{"id":4325,"date":"2019-09-26T10:23:22","date_gmt":"2019-09-26T13:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4325"},"modified":"2019-09-26T10:23:22","modified_gmt":"2019-09-26T13:23:22","slug":"a-historia-negra-de-ponta-grossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-historia-negra-de-ponta-grossa\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria negra de Ponta Grossa"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Arieta Valherri de Almeida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No quil\u00f4metro 360 da rodovia PR-151, que liga Ponta Grossa a Palmeira, tamb\u00e9m conhecida como Deputado Jo\u00e3o Chede, um pouco depois do Golf Club da cidade, encontra-se a Col\u00f4nia Sutil. Col\u00f4nia essa que faz parte da hist\u00f3ria negra dos Campos Gerais, sendo uma das tr\u00eas comunidades quilombolas de Ponta Grossa. A viagem de carro leva por volta de 40 minutos. O primeiro ponto de refer\u00eancia dentro da comunidade \u00e9 a igreja cat\u00f3lica que a maioria dos moradores frequenta nos finais de semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A semana havia sido chuvosa, e a estrada que corta o vilarejo \u00e9 de terra, o que dificultou um pouco o acesso at\u00e9 o nosso destino. E parece que o destino de alguns moradores tamb\u00e9m, tendo em vista que no caminho nos deparamos com um carro atolado no barro, enquanto moradores prestaram ajuda ao motorista. Esses mesmos habitantes que mesmo saudando aos novos visitantes se mostram desconfiados.<\/p>\n\n\n\n<p>O destino dessa estrada de terra \u00e9 a casa da fam\u00edlia Gon\u00e7alves. A fam\u00edlia Gon\u00e7alves \u00e9 uma das fam\u00edlias que moram na Col\u00f4nia Sutil desde muito tempo, descendentes de escravos e dos poucos \u201cherdeiros\u201d daquelas terras. Eles n\u00e3o se sentem pressionados ao abrirem suas portas para que sejam feitas entrevistas ou at\u00e9 mesmo visitas. A jovem Ana Let\u00edcia Gon\u00e7alves, de 20 anos, recebe a todos com um sorriso no rosto e faz com que se sintam em casa. Para explicar melhor a hist\u00f3ria da vila,ela nos leva at\u00e9 sua tia, Neivair de Jesus Gon\u00e7alves.  <\/p>\n\n\n\n<p>Para chegarmos at\u00e9 a casa da dona Neivair, mulher com 54 anos de muita sabedoria e experi\u00eancia, percorremos cerca de dois quil\u00f4metros e meio de carro. A s\u00e9tima filha do senhor Deodato Gon\u00e7alves recebe a cada um que visita sua casa de maneira sorridente e muito gentil., dando a impress\u00e3o de que aquela n\u00e3o era a sua primeira entrevista. E n\u00e3o era mesmo, j\u00e1 tinha conversado com historiadores, rep\u00f3rteres e professores que visitam a col\u00f4nia. Fez quest\u00e3o que n\u00f3s sent\u00e1ssemos em um lugar confort\u00e1vel da casa e, antes de come\u00e7ar a entrevista, fez algumas brincadeiras de como est\u00e1vamos s\u00e9rias, \u201cvoc\u00eas j\u00e1 est\u00e3o sentadinhas e comportadinhas como rep\u00f3rteres\u201d. Com todo seu entusiasmo, ela come\u00e7a falando da hist\u00f3ria da col\u00f4nia. <\/p>\n\n\n\n<p>Um pouco antes da oficializa\u00e7\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o em 1888, a hist\u00f3ria j\u00e1 vinha sendo escrita no distrito da Freguesia de Palmeira, no Paran\u00e1, em 1854, na Fazenda Santa Cruz. Quando a rica fazendeira Maria Clara do Nascimento, em dezembro de 1854 faleceu, deixou as terras da fazenda que a pertenciam para duas de suas escravas, relembra Neivair. A Col\u00f4nia Santa Cruz tamb\u00e9m faz parte dessa hist\u00f3ria, tendo em vista que ela e a Sutil antes eram uma s\u00f3, como acrescenta Neivair. As terras somavam 6.530 hectares de extens\u00e3o, segundo o site afrodescendentes da Lapa.  <\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionada sobre sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de vida, Neivair conta que sua fam\u00edlia, descendente de escravos, sempre morou naquelas terras. Ela pede para que Ana Let\u00edcia, sua sobrinha, a ajude a encontrar algumas fotos para nos mostrar. A mulher nos traz uma diversidade de \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos de fam\u00edlia e folheia um a um, apontando cada parente e falando um pouco sobre eles e tamb\u00e9m mostrando a evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vila que estava registrada nos \u00e1lbuns amarelados, que carregavam um enorme significado para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Neivair conta que foi morar na col\u00f4nia com 15 anos, seu pai mudou-se para a cidade por um per\u00edodo em busca de novas oportunidades e de sustento para seus seis filhos. \u201cMas ele n\u00e3o sabia que viriam mais seis\u201d. J\u00e1 com doze filhos, ele voltou para Sutil, terras onde a fam\u00edlia mora at\u00e9 hoje. E acrescenta que ele acabou n\u00e3o sofrendo tanto quanto os seus irm\u00e3os mais velhos que nasceram na col\u00f4nia.  <\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta com muita anima\u00e7\u00e3o que sempre se viu ativa dentro da comunidade \u201ceu sempre fui muito intrometida\u201d. Uma mulher que sempre lutou por seus direitos, e desde muito nova conta que participava de reuni\u00f5es que aconteciam, sempre questionando tudo que lhe era oferecido. Atualmente ela \u00e9 a presidente da associa\u00e7\u00e3o quilombola da Col\u00f4nia Sutil. E em meio \u00e0s suas anedotas e desabafos, mostrava sua consci\u00eancia pol\u00edtica e cr\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o aos ataques que a comunidade quilombola vem sendo alvo.  <\/p>\n\n\n\n<p>A dona Neivair nos entreteve com as sua hist\u00f3rias e bom humor por mais ou menos uma hora, tempo esse que passou de maneira t\u00e3o r\u00e1pida e inesperada que ficamos chocadas, afinal ainda quer\u00edamos caminhar pela comunidade e fotografar o local. Na sa\u00edda ela ainda nos convidou a voltarmos em outros momentos, com menos pressa.  <\/p>\n\n\n\n<p>Decidimos que caminhar pelo vilarejo era uma boa ideia e fazer o trajeto a p\u00e9 seria uma experi\u00eancia totalmente diferente da de carro, que fizemos quando chegamos. A primeira parada foi o cemit\u00e9rio local, Ana Let\u00edcia nos conta que o cemit\u00e9rio at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s era usado apenas pelos moradores dali, mas algumas pessoas de fora estavam vindo enterrar seus parentes no local tamb\u00e9m. Descendo a estrada novamente acabamos voltando para a igreja cat\u00f3lica, local onde acontece a maioria das festas religiosas da col\u00f4nia, reunindo diversos devotos e moradores.  <\/p>\n\n\n\n<p>Resolvemos fazer a volta e subimos pela estrada que hav\u00edamos chegado de carro. Na volta, passamos pelo campo de futebol da vila. Como era s\u00e1bado \u00e0 tarde, cerca de dez meninos travavam uma partida de futebol amistosa entre eles. Ao final da caminhada, hav\u00edamos percorrido cinco quil\u00f4metros sentindo a natureza local. E mesmo depois de ter percorrido essa dist\u00e2ncia, a frase da dona Neivair em tom de desabafo: \u201cdizem que \u00e9 a \u00e9poca que todos somos iguais\u2026 \u00e9 pura bobagem\u201d, depois do sil\u00eancio e um suspiro, ainda martelava em nossa mente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Arieta Valherri de Almeida No quil\u00f4metro 360 da rodovia PR-151, que liga Ponta Grossa a Palmeira, tamb\u00e9m conhecida como Deputado Jo\u00e3o Chede, um pouco depois do Golf Club da cidade, encontra-se a Col\u00f4nia Sutil. 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