{"id":2091,"date":"2015-04-29T17:14:37","date_gmt":"2015-04-29T17:14:37","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=2091"},"modified":"2015-04-29T17:14:37","modified_gmt":"2015-04-29T17:14:37","slug":"60-anos-de-prostituicao-em-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/60-anos-de-prostituicao-em-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"60 anos de prostitui\u00e7\u00e3o em Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"<p>Herc\u00edlia Rolim era a rainha da noite de Ponta Grossa no come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo XX. Ao seu comando respondiam meia d\u00fazia de mulheres que frequentemente eram substitu\u00eddas por outras mais jovens ou experientes. Todas estas acompanhantes constam no livro de registros de prostitutas da I Vara Criminal da Comarca de Ponta Grossa. O documento re\u00fane quase 2 mil \u00a0fotos 3&#215;4 com nomes e datas de registros, algumas com RG, outras com dados de origem e local de trabalho, recolhidos pela Delegacia entre os anos de 1950 e 1960.<\/p>\n<p>O documento foi constru\u00eddo com o objetivo de controlar a profiss\u00e3o que tanto incomodava a sociedade pontagrossense na \u00e9poca. Pode-se medir a insatisfa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias se considerarmos a quantidade de reclama\u00e7\u00f5es publicadas pelo jornal Di\u00e1rio dos Campos na coluna &#8220;Do que o povo reclama&#8221;. Era comum em todos os meses aparecer pelo menos uma cita\u00e7\u00e3o de desconforto com a presen\u00e7a de mulheres em bord\u00e9is, casas de toler\u00e2ncia, ruas, hot\u00e9is e pens\u00f5es que permitiam o uso de quartos para a troca de sexo por dinheiro. Parte do trabalho de pesquisa sobre a frequ\u00eancia do tema prostitui\u00e7\u00e3o nos jornais est\u00e1 presente na monografia de Gisele Gaspar, do curso de Hist\u00f3ria, &#8220;Sociabilidade e conflitos: o cotidiano da Boate Chuva de Ouro&#8221;, de 2008.<\/p>\n<p>O preconceito sofrido pelas prostitutas, relatados nas p\u00e1ginas dos jornais e nos olhares raivosos de donas de casa n\u00e3o sofreu tanta diferen\u00e7a se comparado aos dias de hoje. Os discursos sanitaristas se mant\u00eam em torno da transmiss\u00e3o de toda sorte de doen\u00e7as, n\u00e3o apenas as sexualmente transmiss\u00edveis. A pol\u00edcia v\u00ea a profiss\u00e3o associada \u00e0 criminalidade e ao tr\u00e1fico de drogas e busca isolar a atividade para locais e hor\u00e1rios restritos.<\/p>\n<p>Defensores da fam\u00edlia como institui\u00e7\u00e3o moralizadora condenam a liberdade e o com\u00e9rcio do pr\u00f3prio corpo, mas n\u00e3o admitem que a fun\u00e7\u00e3o social da prostitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m envolve o controle da moral familiar, afinal, para cada virgindade feminina mantida, muita prostituta sofreu preconceito. Para cada inicia\u00e7\u00e3o sexual masculina, uma meretriz encontrou uma forma de sobreviv\u00eancia. &#8220;Senhoras de fam\u00edlia tapavam os olhos dos filhos para estes n\u00e3o perceberem &#8220;aquelas mulheres&#8221; com gosto para o \u00e1lcool e o tabaco. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX as p\u00e1ginas dos jornais relatavam constantes reclama\u00e7\u00f5es da sociedade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s prostitutas&#8221;, conclui a professora de Hist\u00f3ria Gisele Gaspar.