{"id":1880,"date":"2016-01-21T01:15:49","date_gmt":"2016-01-21T01:15:49","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1880"},"modified":"2016-01-21T01:15:49","modified_gmt":"2016-01-21T01:15:49","slug":"a-cura-esta-na-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-cura-esta-na-terra\/","title":{"rendered":"A cura est\u00e1 na terra"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Desir\u00e9e Pechefist<\/em><\/p>\n<p>Sigo na Rua Jos\u00e9 Denezuk, no bairro Ronda, e chego at\u00e9 o Instituto Mantra-Sabedoria Universalista. O chefe do grupo, Rodrigo Caetano, me guiou at\u00e9 a entrada. O ambiente \u00e9 simples, mas bastante aconchegante. Logo de cara, vejo uma l\u00e2mpada azul, que reflete sob um quadro de uma deusa hindu. Ao lado, um quadro inca. Essa mistura se d\u00e1 porque o instituto usa a\u00a0pr\u00e1tica do Sistema Universalista (Universalismo Pr\u00e1tico), que \u00e9 o estudo da filosofia Crist\u00e3, Hindu, Xam\u00e2nica e do Budismo para o despertar da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Sento em um sof\u00e1 xadrez e, em minha frente, observo a esposa de Rodrigo em uma posi\u00e7\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o. Espalhados pela sala, alguns\u00a0instrumentos cheios de simbologias utilizados pelo xamanismo, como filtro dos sonhos, o bast\u00e3o da chuva e\u00a0o chocalho sagrado.<\/p>\n<p>Ao ser questionado sobre as\u00a0atividades realizadas no Instituto, Rodrigo explica: \u201ctemos palestras, medita\u00e7\u00f5es, ora\u00e7\u00f5es e mantras, pois o som \u00e9 cient\u00edfico, ele influencia na parte sentimental do ser humano. N\u00f3s estudamos budismo, hindu\u00edsmo, depende o que a \u00e9poca do ano comemora. Mas a busca \u00e9 por um grupo humanista, onde relacionamos a natureza, mec\u00e2nica celeste, com o pensamento. Uma jun\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da filosofia\u201d.<\/p>\n<p>O instituto, que n\u00e3o tem\u00a0fins lucrativos, \u00e9 aberto a simpatizantes da vida espiritual e esot\u00e9rica.\u00a0 Bastante recente, foi fundando em abril de 2014 e \u00e9 aberto a todos os interessados.<\/p>\n<p>Em novembro, o instituto estava em reformas por conta da segunda \u201csala-luz\u201d do espa\u00e7o. O projeto \u00e9 de uma sala dedicada ao di\u00e1logo inter-religioso e intercultural com base na preserva\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es antigas e na comprova\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica atrav\u00e9s do uso da Ayahuasca.<\/p>\n<p>Rodrigo conta que, motivado pela vontade de ajudar as pessoas e de compartilhar conhecimentos espirituais, o Instituto nasce de uma reuni\u00e3o entre ele e amigos, que decidiram as religi\u00f5es, ensinamentos e doutrinas que seriam estudadas.<\/p>\n<p>Dedicado ao xamanismo, cultura ind\u00edgena, esoterismo, gnosticismo, ufologia, plantas e animais de poder, o grupo utiliza t\u00e9cnicas orientais de medita\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o e mantras com a finalidade do desenvolvimento interior e a comprova\u00e7\u00e3o da espiritualidade humana atrav\u00e9s da Ayahuasca.<\/p>\n<p>Ali, o contato com a natureza\u00a0\u00e9 muito forte. A proposta \u00e9 realizar o xamanismo, adaptando o ambiente das tribos aos centros urbanos. \u201cN\u00e3o existe coisa mais linda do que fazer uma reuni\u00e3o sob o c\u00e9u estrelado, em uma ch\u00e1cara afastada, na luz de uma fogueira, sentindo os esp\u00edritos da natureza e o vento bater em voc\u00ea. Mas o objetivo \u00e9 ajudar as pessoas, e um local afastado n\u00e3o seria de f\u00e1cil acesso, muito menos o grupo chegaria a essa pessoa. Ent\u00e3o fazemos um \u2018xamanismo de sal\u00e3o\u2019, com tambores, chocalhos, defuma\u00e7\u00f5es, mas tudo na cidade\u201d, explica Rodrigo.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O vinho das almas<\/strong><\/p>\n<p>Cip\u00f3 dos mortos, liana dos esp\u00edritos, Daime, Yag\u00e9. V\u00e1rios outros nomes caracterizam a bebida utilizada por tribos ind\u00edgenas sul-americanas para rituais espirituais e de cura, conhecida como\u00a0ayahuasca. No Instituto ela \u00e9 uma ferramenta complementar, um instrumento utilizado como um meio e n\u00e3o um fim, como relata um participante que n\u00e3o quis se identificar.<\/p>\n<p>Para ele, a bebida \u00e9 um interc\u00e2mbio pessoal, mas o fundamental n\u00e3o \u00e9 ela, e sim a espiritualidade.<\/p>\n<p>\u201cA\u00a0ayahuasca compreende coisas que no racioc\u00ednio normal n\u00e3o se v\u00ea l\u00f3gica. \u00c9 um processo f\u00edsico mais r\u00e1pido de compreens\u00e3o, e tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o de se ter acesso a uma conex\u00e3o com o universo. Mas essa experi\u00eancia varia de pessoa para pessoa\u201d, conta.<\/p>\n<p>Rodrigo complementa falando que o objetivo do Instituto \u00e9 ajudar os membros a buscarem a auto realiza\u00e7\u00e3o, e a\u00a0ayahuasca serve de apoio. Para ele, a bebida deve ser usada como meio de ajudar as pessoas a encontrar o pr\u00f3prio caminho, por isso n\u00e3o deve ser algo para se obter lucro, pois a venda indiscriminada faria com que a usassem como droga.