{"id":1930,"date":"2016-02-10T01:38:35","date_gmt":"2016-02-10T01:38:35","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=1930"},"modified":"2016-02-10T01:38:35","modified_gmt":"2016-02-10T01:38:35","slug":"crucificados-pelo-sistema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/crucificados-pelo-sistema\/","title":{"rendered":"Crucificados pelo sistema"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Marcelo Mara<\/em><\/p>\n<p>O punk chegou ao Brasil nos \u00faltimos anos da d\u00e9cada de 70 e criou um movimento que acompanhava as inquieta\u00e7\u00f5es da juventude do mundo, principalmente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do Estado, da Igreja da pol\u00edcia e outras institui\u00e7\u00f5es que determinavam padr\u00f5es sociais de comportamento e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tornou-se a contracultura para a d\u00e9cada de 80, rompeu com o ent\u00e3o ultrapassado bucolismo hippie e se inseriu nas grandes cidades em meio a trabalhadores industriais, notadamente jovens e filhos de oper\u00e1rios sem muitas perspectivas na vida, a n\u00e3o ser assumir a posi\u00e7\u00e3o herdada por seus familiares nas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>No Brasil o movimento se espalhou por outras capitais, mas tem um n\u00facleo por excel\u00eancia, a capital paulista. Da regi\u00e3o metropolitana, o Grande ABC, pipocavam manifesta\u00e7\u00f5es sindicais que deram bases pol\u00edticas adotadas pelo movimento punk.<\/p>\n<p><strong>Papel, cola, tesoura e Fa\u00e7a Voc\u00ea Mesmo. O Fanzine, a m\u00eddia punk<\/strong><\/p>\n<p>O fanzine se tornou a pr\u00f3pria literatura punk. Sua confec\u00e7\u00e3o estava envolvida com outra base do movimento, o Fa\u00e7a voc\u00ea mesmo, que incentivava punks a escrever, editar, imprimir e distribuir suas pr\u00f3prias publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os jornais sindicais influenciaram a cria\u00e7\u00e3o dos fanzines, que assumiram a pauta trabalhista dos metal\u00fargicos, somadas aos ideais anarquistas que chegavam por aqui atrav\u00e9s de textos dos pensadores anarquista e militantes libert\u00e1rios.<\/p>\n<p>Everton Ribeiro \u00e9 um punk de Ponta Grossa. Vocalista do Revert\u00e9rio, banda de punk rock criada em 2000, edita o fanzine P\u00e1tria Armada desde 2002 e no momento conta 10 edi\u00e7\u00f5es da publica\u00e7\u00e3o aperi\u00f3dica.<\/p>\n<p>\u201cNo fanzine eu me coloco na fun\u00e7\u00e3o de um jornalista. Penso no conte\u00fado, proponho minhas editorias, pesquiso, cito as fontes dos meus textos, ilustro com meus pr\u00f3prios desenhos, diagramo, monto as p\u00e1ginas com colagem no papel e vou para o processo final, que \u00e9 imprimir a maior quantidade de unidade que eu conseguir e distribuir\u201d, explica Everton.<\/p>\n<p>Tatiane \u2018Tati Punk\u2019 publica poesias punks. Os temas variam de acordo com o momento e est\u00e3o relacionados \u00e0s experi\u00eancias pessoais. \u201cEscrevo sobre o que eu vejo, do que me d\u00e1 raiva. \u00c9 um desabafo agressivo\u201d, diz.<\/p>\n<p>A garota punk j\u00e1 perdeu as contas de quantos poemas publicou desde que come\u00e7ou a imprimir. N\u00e3o pensa em guardar tudo o que j\u00e1 fez e pretende fazer mais.<\/p>\n<p>Tatiane distribui suas poesias em sem\u00e1foros escolhidos por ela. Aborda motoristas e pedestres que nem sempre respondem bem a proposta de trocar uma poesia por uma moeda de qualquer valor. Vive situa\u00e7\u00f5es de preconceito diariamente, por ser punk e por ser mulher.<\/p>\n<p>\u201cFecham os vidros dos carros na minha cara. Pensam que estou pedindo dinheiro, ou que vou assaltar. Tamb\u00e9m t\u00eam os que pensam que s\u00f3 porque eu estou na rua tentando vender o meu trabalho, que eu tamb\u00e9m estou \u00e0 venda\u201d, indigna-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Movimento punk<\/p>\n<p>A garota punk afirma que nunca foi agredida, mas j\u00e1 escapou de algumas tentativas. Everton Ribeiro n\u00e3o teve a mesma sorte e foi esfaqueado por um grupo de punks.<\/p>\n<p>As brigas acompanham a deteriora\u00e7\u00e3o de um movimento de resist\u00eancia a ponto de muitos punks se revoltarem contra o pr\u00f3prio movimento punk. Everton n\u00e3o se furta ao afirmar que em Ponta Grossa n\u00e3o existe movimento punk, admite que em algum momento, pr\u00f3ximo a virada do mil\u00eanio, havia uni\u00e3o entre punks, mas que isso morreu.<\/p>\n<p>\u201cAlguns engajados podem at\u00e9 dizer que o movimento punk sobrevive, mas acho que eles devem relativizar sua pr\u00f3pria exist\u00eancia no punk. Punk acomodado n\u00e3o existe, para estes n\u00e3o h\u00e1 ideologia punk\u201d, lamenta Everton.