{"id":3961,"date":"2019-08-28T15:00:52","date_gmt":"2019-08-28T15:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=3961"},"modified":"2019-08-28T15:00:52","modified_gmt":"2019-08-28T15:00:52","slug":"entre-o-crime-e-a-lei-a-critica-politica-de-um-morador-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/entre-o-crime-e-a-lei-a-critica-politica-de-um-morador-de-rua\/","title":{"rendered":"Entre o crime e a lei: a cr\u00edtica pol\u00edtica de um morador de rua"},"content":{"rendered":"\n<p><em> &nbsp;&nbsp;&nbsp; Por Alexandre Douvan<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s 18:30 da sexta-feira, 19 de outubro de 2018, na rua Riachuelo ainda molhada pelas fortes chuvas dos tr\u00eas dias anteriores, uma voz aborda os passantes. \u201cCom licen\u00e7a, senhor, boa noite! Sou morador de rua e vendo estas pa\u00e7ocas para sobreviver\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sempre que algu\u00e9m afirma ser morador de rua, a primeira coisa que passa pela cabe\u00e7a \u00e9 querer saber o porqu\u00ea de estar naquela situa\u00e7\u00e3o. Receptivo, aceita o convite para sentar-se em um dos bancos da Pra\u00e7a Santos Andrade, em frente \u00e0 UEPG. \u201cRapaz, se eu te contar a hist\u00f3ria da minha vida at\u00e9 eu parar aqui, d\u00e1 para escrever um livro\u201d. Aquele foi o primeiro e mais longo dos nossos tr\u00eas encontros ocasionais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gelso Ferri tem 49 anos de idade e passou 27 deles preso por homic\u00eddio. Perdeu a esposa assassinada e estuprada e tem um filho, uma filha e cinco netas. Desacredita o modelo pol\u00edtico vigente, n\u00e3o cr\u00ea ser saud\u00e1vel para a democracia que um partido passe mais de uma d\u00e9cada no poder e julga a proposta de armar a popula\u00e7\u00e3o como meio de promover um genoc\u00eddio. Com uma vida repleta de experi\u00eancias marcantes e uma ret\u00f3rica flu\u00edda e demarcada por pausas tchekhovianas, conta sua hist\u00f3ria, demonstra esperan\u00e7a na sociedade e desgosto com os rumos da pol\u00edtica nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Escrever um livro \u00e9 a maneira que encontrou para mostrar \u00e0 sociedade um lado da realidade onde a distopia impera. Sua meta liter\u00e1ria, por\u00e9m, enfrenta as barreiras do preconceito contra moradores de rua, a falta de tempo e dinheiro para escrever. Em suma, o sonho lhe parece distante, mas \u00e9 o que o move no dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ferri n\u00e3o \u00e9 um homem simplista. Para explicar o porqu\u00ea vive na rua \u00e9 necess\u00e1rio primeiro dizer quem \u00e9. Natural de Tel\u00eamaco Borba, onde vivia com a esposa que fora brutalmente assassinada. \u201cPara o sujeito estuprar minha esposa, deu uma bordoada na cabe\u00e7a dela com alguma coisa contundente, matou na hora e o infeliz ainda a estuprou\u201d, explica com os olhos marejados. A esposa de Ferri foi encontrada oito dias depois, j\u00e1 em estado inicial de decomposi\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s o falecimento da esposa, n\u00e3o fez mais nada que procurar pistas de quem cometeu tamanha atrocidade. \u201cNa minha cabe\u00e7a era assim: se eu souber quem \u00e9, n\u00e3o vou mandar para a cadeia, vou matar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o tempo tamb\u00e9m ensina e Ferri percebeu que matar n\u00e3o era a solu\u00e7\u00e3o, pois pagaria pelo crime de outra pessoa. Para tentar livrar-se do pensamento que o perseguia, decidiu mudar de cidade e assim parou em Ponta Grossa, pois sua m\u00e3e aqui vivia. Estabeleceu morada e h\u00e1 pouco mais de um ano foi trabalhar em uma planta\u00e7\u00e3o de fumo em Joinville (SC). Saiu dos Campos Gerais pesando 78 quilos, voltou pesando 40 e usando fraldas por quatro meses. Motivo: intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos em uma lavoura de fumo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem direitos trabalhistas assegurados j\u00e1 n\u00e3o conseguia \u201chonrar o compromisso do aluguel\u201d \u2013 como ele mesmo define \u2013, no dia 20 de maio de 2019 completaram-se 17 meses que a rua virou sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje o \u00fanico contato que mant\u00e9m com a filha, que mora em Carambe\u00ed, \u00e9 por mensagens de WhatsApp que a esposa de um colega faz o favor de enviar. De vez em quando vai \u00e0 casa desse colega para conversar, tomar banho, lavar a roupa e mandar not\u00edcias de seu paradeiro para a filha e saber como est\u00e3o suas netas. Do filho, falou apenas quando questionado e de maneira sucinta. Prefere ficar na rua a ir morar com a filha. \u201cSe eu for morar com ela, algo vai faltar para as minhas netas e no fim vamos todos para o buraco. Se eu tiver um emprego, claro que irei\u201d, conta enquanto apoia uma m\u00e3o no guarda-chuva e equilibra o pote de pa\u00e7ocas na coxa esquerda.<br><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>A vida na rua<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Morar na rua \u00e9 uma pen\u00faria. Na primeira noite que passou ao relento, diz ter levado uma paulada na cabe\u00e7a que lhe rendeu 15 pontos \u2013 gesticula mostrando o local exato entre o curto cabelo que come\u00e7a a esbranqui\u00e7ar. Roubaram-lhe as roupas e o celular que carregava. \u201cDepois disso, vivo matando um le\u00e3o por dia, vendo pa\u00e7oquinha para sobreviver e n\u00e3o ter que incomodar ningu\u00e9m. Tamb\u00e9m n\u00e3o julgo ningu\u00e9m, mas n\u00e3o acho legal o que os outros moradores de rua fazem, pedir dinheiro de gra\u00e7a para as pessoas, porque eu sei que conseguir dinheiro \u00e9 dif\u00edcil para todo mundo\u201d, conta. \u201c\u00c0s vezes deixo de comprar uma marmita para comprar um pote de pa\u00e7oca, vender e ganhar meu dinheirinho deste jeito, mas \u00e9 dif\u00edcil porque enfrento muito preconceito, muita generaliza\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cPara quem n\u00e3o conhece, se est\u00e1 na rua \u00e9 vagabundo, \u00e9 drogado, \u00e9 b\u00eabado\u201d, reclama Ferri, que n\u00e3o bebe, n\u00e3o fuma, n\u00e3o joga. \u201cN\u00e3o tenho v\u00edcio nenhum a n\u00e3o ser beber muita \u00e1gua e tocar meu viol\u00e3o\u201d, fala enquanto d\u00e1 um sorriso, deixando \u00e0 mostra seus dentes gastos e outros que faltam na boca cercada por uma barba rala meio branca e meio preta. A falta de banho tamb\u00e9m o incomoda, lembra que havia um espa\u00e7o no Centro de Refer\u00eancia Especializado em Assist\u00eancia Social (CREAS) onde podia tomar banho, mas por conta da m\u00e1 administra\u00e7\u00e3o, da falta de limpeza e cuidados b\u00e1sicos, a Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria interditou o local.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje, quando precisa tomar banho, paga R$ 7 para usar o banheiro de um hotel. \u201cSabe quando a pessoa n\u00e3o precisa do teu trabalho mas chama para ajudar a descarregar um caminh\u00e3o s\u00f3 para te ajudar?\u201d \u2013 obviamente n\u00e3o sabia como era passar por aquilo, mas Ferri prossegue \u2013 \u201cent\u00e3o, com o tempo fomos criando uma rela\u00e7\u00e3o e de vez em quando, para n\u00e3o gerar muito custo para ele, pe\u00e7o para usar o banheiro do dep\u00f3sito que ele tem sob a loja\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Passa as noites ponta-grossenses, muitas vezes frias e in\u00f3spitas, deitado sobre peda\u00e7os de papel\u00e3o na frente da ag\u00eancia dos Correios da Rua Augusto Ribas. Evita o contato com v\u00e1rios outros moradores de rua, pois afirma que seus assuntos s\u00e3o acerca de drogas e planos para&nbsp; pedir dinheiro e comprar \u00e1lcool, coisas que afirma n\u00e3o consumir e nem gosta de falar sobre. \u00c9 naquele local que nos encontramos pela segunda vez, j\u00e1 em 2019. Sentia fome, n\u00e3o comia h\u00e1 tr\u00eas dias, reclama do frio. Lembra de mim e diz que \u00e9 esse o tipo de coisa que quer contar no livro, mas n\u00e3o tem nem papel.