{"id":4689,"date":"2019-11-05T20:52:50","date_gmt":"2019-11-05T23:52:50","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4689"},"modified":"2019-11-05T20:52:50","modified_gmt":"2019-11-05T23:52:50","slug":"um-outro-lobisomem-na-ronda-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/um-outro-lobisomem-na-ronda-1\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas &amp; lendas urbanas da Cultura Popular na Regi\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h2><strong>Um (outro) lobisomem na Ronda (1)<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma controvertida figura do folclore nacional, adaptada ao olhar regional, foi tema de uma tela do artista pl\u00e1stico pontagrossense Osires Guimar\u00e3es, em pintura da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI: o lobisomem da Ronda. Historiadores e literatos locais tamb\u00e9m fazem constantes refer\u00eancias \u00e0 lenda que carrega o nome de um dos mais importantes bairros de Ponta Grossa, fazendo inclusive associa\u00e7\u00f5es com a era do tropeirismo.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o, ao menos em registro, qualquer maldade ou refer\u00eancia local aos respeitados moradores da comunidade. Inclusive porque a Ronda \u00e9 um dos bairros que concentra os mais importantes e simb\u00f3licos espa\u00e7os de poder do munic\u00edpio. E, na pesquisa feita por Osires, a refer\u00eancia ao lobisomem mais referenciado na Cidade n\u00e3o teria uma \u00fanica e definitiva explica\u00e7\u00e3o do seu surgimento e, tampouco, d\u00e1 conta da real exist\u00eancia do personagem. E, para n\u00e3o afrontar uma das m\u00e1ximas da cultura hisp\u00e2nica \u2013 \u201cno creio, pero las hay\u201d \u2013, \u00e9 melhor compreender as hip\u00f3teses populares em torno da lenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Umas das vers\u00f5es d\u00e1 conta de que o dito cujo regional \u2013 tamb\u00e9m indicado como o \u2018lobisomi\u2019 ou \u2018lubi\u2019 \u2013 existiria desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, vez por outra, atormentando moradores que escolheram o bairro como moradia. Em noite de lua cheia, na coincid\u00eancia astrol\u00f3gica que oscila entre a segunda metade do outono e a duas primeiras quinzenas do inverno, o Lubi j\u00e1 teria aparecido para pessoas de diferentes faixas et\u00e1rias, g\u00eanero e classe social.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra interpreta\u00e7\u00e3o local d\u00e1 conta de que a lenda estaria associada ao aparecimento no caminho (noturno) de jovens mulheres, preferencialmente as que ignoram ou desafiam a suposta exist\u00eancia do Lobisomem. E l\u00e1 pelas bandas da Ronda n\u00e3o seria diferente. Respeitadas senhoras, que j\u00e1 residiram na localidade, teriam perdido o f\u00f4lego, tentando escapar do dito cujo. Algumas das quais, embora n\u00e3o neguem tais desencontros, preferem n\u00e3o falar, evitando atualizar energias de outros tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez pela proximidade ou coincid\u00eancia geogr\u00e1fica, reza uma vers\u00e3o popular da lenda que o Lubi gosta mesmo \u00e9 de se esconder no pr\u00e9dio mais importante da Cidade \u2013 a base do centro administrativo municipal na esfera executiva. Decorre da\u00ed a hip\u00f3tese de que o dito mant\u00e9m o h\u00e1bito de vagar pelo bairro em fun\u00e7\u00e3o do pal\u00e1cio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m da\u00ed a vers\u00e3o que, por vezes, se ouve em coment\u00e1rios locais: \u201cum lobisomem assombra a vida de setores da popula\u00e7\u00e3o\u201d, a partir da Ronda. Mas, embora possa ser confundido, \u00e9 bom lembrar que o lobisomem n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de demo (refer\u00eancia ao &#8216;capo&#8217; em uma interpreta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de certas cren\u00e7as religiosas). Pode at\u00e9 coincidir, mas n\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o direta e previs\u00edvel. At\u00e9 porque, se assim fosse, a lenda estaria desmontada e pouco sobraria para a f\u00e9rtil imagina\u00e7\u00e3o popular repercutir o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em respeitados espa\u00e7os p\u00fablicos locais, ouve-se que o tal Lubi, quando n\u00e3o \u00e9 visto com a mesma frequ\u00eancia d&#8217; outrora, estaria se deslocando entre corredores, sobrados e algumas salas pouco frequentadas nos maiores pr\u00e9dios p\u00fablicos do bairro. Na esteira desta hip\u00f3tese, diz-se, ainda, que o lobisomem circula, preferencialmente ao entardecer, pelos corredores de um pr\u00e9dio da administra\u00e7\u00e3o municipal e, eventualmente, at\u00e9 se alimenta de sobras de estranhos neg\u00f3cios articulados no entorno do Pal\u00e1cio. Talvez por isso, em alguns momentos conturbados da vida social, sugere-se que um lobisomem ocupa o Pal\u00e1cio da Ronda.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, qualquer trocadilho ou interpreta\u00e7\u00e3o ofensiva, por algu\u00e9m que possa se sentir &#8216;dono&#8217; de pr\u00e9dio p\u00fablico (mal ou bem assombrado) perde o sentido. Tanto que, depois de tantos anos, nenhuma autoridade ousou apresentar sequer um projeto para expulsar o Lubi das redondezas onde optou pela ocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o cabe, aqui, e nem seria fun\u00e7\u00e3o de uma simples cr\u00f4nica, desafiar cren\u00e7as populares. Mas, na d\u00favida, como no caso das bruxas, pode-se at\u00e9&nbsp;n\u00e3o acreditar, mas ainda assim \u00e9 melhor precaver: e n\u00e3o suspeitar da criativa imagina\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p><br><strong><em>S\u00e9rgio Luiz Gadini<\/em><\/strong>, professor, jornalista, pesquisador da cultura popular ao Sul do Ecuador. OBS: Uma primeira vers\u00e3o deste texto foi publicada pelo <em>Di\u00e1rio dos Campos<\/em>, tamb\u00e9m assinado pelo autor, em 05\/11\/2011, sob o t\u00edtulo &#8220;Lendas urbanas em PG: um lobisomem na Ronda\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um (outro) lobisomem na Ronda (1) Uma controvertida figura do folclore nacional, adaptada ao olhar regional, foi tema de uma tela do artista pl\u00e1stico pontagrossense Osires Guimar\u00e3es, em pintura da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI: o lobisomem da Ronda. 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