{"id":4468,"date":"2019-10-02T20:35:48","date_gmt":"2019-10-02T23:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4468"},"modified":"2019-10-02T20:35:48","modified_gmt":"2019-10-02T23:35:48","slug":"na-praca-a-vida-e-o-oficio-de-um-engraxate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/na-praca-a-vida-e-o-oficio-de-um-engraxate\/","title":{"rendered":"Na pra\u00e7a, a vida e o of\u00edcio de um engraxate"},"content":{"rendered":"\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em todo lugar da cidade existem\npessoas com hist\u00f3rias que precisam, de alguma forma, ser contadas.\nTodos t\u00eam uma perspectiva diferente por conta de viv\u00eancias que cada\num teve o prazer, ou o desprazer, de ter. Algumas pessoas t\u00eam vidas\nmais calmas, outras vivem a pr\u00f3pria turbul\u00eancia. E \u00e9 esta\ndiversidade que as torna singulares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por sorte, o visual ameno e uma\nhist\u00f3ria calma nunca me chamou aten\u00e7\u00e3o. Na pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio\nBranco, no centro de Ponta Grossa, circulam centenas de pessoas todos\nos dias. Sentada, enquanto observava o vai e vem de corpos, percebia\nmentes e pensamentos n\u00e3o muito presentes no ambiente. Procurava ali\nalgu\u00e9m que me trouxesse uma hist\u00f3ria de vida t\u00e3o boa que me\nlevasse a escrever este perfil, sem pressa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do outro lado da pra\u00e7a, quase\nque despercebido pela correria do dia a dia de todos, estava um\nengraxate. Indaguei: \u201ccomo algu\u00e9m ainda sobrevive com a profiss\u00e3o\nde engraxate?\u201d, pois para mim isso era coisa de filme antigo que\nnada tinha a ver com a minha realidade, e, para minha surpresa, ele\nsorria. E mais uma vez, a vida me mostrou que a minha realidade \u00e9\npequena demais para constatar algumas coisas. Respirei fundo,\nenquanto pensava o que eu podia dizer a ele para puxar algum assunto.\nQuando me aproximei, ele estava acompanhado de uma mulher, enquanto\nriam de algum papel que ele a entregara. Logo quando cheguei, ela\nsorriu, me cumprimentou e se despediu dele. Imaginei, ent\u00e3o, que era\nsua namorada ou esposa, mas logo descobri que n\u00e3o. O homem calmo,\nsorridente e muito simp\u00e1tico que trabalha todos os dias, desde 8h\nat\u00e9 \u00e0s 17h30 na pra\u00e7a, se chama Vilmar Ferreira. E por tr\u00e1s de\ntodo aquele visual \u201cde bem com a vida\u201d existe uma hist\u00f3ria e uma\nvida que s\u00e3o, como v\u00e1rias outras, invis\u00edveis para a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1976, Vilmar nasceu em Ponta Grossa. Por\u00e9m,\nquando casou acabou indo embora para Curitiba. Mas este \u00e9 um longo\npercurso. Seu Vilmar nasceu e morou durante a inf\u00e2ncia no bairro em\nque vive at\u00e9 hoje, Jardim Marina. Ele foi casado durante 24 anos com\nsua ex esposa &#8211; preferiu n\u00e3o revelar seu nome &#8211; e foi como se todo\nesse tempo tivesse sido apagado de sua hist\u00f3ria, pois ele evita\nfalar sobre essas mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Logo que Vilmar casou-se foi\nembora para a capital do Paran\u00e1, Curitiba, onde viveu cerca de oito\nanos com a esposa. Neste tempo, ele trabalhou no Sindicato de\nCuritiba com cargas e descargas de caminh\u00e3o, mas quando perdeu o\nemprego a rela\u00e7\u00e3o com a mulher j\u00e1 n\u00e3o estava mais dando certo.\nVilmar, ent\u00e3o, decidiu voltar para sua cidade natal. Mas agora j\u00e1\nera tudo diferente, ele e a esposa tiveram dois filhos durante este\ntempo, um casal. B\u00e1rbara, que hoje tem 23 anos e mora em Guaratuba,\nlitoral do Paran\u00e1, mas na \u00e9poca tinha 5, e Mateus, hoje, com 19\nanos morando em Curitiba, na \u00e9poca com apenas um ano de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca da separa\u00e7\u00e3o, B\u00e1rbara ficou com a m\u00e3e\nmorando em Curitiba e o ca\u00e7ula voltou com ele para Ponta Grossa.\nQuando pergunto como foi cuidar do filho sozinho, Vilmar olha para\nbaixo e diz \u201cdeu tudo certo\u201d e fica em sil\u00eancio por alguns\nsegundos. Depois ele solta: \u201cfoi muito dif\u00edcil, nem sempre eu\nconseguia cuidar dele como queria, mas deu tudo certo\u201d. Com 12\nanos, Mateus voltou para Curitiba, morar com uma tia por parte da\nfam\u00edlia da m\u00e3e, e est\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje estudando e trabalhando.