{"id":1860,"date":"2016-01-16T01:07:27","date_gmt":"2016-01-16T01:07:27","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1860"},"modified":"2016-01-16T01:07:27","modified_gmt":"2016-01-16T01:07:27","slug":"entre-as-cores-de-cacique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/entre-as-cores-de-cacique\/","title":{"rendered":"Entre as cores de Cacique"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Adriane Hess<\/em><\/p>\n<p><em>&#8220;<\/em>Ponta Grossa possui 65 mil negros, mas aonde voc\u00ea v\u00ea eles? Eles est\u00e3o escondidos!&#8221; A fala \u00e9 de Jos\u00e9 Luiz Teixeira, presidente do instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais e evidencia a dist\u00e2ncia do negro em rela\u00e7\u00e3o ao centro da cidade, onde se concentra a vida c\u00edvica. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o os encontra nos corredores da universidade, voc\u00ea n\u00e3o os encontra nem no cal\u00e7ad\u00e3o da rua.&#8221; Segundo ele, 15% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds se declara racista. Ao mesmo tempo, mais da metade do povo brasileiro \u00e9 negro.<\/p>\n<p>Mas, definitivamente, eles n\u00e3o est\u00e3o escondidos, nem desarticulados. Reunindo praticantes do Candombl\u00e9, membros de quilombos e defensores do movimento negro, a Sociedade Afro-brasileira Cacique Pena Branca existe desde 1988, atuando no endere\u00e7o da Col\u00f4nia Dona Luiza h\u00e1 22 anos.<\/p>\n<p>Com atividades ligadas as religi\u00f5es afrobrasileiras, o grupo n\u00e3o se limita a isso. Os trabalhos no terreiro s\u00e3o apenas uma parte de todo o of\u00edcio que o Cacique Pena Branca exerce na cidade. A equipe \u00e9 totalmente volunt\u00e1ria, desde a limpeza e assist\u00eancia, at\u00e9 as aulas ministradas na sede. Segundo informa\u00e7\u00f5es de membros da Sociedade, cerca de cem pessoas frequentam os trabalhos religiosos por semana. No entanto, ser praticante do candombl\u00e9 n\u00e3o \u00e9 pr\u00e9-requisito para ajudar nas atividades do grupo. Pelo contr\u00e1rio. Ainda que a maioria participe de ambas as partes, o Cacique Pena Branca \u00e9 um espa\u00e7o de converg\u00eancia de pessoas de diferentes movimentos, principalmente os quilombos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O Cacique n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico movimento voltado a cultura negra em Ponta Grossa. O Instituto Sorriso Negro, do qual Jos\u00e9 \u00e9 presidente, atua na cidade h\u00e1 8 anos e tem sua diretoria composta por pessoas de 8 munic\u00edpios. Ainda que em outros momentos o grupo j\u00e1 tenha trabalhado com mais foco na cultura (apresenta\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas, dan\u00e7as t\u00edpicas, entre outras), atualmente o instituto est\u00e1 voltado principalmente a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o racismo atrav\u00e9s de palestras.<\/p>\n<p>Diferente do Cacique Pena Branca, o Sorriso Negro n\u00e3o possui rela\u00e7\u00f5es religiosas. Segundo Teixeira, o grupo busca &#8220;minimizar os conflitos raciais&#8221; na cidade. Conflitos estes, que T\u00e2nia Mara Batista, m\u00e3e de santo e l\u00edder do Cacique, j\u00e1 vivenciou bastante nos 27 anos do grupo.<\/p>\n<p>Segundo ela, h\u00e1 pelo menos 14 anos, o grupo n\u00e3o recebe apoio governamental . Anteriormente, este apoio vinha de um programa do governo federal, que apoiava projetos sociais. E por isso, a Sociedade necessita abrir m\u00e3o de algumas atividades devido a falta de apoio. Um exemplo \u00e9 o estrago feito por uma forte chuva de granizo\u00a0 que causou danos ao telhado da sede, impossibilitando a continuidade do clube de m\u00e3es e do artesanato nos \u00faltimos dois meses.