{"id":2942,"date":"2018-06-07T23:57:15","date_gmt":"2018-06-07T23:57:15","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=2942"},"modified":"2018-06-07T23:57:15","modified_gmt":"2018-06-07T23:57:15","slug":"tres-horas-e-trinta-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/tres-horas-e-trinta-dias\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas horas e trinta dias"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Era quase mensal. Assoviava no port\u00e3o ou batia palmas, como se n\u00e3o fosse \u00edntimo. Camisa engomada com os dois primeiros bot\u00f5es sempre abertos. Cal\u00e7a vincada e sapatos impec\u00e1veis. O sol da tarde parecia arredondar ainda mais o seu sorriso. Dentes separados e aquela impress\u00e3o de sempre estar de boca cheia, s\u00f3 n\u00e3o mais caracter\u00edsticos que o pingente sobre os pelos do peito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Minha m\u00e3e sondava as palmas entre as cortinas, acostumada com os pedidos de comida, dinheiro ou que tiv\u00e9ssemos em casa. Reconhecida a figura, sorria e trocava o olhar c\u00famplice comigo de quem j\u00e1 sabia aonde a tarde terminaria. Assim que o port\u00e3o abria eu j\u00e1 escutava as garrafas apertadas no saco de mercado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abra\u00e7os depois, ele sentava na mesma cadeira na mesa da cozinha, minha m\u00e3e n\u00e3o precisava nem convidar. Ent\u00e3o puxava um cigarro. Era meu sinal para correr na estante e trazer o cinzeiro de barro, objeto que, l\u00e1 em casa, al\u00e9m de enfeite suspeito, s\u00f3 tinha utilidade para aqueles dias. J\u00e1 fumando, me agradecia entregando os doces que dividiam o espa\u00e7o com as cervejas na sacola. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Seguia o ritual lembrando o r\u00e9veillon em que me contou quase integralmente um filme de mais de tr\u00eas horas &#8211; mais velho, descobri que se tratava do cl\u00e1ssico Ben-Hur. Falava, ria e dava mais uma boa tragada no cigarro. Nesse \u00ednterim, minha m\u00e3e j\u00e1 havia aberto uma garrafa e ele completava o roteiro bebendo o primeiro e generoso gole de cerveja.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Perguntava sempre do meu pai, mesmo sabendo onde ele estaria, naquele hor\u00e1rio e naquele dia da semana. A conversa com minha m\u00e3e seguia o protocolo &#8211; como voc\u00eas est\u00e3o? &#8211; e voc\u00ea, como est\u00e1? Outra deixa para outro movimento meu, ir para o quarto at\u00e9 o pr\u00f3ximo passo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Era o tempo de as cervejas acabarem. Quanto mais demorava, mais pastosa era a voz que me chamava. \u201cVai l\u00e1 e pega mais tr\u00eas pra n\u00f3s\u201d. Eu achava curioso aquele <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">n\u00f3s<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Minha m\u00e3e nunca bebia da cerveja dele, ent\u00e3o eu pensava que tinha algo a ver comigo, fazia cara de quem havia entendido uma piada, contava o dinheiro e partia agoniado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eu tentava voltar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, talvez n\u00e3o desse tempo de acontecer, ou, se eu demorasse, j\u00e1 teria passado. Mas nunca funcionou. Toda vez que eu voltava, l\u00e1 estava meu tio em prantos. Consolado pela minha m\u00e3e, lamentava entre um trago e outro. Eu me aproximava, colocava as cervejas na mesa e tentava n\u00e3o chorar junto. Ele me agradecia e eu voltava para o quarto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">L\u00e1 pelas seis horas era minha m\u00e3e que me chamava. Meu tio estava indo embora. J\u00e1 n\u00e3o era aquele homem seguro e contente de horas tr\u00e1s. Outro bot\u00e3o da camisa havia se aberto, o sorriso j\u00e1 n\u00e3o se sustentava, tal como ele. Negava o pouso, agradecia minha m\u00e3e e deixava lembran\u00e7as para o meu pai. Do port\u00e3o, nossos olhares o seguiam at\u00e9 a esquina, onde dobrava at\u00e9 o m\u00eas seguinte.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era quase mensal. Assoviava no port\u00e3o ou batia palmas, como se n\u00e3o fosse \u00edntimo. Camisa engomada com os dois primeiros bot\u00f5es sempre abertos. Cal\u00e7a vincada e sapatos impec\u00e1veis. O sol da tarde parecia arredondar ainda mais o seu sorriso. 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