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alerta que estar junto com as pessoas \u00e9 perigoso. \u201cEu sei onde estive durante o dia, sei o que fiz, mas n\u00e3o sei o que os outros fizeram. N\u00e3o desprezo, mas \u00e9 um mecanismo de autodefesa. Acham que sou um mendigo orgulhoso, mas vivo sozinho para evitar confus\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nas palavras de Ferri, quem pede dinheiro na rua, o faz para manter v\u00edcios e v\u00edcio \u00e9 luxo. Lembra de uma frase do av\u00f4: se quer fumar, tenha a palha, o fumo e o acendedor porque ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a sustentar o v\u00edcio alheio. \u201cQuem pede alimento tem necessidade, quem pede dinheiro quer manter luxo\u201d s\u00e3o as palavras que usa para descrever a realidade das ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Julga, ainda, que a bebida alco\u00f3lica \u00e9 o maior problema, muito al\u00e9m das drogas il\u00edcitas. A bebida \u00e9 muito acess\u00edvel e de baixo custo, diferente das drogas e frisa que o preju\u00edzo n\u00e3o \u00e9 apenas para o viciado, mas para sua fam\u00edlia e todos ao redor na medida em que afeta o comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se h\u00e1 uma constante na rua, chama-se preconceito. \u201cPrincipalmente pelo aspecto em que me encontro, com a roupa suja, sem tomar banho, preciso de muito tato para abordar as pessoas e mesmo assim h\u00e1 muitas que n\u00e3o d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o\u201d, relata. \u201cSabe quando voc\u00ea vai falar com algu\u00e9m e a pessoa faz de conta que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m? Fico triste n\u00e3o por mim, mas pela pessoa. S\u00e3o pessoas pobres de conceito, de cultura, de educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lembra do perigo da generaliza\u00e7\u00e3o pela qual passa diariamente. Dos olhares atentos dos vigilantes dos mercados para pessoas mal vestidas, da confian\u00e7a depositada nos bem vestidos, mas n\u00e3o se d\u00e3o conta de que \u201cos maiores ladr\u00f5es usam terno italiano, andam de carro importado e t\u00eam t\u00edtulo de senador e de deputado\u201d. Ressalta que por mais que n\u00e3o tenham roubado para si, muitas crian\u00e7as padecem sem escola e sem creche porque os representantes do povo n\u00e3o cobram que o dinheiro seja aplicado da maneira correta.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cita o Artigo 159 do C\u00f3digo Civil: \u201cAquele que, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o volunt\u00e1ria, neglig\u00eancia ou imper\u00edcia, violar direito ou causar preju\u00edzo a outrem, fica obrigado a reparar o dano\u201d para exemplificar o que falta \u00e0 classe pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; E Gelso Ferri tem medo de alguma coisa? Ap\u00f3s um sil\u00eancio e olhar para o vazio, n\u00e3o sabe responder. Falante, come\u00e7a uma digress\u00e3o. Afirma ser t\u00e3o perigoso morar em uma casa como na rua, pois se fosse seguro n\u00e3o se instalariam sistemas de vigil\u00e2ncia e cercas el\u00e9tricas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje, fica feliz quando oferta suas pa\u00e7oquinhas e as pessoas compram. \u201cIsto me d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de estar recuperando minha dignidade atrav\u00e9s do trabalho, quando eu vejo que posso comprar minha comida e ter a m\u00ednima condi\u00e7\u00e3o de viver com dignidade eu fico