{"id":4730,"date":"2019-11-06T20:58:12","date_gmt":"2019-11-06T23:58:12","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4730"},"modified":"2019-11-06T20:58:12","modified_gmt":"2019-11-06T23:58:12","slug":"da-india-para-o-brasil-a-vida-de-uma-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/da-india-para-o-brasil-a-vida-de-uma-religiosa\/","title":{"rendered":"Da \u00cdndia para o Brasil, a vida de uma religiosa"},"content":{"rendered":"\n<p>\nYvonne de Lima Fernandes, apesar do nome de origem francesa, \u00e9 uma indiana, nascida no estado de Goa em outubro de 1949. Goa foi uma col\u00f4nia portuguesa por mais de 450 anos at\u00e9 ser anexada pela \u00cdndia em 1961. Devido a isso Yvonne foi habituada \u00e0 l\u00edngua portuguesa desde pequena. N\u00e3o sente falta da \u00cdndia, j\u00e1 morou quatro anos na It\u00e1lia e agora est\u00e1 no Brasil. Como se descreve, era uma menina festeira, extrovertida, adorada pelos vizinhos, morava com seus pais, agora j\u00e1 falecidos e tinha uma irm\u00e3 \u2013 tamb\u00e9m falecida &#8211; e quatro irm\u00e3os, dois que ainda moram na \u00cdndia e dois que est\u00e3o no Brasil. A fam\u00edlia de Yvonne fazia parte da pequena popula\u00e7\u00e3o da \u00cdndia que segue a religi\u00e3o cat\u00f3lica, a maioria no pa\u00eds segue o hindu\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando terminou a 4\u00ba s\u00e9rie, Ivonne foi para uma cidade vizinha, que ficava a uma hora e meia da casa dela para continuar a estudar. Nesta cidade existiam as irm\u00e3s da congrega\u00e7\u00e3o que come\u00e7aram um convento. Yvonne foi colocada no convento para que continuasse seus estudos. Ela nunca pensou em ser freira, mas relata que n\u00e3o se sentia completa, sentia uma felicidade apenas moment\u00e2nea, que n\u00e3o a preenchia. Enquanto observava as irm\u00e3s, acreditou que aquele pudesse ser seu caminho, pois elas se sentiam felizes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as f\u00e9rias da escola foi para casa e um dia, enquanto estava lavando a roupa, come\u00e7ou a pensar: \u201cEu n\u00e3o estou satisfeita, em casa n\u00e3o falta nada, meu pai tem um bom emprego, minha m\u00e3e cuida dos terrenos, mas no fundo n\u00e3o estou satisfeita, aquelas irm\u00e3s s\u00e3o muito felizes, parece felicidade que n\u00e3o termina\u201d, relembra. Foi ali que decidiu que ia fazer parte da congrega\u00e7\u00e3o e entrou para vida religiosa quando tinha 15 anos. Yvonne convidou as irm\u00e3s para irem a sua casa tomar um caf\u00e9 e nesse dia ela falaria para seus pais que seria freira, a melhor de todas as freiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que foi um come\u00e7o dif\u00edcil, seus irm\u00e3os n\u00e3o aceitavam, choravam muito, seu pai teve um infarto nessa \u00e9poca e ela acredita que um dos motivos foi a sua decis\u00e3o. Elas eram duas irm\u00e3s e seu pai n\u00e3o queria que fossem para a vida religiosa. Ele dizia que seus irm\u00e3os podiam ser padres porque eram quatro homens \u2013 um dos irm\u00e3os de Yvonne ficou um tempo no semin\u00e1rio mas voltou ao perceber que esta n\u00e3o era sua voca\u00e7\u00e3o. O pai queria as duas filhas casadas e com uma fam\u00edlia e tinha para Yvonne um plano de que ela fosse m\u00e9dica. A filha concordou e quando voltou para o convento, depois das f\u00e9rias, mandou uma carta falando que n\u00e3o seguiria essa carreira, que faria magist\u00e9rio e seria freira. Logo em seguida seu pai teve um infarto e Yvonne liga esse fato \u00e0 sua decis\u00e3o. Depois de se recuperar, o pai de Yvonne aceitou sua voca\u00e7\u00e3o e veio prestigi\u00e1-la em sua profiss\u00e3o (ordena\u00e7\u00e3o) com o irm\u00e3o mais novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando questionada se j\u00e1 havia pensado em casar e ter filhos, Yvonne relata que sim, que tinha conversas com a m\u00e3e sobre o assunto e que faria isso. Para ela as pessoas t\u00eam uma vis\u00e3o errada da vida das freiras e padres porque pensam que elas\/eles nunca tiveram outros planos antes da vida religiosa, que n\u00e3o tiveram outras experi\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vida de um padre e de uma irm\u00e3 vai ter tenta\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 renovar o importante, ou seja, n\u00e3o ficar naquilo que n\u00e3o faz bem, para a irm\u00e3 tudo \u00e9 consequ\u00eancia dos pensamentos positivos ou