{"id":2873,"date":"2018-05-23T23:21:42","date_gmt":"2018-05-23T23:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=2873"},"modified":"2018-05-23T23:21:42","modified_gmt":"2018-05-23T23:21:42","slug":"uma-historia-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/uma-historia-de-vida\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria de vida"},"content":{"rendered":"<p>Com licen\u00e7a mo\u00e7a, voc\u00ea poderia me arranjar algumas moedas para eu poder\u00a0comprar uma marmita? Estou com muita fome, minha ultima refei\u00e7\u00e3o foi ontem no\u00a0almo\u00e7o, pois ganhei de uma senhorinha alguns trocados. Perdoe-me se lhe assustei, mas\u00a0eu n\u00e3o sei realmente como chegar numa pessoa para pedir esmola sem que ela se\u00a0assuste e eu me envergonhe.<br \/>\nAs pessoas que me veem andando pela rua mal vestido, cheirando mal, pedindo\u00a0dinheiro, muitas das vezes b\u00eabado ou entorpecido com algo il\u00edcito, sempre com fome,\u00a0mendigando por um simples almo\u00e7o, n\u00e3o sabem o porqu\u00ea de eu estar ali naquela\u00a0situa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea realmente acha que eu gosto de viver assim? Nunca parou para pensar\u00a0em milhares de situa\u00e7\u00f5es que poderiam ter acontecido com qualquer um? Pois bem,\u00a0repense em seus atos. N\u00e3o venho at\u00e9 aqui para criticar a \u00edndole de cada um, mas sim,\u00a0para abrir os olhos.<br \/>\nA minha hist\u00f3ria \u00e9 basicamente como a de muitos que acabam indo \u201cmorar\u201d na\u00a0rua. N\u00e3o consigo utilizar o termo \u201cmorador de rua\u201d, pois para mim, morar, significa ter\u00a0um lar com uma fam\u00edlia que te ama e te espera todos os dias. N\u00e3o me orgulho disso, o\u00a0que sinto \u00e9 basicamente uma mistura de vergonha, \u00f3dio e pena de mim mesmo. Eu\u00a0poderia contar minha vida aqui, mas isso proporcionaria um livro enorme e cheio de\u00a0fazes ruins. Um livro, diria eu, que ningu\u00e9m gostaria de ler.<\/p>\n<p>A minha conturbada adolesc\u00eancia foi o marco inicial desta vida amaldi\u00e7oada que<br \/>\ntenho hoje, mais exatamente a partir dos meus dezesseis anos. Eu n\u00e3o faltava aulas, eu\u00a0tinha notas boas, eu era popular na escola, eu beijava v\u00e1rias meninas, eu era um menino\u00a0muito bonito. Mas meu problema n\u00e3o era esse, meu problema era em casa. Eu tive um\u00a0pai alco\u00f3latra que sa\u00eda do trabalho e passava no bar toda tarde antes de ir para casa. Ao\u00a0chegar em casa, aquele homem machista exigia de minha m\u00e3e que a casa estivesse\u00a0limpa e que o jantar ainda quente repousasse sobre a mesa \u00e0 espera dele. Homem este,\u00a0sem valores morais, sem dignidade, sem respeito, mais um daqueles que chegam em\u00a0casa com marcas de batom na camisa e ainda se acham no direito de bater em uma\u00a0mulher pelo fato de ela ter ficado brava com a situa\u00e7\u00e3o e querer alguma satisfa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAp\u00f3s algum tempo vendo isso e me sentindo impotente com esta situa\u00e7\u00e3o, eu<br \/>\nagredi meu pai, mas agredi tanto que acabei o matando. Foram chutes e socos sem fim\u00a0at\u00e9 a sua respira\u00e7\u00e3o parar por completo. Minha m\u00e3e em desespero, n\u00e3o sabia o que\u00a0fazer, ela se perguntava o tempo todo em voz alta se chamava a pol\u00edcia ou se escondia o\u00a0corpo para que meu futuro n\u00e3o fosse interrompido por conta do incidente. Tomei a\u00a0decis\u00e3o mais inimagin\u00e1vel do mundo, eu mesmo chamei a pol\u00edcia e contei o crime que\u00a0eu acabara de cometer contra meu pr\u00f3prio pai.