{"id":1909,"date":"2016-01-29T01:30:47","date_gmt":"2016-01-29T01:30:47","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1909"},"modified":"2016-01-29T01:30:47","modified_gmt":"2016-01-29T01:30:47","slug":"para-quem-tem-o-que-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/para-quem-tem-o-que-dizer\/","title":{"rendered":"Para quem tem o que dizer"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Mariana Fraga<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A cena do rap ponta-grossense existe h\u00e1 pouco mais de 15 anos. Quem est\u00e1 intensamente envolvido com produ\u00e7\u00f5es e eventos mais recentes percebe que nessa uma d\u00e9cada e meia o cen\u00e1rio sofreu uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es em decorr\u00eancia das pr\u00f3prias transforma\u00e7\u00f5es da cidade e das gera\u00e7\u00f5es que participam da constru\u00e7\u00e3o da cultura hip-hop em geral. \u00a0O rapper e idealizador das Batalhas de Rap do Parque Ambiental Andrey Rotter (Twoclock), percebe que a grande quest\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o atual envolvida na produ\u00e7\u00e3o de rap em Ponta Grossa \u00e9 a monetariza\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio como um todo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u201cO p\u00fablico n\u00e3o est\u00e1 acostumado a comprar o rap, tem o costume de achar que por ser rap tem que ser de gra\u00e7a. Confundem rap com assist\u00eancia social [risos]. N\u00e3o que essa parte n\u00e3o seja importante, eu mesmo j\u00e1 fiz muito evento de gra\u00e7a, mas se voc\u00ea est\u00e1 fazendo um evento numa casa a galera tem que entender que a gente s\u00f3 est\u00e1 querendo pagar as contas\u201d, defende Andrey.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Para Twoclock, que faz rap h\u00e1 cinco anos e at\u00e9 agora recebeu por tr\u00eas eventos, \u00e9 fundamental a compreens\u00e3o do p\u00fablico com rela\u00e7\u00e3o a forte tend\u00eancia de profissionaliza\u00e7\u00e3o dos MCs e a defesa da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica como um trabalho que pode ser remunerado. \u201cNingu\u00e9m trabalha de gra\u00e7a. O p\u00fablico precisa entender que comprando um ingresso, comprando um CD, ele est\u00e1 ajudando um artista e ajudando um artista ele est\u00e1 ajudando a movimentar a cena, porque se o artista tem retorno ele vai fazer mais vezes, ent\u00e3o ter\u00e1 muito mais evento de rap\u201d, relata.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A dupla Philliaz busca um outro tipo de contato com seus ouvintes. A integrante Bianca Oliveira defende que, por estarem no in\u00edcio da carreira e pela proposta do grupo, ambas prezam pelo contato f\u00edsico com a plateia: \u201cAntes de gravar alguma coisa a gente quer dar esse tempo, curtir esse momento que a gente est\u00e1 no boca a boca, sem divulga\u00e7\u00e3o, ver as pessoas ao vivo mesmo para sentir como \u00e9 a mensagem que a gente quer passar, fazer essa presen\u00e7a terrena\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Outra grande quest\u00e3o que permeia a situa\u00e7\u00e3o do rap em Ponta Grossa \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com os espa\u00e7os de apresenta\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s precisar interromper as Batalhas de Rap do Parque Ambiental, Andrey acredita que a maior dificuldade com rela\u00e7\u00e3o ao ganho de espa\u00e7o \u00e9 a dificuldade de se relacionar com outros estilos musicais. \u201cTem muito preconceito dos dois lados, do rap e dos outros estilos. Mas a gente est\u00e1 conseguindo abrir mais espa\u00e7o agora em festas que n\u00e3o tinha antes. Por exemplo ali na Cavan, na Rusty, at\u00e9 no DCE, que antes era imposs\u00edvel imaginar recebendo rap a gente est\u00e1 conseguindo abrir alguns espa\u00e7os\u201d explica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A pesar das conquistas, o dono do home studio mais famoso da cidade, a Fabrik, Ismael Alves dos Santos, conhecido como Gueg pelos amigos desde a inf\u00e2ncia, acredita que a grande vit\u00f3ria da cultura hip hop em geral na cidade seria a constru\u00e7\u00e3o de uma Casa do Hip-Hop. \u201cUma casa como a que