<\/p>\n<p><strong>Mais cabar\u00e9, mais pol\u00edcia<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1940 Ponta Grossa tinha 50 mil habitantes e vivia um aumento significativo nas pr\u00e1ticas de prostitui\u00e7\u00e3o. Estima-se que havia uma prostituta para cada 25 habitantes. Com isso, aumentou a a\u00e7\u00e3o rigorosa da pol\u00edcia, como a obrigatoriedade de registro na Delegacia, o que comprovava o controle do crescimento da atividade, e o porte da carteira do servi\u00e7o de higiene policial, retirada junto ao Gabinete de Identifica\u00e7\u00e3o, que garantia o controle sanit\u00e1rio. O professor do curso de Hist\u00f3ria Edson Armando Silva mant\u00e9m uma pesquisa sobre a sociabilidade pontagrossense da \u00e9poca. &#8220;A estimativa \u00e9 alta, por mais que n\u00e3o se pode comprovar em n\u00fameros absolutos, mas representa a ebuli\u00e7\u00e3o da cidade, prostitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 progresso. O que tamb\u00e9m explica a concentra\u00e7\u00e3o de casas de meretr\u00edcio nas ruas pr\u00f3ximas \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria. Divers\u00e3o para viajantes e ferrovi\u00e1rios em noites de folga&#8221;, afirma o historiador.<\/p>\n<p>Enquanto aumentava o n\u00famero bord\u00e9is e de pontos de prostitui\u00e7\u00e3o espalhados pelo centro, principalmente nas ruas Engenheiro Schamber, Theodoro Rosas, Fernandes Pinheiro, Tenente Hinon Silva e Rua do Ros\u00e1rio, a pol\u00edcia tentava fechar prost\u00edbulos ou transferir a atividade para regi\u00f5es mais distantes, como o bairro Nova R\u00fassia. A puni\u00e7\u00e3o \u00e0s prostitutas era mant\u00ea-las distante dos olhos da sociedade patriarcal, mas n\u00e3o t\u00e3o distante que n\u00e3o pudessem ser vigiadas pela pr\u00f3pria pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7os de resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 50 os prost\u00edbulos se concentravam nas imedia\u00e7\u00f5es da Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria, mas ainda hoje podemos encontrar na localidade bares nos quais a cerveja custa R$ 15 e que oferecem os mesmos servi\u00e7os. Hot\u00e9is da rua Tenente Hinon Silva ainda alugam quartos para programas combinados nas proximidades, muitos resistem ao tempo e s\u00e3o remanescentes da \u00e9poca em que a cidade parecia ter um meretr\u00edcio intenso.<\/p>\n<p>Claudia, cujo nome real foi preservado, \u00a0trabalha h\u00e1 mais de 30 anos \u00a0nos bares ao redor da antiga Esta\u00e7\u00e3o. Arisca com a reportagem, Claudia n\u00e3o quis informar idade nem o local onde finaliza os encontros combinados no Bar Original, que por coincid\u00eancia se faz vizinho de uma delegacia rec\u00e9m-desativada. &#8220;J\u00e1 trabalhei nestes bares, j\u00e1 tive um bar aqui perto. Teve um tempo bom, l\u00e1 no come\u00e7o era bom, as pessoas respeitavam. Agora s\u00f3 tem movimento \u00e0 noite, e quando tem&#8221;, diz receosa em frente ao bar.\u00a0H\u00e1 poucos metros dali, no Hotel Santa Cruz, uma senhora informa que o estabelecimento n\u00e3o oferece pernoite e que os quartos simples s\u00e3o alugados por per\u00edodos. &#8220;O Hotel j\u00e1 foi um hotel de verdade, esse pr\u00e9dio tem mais de 100 anos, hoje raramente entra algu\u00e9m sozinho, n\u00e3o tem pouso. Exceto para as mulheres que trabalham na rua e que moram aqui&#8221;, afirma a recepcionista que preferiu n\u00e3o se identificar. Uma olhada atenta pelo corredor mostra uma tarde sem movimento no Hotel, as portas dos quartos permanecem abertas e uma mulher pendurando roupas no varal esticado no final do corredor.<\/p>\n<p>Nos pr\u00e9dios de dois andares da rua Engenheiro Schamber os bord\u00e9is se confundiam com casas de show e a sociabilidade masculina envolvia os servi\u00e7os de mulheres selecionadas. No n\u00famero 56, a Boate Chuva de Ouro, propriedade de Herc\u00edlia Rolim, se notabilizou por oferecer bebidas finas e mulheres exclusivas da casa, mon\u00f3logos teatrais com Aracy Balabanian, Dercy Gon\u00e7alves e atra\u00e7\u00f5es musicais, como Virg\u00ednia Lane e o grupo Recuerdos de Ypacara\u00ed, completavam as atra\u00e7\u00f5es frequentemente oferecidas.<\/p>\n<p>O livro com os registros de 10 anos de prostitui\u00e7\u00e3o em Ponta Grossa faz parte do Acervo do Poder Judici\u00e1rio e se encontra sob a tutela do Departamento de Hist\u00f3ria (DEHIS) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). O DEHIS tamb\u00e9m mant\u00e9m processos-crime da \u00e9poca, em alguns h\u00e1 hist\u00f3rias de crimes contra prostitutas, geralmente apoiados na desmoraliza\u00e7\u00e3o da atividade e no consumo de \u00e1lcool como justificativa para atos machistas e violentos.