{"id":1853,"date":"2016-04-12T01:07:02","date_gmt":"2016-04-12T01:07:02","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1853"},"modified":"2016-04-12T01:07:02","modified_gmt":"2016-04-12T01:07:02","slug":"em-busca-da-2a-via-do-passaporte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/em-busca-da-2a-via-do-passaporte\/","title":{"rendered":"Em busca da 2\u00aa via do passaporte"},"content":{"rendered":"<p>Por Matheus Dias<\/p>\n<p>Cabelos grisalhos, pele escura, corpo magro, por\u00e9m forte. Rugas que n\u00e3o escondem os 62 anos de vida, com aproximadamente 30 deles vivendo em estradas e rodovias ao longo do Brasil. O homem aqui descrito, e cuja hist\u00f3ria ser\u00e1 contada, abandonou a fam\u00edlia e tudo o que tinha em Camacan, no interior da Bahia, para andar pela Am\u00e9rica do Sul, sem um prop\u00f3sito muito definido.<\/p>\n<p>Este viajante gosta de se identificar por Pai Natureza. Sente sua liga\u00e7\u00e3o com o ch\u00e3o, com a terra, com as plantas, com o verde de maneira t\u00e3o intensa, que todos os utens\u00edlios e roupas que carrega consigo s\u00e3o pintados de verde. At\u00e9 mesmo suas unhas, coloridas com tinta de parede.<\/p>\n<p>Pai Natureza \u00e9 adventista, crist\u00e3o, tem f\u00e9 forte, mas n\u00e3o entra em uma igreja desde que deixou a Bahia h\u00e1 cerca de tr\u00eas d\u00e9cadas. N\u00e3o come carne bovina e nem su\u00edna, mas n\u00e3o rejeita um peda\u00e7o de peixe. Anda, anda e anda. \u00c9 tudo o que o viajante faz.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o acima pode n\u00e3o dar conta das fa\u00e7anhas deste homem, mas o viajante solit\u00e1rio diz j\u00e1 ter passado por todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. Quando foi entrevistado, foi encontrado entre Santo Ant\u00f4nio da Platina e Jacarezinho, cidades do Norte Pioneiro do Paran\u00e1. Por\u00e9m, seu destino anterior, segundo ele mesmo, era a cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>O andarilho tinha um destino definido para sua viagem em curso: Corumb\u00e1, no Mato Grosso do Sul. Dizia que iria para l\u00e1 atr\u00e1s da 2\u00aa via de seu passaporte, para poder entrar na Bol\u00edvia novamente. No entanto, este nosso vizinho da Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o exige passaporte para que brasileiros entrem em seu territ\u00f3rio. N\u00e3o haveria um motivo para que Pai Natureza fosse, portanto, buscar um, ainda mais em Corumb\u00e1. Mas, em seus pensamentos, isso fazia algum sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Marcas do personagem<\/strong><\/p>\n<p>Pai Natureza acredita em tudo o que diz, e criou para si um personagem encantador. O homem de aproximadamente 1,55m de altura anda pelas estradas do Brasil puxando uma carreta de tra\u00e7\u00e3o com ve\u00edculos automotores que, sem carga, deve pesar mais ou menos 200 quilos. Al\u00e9m da carreta, que por si s\u00f3 j\u00e1 pesa consideravelmente, o homem carrega consigo 2 carteiras escolares, um botij\u00e3o de g\u00e1s, dois pneus reservas (com roda), um fogareiro simples, de duas bocas, para utilizar com o fog\u00e3o, panelas, roupas e outros utens\u00edlios. O peso total deve ultrapassar os 350 quilos.<\/p>\n<p>Quando da entrevista com o solit\u00e1rio viajante, experimentei puxar a carreta para sentir na pele o qu\u00e3o dura seria a empreitada. Tive dificuldade para mover a carreta por dois metros, tal seu peso. Pai Natureza diz que viaja aproximadamente dez quil\u00f4metros por dia, descansando aos domingos (ou no dia que acha ser domingo, j\u00e1 que reconhece nem sempre ter no\u00e7\u00e3o do tempo).<\/p>\n<p>Sem GPS, sem documentos, sem celular ou qualquer coisa que o ligue formalmente \u00e0 sociedade ou aos tempos modernos, o Pai sai pelas estradas a perguntar \u00e0s pessoas para que lado fica tal cidade ou tal estrada, sobrevivendo de doa\u00e7\u00f5es, seja de roupas, comida e outras coisas que guarda consigo para levar at\u00e9 a fronteira com a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Era um domingo frio quando aconteceu a conversa com Pai Natureza. Ele vestia agasalho e cal\u00e7as feitas com cobertores velhos costurados, amarrados com um cord\u00e3o grosseiro. Usava na cabe\u00e7a um chap\u00e9u cujo formato lembrava o de Napole\u00e3o. O que mais chamou aten\u00e7\u00e3o foram recortes de revistas que o viajante plastificou e costurou ao peito de sua blusa. Eram dois recortes colados a uma folha de papel: uma mulher de uns 30 anos, e uma menininha, de uns sete anos de idade, ambas modelos.