feliz\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 categ\u00f3rico: espera sair da rua em breve. Tem distribu\u00eddo seu e-mail, ido com frequ\u00eancia \u00e0 Ag\u00eancia do Trabalhador, mas lembra que a crise \u00e9 grande e para poder contrat\u00e1-lo as pessoas precisam progredir, ter condi\u00e7\u00f5es de ter um empregado. Garante ter experi\u00eancia como eletricista de autom\u00f3veis, pizzaiolo, meio-oficial em constru\u00e7\u00e3o civil, professor de viol\u00e3o, jornaleiro e vendedor de an\u00fancio para jornal. Mas nos estudos, foi at\u00e9 o ensino m\u00e9dio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Morador de rua, faz parte dos 3% da popula\u00e7\u00e3o brasileira que tem o jornal impresso como a principal fonte de informa\u00e7\u00e3o de acordo com a Pesquisa Brasileira de M\u00eddia de 2016. \u201cDepois que as pessoas leem o jornal, ele vira lixo, ent\u00e3o eu pego e leio\u201d, conta.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong><strong>O Brasil do povo n\u00e3o \u00e9 o mesmo dos pol\u00edticos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEu amo o Brasil! O Brasil tinha tudo para ser o melhor pa\u00eds do mundo!\u201d \u2013 fala gaguejando e com efus\u00e3o \u2013 \u201ctemos um povo batalhador, esfor\u00e7ado, h\u00e1 uma minoria que estraga, mas ainda \u00e9 um pa\u00eds lindo de um povo esfor\u00e7ado e trabalhador\u201d. Critica a politicagem, a roubalheira generalizada de ocupantes do poder e de empres\u00e1rios. Demonstra tudo o que o senso comum n\u00e3o espera de um morador de rua: articula bem as palavras e traz cita\u00e7\u00f5es do texto constitucional e de c\u00f3digos de lei para amparar sua cr\u00edtica ao sistema pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cApesar de ser morador de rua, sou totalmente contra o assistencialismo, precisamos \u00e9 de mais gera\u00e7\u00e3o de empregos, de mais creches para que as crian\u00e7as fiquem enquanto os pais trabalham, de mais hospitais e escolas\u201d, afirma. Diz que nas elei\u00e7\u00f5es de 2018 o pa\u00eds ficou em um beco sem sa\u00edda, \u201cvivemos um jogo pol\u00edtico, n\u00e3o precisamos de um governante que invente alguma coisa, simplesmente precisa cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, emenda. Ferri afirma que a educa\u00e7\u00e3o deve ser prioridade de qualquer governo que se estabele\u00e7a, melhorando a condi\u00e7\u00e3o de trabalho dos professores, gerar oportunidade de estudo para as pessoas \u2013 frisa isto \u2013, desenvolver ci\u00eancia, tecnologia. \u201cFazer isto e cumprir as leis \u00e9 o que ajuda o povo\u201d, fala com um sorriso esperan\u00e7oso nos l\u00e1bios. Sobre o atual Presidente n\u00e3o gosta de comentar, diz que prefere falar de coisas boas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cDesde a constru\u00e7\u00e3o de uma escola, quantos empregos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o gerados? Da constru\u00e7\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e as pessoas que ali v\u00e3o trabalhar \u00e9 um bom avan\u00e7o para gerar emprego agora\u201d, analisa.<br><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o votou no primeiro turno. Estava h\u00e1 dois dias sem se alimentar e conseguiu um servi\u00e7o para fazer pr\u00f3ximo \u00e0 rodovi\u00e1ria no domingo pela manh\u00e3. Se desse tempo votaria no final da tarde, se n\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o deu tempo. \u201cE mesmo se eu fosse votaria em branco, porque n\u00e3o concordo com duas coisas e vamos dar nome aos bois. Haddad representa o Partido dos Trabalhadores (PT), que j\u00e1 fez muita coisa boa pelo pa\u00eds mas ficou l\u00e1 por 13 anos e permitiram muita confus\u00e3o e muita roubalheira. N\u00e3o acho saud\u00e1vel para a democracia do pa\u00eds um grupo ficar tanto tempo governando.