<\/p>\n<p>Tatiane \u00e9 categ\u00f3rica ao afirmar que n\u00e3o faz parte de movimento punk, e sim que participa do punk movimento, subdivis\u00e3o solit\u00e1ria que prop\u00f5e atitudes pessoais relacionadas ao punk.<\/p>\n<p>\u201cEu ando sozinha. N\u00e3o quero fazer parte de um movimento que n\u00e3o quer fazer nada a n\u00e3o ser brigar, beber e se drogar. Muitas vezes eu evito passar por v\u00e1rios lugares onde os \u2018punks\u2019 est\u00e3o\u201d, relata Tatiane.<\/p>\n<p>Cleber Patinhas \u00e9 um dos punks veteranos de Ponta Grossa. N\u00e3o usa moicano e prefere os cabelos compridos, mant\u00e9m o coturno nos p\u00e9s e a predile\u00e7\u00e3o sonora pelo punk rock. Na d\u00e9cada de 90, publicou fanzines e manteve uma caixa postal para receber e trocar material com outros punks.<\/p>\n<p>Os anos dedicados ao movimento punk foram trocados pela atual nega\u00e7\u00e3o. Patinhas ainda acredita ser um punk, mas os anos dedicados ao movimento tamb\u00e9m lhe custaram \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Patinhas n\u00e3o se rendeu ao emprego formal e h\u00e1 mais de 15 anos sobrevive da venda de acess\u00f3rios confeccionados por conta pr\u00f3pria. Num ponto no cal\u00e7ad\u00e3o vende objetos que podem ser associados \u00e0s est\u00e9ticas hippies, como filtros dos sonhos e outros objetos feitos de sementes e mi\u00e7angas.<\/p>\n<p><strong>&#8216;O movimento punk nunca h\u00e1 de morrer&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>De um dos primeiros discos a reunir bandas punks brasileiras, o \u00e1lbum \u201cSub\u201d, de 1983, saiu um dos hinos do punk rock nacional, a m\u00fasica \u201cDelinquentes\u201d ,do Fogo Cruzado, cujo refr\u00e3o afirma \u201cO movimento punk nunca h\u00e1 de morrer\u201d.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Cristiano se assume como punk e concorda com o verso do Fogo Cruzado que serviu de escola para muitos punks surgidos nos anos seguintes. Andr\u00e9 \u00e9 formado e trabalha com Turismo, comp\u00f5e e toca bateria no Bolores,\u00a0 banda de punk rock que existe desde 2003.<\/p>\n<p>\u201cO movimento punk existe e ele come\u00e7a dentro de cada um. Ser punk n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 usar um moicano e ter um visual, \u00e9 uma atitude que voc\u00ea mant\u00e9m no teu cotidiano. Tem gente que \u00e9 punk e n\u00e3o sabe. N\u00e3o d\u00e1 para generalizar e dizer que tem de ser de tal forma, \u00e9 algo que est\u00e1 dentro de voc\u00ea\u201d, conclui Andr\u00e9.<\/p>\n<p>35 anos se passaram desde as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do movimento punk brasileiro. Hoje o movimento tem sua exist\u00eancia questionada pelos que se dizem punks. Mas certamente h\u00e1 um pouco de atitude punk em toda manifesta\u00e7\u00e3o contra injusti\u00e7as, abusos, opress\u00f5es e pelo reconhecimento de minorias e marginalizados.<\/p>\n<p><strong>Filho do Lixo<\/strong><\/p>\n<p>Andr\u00e9 Cristiano tamb\u00e9m atende por Andr\u00e9 Bolorento. Toca numa banda de punk rock que tem tr\u00eas discos, o mais recente, \u201c\u00c9 uma bosta, mas \u00e9 de cora\u00e7\u00e3o\u201d, foi lan\u00e7ado no come\u00e7o de 2015 e traz a m\u00fasica \u201cFilho do lixo\u201d, composi\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 que provoca e diverte.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e me achou no lixo \/ todo sujo de coc\u00f4 \/ at\u00e9 parecia um bicho \/ ficou com d\u00f3 e me criou \/ \u00e0s vezes penso num motivo e nunca chego a conclus\u00e3o \/ abandonar um rec\u00e9m-nascido \/ jog\u00e1-lo a podrid\u00e3o \/ o lixo me pertence \/ o lixo me traz paz \/ eu amo mais o lixo que meus verdadeiros pais\u201d (Filho do Lixo, Bolores, 2015)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Andr\u00e9 no punk rock se volta aos primeiros anos da d\u00e9cada de 90, quando houve o primeiro contato com as letras das bandas punks nacionais. Desde ent\u00e3o come\u00e7ou a montar bandas e fazer punk rock, ora mais panflet\u00e1rio, ora mais por divers\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcelo Mara O punk chegou ao Brasil nos \u00faltimos anos da d\u00e9cada de 70 e criou um movimento que acompanhava as inquieta\u00e7\u00f5es da juventude do mundo, principalmente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do Estado, da Igreja da pol\u00edcia e outras institui\u00e7\u00f5es que determinavam padr\u00f5es sociais de comportamento e a\u00e7\u00e3o. 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