{"id":1891,"date":"2016-01-26T01:19:22","date_gmt":"2016-01-26T01:19:22","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1891"},"modified":"2016-01-26T01:19:22","modified_gmt":"2016-01-26T01:19:22","slug":"um-toque-na-alma-por-meio-da-tradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/um-toque-na-alma-por-meio-da-tradicao\/","title":{"rendered":"Um toque na alma por meio da tradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Gabriela Ferreira Gambassi<\/em><\/p>\n<p>O Grupo de Teatro Par\u00e9, fundado em 2014, tem como prop\u00f3sito em suas pe\u00e7as trazer a cultura paranaense aos olhos do p\u00fablico. \u201cO Paran\u00e1 \u00e9 um estado que n\u00e3o tem uma cultura t\u00e3o impregnada no seu povo quanto a gente v\u00ea no Nordeste ou no Rio Grande do Sul, por exemplo, mas a nossa cultura \u00e9 t\u00e3o rica quanto de todos os outros estados do Brasil\u201d, avalia Roberto Simieniaco, integrante do grupo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de trazer elementos da cultura paranaense para o roteiro das pe\u00e7as, o grupo tamb\u00e9m encena hist\u00f3rias e lendas que fazem parte do imagin\u00e1rio do estado e da cidade de Ponta Grossa. Atualmente formado por quatro integrantes &#8211; Roberto Simieniaco, ator e roteirista, Eduardo Godoy, ator e produtor, Ana Baldani, atriz e figurinista, e Amanda Oliveira, atriz e produtora \u2013, o grupo desenvolveu no final de 2015 a pe\u00e7a \u2018S\u00faplicas\u2019, que conta a hist\u00f3ria da santa popular ponta-grossense Corina Portugal.<\/p>\n<p>Nascida no Rio de Janeiro, Corina mudou-se para Ponta Grossa com o marido, o farmac\u00eautico Alfredo Marques de Campos, no segundo semestre de 1884. Viciado em jogos e em \u00e1lcool, Alfredo veio para Ponta Grossa para fugir das d\u00edvidas que fez no Rio de Janeiro e para inaugurar a primeira farm\u00e1cia da cidade, auxiliado pelo doutor Jo\u00e3o D\u00f3ria, na \u00e9poca pol\u00edtico conhecido na cidade.<\/p>\n<p>Corina, por sua vez, era uma mulher muito devota a Deus e, de acordo com excertos de cartas que mandava para o pai, acreditou at\u00e9 o fim que o marido iria mudar para melhor e deixar para tr\u00e1s os v\u00edcios que haviam atrapalhado sua vida no Rio. Por\u00e9m, suas esperan\u00e7as se mostraram infundadas quando ele a assassinou no m\u00eas abril do ano seguinte. Por conta de jogadas pol\u00edticas, ele foi inocentado.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, quando o Cemit\u00e9rio Municipal foi transferido da Pra\u00e7a Bar\u00e3o de Guara\u00fana para a sua atual localidade, o corpo de Corina foi encontrado incorrupto, mesmo vinte anos depois de sua morte. A partir disso, criou-se na cidade o boato de que ela era santa, e at\u00e9 hoje seu t\u00famulo \u00e9 coberto por placas de agradecimento de devotos. \u201c\u00c9 uma lenda local, achamos importante traz\u00ea-la aos olhos do p\u00fablico\u201d, conta Eduardo Godoy.<\/p>\n<p>Ao escrever a dramaturgia para contar a hist\u00f3ria de Corina, Roberto teve dois pontos de inspira\u00e7\u00e3o: o livro\u00a0<em>Hist\u00f3ria de Sangue e Luz<\/em>, do advogado Josu\u00e9 Fernandes\u00a0Corr\u00eaa e o cordel\u00a0<em>Corina Portugal \u2013 a santinha dos Campos Gerais<\/em>, do autor\u00a0Eno Teodoro Wanke. Para a parte c\u00eanica, a inspira\u00e7\u00e3o foi o dramaturgo Jorge de Andrade. \u201cGostei muito da composi\u00e7\u00e3o que ele fazia de cenas paralelas, por isso trabalhei com o quarto e a sala colocados juntos no palco\u201d, explica.<\/p>\n<p>Para os atores, o desafio era trazer aos olhos do p\u00fablico uma personagem hist\u00f3rica, real e t\u00e3o adorada pelos seus devotos. \u201cA dificuldade maior \u00e9 a responsabilidade. A Corina tem v\u00e1rios devotos e o medo de ofender algu\u00e9m \u00e9 bem grande\u201d, relata Ana Baldani, int\u00e9rprete de Corina.