{"id":4090,"date":"2019-09-11T15:00:13","date_gmt":"2019-09-11T18:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4090"},"modified":"2019-09-11T15:00:13","modified_gmt":"2019-09-11T18:00:13","slug":"em-um-momento-nao-era-mulher-suficiente-e-depois-nao-era-homem-suficiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/em-um-momento-nao-era-mulher-suficiente-e-depois-nao-era-homem-suficiente\/","title":{"rendered":"\u201cEm um momento n\u00e3o era mulher suficiente e depois n\u00e3o era homem suficiente\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\nGuilherme Silva Safraider, 21 anos. Profissional de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. Residente em sa\u00fade coletiva. Homem trans.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sentir que estava sendo perseguido e que era o desgosto da fam\u00edlia fez com que Guilherme se isolasse do mundo. O choro fazia parte da rotina. O clima em casa era tenso, ent\u00e3o ficar na escola era sempre a melhor op\u00e7\u00e3o. Mas, como a m\u00e3e trabalhava na escola onde estudava, tamb\u00e9m era vigiado pelas freiras que trabalhavam l\u00e1. Guilherme, atleta, tamb\u00e9m foi proibido, por sua m\u00e3e, de jogar por outras cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 14 anos Guilherme se identificou. Para ele foi um per\u00edodo de aprofundamento no autoconhecimento. \u201cQuando vi que n\u00e3o me enquadrava nas expectativas da sociedade sobre o ser mulher e ser feminina, me sentia esquisito\u201d. As l\u00e9sbicas mais masculinizadas eram a \u00fanica refer\u00eancia que envolvia as caracter\u00edstica do sexo biol\u00f3gico e o desejo de ser mais masculino.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 17 e 18 anos entrou na Universidade, l\u00e1 come\u00e7ou a melhorar. Era um ambiente novo e com pessoas diferentes. \u201cUniversidade em alguns casos \u00e9 libertador n\u00e9?!\u201d. Nessa \u00e9poca j\u00e1 aceitava que n\u00e3o era poss\u00edvel ser o que os outros esperavam. Mas, mesmo assim, n\u00e3o estava satisfeito com a condi\u00e7\u00e3o de ser mulher. Os questionamentos vinham: \u201cera t\u00e3o ruim assim para todas as mulheres?\u201d. As roupas, os pap\u00e9is e o corpo n\u00e3o o agradavam. E assim, vieram muitas pesquisas em sites, p\u00e1ginas das redes sociais e canais do YouTube acerca do assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir disso, mesmo com muita inseguran\u00e7a, come\u00e7ou a se identificar como homem trans. E nesse momento a fam\u00edlia era uma grande quest\u00e3o. Ter que decidir algo tinha um peso muito grande. O medo de sofrer novamente era constante, ainda mais nesse momento em que a rela\u00e7\u00e3o em casa tinha come\u00e7ado a melhorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos 18 aos 19 anos preferiu manter o que sentia em segredo. E, nesse per\u00edodo, surgiu a ansiedade. O sentimento de culpa e de estar errado fizeram com que Guilherme come\u00e7asse a se automutilar. Com o passar do tempo e muita terapia, a aceita\u00e7\u00e3o surgiu. \u201cDepois que a gente se aceita fica muito mais f\u00e1cil lidar com os preconceitos das outras pessoas\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>E pouco a pouco as mudan\u00e7as foram ocorrendo. Na adolesc\u00eancia foram as roupas. Com 18 anos veio o corte de cabelo: \u201cn\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica que deve ser de homem, mas para mim era importante\u201d. E depois come\u00e7ou a se identificar como homem trans nas institui\u00e7\u00f5es, sendo famil\u00eda, amigos, Universidade. E assim adotou o nome social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia Guilherme foi encaminhado para um centro de refer\u00eancia em Curitiba. Neste momento come\u00e7aram a surgir as transforma\u00e7\u00f5es corporais. A primeira mudan\u00e7a foi a voz, depois os pelos do corpo foram aumentando aos poucos e o tamanho das mamas foram diminuindo.