{"id":455,"date":"2011-08-07T21:27:12","date_gmt":"2011-08-07T21:27:12","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=455"},"modified":"2011-08-07T21:27:12","modified_gmt":"2011-08-07T21:27:12","slug":"memorias-de-espacos-e-migracoes-ferroviarias-em-pg","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/memorias-de-espacos-e-migracoes-ferroviarias-em-pg\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de espa\u00e7os e migra\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias em PG"},"content":{"rendered":"<p>O trem trouxe progresso, novos personagens e vidas que fizeram hist\u00f3rias em Ponta Grossa. Desde o final do s\u00e9culo XIX, a Esta\u00e7\u00e3o da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal se tornou um ponto de refer\u00eancia no munic\u00edpio. O local por onde chegavam e sa\u00edam centenas e milhares de pessoas, todos os dias, a cada semana, m\u00eas e ano.<\/p>\n<p>A saudade da Esta\u00e7\u00e3o, desativada a partir do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 e, pior, quase destru\u00edda ap\u00f3s a privatiza\u00e7\u00e3o da Rede, levada a cabo pelo Governo FHC (entre 1996 e 98), deixou um vazio na regi\u00e3o central de Ponta Grossa que, at\u00e9 ent\u00e3o, girava muito em torno dos servi\u00e7os, demandas e espa\u00e7os tamb\u00e9m criados a partir da ferrovia, como o Hospital 26 de Outubro, o com\u00e9rcio no entorno da Esta\u00e7\u00e3o, com bares, hot\u00e9is, restaurantes, terminal urbano, dentre outros estabelecimentos. At\u00e9 aqui \u00e9 uma hist\u00f3ria, j\u00e1 conhecida, que est\u00e1 sendo literalmente destru\u00edda pelo esquecimento ou pela vergonha de governos que preferem entregar o patrim\u00f4nio p\u00fablico para o controle de uma iniciativa privatizada (e fundamentalmente mercantilista).<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente algumas destas mem\u00f3rias vividas que a pe\u00e7a de teatro <em>Esta\u00e7\u00e3o Saudade: o reencontro<\/em>, que est\u00e1 em cartaz com uma s\u00e9rie de apresenta\u00e7\u00f5es na Cidade, traz ao (re)conhecimento dos moradores de Ponta Grossa que, de alguma forma, tiveram suas vidas cruzadas pela hist\u00f3ria da ferrrovia. Com dura\u00e7\u00e3o de 60 minutos, a pe\u00e7a tem classifica\u00e7\u00e3o livre, escrita e dirigida por Helcio Kovaleski para o projeto de populariza\u00e7\u00e3o do teatro na cidade, com o apoio da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de PG.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 simples, mas recheada de lembran\u00e7as e marcas da vida cotidiana de qualquer cidade que foi influenciada pela presen\u00e7a da rede ferrovi\u00e1ria. No palco, quatro personagens se encontram, sob orienta\u00e7\u00e3o de uma suposta ordem de esperar a chegada do Sr A. Enquanto isso, a ordem \u00e9 n\u00e3o lembrar e tampouco falar de suas mem\u00f3rias. Aos poucos, contudo, cada um dos personagens traz suas lembran\u00e7as e experi\u00eancias (saudosas) da presen\u00e7a do trem, da esta\u00e7\u00e3o, inspiradas pelo sonoro apito e sino que anuncia a chegada\/partida de locomotivas &#8211; imagin\u00e1rias, obviamente.<\/p>\n<p>Para quem assiste \u00e0 pe\u00e7a pela primeira vez \u00e9 inevit\u00e1vel o questionamento sobre o significado do Sr A. Seria, acaso, o Autor da pe\u00e7a? Ou o sil\u00eancio, que faz uma hist\u00f3ria de descaso com o patrim\u00f4nio p\u00fablico, na mesma medida em que se perpetua e os personagens n\u00e3o ousam contar suas mem\u00f3rias? Seria, talvez, o monstro da privatiza\u00e7\u00e3o que destruiu nos mal fadados tempos da onda neoliberal (1990-2002), al\u00e9m da ferrovia, boa parte de um rico patrim\u00f4nio cultural e econ\u00f4mico do Pa\u00eds, sob a falsa promessa de deixar o estado mais leve e mais eficiente? O pre\u00e7o desta privatiza\u00e7\u00e3o, hoje, todos sabem o quanto pesa no bolso do brasileiro e, pois, dispensa coment\u00e1rios!