negativos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, na \u00cdndia, n\u00e3o existia muitos conventos e, de acordo com Yvonne, n\u00e3o tinha muitas meninas que seguia essa voca\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o teve outros exemplos, de amigas ou conhecidas, que entraram para a vida religiosa, apenas as irm\u00e3s da congrega\u00e7\u00e3o porque viveu com elas para estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Yvonne entrou efetivamente para a vida religiosa em 31 de dezembro de 1969 e fez seus votos perp\u00e9tuos em 30 de dezembro de 1974. S\u00e3o chamados perp\u00e9tuos porque a partir do momento que s\u00e3o pronunciados, diante da comunidade da Igreja, obt\u00e9m os direitos e deveres plenos da Congrega\u00e7\u00e3o e, acima de tudo, est\u00e1 mais segura e madura para sustentar o sim definitivo e sempre renovado ao seu \u00fanico Senhor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na Casa de Forma\u00e7\u00e3o Santa \u00darsula, a rotina de Yvonne come\u00e7a \u00e0s cinco e meia da manh\u00e3 com uma reza, em sil\u00eancio. Depois as religiosas v\u00e3o para a missa e \u00e0s seis e meia voltam e fazem a ora\u00e7\u00e3o vocal que elas chamam de liturgia das horas. \u00c0s oito horas elas tomam caf\u00e9 e ao meio dia se encontram para fazer uma ora\u00e7\u00e3o novamente. Passam em torno de 4 a 5 horas rezando por dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O convento \u00e9 um lugar quieto e isolado, fica no final da Avenida Congonhas no bairro Chapada. Os vizinhos ajudam as irm\u00e3s a cuidarem do local, plantando \u00e1rvores, cuidando do jardim, limpando o terreno. O ambiente \u00e9 muito limpo, calmo e gelado, entra muito vento nas salas, o convento tem tons de marrom e os m\u00f3veis de madeira refor\u00e7am as cores escuras. Existe uma capela no local, refeit\u00f3rios e salas para conversas e de espera. No lugar ainda tem mais uma creche que \u00e9 cuidada tamb\u00e9m pelas irm\u00e3s e professoras.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/dK8LuPZxonCiaLmVTHUzKwYMMZ9cgNzvM0WQ-7ColVR5zSflaFDU-XOVvZhAC4CyFbf6DbdDVx0P06PVLM0NfwCMHg03fg9x8RyPL5O-cFAq7sf70CTGtSA_MvaiBdjWxr3Isjhub8nJy-8WLRxg1UE\" alt=\"WhatsApp Image 2019-06-11 at 17.49.36 (1).jpeg\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Caf\u00e9 da tarde na cozinha do convento<br><\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 acredita que precisa de um tempo livre, mas lamenta que elas s\u00e3o em poucas freiras e acaba ficando uma correria no convento com tantas tarefas. Quando sobra um tempo ela escuta palestras no <em>YouTube<\/em> em l\u00ednguas estrangeiras, como ingl\u00eas, italiano ou em portugu\u00eas e tamb\u00e9m l\u00ea livros no formato de <em>PDF<\/em> (<em>Portable Document Format<\/em>) &#8211; seu livro favorito \u00e9 <em>Treinando a Emo\u00e7\u00e3o para Ser Feliz<\/em>, de Augusto Cury. As leituras brasileiras s\u00e3o poucas, uma das formas de perceber isso \u00e9 que Yvonne est\u00e1 no Brasil h\u00e1 20 anos e ainda tem um sotaque indiano bem marcante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ajudar os outros tamb\u00e9m \u00e9 algo que a irm\u00e3 faz no tempo livre. Indo at\u00e9 as capelas e conversando com os fi\u00e9is, ajudou pessoas que estavam passando por problemas de depress\u00e3o. Em conjunto com as irm\u00e3s que s\u00e3o formadas em Psicologia, ela acredita que Deus pode ajudar nessas quest\u00f5es. Segundo Ivonne, hoje em dia muitas pessoas t\u00eam problemas psicol\u00f3gicos porque n\u00e3o querem passar nenhum tipo de dificuldade, e sim pular para a parte em que j\u00e1 se sentem recompensados e realizados: \u201cO ser humano hoje vive s\u00f3 de sentimentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3 Yvonne assiste notici\u00e1rios, diz gostar bastante de pol\u00edtica e entra em debates constantes por conta do assunto: \u201cEu tenho que combater essa batalha de pol\u00edtica, eu entro muito na pol\u00edtica entre esquerda, direita, PT (Partido dos Trabalhadores), eu falo muito\u201d. Apoia a direita, na figura do presidente Bolsonaro, n\u00e3o gostou da libera\u00e7\u00e3o das armas, mas considera que se bandidos tem armas ent\u00e3o pessoas boas tamb\u00e9m podem ter. Ao perguntar sobre a quest\u00e3o do aborto, ela discorda, em exce\u00e7\u00e3o quando a vida da m\u00e3e est\u00e1 em risco, mas \u00e9 contra porque