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o mudou foi o comportamento de Guilherme, \u201ccontinuei fazendo e falando coisas do meu jeito\u201d. E dessa forma, ele acredita que influenciou no sofrimento e na aceita\u00e7\u00e3o, pois para ser homem n\u00e3o precisa ser a concep\u00e7\u00e3o de macho, \u201cque co\u00e7a&nbsp; o saco, arrota e pede pra mulher trazer mais uma cerveja\u201d. Ele completa dizendo que \u00e9 poss\u00edvel deixar caracter\u00edsticas que gosta e descartar aquelas que n\u00e3o se identifica, como qualquer pessoa no mundo.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Momentos de desconforto e preconceito<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Universidade foi um desafio. Na educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica tudo \u00e9 separado por mulher e homem, como os vesti\u00e1rios, banheiros da piscina, o chuveiro feminino \u00e9 separado um do outro, o masculino \u00e9 coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para fazer a avalia\u00e7\u00e3o f\u00edsica o professor solicitou que meninos ficassem em uma sala e meninas em outra. Na hora de realizar a avalia\u00e7\u00e3o antropom\u00e9trica era necess\u00e1rio tirar a roupa. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o me sentia bem de ficar com m\u00ednimo de roupa na frente de qualquer outra pessoa a\u00ed teria que ficar no meio de todos os homens\u201d, conta Guilherme ao explicar que no momento ficou sem saber o que fazer. E ainda questiona o motivo para isso, pois em sociedade n\u00e3o vivemos separados dessa maneira.<\/p>\n\n\n\n<p>Guilherme sempre gostou de participar de jogos. Em 2017, na \u00e9poca dos Jogos Inter Atl\u00e9ticas (JOIA), fazia 6 meses que estava em hormoniza\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo Guilherme j\u00e1 usava nome social, mas n\u00e3o tinha mudado os documentos. Sua equipe, com medo de acabar sofrendo algum tipo de puni\u00e7\u00e3o, levou a situa\u00e7\u00e3o para reuni\u00e3o e Guilherme foi pauta espec\u00edfica no JOIA. E naquele ano teve que apresentar exames de sangue para que pudesse jogar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, a situa\u00e7\u00e3o foi discutida novamente. Para que pudesse jogar teve que mostrar todos os seus documentos j\u00e1 alterados. \u201cEm um momento n\u00e3o era mulher suficiente e depois n\u00e3o era homem suficiente\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante sua vida j\u00e1 recebeu diversos xingamentos. Entre eles: menina macho, \u201c\u00e9 menina ou menino?\u201d e tamb\u00e9m chamado de sapat\u00e3o. Guilherme diz que n\u00e3o v\u00ea sapat\u00e3o como um xingamento, mas a forma que as pessoas utilizavam esta palavra era para tal finalidade. Com o tempo os xingamentos diminu\u00edram e as pessoas passaram a sexualizar demais. Falas como \u201co que tem entre as pernas?\u201d (n\u00e3o sendo joelho a resposta que querem) e \u201cte acho bonito mas voc\u00ea n\u00e3o tem o que elas gostam\u201d se tornaram comuns.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Acompanhamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A estrutura que o SUS oferece em casos como o de Guilherme \u00e9 de qualidade. Primeiro \u00e9 necess\u00e1rio passar pela ONG Renascer, onde \u00e9 feito o acolhimento e as sess\u00f5es de terapia individual com psic\u00f3logos. Depois \u00e9 feito o encaminhamento para o Tratamento Fora de Domic\u00edlio, na 2\u00b0 Regional em Curitiba, onde tem o Centro de Pesquisa e Atendimento a Travestis e Transexuais (CPATT). O CPATT conta com o atendimento de psic\u00f3logos e endocrinologistas. A medica\u00e7\u00e3o com horm\u00f4nios tamb\u00e9m pode ser retirada pelo SUS.<\/p>\n\n\n\n<p>Levando em conta a documenta\u00e7\u00e3o, desde 2018 a retifica\u00e7\u00e3o de nome acontece diretamente em cart\u00f3rio, sem precisar de um processo judicial. \u00c9 necess\u00e1rio levar alguns documentos para ser feita a altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Silva Safraider, 21 anos. Profissional de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. Residente em sa\u00fade coletiva. Homem trans.&nbsp; Sentir que estava sendo perseguido e que era o desgosto da fam\u00edlia fez com que Guilherme se isolasse do mundo. O choro fazia parte da rotina. 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