<br \/>\nCom a chegada das viaturas em frente a minha casa, minha m\u00e3e teve um colapso\u00a0e desmaiou. Os policiais achavam que eu estava tentando mata-la tamb\u00e9m e\u00a0imediatamente me imobilizaram e algemaram. Eu estava simplesmente tentando\u00a0reanim\u00e1-la ap\u00f3s o desmaio, mas n\u00e3o obtive sucesso, pois fui impedido, muito menos os policiais e ela morreu ali mesmo. Fui saber da noticia da morte de minha m\u00e3e somente\u00a0depois, na delegacia, onde eu estava sendo interrogado, foi a\u00ed que desabei em choro por\u00a0n\u00e3o compreender muito bem o que tinha feito, muito menos por n\u00e3o poder voltar no\u00a0tempo e desfazer tudo.<br \/>\nEm meio ao meu interrogat\u00f3rio, por mais que eu afirmasse que havia matado\u00a0meu pai para defender minha m\u00e3e das constantes agress\u00f5es que ela sofria em casa,\u00a0ningu\u00e9m acreditava, pois eu fui pego na sena do crime em cima de minha m\u00e3e e com o\u00a0corpo de meu pai ao nosso lado desfigurado de pancadas. Fui interrogado mais de sete\u00a0vezes aquela noite, mas ao menos alguns copos de caf\u00e9 e bolachas me foram dadas para\u00a0suportar a madrugada sem dormir.<br \/>\nPassei tr\u00eas meses detido num abrigo para menores infratores at\u00e9 que meu\u00a0julgamento foi marcado. Meu estado de nervosismo aumentava a cada dia que se\u00a0passava, pois eu sabia que n\u00e3o havia testemunhas oculares para me defender, somente\u00a0vizinhos que haviam ouvido a gritaria no dia do ocorrido. E, no dia 1\u00ba de maio de 1989,\u00a0fui a julgamento. A ju\u00edza tinha um semblante s\u00e9rio e horripilante, tive pesadelos com ela\u00a0por muitas noites ap\u00f3s esse dia.<br \/>\nCondenado a 27 anos de pris\u00e3o por duplo homic\u00eddio doloso, sem ch\u00e3o, sem\u00a0rumo, aceitando esta condi\u00e7\u00e3o, passei 15 anos encarcerado e fui solto por bom\u00a0comportamento. Com exatos 31 anos de idade, rec\u00e9m-liberto da pris\u00e3o, sem casa, sem\u00a0fam\u00edlia, sem amigos, sem ningu\u00e9m para ao menos ouvir minha vers\u00e3o da hist\u00f3ria, me\u00a0tornei \u201cmorador de rua\u201d, usu\u00e1rio de drogas e \u00e1lcool.<br \/>\nPor mais que eu tente ser contratado para qualquer tipo de trabalho, e olha que\u00a0eu tentei in\u00fameras vezes, eu jamais consegui, a n\u00e3o ser alguns bicos limpando cal\u00e7adas\u00a0ou terrenos. A nossa sociedade n\u00e3o est\u00e1 apta para receber e incorporar, pessoas que\u00a0passaram por um sistema de reabilita\u00e7\u00e3o social, no cotidiano dela. Mas isso \u00e9 s\u00f3 mais\u00a0uma das nossas tristes realidades desiguais desta sociedade hip\u00f3crita.<br \/>\nEu lhe pe\u00e7o um milh\u00e3o de desculpas por ter ficado aqui esse tempo todo falando\u00a0de minha vida, mais precisamente, desabafando em seus ombros. Tamb\u00e9m lhe agrade\u00e7o\u00a0por ter me doado esta singela nota de dinheiro, que j\u00e1 \u00e9 mais do que suficiente para\u00a0pagar meu almo\u00e7o. A senhora sabe que com o troco eu, provavelmente, vou beber ou\u00a0me drogar, mas seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 bom e compreens\u00edvel. Que deus aben\u00e7oe voc\u00ea e sua\u00a0fam\u00edlia. Como n\u00e3o tenho fam\u00edlia, desejo do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o que todas as outras\u00a0deem certo, principalmente para que ningu\u00e9m tenha que passar pelo que passei. Tenha\u00a0um bom dia e at\u00e9 mais!<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Mikulis, S. A.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com licen\u00e7a mo\u00e7a, voc\u00ea poderia me arranjar algumas moedas para eu poder\u00a0comprar uma marmita? Estou com muita fome, minha ultima refei\u00e7\u00e3o foi ontem no\u00a0almo\u00e7o, pois ganhei de uma senhorinha alguns trocados. 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