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A Ayahuasca vista pela lei<\/strong><\/p>\n<p>A Ayahuasca desencadeou recentemente uma nova vis\u00e3o nacional acerca do seu uso. Em 2008, o\u00a0ministro da Cultura, Gilberto Gil, recebeu representantes dos centros que integram os tr\u00eas troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras solicitando que o Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) instaurasse o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrim\u00f4nio imaterial da cultura brasileira, como m\u00e9todo de preservar formas de express\u00e3o ancestrais.<\/p>\n<p>O objetivo de tornar ayahuasca como Patrim\u00f4nio Imaterial da Cultura Brasileira \u00e9 de lutar pelo pleno reconhecimento de seus direitos culturais e religiosos, contemplando a dimens\u00e3o sociocultural do seu uso. Em maio de 2011, foram realizadas no Acre reuni\u00f5es t\u00e9cnicas do Departamento de Patrim\u00f4nio Imaterial do Iphan com representantes da C\u00e2mara Tem\u00e1tica de Culturas Ayahuasqueiras e da C\u00e2mara Tem\u00e1tica do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco.<\/p>\n<p>Para a ayahuasqueira Ires Elo\u00e1, tornar a Ayahuasca como Patrim\u00f4nio Imaterial e CuItural seria um respeito com a medicina e todos os seus benef\u00edcios e hist\u00f3ria, mas ela acredita que esse processo n\u00e3o traga necessariamente mais respeito por parte da popula\u00e7\u00e3o.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u201cEu achava que ia ser mais uma curti\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Com uma m\u00fasica suave para elevar o estado de consci\u00eancia, come\u00e7a o ritual onde ser\u00e1 servida a Ayahuasca. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 de que os membros fiquem em sil\u00eancio, sem conversas para n\u00e3o atrapalhar o desenvolvimento interior individual. \u00c9 feita uma ora\u00e7\u00e3o de limpeza e defuma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira sess\u00e3o de Ires Elo\u00e1 estaria acontecendo em S\u00e3o Paulo, em 2013, ap\u00f3s ser convidada durante treze meses seguidos pelo dono de um bar que ela costumava frequentar.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre fui uma garota esfor\u00e7ada, sempre trabalhei, estudei, corri atr\u00e1s de meus sonhos. Mas desde meus quinze anos fui usu\u00e1ria de diversos tipos de entorpecentes. At\u00e9 o ano de 2013, aos 23 anos, nunca tive problemas com isso, era um uso recreativo que n\u00e3o me deixava longe do que eu realmente fui, mas comecei a desenvolver tra\u00e7os de s\u00edndrome do p\u00e2nico e depress\u00e3o\u201d, relata.<\/p>\n<p>\u201cNa primeira sess\u00e3o eu tive uma experi\u00eancia que tempos depois fiquei sabendo que se chama cirurgia espiritual. Senti um velho \u00edndio tocando em minhas pernas, \u00e1guias douradas sobrevoando sob minha cabe\u00e7a, e o mal saindo pela energia das m\u00e3os do velho \u00edndio. O toque era t\u00e3o forte que fiquei em duvida se existia algu\u00e9m me pressionando. Quando abri os olhos, os irm\u00e3os estavam sentados cada um em seu cantinho e n\u00e3o havia ningu\u00e9m me tocando. Na hora senti uma alegria e chorei de emo\u00e7\u00e3o\u201d, relembra Ires Elo\u00e1.<\/p>\n<p>A participante conta que cada vez que ela toma o ch\u00e1, as experi\u00eancias s\u00e3o diferentes, e que com o tempo ela p\u00f4de obter outros ensinamentos, como por exemplo, como proceder de uma forma melhor com seus familiares, amar mais as pessoas, querer o melhor de todos, se livrar de apegos e viver em sintonia com a natureza.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea nunca mais ver\u00e1 as coisas como antes, o modo como voc\u00ea vai olhar para as coisas e pessoas \u00e9 como energia e n\u00e3o mat\u00e9ria. Hoje estou gr\u00e1vida e, por recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, n\u00e3o estou tomando o ch\u00e1, mas em casa tenho o apoio de todos, pois minha m\u00e3e viu o bem que o ch\u00e1 me trouxe\u201d.<\/p>\n<p>Com alegria, Elo\u00e1 conta que esses grupos s\u00e3o como uma fam\u00edlia, onde todos s\u00e3o irm\u00e3os e querem o bem do pr\u00f3ximo, mas se entristece em saber que ainda existe muito preconceito, pois as pessoas pensam que \u00e9 um encontro para o uso de drogas. Hoje ela participa de grupos online no Facebook que os frequentadores do Instituto Mantra tamb\u00e9m integram.<\/p>\n<p>\u201cPara mim, \u00e9 um prazer contar minha hist\u00f3ria e falar sobre esse assunto. Eu estava perdida na capital dos malucos (S\u00e3o Paulo), e a medicina da floresta, a Ayahuasca, mudou a minha vida. Os problemas psicol\u00f3gicos e f\u00edsicos que eu tinha, hoje n\u00e3o existem mais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Desir\u00e9e Pechefist Sigo na Rua Jos\u00e9 Denezuk, no bairro Ronda, e chego at\u00e9 o Instituto Mantra-Sabedoria Universalista. O chefe do grupo, Rodrigo Caetano, me guiou at\u00e9 a entrada. O ambiente \u00e9 simples, mas bastante aconchegante. Logo de cara, vejo uma l\u00e2mpada azul, que reflete sob um quadro de uma deusa hindu. 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