<\/p>\n<p>Perguntei a Pai Natureza se eram filhas dele, e ele disse que sim. \u00c9 improv\u00e1vel, pois eram visivelmente modelos de propaganda de moda, e n\u00e3o tinham qualquer semelhan\u00e7a com sua fei\u00e7\u00e3o. Conforme a conversa prosseguiu, o andante usou as duas mulheres da foto para explicar a l\u00f3gica da natureza. Sua linha de racioc\u00ednio era c\u00edclica. Pai Natureza dizia: \u201cPara que exista a nova (apontando para a menina na foto), a velha (indicando a modelo mais velha) tem que ter existido, e conhecido o diferente [homem]. Se ela fica com uma igual, &#8216;d\u00e1 empate&#8217; e a nova n\u00e3o se cria. A nova \u00e9 a prova da velha, e vice-versa\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei sobre a vida de Pai Natureza. Ele dizia ser casado, lembrava com claras lembran\u00e7as do dia em que se casou, em 82 ou 83, n\u00e3o tinha a data gravada. Havia contra\u00eddo o matrim\u00f4nio em uma igreja adventista de Camacan, morava e trabalhava no campo, em planta\u00e7\u00f5es de cacau. Quis saber por que decidiu largar tudo o que tinha para andar pelo pa\u00eds. Pai Natureza respondia apenas \u201c\u00c9 a prova da fam\u00edlia\u201d. Tentando esmiu\u00e7ar a pergunta para tentar decifrar de que maneira se dava essa prova, fiz mais perguntas. Mas o viajante voltava \u00e0 hist\u00f3ria de nova e velha, retomava a prova\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, e n\u00e3o sa\u00edamos do lugar.<\/p>\n<p>Perguntei ao solit\u00e1rio homem sobre sua fam\u00edlia. Se tinha not\u00edcias, se tinha saudades, se tinha arrependimentos. Essa pergunta foi a \u00fanica que Pai Natureza pensou para responder. Durante alguns segundos, o viajante parece ter voltado a distantes mem\u00f3rias e recuperado coisas que talvez n\u00e3o havia parado para pensar. Estava inquieto e parecia indeciso. At\u00e9 que, de repente, Pai volta a si, enche o peito e fala, com se tivesse raiva: \u201cEu n\u00e3o sei deles n\u00e3o. Mas eles com certeza sabem de mim, porque minhas viagens s\u00e3o hist\u00f3ricas e a fama t\u00e1 correndo pela Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>Percebendo o misto de saudosismo, raiva e indecis\u00f5es de Pai com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, decidi n\u00e3o falar mais sobre o assunto. Perguntei sobre futuro. O que faria depois de chegar a Corumb\u00e1. Pai Natureza, que enquanto convers\u00e1vamos preparava caf\u00e9 em sua panela de press\u00e3o sem tampa, disse: \u201cEu estou cansado. Depois de pegar a 2\u00aa via do passaporte, eu vou parar de andar. Eu vou voltar para a Bahia\u201d.<\/p>\n<p>E assim encerrou-se nossa entrevista. No dia seguinte, passei pela mesma estrada onde nos encontramos, e avistei Pai Natureza parado aproximadamente 10 km antes do ponto onde o vi pela primeira vez. O viajante estava apenas a 1079 km de seu destino no Mato Grosso do Sul, para pegar o passaporte. Depois de conclu\u00edda sua miss\u00e3o, restariam somente mais 2523 km para o grande retorno ao doce lar, em Camacan.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Matheus Dias Cabelos grisalhos, pele escura, corpo magro, por\u00e9m forte. Rugas que n\u00e3o escondem os 62 anos de vida, com aproximadamente 30 deles vivendo em estradas e rodovias ao longo do Brasil. O homem aqui descrito, e cuja hist\u00f3ria ser\u00e1 contada, abandonou a fam\u00edlia e tudo o que tinha em Camacan, no interior da&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":536,"featured_media":1857,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1853"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/536"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1853\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}