<\/p>\n<p>Ela conta que buscou inspira\u00e7\u00e3o em livros de etiqueta da \u00e9poca vitoriana e em personagens de Jos\u00e9 de Alencar, mas que sentiu falta de mais dados em rela\u00e7\u00e3o aos costumes e \u00e0 configura\u00e7\u00e3o de Ponta Grossa na \u00e9poca para a constru\u00e7\u00e3o de Corina.<\/p>\n<p>Mas nem s\u00f3 de desafios foi feita a montagem da pe\u00e7a. \u201c\u00c9 maravilhoso poder reviver esta personagem hist\u00f3rica da nossa cidade e poder levar esse conhecimento para mais pessoas. A empatia com mulheres que sofrem com a viol\u00eancia dom\u00e9stica cresce bastante\u201d, Ana opina.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a estreou no dia 22 de outubro do ano passado e foi bem recebida pelo p\u00fablico, em especial pelos devotos de Corina. O espet\u00e1culo integrou tamb\u00e9m a Mostra Paralela do 43\u00ba Fenata, e contou com casa cheia e aplausos em p\u00e9. \u201cSa\u00ed chorando\u201d, diz a espectadora Cl\u00e1udia Ventura. \u201cA pe\u00e7a toca a gente muito fundo, a hist\u00f3ria \u00e9 extremamente comovente.\u201d E a rea\u00e7\u00e3o de Cl\u00e1udia n\u00e3o \u00e9 uma opini\u00e3o isolada. \u201cA quantidade de p\u00fablico est\u00e1 mostrando como a recep\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo maravilhosa\u201d, conta Ana. Eduardo empolga-se com o acolhimento da cultura. \u201c\u00c9 muito bom ver as pessoas acolhendo e apreciando a cultura da nossa cidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma pe\u00e7a puramente paranaense<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O grupo \u201cPar Seria\u201d, idealizado pelos amigos Roberto Siemieniaco e Andressa Slompo, surge depois do Fenata 2013. Durante o festival, a dupla trabalhou com pe\u00e7as e interven\u00e7\u00f5es de divulga\u00e7\u00f5es. No \u00faltimo dia, depois de apresentar a pe\u00e7a de encerramento para 700 pessoas, \u201cse acendeu a chama\u201d, como conta Roberto.<\/p>\n<p>A primeira pe\u00e7a desenvolvida pela trupe, agora rebatizada de \u2018Par\u00e9\u2019 e contando com mais quatro integrantes (os atores Eduardo Gody e Ana Baldani, o m\u00fasico William Silva e a produtora Jaqueline Albano), estreou quase um ano depois, em outubro de 2014. A hist\u00f3ria escolhida foi o conto de fadas \u201cPor que o Mar Tanto Chora?\u201d. Visando o p\u00fablico infantil, a pe\u00e7a \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u201cOs Tr\u00eas Vestidos\u201d, e a primeira vers\u00e3o teve sua est\u00e9tica inspirada na novela \u2018Meu Pedacinho de Ch\u00e3o\u2019, de Benedito Ruy Barbosa. Em novembro do mesmo ano, a pe\u00e7a fez parte da Mostra Paralela do 42\u00ba Fenata, ganhando o pr\u00eamio de primeiro lugar na modalidade.<\/p>\n<p>No meio do processo criativo, Eduardo apresenta ao grupo a ideia de trabalhar a cultura paranaense. Portanto, na vers\u00e3o produzida pelo Par\u00e9, a Princesa Maria, princesa do Reino de Foz do Igua\u00e7u, se v\u00ea obrigada a casar com o Rei de Tibagi e foge para o Reino da Ilha do Mel onde, durante uma festa junina regada a m\u00fasicas do folclore paranaense, trabalha como criada no castelo. Por fim, ela se apaixona pelo pr\u00edncipe e os dois se casam. \u201cPor que o Mar tanto Chora \u00e9 uma pe\u00e7a puramente paranaense\u201d, diz Roberto.<\/p>\n<p>Sobre os planos para o futuro, o grupo ainda n\u00e3o tem outras pe\u00e7as em vista. Mas isso n\u00e3o significa que ficar\u00e3o estagnados; ainda h\u00e1 muito que se aprimorar em \u2018Por que o Mar tanto chora?\u2019 e em \u2018S\u00faplicas\u2019. \u201cAs pe\u00e7as est\u00e3o sempre se transformando. \u00c9 um processo criativo cont\u00ednuo, acho que nunca vai parar\u201d, diz Roberto.<\/p>\n<p>O importante para o Par\u00e9 \u00e9 n\u00e3o perder de vista suas duas miss\u00f5es: tocar o p\u00fablico e apresentar a cultura do seu estado para os palcos. \u201c\u201cO Par\u00e9 n\u00e3o quer levar s\u00f3 entretenimento. A gente quer tocar a alma das pessoas atrav\u00e9s da arte e a tradi\u00e7\u00e3o de um povo \u00e9 a melhor forma de fazer isso\u201d, constata.<\/p>\n<p>Confira em \u00e1udio um trecho da pe\u00e7a \u201cPor que o Mar Tanto Chora?