{"id":4234,"date":"2019-09-18T15:54:05","date_gmt":"2019-09-18T18:54:05","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4234"},"modified":"2019-09-18T15:54:05","modified_gmt":"2019-09-18T18:54:05","slug":"muito-mais-do-que-uma-simples-dona-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/muito-mais-do-que-uma-simples-dona-de-casa\/","title":{"rendered":"Muito mais do que uma simples dona de casa"},"content":{"rendered":"\n<p>Cabelos loiros, meio esbranqui\u00e7ados e cacheados. Olhos entre azuis e verdes. Boca perfeitamente desenhada no rosto. Mais ou menos um 1,68m de altura, j\u00e1 que, por complica\u00e7\u00f5es na coluna, havia diminu\u00eddo. Bonita, 62 anos. Essas defini\u00e7\u00f5es foram dadas pela pr\u00f3pria personagem deste perfil. Elisete Zeni Rebelato estava sentada em sua poltrona que reclina para tr\u00e1s e costurava uma blusa de tric\u00f4 de cor rosa escuro ainda sem saber quem a receber\u00e1. Pode parecer um mero detalhe em meio \u00e0 conversa, mas nem os momentos emocionantes atrapalharam e impediram as m\u00e3os habilidosas de trabalhar. A sala de televis\u00e3o, como chamam, foi o cen\u00e1rio para a entrevista. Est\u00e1vamos a s\u00f3s, somente com o barulho de um cachorro latindo na casa ao lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Elisete se casou aos 17 anos e foi morar em Francisco Beltr\u00e3o, no Paran\u00e1, com seu marido que era militar. Na \u00e9poca, nem todas as mulheres trabalhavam fora, mas ela sempre deu um jeito de n\u00e3o ficar parada. Tudo que fez para ganhar dinheiro foi dentro de casa. Em Ponta Grossa, fazia velas decorativas que foram para Estados Unidos, Europa e Canad\u00e1. Roupas que buscava em S\u00e3o Paulo e vendia na sala de estar. P\u00e3es sob encomenda para os vizinhos. Mas, o que lhe agradava de verdade era fazer bem aos outros sem nenhuma recompensa, como por exemplo com comidas saborosas aos filhos e netos. Sempre foi uma op\u00e7\u00e3o sua ter esse estilo de vida, j\u00e1 que, como o marido trabalhava fora, teve a possibilidade de ser uma dona de casa, ou seja, trabalhou diariamente dentro do seu lar. Fundadora da Pastoral Carcer\u00e1ria de Ponta Grossa, contou com muito orgulho todo o processo para conseguir humanizar aqueles presos perante a sociedade e tentar levar conhecimento \u00e0queles que n\u00e3o tinham mais esperan\u00e7a. O irm\u00e3o de uma amiga pr\u00f3xima foi preso e a fam\u00edlia ficou muito abalada. Foi a\u00ed que Elisete decidiu ir at\u00e9 a cadeia. \u201cNingu\u00e9m acreditava, mas eu queria entrar na cadeia, criar uma pastoral carcer\u00e1ria e conversar com os presos\u201d, relatou com a voz firme e empoderada.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura \u00e9 um dos pontos que me chamou aten\u00e7\u00e3o durante a conversa por ser algo de extrema import\u00e2ncia para aquela mulher. Por ser formada em Pedagogia, enfatizou diversas vezes o significado que os livros t\u00eam para ela. Al\u00e9m de tudo que fazia, abrir uma biblioteca dentro da cadeira era um objetivo a ser alcan\u00e7ado. A princ\u00edpio, parecia loucura. Mas ela conseguiu. Os livros de poesia eram os que os presos mais escolhiam \u2013 o que a impressionou muito. Foi conversando com ju\u00edzes, delegados e promotores que ela conseguiu representar a igreja cat\u00f3lica dentro do pres\u00eddio Hildebrando de Souza. Decidiu sair da pastoral quando percebeu que estava cada vez mais envolvida na pris\u00e3o, ficando longe de casa, perdendo seus momentos com a fam\u00edlia e gastando o pouco dinheiro que tinham com esses assuntos. No relato, demonstrou ressentimento por abandonar aquilo que ela mesma construiu. Sua casa sempre esteve cheia de pessoas, sejam elas fam\u00edlia, amigos ou at\u00e9 desconhecidos. Por ser uma mulher de muita f\u00e9, que \u00e9 uma mistura de cat\u00f3lica com esp\u00edrita, fez do seu sof\u00e1 de casa um local especial para centenas de sujeitos. Fazendo ora\u00e7\u00f5es, benzendo e, \u00e0s vezes, s\u00f3 ouvindo, se tornou uma figura representativa na Vila Estrela. Desde que construiu sua casa na Rua Padre N\u00f3brega, o n\u00famero 856 era sinal de esperan\u00e7a para os vizinhos