{"id":4667,"date":"2019-10-30T14:51:05","date_gmt":"2019-10-30T17:51:05","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4667"},"modified":"2019-10-30T14:51:05","modified_gmt":"2019-10-30T17:51:05","slug":"a-cooperativa-dos-pequenos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-cooperativa-dos-pequenos\/","title":{"rendered":"A COOPERATIVA DOS PEQUENOS"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cCada um tinha uma gaiota, e n\u00f3s peg\u00e1vamos a gaiota e sa\u00edamos&#8230; \u00c0s vezes sa\u00eda oito horas, voltava meio dia.&nbsp; \u00c0s vezes sa\u00eda sem almo\u00e7o&#8230; Ali a gente ganhava R$5, R$10. Hoje seria cinquenta centavos no dia, e aquele cinquenta centavos a gente ia guardando, guardando para [ao somar tudo] no final de semana, conseguir ajudar na casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro trabalho de Ester da Silva Santos foi como catadora de recicl\u00e1veis. Logo aos dez anos, a menina que foi rejeitada pela m\u00e3e ao nascer viu a necessidade de conseguir algum dinheiro para ajudar em casa. Ela e mais quatro crian\u00e7as: Netio, Fernandinho, Dorli e Paulinho percorriam as ruas da Vila Palmirinha, Vila Isabel e S\u00e3o Jos\u00e9 em busca de utens\u00edlios que os fizessem ganhar alguns trocados.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo sa\u00eda sempre junto para recolher os materiais e dividia tudo que era conseguido nas suas sacolas, chamadas de gaiotas. Se achavam um chinelo, havia brigas para saber com quem ficaria&#8230;&nbsp; Se fosse de uma cor bonita ent\u00e3o, havia uma disputa. Al\u00e9m disso, se encontravam objetos diferentes, com valores simb\u00f3licos para eles, era sempre um pequeno conflito, j\u00e1 que as cinco crian\u00e7as gostavam de coisas que n\u00e3o tinham.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo, batizado de Cooperativa dos pequenos, era muito unido e leal entre si. Mesmo muito pobres, com dificuldades de todos os g\u00eaneros e naturezas, as crian\u00e7as se ajudavam e repartiam tudo que conseguiam naquela vida dif\u00edcil e precoce. Sejam os objetos encontrados nas estradas que passavam, sejam as vontades e a esperan\u00e7a de conseguir uma vida melhor e mais digna.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e biol\u00f3gica da \u00fanica menina daquele grupo ficava em casa para cuidar do outro filho, que era doente, e esperava naquela crian\u00e7a um al\u00edvio financeiro. O marido, que trabalhava com balaios, n\u00e3o conseguia sustentar sozinho a fam\u00edlia e, por isso, a ajuda vinda da filha mais velha era essencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Ester andava pelos bairros em busca de objetos e de comida, sem cal\u00e7ados, j\u00e1 que o \u00fanico t\u00eanis que tinha era para ir \u00e0 escola. Ela, o irm\u00e3o e as duas primas eram outro grupo que sempre ia a lugares oferecer trabalho em busca de alimentos. E faziam sempre um mesmo trajeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Passavam na padaria da dona Nena, onde conseguiam uma sacola de p\u00e3o. Depois, iam ao laranjeiro ajudar a descarregar os sacos da fruta para, em seguida, ganhar uma sacola de laranja. Al\u00e9m desses dois lugares, as crian\u00e7as iam tamb\u00e9m at\u00e9 a feirinha da S\u00e3o Jos\u00e9, onde ajudavam os feirantes a selecionar as verduras que seriam vendidas, daquelas que estavam \u2018machucadas\u2019. Eram estas com as quais o grupo ficava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar em casa, o grupo tirava tudo que havia coletado durante o percurso, para separar o que seria reciclado daquilo com o que ficariam. O final do dia sempre era esperado, visto que na gaiota havia mais espa\u00e7o para sonhos e vontades do que para materialidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante cinco anos, Ester trabalhou com recicl\u00e1veis. Aprendeu muito com a vida na rua. Aprendeu a correr do atual conselho tutelar, que antigamente circulava em um fusca branco e preto. Aprendeu a dar valor ao dinheiro. Aprendeu tamb\u00e9m o prest\u00edgio da amizade, da uni\u00e3o e da solidariedade. Aprendeu que sozinha \u201cn\u00e3o fazemos nada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ser catadora, ela foi bab\u00e1 durante um ano e nesse mesmo per\u00edodo conheceu o atual marido. Aos 16 anos, tornou-se m\u00e3e e casou. Aprendeu novas li\u00e7\u00f5es. Agora, uma beb\u00ea dependia dela e do companheiro. De in\u00edcio, enquanto se ajeitavam com trabalho e moradia, ela morou com a sua sogra por um ano, at\u00e9 o casal conseguir uma casa no Santa M\u00f4nica, onde vive at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira filha, Francisleine, hoje com 32 anos, vive nos fundos do terreno da m\u00e3e e \u00e9 dona de casa, assim como dona Ester. A segunda filha, Frabiola, com 29 anos, tem um curso t\u00e9cnico em Enfermagem e trabalha fora. A mais nova, Morgana, 23, que vive com ela, \u00e9 safrista e recebe um sal\u00e1rio de R$1280,00. Dinheiro este que \u00e9 usado pela fam\u00edlia para sobreviver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a para o Santa M\u00f4nica tamb\u00e9m trouxe uma not\u00edcia n\u00e3o t\u00e3o boa para Ester.