\u00a0 O mesmo acontece com as aulas de inform\u00e1tica para as crian\u00e7as: v\u00e1rios computadores est\u00e3o danificados. Sem verba para conserto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel seguir com as classes.<\/p>\n<p>Os recursos v\u00eam dos esfor\u00e7os dos mesmos volunt\u00e1rios que trabalham pela comunidade. A sociedade arrecada fundos atrav\u00e9s de jantares com pratos t\u00edpicos da etnia, bazares de roupas usadas, e alguns patroc\u00ednios ocasionais. Felizmente, o dinheiro necess\u00e1rio para a reforma do telhado j\u00e1 foi arrecadado, e as atividades paralisadas devido aos estragos devem voltar em janeiro de 2016. Atualmente, apenas as atividades ligadas a religi\u00e3o e a assist\u00eancia e orienta\u00e7\u00e3o a pessoas da comunidade est\u00e3o sendo realizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\"><strong>Um degrad\u00ea de barreiras<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">Um s\u00e9culo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura no Brasil, e no mesmo ano do registro do Cacique Pena Branca, foi criado um clube exclusivo para negros em Ponta Grossa: o Clube Treze de Maio. Segundo o livro Aquarela de Repara\u00e7\u00f5es, da jornalista Marina Demartini (2014), a funda\u00e7\u00e3o do Clube tinha como objetivo reunir a popula\u00e7\u00e3o negra da cidade. A obra, que fala sobre racismo no Brasil e nos Estados Unidos, ilustra, atrav\u00e9s desta rela\u00e7\u00e3o, uma sociedade que h\u00e1 poucos anos trazia exemplos expl\u00edcitos de segrega\u00e7\u00e3o racial, deixando evidente a necessidade de debate e luta contra o racismo institu\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">Por isso tamb\u00e9m a urg\u00eancia de marcar datas como o dia 20 de novembro, dia da Consci\u00eancia Negra, que tem a\u00e7\u00f5es organizadas pela prefeitura mas que nos \u00faltimos dois anos, n\u00e3o teve a participa\u00e7\u00e3o do Cacique, que n\u00e3o foi convidado: &#8220;Muitas coisas n\u00e3o nos convidam, porque a gente tem a nossa maneira de ser. A gente vai vestido no santo, n\u00e3o tem vergonha do que a gente \u00e9.&#8221; J\u00e1 o Instituto Sorriso Negro participou dos atos. Ainda assim, h\u00e1 dois anos, T\u00e2nia recebeu o pr\u00eamio &#8220;Anita Filipovski&#8221; pela sua contribui\u00e7\u00e3o social atrav\u00e9s de seu projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">E o preconceito s\u00f3 aumenta quando associado \u00e0s religi\u00f5es afro-brasileiras. A psic\u00f3loga, Lorene Camargo, apesar de ter a pele branca, conta que basta utilizar objetos que a identifiquem como praticante da Umbanda para sofrer discrimina\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu j\u00e1 recebi olhares que eu sabia que era um olhar de recrimina\u00e7\u00e3o, um olhar pejorativo&#8221;, afirma. T\u00e2nia tamb\u00e9m se queixa do preconceito vindo de praticantes de outras religi\u00f5es: &#8220;A gente mostrou que tamb\u00e9m acreditamos em Deus. Mas, na ignor\u00e2ncia de muitas pessoas que n\u00e3o olham pros lados, vai ter que acontecer muita coisa pra que esse povo acorde&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">Mas ao mesmo tempo em que recebe preconceito de diferentes formas, o Cacique tenta caminhar no lado oposto. O respeito \u00e0s diferen\u00e7as \u00e9 a principal virtude dentro do ambiente. &#8220;A gente n\u00e3o t\u00eam barreiras. Como nossa religi\u00e3o j\u00e1 sofre preconceito, a gente trabalha nesse sentido, pra mostrar uma educa\u00e7\u00e3o para o povo&#8221;, conta T\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\" align=\"center\"><strong>A alma n\u00e3o tem cor<\/strong><\/p>\n<p>Oito anos. Essa \u00e9 a idade com que T\u00e2nia Mara Batista &#8211; Dona T\u00e2nia, para os amigos &#8211; come\u00e7ou a participar de trabalhos dentro do Candombl\u00e9. Podia se resumir a uma fase em sua inf\u00e2ncia, mas o envolvimento com a cultura negra foi al\u00e9m da religi\u00e3o. Uma vez praticante, Dona T\u00e2nia n\u00e3o se contentou apenas em estar dentro dos terreiros. Aos 13 anos, come\u00e7ou a sua hist\u00f3ria de ativista do movimento negro.