tem em Guarapuava ia transformar a cultura em PG. A prefeitura contrataria os caras do hip hop para dar aula para a molecada no contra turno escolar e nesse espa\u00e7o n\u00f3s ter\u00edamos dan\u00e7a, grafitti, rap, oficinas, todas as se\u00e7\u00f5es da cultura hip-hop. Toda essa galera ia estar concentrada, ia ser muito mais organizado. Seria um incentivo \u00e0 cultura e uma a\u00e7\u00e3o de cidadania\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Um cen\u00e1rio em constante transforma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">S\u00edmbolo de resist\u00eancia pol\u00edtica e social, o rap \u00e9 um segmento da cultura marginalizada hip-hop, originalmente norte-americana, reconhecido pela sequ\u00eancia intensa de rimas e pelas batidas singulares que se incorporou a cultura brasileira atrav\u00e9s de milhares de produ\u00e7\u00f5es nacionais de grandes nomes como Emicida, Marcelo D2 e Criolo. O estilo musical se popularizou a partir das d\u00e9cadas de 80 e 90 no Brasil e percebeu uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas em seu cen\u00e1rio desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em Ponta Grossa, essas mudan\u00e7as tamb\u00e9m foram percebidas por quem vive a cena da cultura hip-hop como um todo e, especificamente, do rap. Gueg \u00e9 uma refer\u00eancia para o cen\u00e1rio ponta-grossense. Faz suas pr\u00f3prias m\u00fasicas, produz faixas, \u00e1lbuns, v\u00eddeo clipes e eventos no cen\u00e1rio do rap h\u00e1 mais de 15 anos, embora tenha se formalizado como microempreendedor h\u00e1 apenas dois. \u201cEu sempre fiz trabalhos para mim, dai os outros viam o que eu fazia e pediam tamb\u00e9m. No come\u00e7o a gente gravava de gra\u00e7a porque era tudo entre amigos, depois eu cobrava 15 reais a faixa. Hoje eu cobro R$ 50,00, mesmo assim \u00e9 um pre\u00e7o bem abaixo do mercado\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Ele conta que quando come\u00e7ou na cena os eventos eram feitos de forma bra\u00e7al e percebe uma invers\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es no cen\u00e1rio do rap da cidade: \u201cA gente fazia os eventos no peito. Carregava os quase 15kg de equipamentos de \u00f4nibus para os lugares dos shows\u201d, ressalta. \u201cDuas coisas viraram de ponta cabe\u00e7a de 15 anos para agora: hoje t\u00eam mais de 50 grupos [de rap] na cidade e antes tinha bem pouco. Agora quase n\u00e3o tem p\u00fablico e antes tinha muito p\u00fablico. A cena vai mudando, as pessoas abandonam por uma s\u00e9rie de motivos e n\u00e3o conseguem seguir junto sempre\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Entretanto, as principais mudan\u00e7as percebidas por ele est\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com os artistas e com o pr\u00f3prio rap, as quais ele atribui principalmente a evolu\u00e7\u00e3o das tecnologias: \u201cAntigamente o Centro de Cultura lotava num domingo \u00e0 tarde. Hoje a vibe \u00e9 outra, s\u00f3 lota festa a noite. N\u00e3o que os caras perderam sua responsabilidade dentro do movimento, \u00e9 que as coisas v\u00e3o acontecendo de forma natural, v\u00e3o mudando as gera\u00e7\u00f5es. O mesmo cara que escutava na fita k7 n\u00e3o \u00e9 o mesmo cara que escuta no iphone 6\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Bianca, da Philliaz, acredita que as transforma\u00e7\u00f5es da cena local est\u00e3o levando para uma nova fase do rap em Ponta Grossa e, consequentemente, um crescimento das perspectivas com rela\u00e7\u00e3o ao movimento: \u201cA cena ainda est\u00e1 crescendo. Ela come\u00e7ou bem forte, vinha bastante gente de fora fazer show aqui, mas com o tempo foi diminuindo, era muito intenso e o pessoal foi deixando de ir nos eventos. Eu acho que o p\u00fablico mudou, se renovou. \u00c9 uma galera mais nova que est\u00e1 deixando mais forte de novo\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Duas mulheres e o amor fraternal<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Unidas por um interesse em comum e \u201cmeio por acaso\u201d, as meninas do Philliaz comp\u00f5em e se apresentam juntas desde agosto do ano passado embora ambas residam em cidade diferentes. Morando em Florian\u00f3polis, Karine