<\/p>\n<p>De volta ao palco&#8230; da Esta\u00e7\u00e3o Saudade! No embalo do teatro, o recado de um menino &#8211; para n\u00e3o esperar mais pelo Sr A \u2013 traz alguns questionamentos aos personagens, sobre as mem\u00f3rias e espa\u00e7os que fizeram suas vidas. E seguem as experi\u00eancias, contadas e bem lembradas ao som do apito de uma maria, a fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma quebra no (entre) ato da pe\u00e7a traz ao palco um di\u00e1logo entre dois personagens (o \u201cdesgranhento\u201d e o guaramputa\u201d) que usam (e abusam) de express\u00f5es regionais, mas que podem ser encontradas ao longo do caminho das tropas, at\u00e9 o estado mais ao sul do Pa\u00eds. Coisas para \u201cferver o k-suco\u201d, troca de gentilizas (de um \u201cseu paia\u201d, \u201cfia da pul\u00edcia\u201d, \u201cjacu rabudo\u201d, \u201cvisage\u201d ao \u201ccaipora\u201d) entre um \u201canimar de teta\u201d e o parceiro, quase \u201cvirado do gu\u00e9de\u201d, que v\u00e3o \u201candandinho\u201d, mesmo que s\u00f3 na \u201ccapa da gaita\u201d. Ambos se encontram para um \u201ctar de teatro\u201d, onde se \u201cconta causo\u201d, enquanto ficam se \u201cinliando\u201d na espera de um \u201cfila-b\u00f3ia\u201d, que pode ter \u201ccuque\u201d e at\u00e9 um \u201ccopo de leite quente\u201d.<\/p>\n<p>No retorno ao ambiente das saudades da Esta\u00e7\u00e3o, as personagens s\u00e3o informadas, por um telefone antigo (bem guardado no ba\u00fa), pelo pr\u00f3prio autor da pe\u00e7a de que podem fazer suas pr\u00f3prias trajet\u00f3rias contadas em lembran\u00e7as, sempre cruzadas nos acasos da Esta\u00e7\u00e3o. Cada um com sua mala, de objetos e mem\u00f3rias, que fizeram suas hist\u00f3rias, individuais, mas coletivizadas pela (oni) presen\u00e7a da ferrovia d&#8217;outrora. Refer\u00eancias aos espa\u00e7os, pr\u00e9dios e estabelecimentos de servi\u00e7os que existiram na cidade. Alguns que ainda insistem em n\u00e3o cair, apesar do descuido ou de &#8216;fogos fantasmas&#8217;, que surgem mesmo em tempos de umidade fria, para deixar espa\u00e7o a outros pr\u00e9dios de concreto armado, com menos hist\u00f3rias e mais artificiais.<\/p>\n<p>\u201cO reencontro\u201d na (imagin\u00e1ria) <em>Esta\u00e7\u00e3o Saudade<\/em> \u00e9 uma pe\u00e7a que pode \u2013 ou deveria ser prestigiada \u2013 por todos os moradores da Cidade, mas talvez com mais aten\u00e7\u00e3o por aqueles que est\u00e3o a\u00ed, esperando cargos na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, para melhorar suas vidas particulares, \u00e0 sombra de outros senhores, talvez os mesmos que silenciaram quando a Rede Ferrovi\u00e1ria foi desmontada na d\u00e9cada de 1990. Ali\u00e1s, mesma \u00e9poca em que, no Paran\u00e1, os usu\u00e1rios passaram a pagar uma das tarifas mais caras de ped\u00e1gio rodovi\u00e1rio do Pa\u00eds. Esp\u00e9cie de vergonha em dose dupla (desmonta um servi\u00e7o e encarece o que resta)!<\/p>\n<p>Resta, pois, aqui, a lembran\u00e7a e Saudades de uma Esta\u00e7\u00e3o, que marcou \u00e9poca e a vida de milhares de pessoas que nasceram, chegaram\/partiram ou se encontraram a partir dos trilhos do trem. Por isso mesmo, a pe\u00e7a n\u00e3o tem um car\u00e1ter local ou regional, mas sim universal, pois atualiza e presentifica hist\u00f3rias muito similares que se constru\u00edram em qualquer cidade (m\u00e9dia, grande ou pequena) que se ergueu a partir das estradas e esta\u00e7\u00f5es de trem. Vale prestigiar o que \u00e9 feito, aqui, mas tem for\u00e7a cultural suficiente para ser compreendida em qualquer lugar do mundo, na espera da chegada ou partida de uma locomotiva ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Luiz Gadini, professor, jornalista, membro do Conselho Municipal de Cultura de PG.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trem trouxe progresso, novos personagens e vidas que fizeram hist\u00f3rias em Ponta Grossa. Desde o final do s\u00e9culo XIX, a Esta\u00e7\u00e3o da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal se tornou um ponto de refer\u00eancia no munic\u00edpio. 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