\u201d, do Grupo Par\u00e9.<\/p>\n<p><span class=\"link-external\"><a class=\"external-link\" href=\"http:\/\/https\/\/drive.google.com\/open?id=0B--TvcbYF5_TaHNmbDBsRFRtTGs\">OU\u00c7A AQUI<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Muitas vidas em um corpo s\u00f3<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong>E quem traz \u00e0 vida tanto Corina quanto a princesa Maria \u00e9 a jovem atriz Ana Baldani. Para os dois personagens em desenvolvimento, a atriz busca inspira\u00e7\u00e3o no m\u00e9todo Stanislavski de atua\u00e7\u00e3o (em que os atores utilizam-se de emo\u00e7\u00f5es e lembran\u00e7as pr\u00f3prias) para a cria\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de Corina e da princesa Maria. Ana, no entanto, foge de inspira\u00e7\u00f5es em pessoas particulares. \u201cO legal do teatro \u00e9 que se voc\u00ea ver o mesmo personagem interpretado por pessoas diferentes, n\u00e3o ser\u00e1 a mesma coisa. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pessoal do ator\u201d, explica.<\/p>\n<p>Com 19 anos e atuando desde os 15, o sonho de ser atriz vem desde o ano de 2006, engatilhado pelo espet\u00e1culo musical \u201cO Fantasma da \u00d3pera\u201d. \u201cSempre gostei muito de arte, mas depois de assistir aquilo, fiquei fascinada. Foi ali que acendeu a chama\u201d, relembra. Ela teve que esperar, por\u00e9m, at\u00e9 2010 para que um curso de teatro abrisse na cidade, no Ateli\u00ea de Artes Cristina S\u00e1. Depois de duas montagens, ela afastou-se do espa\u00e7o e passou um tempo sem atuar.<\/p>\n<p>Em 2013, Ana passou a estudar no Centro de Estudos C\u00eanicos Integrados (Ceci), onde ficou at\u00e9 o primeiro semestre de 2015. L\u00e1, participou de quatro montagens teatrais em g\u00eaneros que variaram da trag\u00e9dia grega at\u00e9 o teatro musical.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das aulas de atua\u00e7\u00e3o, outro aspecto importante da interpreta\u00e7\u00e3o de Ana vem de seu outro talento art\u00edstico: o ballet. Ap\u00f3s 15 anos praticando a dan\u00e7a, ela forma-se como bailarina. Ela avalia que a dan\u00e7a afeta de forma muito significativa seu trabalho como atriz. \u201cA dan\u00e7a proporciona consci\u00eancia corporal e aprimora a capacidade f\u00edsica, o que \u00e9 essencial para o teatro\u201d. Especialmente na interpreta\u00e7\u00e3o da princesa Maria, que tem sua est\u00e9tica baseada na\u00a0<em>commedia dell\u2019arte\u00a0<\/em>(g\u00eanero teatral de movimentos muito estereotipados), a resist\u00eancia f\u00edsica fornecida pelo ballet \u00e9 muito importante para interpretar a personagem da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Sobre o cen\u00e1rio de teatro na cidade ponta-grossense, Ana percebe muitas mudan\u00e7as desde que come\u00e7ou a atuar, cinco anos atr\u00e1s. Depois da chegada das escolas de Curitiba, ela avalia que as pessoas passaram a procurar mais o teatro, e \u00e9 otimista quanto ao seu sucesso e ao sucesso do Par\u00e9 no futuro. \u201cEstamos sendo muito bem recebidos. O Par\u00e9 est\u00e1 dando muitos frutos. \u00c9 muito bom ajudar o cen\u00e1rio teatral ponta-grossense a crescer\u201d, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriela Ferreira Gambassi O Grupo de Teatro Par\u00e9, fundado em 2014, tem como prop\u00f3sito em suas pe\u00e7as trazer a cultura paranaense aos olhos do p\u00fablico. \u201cO Paran\u00e1 \u00e9 um estado que n\u00e3o tem uma cultura t\u00e3o impregnada no seu povo quanto a gente v\u00ea no Nordeste ou no Rio Grande do Sul, por exemplo,&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":536,"featured_media":1895,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[14],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1891"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/536"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1891"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1891\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}