<\/p>\n<p><strong>Processos-crime da \u00e9poca relatam machismo e viol\u00eancia contra prostitutas<\/strong><\/p>\n<p>Noite de 11 de mar\u00e7o de 1938. Na boate de Herc\u00edlia Rolim dois homens se encontraram simultaneamente para arrematar o amor passageiro de Castorina. Esta acompanhava Raul Cribari quando adentrou \u00e0 casa um conhecido cliente. A paisana o Delegado do mun\u00edcipio de Reserva, Tenente Dias, se dirigiu \u00e0 meretriz da mesa de Raul e disse: &#8221; &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode se sentar com este sujeito, pois est\u00e1 comprometida comigo&#8221;.<\/p>\n<p>Diante da recusa de Castorina em trocar de parceiro, Dias foi mais incisivo em separ\u00e1-la. Agarrou-a pelo bra\u00e7o e atravessou o sal\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a um dos quartos da Boate. Com dificuldade Castorina se desvencilhou dos bra\u00e7os do Tenente e armada de uma estatueta tentou acertar o mesmo, agora protegido por seu escudeiro, Alator de Oliveira. A estatueta rasgou o palet\u00f3 de Alator e Raul foi ao encontro de Castorina para libert\u00e1-la da f\u00faria de Dias. Quem apaziguou os \u00e2nimos foi a arma de Alator, apontada para Raul e Castorina que abra\u00e7ados se renderam \u00e0 possibilidade de serem alvejados.<\/p>\n<p>Raul se retirou casa e chamou a pol\u00edcia que logo entrou em a\u00e7\u00e3o. Dias e Alator permaneceram na Boate quando chegaram os policiais, os dois amigos se encontravam ainda mais embriagados do que quando o conflito se originou. A presen\u00e7a da pol\u00edcia n\u00e3o intimidou o Tenente que conhecia e cumprimentava os companheiros de profiss\u00e3o. Castorina, atendendo \u00e0s ordens de Herc\u00edlia, n\u00e3o fez companhia para mais ningu\u00e9m naquela noite.<\/p>\n<p>Quando a noite agonizou frente aos primeiros raios do clar\u00e3o da aurora, um cambaleante Tenente Dias procurava sua prostituta preferida pelos quartos escuros que abrigavam os objetos de prazer da noite anterior. Castorina acordou sufocada sob as bofetadas do Tenente, este de maneira \u00e1gil despiu as vestimentas de Castorina e abriu-lhe as pernas com o intento de ter sexo \u00e0 for\u00e7a. A mocinha quis gritar, mas n\u00e3o conseguiu, no mesmo quarto outras prostitutas assistiam impass\u00edveis a cena, sabiam que o Tenente n\u00e3o era flor que se cheirasse e preferiram se retirar rapidamente. O Tenente n\u00e3o queria penetr\u00e1-la como tradicionalmente Castorina negociava seu corpo, o delegado pressionava contra seu \u00e2nus, numa pr\u00e1tica sexual que Castorina tentava se safar.<\/p>\n<p>Quem impediu o estupro foi a dona da casa, Herc\u00edlia Rolim, que aos gritos separou o casal e expulsou o Tenente. Castorina tinha o corpo coberto de marcas roxas e avermelhadas das m\u00e3os de Dias. A pol\u00edcia novamente foi acionada, agora para resolver outro conflito, no mesmo local em que h\u00e1 poucas horas se retirara.<\/p>\n<p>Os relatos de Castorina foram em v\u00e3o, e o Tenente sequer respondeu pela ocorr\u00eancia do qual fora o causador. Herc\u00edlia n\u00e3o se surpreendeu, ela sabia que o Tenente tinha o h\u00e1bito descer o bra\u00e7o em qualquer mulher que ousasse lhe trair. (texto adaptado de parte do processo 11 de mar\u00e7o de 1938. Boate Chuva de Ouro. Delito: Viol\u00eancia sexual e les\u00f5es corporais. Artigos 303 e 266).<\/p>\n<p>Reportagem de Marcelo Mara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Herc\u00edlia Rolim era a rainha da noite de Ponta Grossa no come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo XX. Ao seu comando respondiam meia d\u00fazia de mulheres que frequentemente eram substitu\u00eddas por outras mais jovens ou experientes. 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