\nB\u00e1rbara casou e foi embora para o litoral, l\u00e1 ela trabalha e faz um\ncurso t\u00e9cnico. O filho sempre veio o visitar, por\u00e9m a filha o\nconheceu faz apenas tr\u00eas&nbsp; anos \u2013 \u201cpois na \u00e9poca ela tinha\napenas 5 anos\u201d, relembra. Vilmar diz que a rela\u00e7\u00e3o com a ex\nmulher, depois da separa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi amig\u00e1vel e, ent\u00e3o, ela n\u00e3o\no deixou conviver com a menina.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando chegou em Ponta Grossa,\nnovamente, ele decidiu trabalhar de maneira aut\u00f4noma, pois sabia que\nn\u00e3o ia conseguir um \u2018bom\u2019 emprego por ter estudado somente at\u00e9\na oitava s\u00e9rie. Vilmar sabia que trabalhar como catador de\nrecicl\u00e1veis nas ruas era uma op\u00e7\u00e3o para ele, mas tamb\u00e9m sabia que\nia trabalhar muito e receber pouco. Decidiu, ent\u00e3o, enquanto\nprocurava um emprego, trabalhar como engraxate. Ele sabia que n\u00e3o\nexistiam muitos na cidade e que se arriscasse nisso podia dar certo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; No in\u00edcio de 2010, h\u00e1 9 anos,\nValmir comprou uma caixa de engraxar sapatos e saiu pelas ruas de\nPonta Grossa. No come\u00e7o, ele andava de bairro em bairro e de rua em\nrua a fim de conseguir clientes, mas poucos meses depois ele se\ninstalou na pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco, onde permanece at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na sa\u00edda do cal\u00e7ad\u00e3o da\ncidade tem in\u00edcio a pra\u00e7a do \u201cPonto Azul\u201d, como \u00e9 conhecida\npopularmente, dividida por uma rua que caminha para o lado do bairro\nOficinas. Do outro lado da pra\u00e7a, est\u00e1 seu Vilmar, sempre sorrindo,\nconversando ou cantarolando. Conhecido pelas pessoas que passam o dia\nali ou que atravessam a pra\u00e7a todos os dias, \u00e9 dif\u00edcil o momento\nem que n\u00e3o est\u00e1 cercado de amigos conversando com ele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O dia do engraxate come\u00e7a\ncedo. Ele acorda todos os dias dez para as seis da manh\u00e3. Toma o seu\ncaf\u00e9, na casa em que vive com o pai, aposentado, nos fundos da casa\nde uma tia. E \u00e0s 7h parte para o trabalho. Ele e sua companheira, a\nbicicleta usada que ele comprou com o trabalho de engraxate e o\nacompanha at\u00e9 os dias de hoje. \u00c0s 8h ele inicia o trabalho no\ncentro. A caixa que ele usa para apoiar os p\u00e9s dos clientes, a bolsa\nem que ele guarda as graxas e escovas e a cadeira, confort\u00e1vel, em\nque ele recebe os clientes ficam guardadas numa sala, na pra\u00e7a,\ndisponibilizada pela Prefeitura da cidade quando retirou a ordem para\ntrabalhar. Ordem, esta, que ele renova a cada ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando pergunto como \u00e9 o dia a\ndia dele na pra\u00e7a, at\u00e9 mesmo os olhos dele sorriem. \u00c9 vis\u00edvel em\ncada declara\u00e7\u00e3o que d\u00e1, que ele \u00e9 muito feliz com a vida que\nleva. Essa felicidade deve ser porque mesmo n\u00e3o trabalhando em uma\nempresa ganhando muito dinheiro, ele tem a oportunidade de conhecer\npessoas com hist\u00f3rias t\u00e3o incr\u00edveis quanto a dele todos os dias,\npessoas que estejam interessadas no que ele tem a dizer e que,\ntamb\u00e9m, tenham algo a dizer, ele pode ver as crian\u00e7as brincando no\nparque todos os dias sem grandes preocupa\u00e7\u00f5es. Mas ele diz, apenas,\nque pode passar o dia observando a correria de v\u00e1rias pessoas, sem\nprecisar correr. No trabalho, ele n\u00e3o ganha muito, \u00e9 o suficiente\npara sobreviver. Uma m\u00e9dia de 700 reais por m\u00eas, mas ele ainda\ndivide os gastos mensais com a aposentadoria do pai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os meses mais chuvosos s\u00e3o os\nque Vilmar menos fatura dinheiro, pois n\u00e3o tem como se deslocar para\no centro e nem como passar o dia fazendo seu trabalho. Por\u00e9m, quando\nest\u00e1 muito calor ele tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam muitos clientes, pois a maior\nparte dos clientes usa sapatos quando est\u00e1 mais frio. A manh\u00e3 \u00e9 a\nparte do dia em que o engraxate mais recebe clientes, devido \u00e0s\nbaixas temperaturas e ao movimento mais intenso na pra\u00e7a, e o dia da\nsemana em que ele mais tem lucro \u00e9 na quarta-feira. Mesmo assim, ele\ntrabalha de segunda a s\u00e1bado.