acredita que est\u00e3o matando uma vida e que esta vida come\u00e7a com a fecunda\u00e7\u00e3o do \u00f3vulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das suas maiores paix\u00f5es s\u00e3o problemas de matem\u00e1tica, que podem envolver estat\u00edsticas ou n\u00e3o, gosta de resolver as equa\u00e7\u00f5es no papel: \u201c\u00c9 a maior alegria minha brincar com n\u00fameros\u201d. Cozinhar tamb\u00e9m faz com que Yvonne se sinta feliz, ainda mais quando \u00e9 elogiada. Perfeccionista, experimenta v\u00e1rias vezes para ver se est\u00e1 bom. Um dos feitos que a deixam orgulhosa foi sua participa\u00e7\u00e3o em quatro celebra\u00e7\u00f5es, que ajudou a realizar mesmo n\u00e3o sendo ministra.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao comparar os dias de hoje com o per\u00edodo de sua juventude, Ivonne observa naquela \u00e9poca eles temiam os adultos e obedeciam, o n\u00e3o \u00e9 mais comum. Segundo ela, os jovens querem ser iguais \u00e0s pessoas mais experientes e falta um pouco de respeito, valores que n\u00e3o est\u00e3o sendo ensinados em casa: \u201cJogamos a culpa na sociedade, mas quem est\u00e1 fazendo a sociedade sou eu e voc\u00ea\u201d. A religiosa acredita que a juventude brasileira est\u00e1 depositando sua felicidade na posse, mas a verdadeira felicidade para a irm\u00e3 \u00e9 fazer o que \u00e9 importante para a vida futura, pois a sociedade mudar\u00e1 se a juventude mudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando era jovem, ela conta que tamb\u00e9m fazia bagun\u00e7as que hoje a deixam irritada, mas para Yvonne uma coisa que nunca mudou foi o carinho das pessoas. Ela conta que at\u00e9 quando fica doente todos querem ajudar e levar ao m\u00e9dico &#8211; uma aten\u00e7\u00e3o que acha que n\u00e3o merece.<\/p>\n\n\n\n<p>A irm\u00e3 Yvonne expressa que a Igreja Cat\u00f3lica relaxou para seguir as fam\u00edlias e as fam\u00edlias relaxaram tamb\u00e9m. \u201cEntramos em uma indiferen\u00e7a que aumentou cada vez mais com os meios de comunica\u00e7\u00e3o, por exemplo, hoje n\u00f3s temos muitos meios, mas em vez de nos aproximar um do outro est\u00e1 nos distanciando\u201d. Em uma vis\u00e3o conservadora, lamenta que as missas n\u00e3o sejam mais em latim e discorda de grupos carism\u00e1ticos porque entende que o enfeite da missa n\u00e3o vai dar mais valor para ela e que n\u00e3o \u00e9 preciso exagero no louvor e nos cantos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando perguntado sobre a melhor e a pior experi\u00eancia de Yvonne, ela custa a lembrar de uma experi\u00eancia boa, mas coloca como uma delas a cria\u00e7\u00e3o de uma capela em homenagem a Brigida de Jesus Morello. J\u00e1 com sua pior, n\u00e3o demora a lembrar de uma que aconteceu enquanto morava na \u00cdndia. Um padre perguntou algo sobre a fundadora e Yvonne n\u00e3o soube responder, ele a humilhou na frente de todos: \u201cFoi uma coisa que me doeu, as outras meninas sabiam porque j\u00e1 estavam fazendo um curso de um ano e eu ainda n\u00e3o tinha feito nada\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Yvonne contou rapidamente a hist\u00f3ria de Brigida que nasceu em 1610, uma mulher que estava \u00e0 frente de seu tempo. Come\u00e7ou uma congrega\u00e7\u00e3o mesmo naquela \u00e9poca que as mulheres n\u00e3o tinham nem voz, nem vez. Para a irm\u00e3, se Brigida n\u00e3o \u00e9 hoje canonizada ou muito conhecida \u00e9 por causa das irm\u00e3s do convento daquela \u00e9poca, que n\u00e3o contaram sobre seus feitos com tanto entusiasmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Yvonne de Lima Fernandes, aos 70 anos se considera uma mulher que \u00e9 amada por Deus, apesar de nunca ter pensado em doar sua vida para Deus e para o povo. A voca\u00e7\u00e3o que ela segue hoje \u00e9 o dom que recebeu. Uma mulher de temperamento forte, impulsiva, impaciente, alegre, reconhecida pelas pessoas por sua sinceridade e grande vitalidade. Ela se sente uma pessoa cada vez mais amada e feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yvonne de Lima Fernandes, apesar do nome de origem francesa, \u00e9 uma indiana, nascida no estado de Goa em outubro de 1949. Goa foi uma col\u00f4nia portuguesa por mais de 450 anos at\u00e9 ser anexada pela \u00cdndia em 1961. Devido a isso Yvonne foi habituada \u00e0 l\u00edngua portuguesa desde pequena. 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