{"id":3419,"date":"2019-03-08T18:44:23","date_gmt":"2019-03-08T18:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=3419"},"modified":"2019-03-08T18:44:23","modified_gmt":"2019-03-08T18:44:23","slug":"eu-acho-que-sempre-fui-feminista-mesmo-sem-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/eu-acho-que-sempre-fui-feminista-mesmo-sem-saber\/","title":{"rendered":"Eu acho que sempre fui feminista, mesmo sem saber"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Sempre achei muita coisa que me falavam sobre o que era ser mulher errado. Como toda mulher fui criada pra ser dona de casa, m\u00e3e de fam\u00edlia e uma mo\u00e7a direita. Cresci e vi que n\u00e3o quero ser nada disso, e o melhor, que eu posso ter essa escolha. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Hoje eu consigo parar e refletir sobre os momentos espec\u00edficos da minha inf\u00e2ncia em que eu tomei decis\u00f5es que tinham o car\u00e1ter de uma feminista. Acho que o primeiro deles foi quando v\u00e1rios meninos da minha escola decidiram me atormentar puxando meu cabelo, j\u00e1 que eu usava ele num rabo de cavalo, e corriam igual loucos para o banheiro masculino pensando que l\u00e1 estariam seguros da minha ira. Ali\u00e1s, todas as meninas foram ensinadas que n\u00e3o deveriam de maneira alguma entrar l\u00e1. Mas n\u00e3o eu. Nunca tive medo de um mero espa\u00e7o com uma placa que dizia \u201cmasculino\u201d. Eu fui a menina que aprendeu a correr muito r\u00e1pido pra ir atr\u00e1s dos meninos que puxavam seu cabelo e que batia neles dentro do ref\u00fagio do banheiro s\u00f3 pra eles passarem vergonha. Pelo menos eles aprenderam a n\u00e3o mexer mais comigo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Outro momento em que me vi feminista foi nas v\u00e1rias idas a diretoria por usar roupas curtas no col\u00e9gio. Como eu vim de uma cidade litor\u00e2nea sempre sofri bastante com o calor e justamente por ser \u201ccalorenta\u201d nunca me acomodei em usar cal\u00e7as nos dias em que a temperatura m\u00ednima era de 29 \u00baC. Por esse motivo fui levada a diretoria v\u00e1rias vezes a pedido de uma diretora muito conservadora que dizia que ao mostrar minhas pernas eu distraia os meninos e que desta forma eles n\u00e3o iriam prestar aten\u00e7\u00e3o no conte\u00fado de sala de aula. Eu com uns 11 anos de idade achava um absurdo o fato de que as minhas pernas sem um tecido cobrindo elas eram motivo de castigo. Al\u00e9m do castigo \u00f3bvio de ir pra diretoria, eu achava um castigo enorme eu ter que usar cal\u00e7as no ver\u00e3o. N\u00e3o conseguia compreender como uma cal\u00e7a justa como a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">legging<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> era permitida, mas mostrar as pernas n\u00e3o. Essas idas a diretoria foram cont\u00ednuas at\u00e9 o t\u00e9rmino do ensino m\u00e9dio. Ainda bem que isso nunca me abalou, nunca passei calor (mais do que deveria) e nunca fui expulsa por isso. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Sempre fui a menina que quando achava alguma injusti\u00e7a confrontava os meninos. J\u00e1 bati em muito menino que fez algo de errado pra mim. J\u00e1 puxei muita orelha. Talvez essa fosse a minha maneira de conseguir com que eles me tratassem de igual para igual. Hoje n\u00e3o acho t\u00e3o certo algumas decis\u00f5es que tomei, mas sei que me tornaram a mulher feminista que sou hoje. J\u00e1 brinquei de muita brincadeira de menino, j\u00e1 me vesti igual a um menino e j\u00e1 me comportei igual a um menino. Isso s\u00f3 me faz pensar o tamanho da repress\u00e3o que n\u00f3s mulheres vivemos. Hoje posso dizer que fiz tudo isso porque sou mulher. Porque eu posso brincar do que eu quiser, porque eu posso me vestir da maneira que eu quiser e que eu posso ter as mesmas atitudes que um homem tem. Hoje eu sei que \u201cser mulherzinha\u201d n\u00e3o \u00e9 xingamento e n\u00e3o \u00e9 fraqueza. \u00c9 um elogio que deve ser feito quando o assunto tratado \u00e9 sobre ser incr\u00edvel. Ali\u00e1s, ser mulher \u00e9 incr\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se eu pudesse dizer algo a pequena feminista que existia dentro de mim seria em n\u00e3o ter medo de ser quem eu sou por causa do meu g\u00eanero. Eu sei que muita coisa de ruim acontece por este mesmo motivo, mas isso n\u00e3o \u00e9 certo. N\u00e3o devemos pensar que somos inferiores e nos submeter a situa\u00e7\u00f5es horr\u00edveis por isto. Uma coisa muito valiosa que eu aprendi nessa minha breve jornada foi que por onde voc\u00ea passa, uma mulher j\u00e1 passou pelas mesmas experi\u00eancias que voc\u00ea ent\u00e3o se esse texto serve de algum tipo de conselho paras as pequenas feministas que existem dentro de n\u00f3s e que devem ser despertadas aqui vai: N\u00e3o se deixe apagar a luz de dentro de voc\u00ea por medo de viver, por medo de ser mulher. Cuide de si mesma, esteja rodeada de mulheres, consuma coisas feitas por mulheres. Muita coisa da nossa hist\u00f3ria foi apagada, n\u00e3o vamos deixar que isso continue deste jeito. Seja quem voc\u00ea quiser ser e ajude mulheres a entender que elas podem tamb\u00e9m ser quem elas quiserem. E como disse Mary Kom \u201cN\u00e3o diga que voc\u00ea \u00e9 fraca, porque voc\u00ea \u00e9 uma mulher&#8221;. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre achei muita coisa que me falavam sobre o que era ser mulher errado. 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