{"id":4106,"date":"2019-09-15T10:05:58","date_gmt":"2019-09-15T13:05:58","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4106"},"modified":"2019-09-15T10:05:58","modified_gmt":"2019-09-15T13:05:58","slug":"ponta-grossa-196-anos-o-voo-da-coruja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/ponta-grossa-196-anos-o-voo-da-coruja\/","title":{"rendered":"Ponta Grossa 196 anos: o voo da coruja"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:left\"><em>Por&nbsp;Fabio Anibal Goiris<br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em algum momento da hist\u00f3ria Georg Wilhelm Hegel comparou a Filosofia com a coruja da deusa Minerva \u2013 dona de toda a sabedoria do mundo \u2013 para dizer que esta ave s\u00f3 voa ao anoitecer. Ao som do silencio e da luz que se extingue, se diria.&nbsp; Esta perspectiva pode ser aplicada \u00e0 historia de Ponta Grossa, que parece iniciar o seu progresso apenas ao entardecer, ou seja, pr\u00f3xima aos seus duzentos anos de exist\u00eancia. Aos olhos da Ci\u00eancia Pol\u00edtica a cidade n\u00e3o teve a experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o burguesa ficando apenas com os efeitos dilatados da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desde a sua funda\u00e7\u00e3o em 1823 a base material que imperava na regi\u00e3o dos Campos Gerais estava alinhada ao&nbsp;<em>modo de produ\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;de carater\u00edsticas semifeudais (certamente escravista e depois de vassalagem), onde a aquisi\u00e7\u00e3o da terra se fundamentava tanto no sistema de doa\u00e7\u00f5es das Sesmarias como na aristocracia rural que intermediava a posse autorit\u00e1ria da terra. Mas, o fundamento sociol\u00f3gico e antropol\u00f3gico estava concentrado na&nbsp;<em>superestrutura<\/em>, que encorajava e difundia a pol\u00edtica e a ideologia conservadora alinhada, por sua vez, ao liberalismo. N\u00e3o \u00e9 por acaso ent\u00e3o que entremeado aos intermin\u00e1veis latif\u00fandios emergia uma socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tinha como fundamento ideol\u00f3gico o Coronelismo (1889-1930), o Integralismo (1930-1940) e o governo Vargas (1930-1945). Seguem ainda, na sequencia: o Nazismo, a Igreja Conservadora e a ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Louis Althusser autor do livro&nbsp;<em>Aparelhos ideol\u00f3gicos de Estado<\/em>&nbsp;diria que alguns elementos fundamentais forjaram a sociedade em Ponta Grossa: o bin\u00f4mio fam\u00edlia-escola ao qual se seguem a igreja conservadora e os meios de comunica\u00e7\u00e3o (especialmente o radio), alinhados em conjunto \u00e0 ideologia liberal e \u00e0 aristocr\u00e1tica rural.&nbsp; Diante disso, n\u00e3o pode surpreender a longevidade ideol\u00f3gica e o relativismo cultural que predomina nesta regi\u00e3o do Brasil. O Estado permanece, pois, muito ausente diante das necessidades populares. S\u00edtios naturais extraordin\u00e1rios como Vila Velha, patrim\u00f4nio de todos, est\u00e3o passando por longa e deprimente terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um exemplo da perman\u00eancia do pensamento conservador foi a cr\u00edtica descabida direcionada ao reitor Miguel Sanches Neto na ocasi\u00e3o da abertura do Festival de Teatro em sua 46<sup>a&nbsp;<\/sup>edi\u00e7\u00e3o (2018). O professor de Letras tecia louvores \u00e0 cultura no exato momento em que, ele dizia, se tentava colocar uma morda\u00e7a na arte e no livre pensar. O festival de teatro era como uma bandeira democr\u00e1tica hasteada em c\u00e9u turvo. Os advers\u00e1rios n\u00e3o gostaram do discurso e escrevem um artigo criticando o reitor. Cumpre dizer que as palavras do reitor foram acertadas e judiciosas num pa\u00eds onde justamente se prop\u00f5e extinguir o Minist\u00e9rio da Cultura e substitui-lo por uma secretaria e onde surge uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 com fortes tra\u00e7os de anti-intelectualismo e pendor por uma ret\u00f3rica confusa e voluntarista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas, a quest\u00e3o n\u00e3o se circunscreve apenas \u00e0 superestrutura ideol\u00f3gico-pol\u00edtica. Existem dados concretos acerca do cotidiano da cidade. O Jornal Di\u00e1rio dos Campos publicou no dia 31 de dezembro de 2017 dados mostrando que 7,75 mil fam\u00edlias est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza na cidade, ou seja, elas vivem com renda per capita de at\u00e9 R$ 85 por m\u00eas. Outras cinco mil recebem uma m\u00e9dia de at\u00e9 R$ 170 mensais. Na mesma linha, neste ano de 2019 mais de 67 mil contribuintes est\u00e3o com o pagamento do IPTU em atraso. O n\u00famero representa mais de 44% do total de cadastros do tributo, passando de R$ 22 milh\u00f5es o valor que a Prefeitura deixou de receber apenas este ano.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;N\u00e3o obstante, em flagrante contraste com os dados anteriores, emerge com toda a for\u00e7a o&nbsp;<em>boom<\/em>&nbsp;da verticaliza\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios fechados de alto padr\u00e3o. Criaram-se \u00e1reas de constru\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias \u2013 h\u00e1 ainda mais de uma centena de projetos &#8211; que assumiram status compat\u00edveis com a burguesia contempor\u00e2nea. Existem at\u00e9 noticias de que um edif\u00edcio de 50 pavimentos se tornar\u00e1 o pr\u00e9dio mais alto do Paran\u00e1, com 170 metros.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, \u00e0s portas dos seus duzentos anos, a cidade levanta seu voo de progresso. Abre suas asas entre contrastes e resist\u00eancias. Por uma janela, se vislumbra a&nbsp;<em>desconstru\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/em>da cultura por efeito do p\u00f3s-modernismo. Ao mesmo tempo, por outra, se observa a emerg\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o permeada pelos&nbsp;<em>Fake News<\/em>&nbsp;e a p\u00f3s-verdade. Hebert Marcuse diria que h\u00e1 uma perman\u00eancia inc\u00f4moda do sujeito em meio a um mal-estar freudiano, especialmente por efeito das novas formas de domina\u00e7\u00e3o (como a tecnocracia e o capitalismo financeiro) e de subjetividades (desencontradas ou j\u00e1 perdidas), que, no entanto, prevalecem no capitalismo tardio e esperam o corol\u00e1rio, quem sabe sob os des\u00edgnios de uma sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O autor \u00e9 cientista pol\u00edtico, professor da UEPG e autor do livro: \u201cEstado e Pol\u00edtica: a hist\u00f3ria de Ponta Grossa, Pr\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabio Anibal Goiris Em algum momento da hist\u00f3ria Georg Wilhelm Hegel comparou a Filosofia com a coruja da deusa Minerva \u2013 dona de toda a sabedoria do mundo \u2013 para dizer que esta ave s\u00f3 voa ao anoitecer. 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