{"id":1907,"date":"2016-04-19T01:29:08","date_gmt":"2016-04-19T01:29:08","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1907"},"modified":"2016-04-19T01:29:08","modified_gmt":"2016-04-19T01:29:08","slug":"marmita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/marmita\/","title":{"rendered":"Marmita"},"content":{"rendered":"<p>Por Daniel Schneider<\/p>\n<p>Todos j\u00e1 tivemos algum animal que marcou nossas vidas. Em algum momento, um bichano, seja ele gato, cachorro, periquito, papagaio, lambari, etc., nos fez rir ou chorar. Animais que nos marcaram pelo jeito bobo, pitoresco, curioso, enfim, que foram \u00fanicos.<\/p>\n<p>Jamais me esquecerei de um cachorro que conheci em meados da d\u00e9cada de 1990. N\u00e3o era propriamente meu animal de estima\u00e7\u00e3o, tampouco tinha um dono. Vivia perambulando pelas ruas, n\u00e3o raro era visto nos terminais de \u00f4nibus, mas era mais comum encontra-lo na rua Bar\u00e3o do Cerro Azul, no ponto de \u00f4nibus em frente ao Baviera.<\/p>\n<p>Sempre se alimentava dos restos das marmitas deixadas pelos trocadores e motoristas do transporte coletivo, vindo da\u00ed o seu nome: Marmita. Vira-lata, amarelo, velho e manco, n\u00e3o me recordo mais quando o vi pela primeira vez, s\u00f3 lembro que ele estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Ao final das aulas, quando ia pegar o \u00f4nibus para voltar para casa, via Marmita deitado ao p\u00e9 de uma pequena \u00e1rvore que ali existia. At\u00e9 aparecer um \u00f4nibus. Ele ouvia o ronco de um motor a diesel e levantava, como um ca\u00e7ador \u00e0 espreita da presa. Quando o carro virava a esquina e parava no ponto, ele come\u00e7ava a latir. A f\u00faria presente em sua voz era tamanha que, por vezes, eu chegava a tremer de medo.<\/p>\n<p>Tentava abafar o som do latido abra\u00e7ando a minha m\u00e3e. Nunca tive muito sucesso nisso. Na esperan\u00e7a de me acalmar, ela dizia que o problema de Marmita n\u00e3o era comigo e sim com os \u00f4nibus. Contou que um dia ele fora atropelado por um, por isso era manco. N\u00e3o acreditava muito na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Diversas vezes pegamos a condu\u00e7\u00e3o em pontos diferentes, para evitar o c\u00e3o que me colocava tanto medo. Tomamos o \u00f4nibus no ponto que ficava ao lado do Col\u00e9gio J\u00falio Teodorico e tamb\u00e9m em um que fica em frente \u00e0 \u201cIgreja dos M\u00f3rmons\u201d. Uma vez, ficamos esperando do outro lado da rua, quando o \u00f4nibus virasse a esquina, atravess\u00e1vamos a rua correndo. Invent\u00e1vamos v\u00e1rios planos para evitar o Marmita.<\/p>\n<p>Ainda que fizesse de tudo para n\u00e3o cruzar o caminho dele, por vezes eu o encontrava em outros lugares. Me recordo de um dia em que estava no Terminal Central e peguei o \u00f4nibus da Palmeirinha para chegar \u00e0 escola. Havia dois lugares vagos pr\u00f3ximos \u00e0 roleta e sentamos ali. Quando olhei para os meus p\u00e9s, avistei o meu velho \u2018companheiro\u2019 deitado sob o banco do trocador. Tranquilo, tirava uma soneca dentro do \u00f4nibus. Nem parecia o cachorro que me metia tanto medo.<\/p>\n<p>Ele acordou e olhou para mim. Fiquei apreensivo, \u2018e se ele resolver me morder?\u2019, pensei, \u2018para onde eu corro?\u2019. Mas ele se limitou a bufar e voltar a dormir. Percebi que o problema dele realmente n\u00e3o era comigo.<\/p>\n<p>Depois desse dia, passei a ver Marmita de um jeito diferente. Ainda tinha medo, mas compreendia quando latia para os \u00f4nibus e os perseguia at\u00e9 o fim da quadra, voltando de peito estufado, orgulhoso por ter afugentado algu\u00e9m maior do que ele.<\/p>\n<p>Passado algum tempo, n\u00e3o via mais Marmita em lugar algum. Curioso, perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e, cad\u00ea o Marmita?<\/p>\n<p>&#8211; Foi atropelado.<\/p>\n<p>Aquela pequena frase me fez entender o quanto a minha vida mudaria dali para frente. Nunca mais ouviria Marmita latir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Schneider Todos j\u00e1 tivemos algum animal que marcou nossas vidas. Em algum momento, um bichano, seja ele gato, cachorro, periquito, papagaio, lambari, etc., nos fez rir ou chorar. Animais que nos marcaram pelo jeito bobo, pitoresco, curioso, enfim, que foram \u00fanicos. 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