&nbsp; Trabalhando como diarista at\u00e9 1994, ela descobriu, na \u00e9poca, que tinha l\u00fapus e ficou em tratamento at\u00e9 1999. Desde ent\u00e3o, parou de trabalhar, j\u00e1 que a doen\u00e7a era eritematosa, mas acabou se transformando em sist\u00eamica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ter que ficar em casa por problema de sa\u00fade, hoje em dia Ester n\u00e3o trabalha porque cuida da irm\u00e3 do marido. A cunhada, com 58 anos, tem uma doen\u00e7a mental que restringe sua capacidade cognitiva a 3 anos de idade e, por isso, precisa de cuidados espec\u00edficos. O marido, at\u00e9 \u00e0 \u00e9poca da entrevista, estava desempregado havia tr\u00eas meses. Ele trabalhava na constru\u00e7\u00e3o civil, mas acabou sendo dispensado.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida no bairro Santa M\u00f4nica, no entanto, nunca foi das melhores. Quando chegou \u00e0 regi\u00e3o, entre 1993 e 1994, o local era sem energia el\u00e9trica, asfalto e havia pouca \u00e1gua. Postes e transporte p\u00fablico s\u00f3 foram conseguidos com a press\u00e3o da comunidade aos \u00f3rg\u00e3os municipais. Havia casos em que gestantes precisavam andar mais de um quil\u00f4metro a p\u00e9 at\u00e9 chegar a um orelh\u00e3o distante e ligar para os servi\u00e7os de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tantas dificuldades advindas da falta de estrutura do bairro, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que o interior da casa tamb\u00e9m fornecia condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. Houve momentos em que Ester e a fam\u00edlia passaram fome, ou per\u00edodos em que a comida que existia na casa era somente arroz com ervilha, ou arroz com pombinha frita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas antes mesmo da vida ter essa configura\u00e7\u00e3o, Ester teve uma origem muito pobre e com muitas lembran\u00e7as marcantes. Nascida na casa da patroa da m\u00e3e, em 1971, na Vila Palmeirinha, em Ponta Grossa, ela foi rejeitada pela pr\u00f3pria genitora at\u00e9 os cinco anos de idade, sob a justificativa de que n\u00e3o era menino, como a m\u00e3e queria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A senhora, para quem a m\u00e3e de Ester trabalhava, cuidou da menina at\u00e9 os primeiros cinco anos, quando a m\u00e3e biol\u00f3gica resolveu assumir a crian\u00e7a, pois havia casado com um senhor. O padrasto ent\u00e3o a registrou como filha leg\u00edtima e a fam\u00edlia passou a viver junta at\u00e9 1985, ano em que ele faleceu, provocando uma mudan\u00e7a brusca naquele c\u00edrculo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; A m\u00e3e n\u00e3o podia trabalhar fora porque cuidava do filho mais novo. A \u00fanica ent\u00e3o que poderia sustentar a casa era Ester, que come\u00e7ou a conhecer o mundo na sua primeira d\u00e9cada de vida. Por conta do trabalho, n\u00e3o teve a oportunidade de concluir nem o ensino fundamental, interrompendo seus estudos na 6\u00aa s\u00e9rie, do Col\u00e9gio Estadual Dr. Epaminondas Novaes Ribas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; O universo da faculdade, ent\u00e3o, sempre esteve distante para ela. Bem como para suas tr\u00eas filhas. Se pudesse estudar, Ester se envolveria com algo que ajudasse pessoas portadoras de defici\u00eancias, j\u00e1 que gosta de apoiar essa parcela da popula\u00e7\u00e3o, porque se sente confort\u00e1vel se comunicando e oferecendo melhorias a quem mais precisa.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje, com 48 anos, ela depende da filha mais nova para manter a casa. Com o marido, a cunhada, a filha, dois gatinhos e dois cachorros, ela n\u00e3o lamenta pela sua condi\u00e7\u00e3o atual. Pelo contr\u00e1rio, diz ser muito grata pelo que tem e onde est\u00e1. Em vista da sua vida sofrida, Ester \u00e9 uma senhora muito sorridente e alto astral. Mesmo passando por momentos muito complicados, ela avalia que o nosso dia a dia possibilita muitos recursos, diferentemente da \u00e9poca em que era crian\u00e7a.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCada um tinha uma gaiota, e n\u00f3s peg\u00e1vamos a gaiota e sa\u00edamos&#8230; \u00c0s vezes sa\u00eda oito horas, voltava meio dia.&nbsp; \u00c0s vezes sa\u00eda sem almo\u00e7o&#8230; Ali a gente ganhava R$5, R$10. 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