<\/p>\n<p>Bisneta de uma mulher negra, T\u00e2nia tem a pele branca, o que ainda desperta curiosidade em muitas pessoas: &#8220;Muito branco me pergunta porque eu &#8216;me meto com preto'&#8221;, conta. A resposta \u00e9 descrita com uma palavra: &#8220;Acreditar&#8221;. Ainda assim, os 50 anos de envolvimento com o movimento negro muitas vezes a fizeram questionar valores presentes na sociedade. No entanto, n\u00e3o foi o suficiente para desanimar: &#8220;Eu acho que n\u00e3o importa a cor, os valores s\u00e3o iguais, tanto um como o outro tem capacidade e entendimento de fazer as coisas certas e trabalhamos nisso&#8221;.<\/p>\n<p>Dona T\u00e2nia, acima de tudo, transparece sua f\u00e9. Em cada fala, a cren\u00e7a em seres superiores a fazem seguir como a l\u00edder do Cacique h\u00e1 tanto tempo. &#8220;Deus \u00e9 esp\u00edrito, mas em primeiro lugar \u00e9 amor, a sinceridade, a fidelidade&#8221;: \u00e9 com essa calma e virtudes que ela presta ajuda aos que lhe procuram. Al\u00e9m da parte espiritual, muitas pessoas procuram o centro para pedir conselhos a T\u00e2nia: &#8220;N\u00e3o que a gente v\u00e1 resolver, mas pelo menos dar uma orienta\u00e7\u00e3o pro pessoal n\u00e3o desanimar e ir em frente.&#8221;<\/p>\n<p>Esta f\u00e9, que sempre est\u00e1 presente no trabalho realizado pela casa, agora busca um novo l\u00edder. Devido a problemas de sa\u00fade, Dona T\u00e2nia est\u00e1 em busca de uma nova pessoa para coordenar as atividades do terreiro e da sociedade. N\u00e3o significa um afastamento. Talvez um certo pessimismo com a sua situa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. &#8220;Eu n\u00e3o vim para ficar, eu vim para cumprir a minha miss\u00e3o e sobre a lei de Oxal\u00e1 eu vou. Mas antes, quero deixar tudo arrumado&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Candidatos n\u00e3o faltam: Dona T\u00e2nia tem 320 filhos no santo. Ainda que os trabalhos da Sociedade sejam abertos a pessoas de outras religi\u00f5es, um dos requisitos para assumir a lideran\u00e7a do grupo \u00e9 seguir o Candombl\u00e9. Assim, a mesma pessoa poderia coordenar as duas dimens\u00f5es da institui\u00e7\u00e3o, trabalho que a Dona T\u00e2nia faz desde a funda\u00e7\u00e3o da Cacique Pena Branca.<\/p>\n<p>Mesmo com tantos poss\u00edveis sucessores, a busca continua: &#8220;\u00e0s vezes, um filho tem um dom de um jeito e n\u00e3o tem do outro.&#8221; A procura j\u00e1 completou dois anos e at\u00e9 o momento n\u00e3o tem uma pessoa em vista. Experi\u00eancias negativas durante a vig\u00eancia da Casa a fazem escolher com muita calma o pr\u00f3ximo l\u00edder do grupo. &#8220;A gente levantou essa casa, e quer passar pra uma pessoa que realmente ame a religi\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><em><span class=\"link-https\"><a class=\"external-link\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/open?id=0B8V41W_lQvXOWHcydWVWazVNbWs\">Confira aqui a entrevista com a Dona Tania sobre as atividades da Sociedade Afro-brasileira Cacique Pena Branca.<\/a><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Adriane Hess &#8220;Ponta Grossa possui 65 mil negros, mas aonde voc\u00ea v\u00ea eles? 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