00fasica. Como o curso era pago, a maestrina se bancou na capital dando aulas particulares de canto e em escolas particulares, tamb\u00e9m regendo no coral de Ponta Grossa e na Igreja Luterana de Curitiba, que conseguiu com a indica\u00e7\u00e3o da sede de Ponta Grossa. Depois de se formar, Carla continuou em Curitiba, por\u00e9m, segundo ela a cidade \u201c\u00e9 complicada por ter muita gente e ser muito concorrido\u201d.<\/p>\n<p>Em 2008, a maestrina se apresentou com o Coro Campos Gerais e chamou a aten\u00e7\u00e3o da secret\u00e1ria de cultura da \u00e9poca, Elizabeth Schmidt, que se apaixonou pelo espet\u00e1culo. Elizabeth pediu \u00e0 maestrina que apresentasse um projeto de coral e assim surgiu o Coro Cidade Ponta Grossa.<\/p>\n<p>A integrante do Coro, Josiqueuli Borges Rocha, afirma que Carla \u00e9 \u201cuma pessoa espetacular, tanto profissional como pessoalmente\u201d. Josiqueuli ainda completa que \u201cela tem tranquilidade e seguran\u00e7a na hora de transmitir o que a gente estuda, de estar no palco e mostrar o aprendizado do dia a dia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carine Cruz O Coro Cidade Ponta Grossa, em 2015, protestou contra a apropria\u00e7\u00e3o cultural. O termo, muito utilizado nas plataformas online, refere-se \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de uma cultura dominante, como esta apropria-se de certo c\u00f3digo e o usa num contexto diferente do original. 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