que confiavam (e confiam at\u00e9 hoje) na \u201cDona Elisete\u201d. Sempre aconselhou, \u201ctipo uma psic\u00f3loga que n\u00e3o cobra\u201d, como ela mesma diz. A frequ\u00eancia das visitas diminuiu ao longo dos anos quando come\u00e7ou a ter problemas na coluna. Foram diversas cirurgias para melhorar as dores insuport\u00e1veis das h\u00e9rnias de disco. Em 2017, depois de uma delas, uma les\u00e3o no p\u00e9 direito a fez descobrir que estava com trombose. L\u00e1 ia Elisete para mais uma cirurgia. Desta vez, colocou uma pr\u00f3tese de uma das ramifica\u00e7\u00f5es da veia aorta que manda sangue para as pernas. E os problemas de sa\u00fade continuaram. Com a voz triste e ao mesmo tempo forte, Elisete deu sequ\u00eancia \u00e0s hist\u00f3rias que a levaram at\u00e9 esta entrevista. Ela demonstrou n\u00e3o gostar de ficar lamentando esses fatos. Usa deles para dar continuidade \u00e0 hist\u00f3ria da sua vida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/perfil-ane.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4237\" \/><figcaption>Foto: Ane Rebelato | Elisete Zeni Rebelato, 62 anos. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O \u00e1pice das emo\u00e7\u00f5es na conversa foi quando contou sobre sua fam\u00edlia. S\u00e3o tr\u00eas filhos e uma filha. Quatro netas e dois netos. Um irm\u00e3o e duas irm\u00e3s. Cinco sobrinhas e um sobrinho. A contagem segue e os nomes dos parentes s\u00e3o contados com muita felicidade. No seu olhar era poss\u00edvel perceber muito amor e afeto por aquelas pessoas. Diversas vezes, quando questionada sobre seus sonhos e hist\u00f3rias marcantes at\u00e9 aqui, a fam\u00edlia foi citada. E esse sentimento n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. \u201cNunca fazer inimizade com meus irm\u00e3os, ter um monte de filhos e que todos se amassem. Esse era meu ideal de vida desde crian\u00e7a e n\u00e3o mudou. Tirando as outras coisas que eu sonhei, isso foi o que eu mais queria e eu realizei completamente\u201d. A neta mais velha veio quando ela tinha apenas 42 anos. Sim, tinha idade para ser m\u00e3e ainda e foi v\u00f3. Apesar do susto, j\u00e1 que seu filho tinha 20 anos, nunca deixou eles passarem por nenhuma dificuldade. As l\u00e1grimas encheram seus olhos neste momento. O assunto \u00e9 um dos que mais a orgulha em sua vida. De todos seus netos e netas, esta mais parece uma filha, j\u00e1 que foi Elisete quem ajudou a cri\u00e1-la. Uma palavra que resume a sua experi\u00eancia de viver \u00e9 amor. \u201c\u00c9 maravilhoso poder viver. Eu tive os pais que todos queriam ter, nunca me faltou nada mas tamb\u00e9m nunca sobrou. Aprendi tudo em casa para poder me virar. Casei com o melhor homem do mundo e tenho certeza disso. Meus filhos, todos com sua personalidade. Foi f\u00e1cil pra mim viver.\u201d. Ela relata que teve momentos extremos de dificuldade, tanto financeiras quanto de sa\u00fade, mas que tudo que enfrentou ajudou em seu crescimento. \u201cParece mentira, mas de tudo que eu vivi n\u00e3o mudaria nada, foi tudo muito bom e est\u00e1 sendo. Tudo bom e ruim passa, e fica tudo bem no final\u201d. Foi assim que encerramos a conversa, seguida de um grande abra\u00e7o e um sorriso no rosto de orgulho pela sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais impressionante \u00e9 que a maioria dessas hist\u00f3rias de vida eu j\u00e1 conhecia, mas nunca me apeguei aos detalhes. \u00c9 uma experi\u00eancia de vida que, assim como outras, merece ser contada. Apesar da personagem escolhida ser minha av\u00f3, quando fui fazer este perfil, esperava apenas contar o que j\u00e1 sabia. Mas estava enganada. Elisete \u00e9 muito mais do que uma dona da casa, pela sua experi\u00eancia e modo de ver a vida.<br> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabelos loiros, meio esbranqui\u00e7ados e cacheados. Olhos entre azuis e verdes. Boca perfeitamente desenhada no rosto. Mais ou menos um 1,68m de altura, j\u00e1 que, por complica\u00e7\u00f5es na coluna, havia diminu\u00eddo. Bonita, 62 anos. Essas defini\u00e7\u00f5es foram dadas pela pr\u00f3pria personagem deste perfil. 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