Machado, 25, cria pe\u00e7as de artesanato com pedras e materiais diversos para vender, al\u00e9m de produzir alguns trabalhos com reciclagem, conta que escolheu o trabalho por um motivo especial: \u201cDecidi fazer isso quando engravidei para ficar perto da minha filha que est\u00e1 com tr\u00eas anos, eu n\u00e3o queria um trabalho de oito horas que me deixasse longe dela\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em Ponta Grossa, Bianca, 22, trabalha com produ\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos, anima\u00e7\u00e3o e fotografia. Aprendeu a trabalhar com equipamentos e t\u00e9cnicas por conta pr\u00f3pria mas espera poder estudar formalmente essa \u00e1rea em um curso superior. Possui tamb\u00e9m um projeto fotogr\u00e1fico de cunho social chamado Flu\u00eancia, que pretende registrar manifesta\u00e7\u00f5es culturais da cidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">As letras de Philliaz, uma refer\u00eancia a amor filial \u2013 amor fraterno \u2013 falam de momentos bons e ruins pelos quais as compositoras passaram e se voltam diretamente a um car\u00e1ter espiritual. \u201cSempre buscamos mostrar algo a mais, para que a gente n\u00e3o fique preso nas coisas terrenas. Sempre buscar a evolu\u00e7\u00e3o, um estado melhor do que a gente est\u00e1, buscar uma sa\u00edda. Acho que as nossas letras sempre mostram que tem uma luz no fim do t\u00fanel, uma luz divina, que a gente tem que pensar para al\u00e9m das coisas terrenas\u201d, explica Karine.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Por serem uma dupla de meninas, a Karine e Bianca contam que, antes de formarem a dupla, passaram por experi\u00eancias desagrad\u00e1veis: \u201cEu como solo participo de batalha de rap e acontece sempre de colocar primeiro a menina para que ela saia primeiro. Geralmente em batalhas s\u00e3o 16 MCs e em quase todas eram quinze homens e eu de mulher. Eu j\u00e1 sabia que ia ser a primeira e muitas dessas batalhas que eu comecei primeiro ia at\u00e9 a final, ganhava ou perdia na final. Quando se est\u00e1 sozinha \u00e9 bem pior, sente mais o preconceito\u201d, relata Karine. \u201cEu j\u00e1 me apresentei sozinha, mas n\u00e3o sentia que estava completa e por ser um meio que tem bastante homens \u00e9 dif\u00edcil mesmo, tem que ter coragem, essa for\u00e7a a gente quer passar. Eu garanto que tem muita menina fazendo rap escondido, eu fazia isso\u201d, conta Bianca.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A pesar de n\u00e3o levantarem bandeiras pol\u00edticas como a do feminismo, a Philliaz se preocupa em transmitir o sentimento de igualdade principalmente para as mulheres envolvidas nesse estilo musical: \u201cO rap \u00e9 para quem tem algo a dizer, algo que fa\u00e7a diferen\u00e7a para voc\u00ea. Eu vejo a import\u00e2ncia de estar nesse movimento tamb\u00e9m pelas mulheres, para que elas possam ver que podem fazer tamb\u00e9m. Eu vejo que muitos homens se surpreendem quando a gente come\u00e7a a cantar, isso j\u00e1 \u00e9 quebrar barreiras\u201d, conta Karine.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Ambas relatam um contato juvenil com o rap atrav\u00e9s de parentes e amigos. Karine conta que sua primeira experi\u00eancia foi atrav\u00e9s de um primo que lhe emprestou uma fita K7 quando tinha nove ou dez anos. J\u00e1 Bianca, narra uma procura mais independente atrav\u00e9s da internet e, posteriormente, em contato com amigos. Para as duas, que sempre gostaram de escrever, ouvir rap levou naturalmente a composi\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias letras, em geral, sobre experi\u00eancias pessoais. Para Bianca, a rela\u00e7\u00e3o com as palavras \u00e9 intimista: \u201cAcredito que todo mundo t\u00eam um poeta dentro de si\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Confira a seguir a m\u00fasica \u201cChave Mestra\u201d de autoria da dupla de rap Philliaz:\u00a0<a href=\"http:\/\/drive.google.com\/open?id=0B67jyOSM7TqEaWc4VmdPTXhtTmR2c2RtYzNnWEktUFNZVXpz\">OU\u00c7A AQUI<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Fraga A cena do rap ponta-grossense existe h\u00e1 pouco mais de 15 anos. 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