\u201d, critica. \u201cEle [Bolsonaro] n\u00e3o \u00e9 uma pessoa preparada para governar o pa\u00eds, sequer tem uma equipe t\u00e9cnica com conhecimento para administrar o Brasil. Ele quer colocar empres\u00e1rios para dirigir estatais e acho que isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel para o povo, porque o empres\u00e1rio defende o lucro\u201d \u2013 leva algum tempo procurando a palavra certa para usar, leva o indicador e o polegar \u00e0 testa e fecha os olhos \u2013 \u201co empres\u00e1rio n\u00e3o tem uma ideologia que o oriente a trabalhar pelo povo, para desenvolver a sociedade, mas para o lucro. E outra coisa, essas pessoas t\u00eam pr\u00e1tica empresarial e n\u00e3o para administrar um pa\u00eds e eu acho que n\u00e3o vai dar certo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Garante que os propagados discursos armamentistas est\u00e3o errados. Conhece casos de pessoas que estavam armadas e perderam a vida ao reagir a um assalto. \u201cO assaltante est\u00e1 sempre um passo \u00e0 frente\u201d, declara. Est\u00e1 seguro de que se o uso de armas de fogo fossem restritos \u00e0s For\u00e7as Armadas e a alguns postos da pol\u00edcia, os \u00edndices de homic\u00eddio do pa\u00eds seriam inegavelmente menores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lembra dos governos Lula, quando n\u00e3o tinha maioria no Congresso e teve que \u201ccomprar o apoio dos deputados e senadores para apoiar seus projetos que eram bons\u201d \u2013 fala com veem\u00eancia que eram bons \u2013 foi onde nasceu o mensal\u00e3o. Colocar um presidente que trata o pa\u00eds como um balc\u00e3o de neg\u00f3cios \u00e9 como trocar bosta por merda, afirma em sua linguagem franca e aberta na \u00fanica vez em que usou uma express\u00e3o considerada de baixo cal\u00e3o em toda a conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fazendo uma cara feia e procurando um modo de se expressar de maneira clara, diz que n\u00e3o consegue concordar em quem vota em um pol\u00edtico por \u00f3dio ou para desfavorecer outro. \u201c\u00c9 uma forma vingativa, mesquinha, pequena, med\u00edocre de agir. \u00c9 uma esp\u00e9cie de maldade e um tiro no pr\u00f3prio p\u00e9\u201d, define. Aponta que as pessoas deveriam votar por identifica\u00e7\u00e3o com propostas, n\u00e3o por saudosismo ou querer resolver as coisas na bala.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre Ponta Grossa, afirma que a parte boa do munic\u00edpio \u00e9 o povo. \u201cO que sustenta esta cidade \u00e9 o povo, porque os pol\u00edticos n\u00e3o fazem nada e o que fazem \u00e9 \u00ednfimo perto daquilo que deveriam fazer\u201d, critica com desd\u00e9m.<br><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Amigo \u00e9 uma palavra pesada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cAmigo \u00e9 uma palavra pesada\u201d. Assim responde ap\u00f3s uma pausa e voz embargada ao ser perguntado se tem algum. \u201cTenho alguns conhecidos, pessoas que gostam de mim e gosto deles, mas amigo mesmo, n\u00e3o tenho nenhum\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A conversa passa a ter um tom ainda mais reflexivo e profundo. A entona\u00e7\u00e3o de Ferri convida a repensar as rela\u00e7\u00f5es sociais e a banaliza\u00e7\u00e3o de palavras nobres, como ele mesmo define. \u201cAmigo \u00e9 uma palavra t\u00e3o nobre\u201d \u2013 pausa, pensa no que dizer \u2013 \u201ctem gente que diz \u2018ah, eu tenho um amigo\u2019, de forma t\u00e3o comum mas, por exemplo, um amigo \u00e9 mais do que um irm\u00e3o\u201d \u2013 faz outra pausa, desta vez emocionada \u2013 \u201cmas muita gente confunde as coisas. Se o amigo est\u00e1 triste, voc\u00ea fica triste pelo motivo que o entristeceu, se ele est\u00e1 feliz, voc\u00ea fica feliz junto com ele. Quando h\u00e1 indiferen\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 amizade\u201d. E complementa: \u201co amigo se compadece, \u2018voc\u00ea est\u00e1 na rua? Ent\u00e3o vem aqui que te ajudo da forma que eu puder\u2019, entendeu?