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na adolesc\u00eancia, antes de ir\nembora para a capital, o senhor j\u00e1 trabalhava por conta em Ponta\nGrossa. Exercia a profiss\u00e3o de jardineiro, com casas certas para\ndesenvolver o trabalho. No entanto, quando voltou, n\u00e3o quis\ncontinuar a antiga rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nas segundas, quartas e sextas\no jardineiro, carregador e engraxate ainda \u00e9 capoeirista. H\u00e1 19\nanos Vilmar \u00e9 professor de capoeira e, aqui em Ponta Grossa, ajuda\nnas aulas de capoeira do Grupo Arte e Vida, no mesmo bairro onde ele\nmora. Nos domingos, o \u00fanico dia da semana que fica em casa, ele\nainda joga bola com os amigos do bairro. O homem simp\u00e1tico ainda\nfinaliza dizendo enquanto ri: \u201cficar sem fazer esportes n\u00e3o d\u00e1!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em qualquer momento da vida, a\nesperan\u00e7a \u00e9 o que move as pessoas. N\u00e3o importa no que elas\ndepositem aquela esperan\u00e7a. Tudo que fazemos \u00e9 focado em algum\nprop\u00f3sito, por menor que seja. Com o engraxate n\u00e3o \u00e9 diferente,\nele n\u00e3o t\u00eam sonhos gigantescos ou que sejam inalcan\u00e7\u00e1veis nesta\naltura da vida, mas ele sonha em se aposentar. Desde que come\u00e7ou a\ntrabalhar nas ruas, ele paga o INSS todos os meses, na esperan\u00e7a de\num dia se aposentar e ter uma vida mais tranquila financeiramente e,\nquem sabe, n\u00e3o deixar de trabalhar como engraxate.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s, mais ou menos, uma hora\nsentada conversando com ele, chega um cliente. Botas de cano alto,\nmarrom e sujas. O homem pergunta quanto custa o servi\u00e7o e Vilmar\nresponde com muita simpatia e educa\u00e7\u00e3o: \u201cpra engraxar \u00e9 4 reais,\nse for a bota de cano alto inteira, \u00e9 8. Para limpar, 2\u201d. O senhor\ndas botas altas pensa por um segundo, enquanto toma um gole de\ncacha\u00e7a em uma garrafa pl\u00e1stica, e responde: \u201cquero limpar\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sentou-se e Vilmar come\u00e7ou o trabalho. N\u00e3o\ndemorou muito tempo para o homem puxar \u201conde voc\u00ea mora? Voc\u00ea\nconhece o fulano? Aquele que mora ali perto de tal lugar&#8230;\u201d papo\nvai e papo vem, Vilmar termina o trabalho. Neste tempo em que ele\natendia o cliente, um pastor, de alguma igreja desconhecida, que aos\ngritos falava mal de todas as outras religi\u00f5es, come\u00e7a a pregar na\npra\u00e7a. Observo o seu Vilmar rindo e balan\u00e7ando a cabe\u00e7a enquanto\nolhava para o pastor e aproveito a deixa para perguntar se ele tem\nalguma religi\u00e3o. Vilmar \u00e9 cat\u00f3lico praticante e, ainda, afirma que\nter um apoio religioso \u00e9 muito importante para ele, por isso ele vai\n\u00e0 missa todos os domingos de manh\u00e3. Desabafa, tamb\u00e9m, que tudo que\nele tem \u00e9 a fam\u00edlia e a f\u00e9 em Deus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Me despe\u00e7o do engraxate com a\nvontade de passar mais horas com ele, sinto que ele ainda tem muito a\ndizer, mas os afazeres do dia n\u00e3o me permitiram. Prometi voltar para\nlhe entregar o perfil e ele sorri agradecendo enquanto afirmava que\nele estava ali para qualquer coisa que eu precisasse. E seu Vilmar\ncontinua, todos os dias, na pra\u00e7a sorrindo e cantarolando enquanto\nfaz o que lhe deixa feliz. Como todos deveriam.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em todo lugar da cidade existem pessoas com hist\u00f3rias que precisam, de alguma forma, ser contadas. Todos t\u00eam uma perspectiva diferente por conta de viv\u00eancias que cada um teve o prazer, ou o desprazer, de ter. Algumas pessoas t\u00eam vidas mais calmas, outras vivem a pr\u00f3pria turbul\u00eancia. E \u00e9 esta diversidade que as torna&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":559,"featured_media":4470,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4468"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/559"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4468\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}