\u201d. Sua situa\u00e7\u00e3o ajudou a reconfigurar suas rela\u00e7\u00f5es. Lembra do primo que se dizia amigo, mas bateu-lhe a porta na cara quando pediu para tomar um banho logo que foi para a rua, com frio e 15 pontos na cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cSe o amigo n\u00e3o pode te ajudar, ele n\u00e3o te estorva, mas tamb\u00e9m n\u00e3o te despreza. Quem te despreza n\u00e3o \u00e9 teu amigo\u201d, reflete. Menciona que dizer que tem amigo na rua \u00e9 um equ\u00edvoco, h\u00e1 muito interesse envolvido. \u201cAlgu\u00e9m chega e fala \u2018\u00f4 velhinho, d\u00e1 uma pa\u00e7oquinha\u2019 e eu dou, recebo um tapinha nas costas; se nego porque dependo disso para viver, sou xingado.\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; <strong>Dois homic\u00eddios e 27 anos de cadeia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cal\u00e7ando botas que percorrem a cidade toda em busca de emprego, uma cal\u00e7a preta velha e surrada, uma camisa vermelha e uma jaqueta fina que mal protege do frio \u2013 a mesma roupa em todos nossos encontros, pois \u00e9 a \u00fanica que possui \u2013 conta sua hist\u00f3ria cheia de marcas das quais se arrepende profundamente, mas que prefere tomar como aprendizados.&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando morrer, qual legado deixar\u00e1? Para esta quest\u00e3o, Ferri cita um ditado popular. Uma pessoa, para n\u00e3o passar em branco na vida, tem que fazer tr\u00eas coisas: plantar uma \u00e1rvore, ter um filho e escrever um livro. Lembra que j\u00e1 fez os dois primeiros e agora resta escrever o livro. Os assuntos que cogita (criminalidade, sistema penitenci\u00e1rio, manic\u00f4mio judici\u00e1rio) carregam um forte significado pessoal: passou 27 anos preso por dois homic\u00eddios que cometeu.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cCometi tr\u00eas crimes muito graves contra Deus e contra a sociedade, matei duas pessoas e assaltei uma fam\u00edlia\u201d, confessa. Questiono por qu\u00ea tirou a vida daquelas pessoas. \u201cEu andava armado, o cara veio me assaltar, vi que ele n\u00e3o tinha arma e estava apenas com o dedo embaixo da camisa, enfiei o 38 na boca dele e o matei\u201d \u2013 relata olhando para o ch\u00e3o, com a voz baixa. \u201cN\u00e3o falo isto com orgulho, foi um erro que cometi, ele n\u00e3o colocava minha vida em risco\u201d. O segundo assassinato foi do tempo em que assaltou uma fam\u00edlia e o sujeito sabia o que Ferri fez. Por medo de ser entregue \u00e0 pol\u00edcia, matou, mas foi descoberto mesmo assim. \u201cN\u00e3o adiantou nada, al\u00e9m da pol\u00edcia descobrir o que eu queria esconder, descobriu tamb\u00e9m que eu o havia matado\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Faz oito anos que Ferri terminou de cumprir sua pena e garante que nunca mais se envolveu com qualquer atividade il\u00edcita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por Alexandre Douvan \u00c0s 18:30 da sexta-feira, 19 de outubro de 2018, na rua Riachuelo ainda molhada pelas fortes chuvas dos tr\u00eas dias anteriores, uma voz aborda os passantes. \u201cCom licen\u00e7a, senhor, boa noite! Sou morador de rua e vendo estas pa\u00e7ocas para sobreviver\u201d.&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp; Sempre que algu\u00e9m afirma ser morador de rua, a&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":524,"featured_media":3962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3961"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/524"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3961\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}