{"id":475,"date":"2011-11-05T21:23:35","date_gmt":"2011-11-05T21:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=475"},"modified":"2011-11-05T21:23:35","modified_gmt":"2011-11-05T21:23:35","slug":"o-perigo-dos-esquemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-perigo-dos-esquemas\/","title":{"rendered":"O perigo dos esquemas"},"content":{"rendered":"<div class=\"stx\">\n<p>N\u00e3o deixa de ser um alento um festival do porte do Fenata abrir a temporada trazendo o escritor mineiro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa ao palco, um dos maiores nomes da literatura brasileira, autor do cl\u00e1ssico \u2018Grande Sert\u00e3o: Veredas\u2019. No caso desta 39\u00aa edi\u00e7\u00e3o, o p\u00fablico da noite de abertura do festival, nesta sexta-feira (4), assistiu a uma adapta\u00e7\u00e3o do conto Miguilim feita pelo diretor e dramaturgo curitibano Edson Bueno, que j\u00e1 fez hist\u00f3ria no Fenata (com O Grande Deboche, ganhador do pr\u00eamio de melhor espet\u00e1culo juntamente com a j\u00e1 lend\u00e1ria montagem de Toda Nudez Ser\u00e1 Castigada, dirigida pelo saudoso Z\u00e9 Teodoro, em 1985).<\/p>\n<p>A montagem, hom\u00f4nima ao conto, \u00e9 dirigida por La\u00e9rcio Ruffa, que trouxe a Ponta Grossa um elenco renovado do grupo Tanahora, da PUC\/PR, em Curitiba, que j\u00e1 tem 30 anos de hist\u00f3ria. T\u00e3o renovado que leva tr\u00eas crian\u00e7as ao palco. Uma delas \u00e9 Tiago Galan, de nove anos, que interpreta justamente o personagem-t\u00edtulo. Ruffa tamb\u00e9m j\u00e1 ganhou como melhor diretor por Bella Ciao, no Fenata de 1993.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo conta a hist\u00f3ria de um garoto pobre \u2013 Miguilim \u2013, de uma fam\u00edlia sofrida do interior de Minas Gerais, que, em meio aos problemas de educa\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria e muitos conflitos, mostra for\u00e7a de vontade e esperan\u00e7a, calcada em sonhos que v\u00e3o al\u00e9m dos limites da regi\u00e3o onde mora. Perto de sua casa, h\u00e1 um monte que n\u00e3o poderia ser ultrapassado. Mas Miguilim sonha em descobrir o que a vida reserva para ele \u201cdo lado de l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Percebe-se nitidamente que a montagem do Tanahora ainda tem uma longa estrada para percorrer. N\u00e3o s\u00f3 pelo elenco bastante heterog\u00eaneo, como tamb\u00e9m pelas op\u00e7\u00f5es de montagem e dire\u00e7\u00e3o. O que chama a aten\u00e7\u00e3o, mais que a ousadia de se adaptar um texto complexo e por vezes \u00e1rido \u2013 que mostra a genialidade de Rosa, j\u00e1 antecipando alguns dos melhores momentos de Grande Sert\u00e3o \u2013, \u00e9 a coragem de levar essa empresa \u00e0 frente no palco. Com essas duas pontas do processo, por assim dizer, Ruffa optou por pesar a m\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o, especialmente no desenho coreogr\u00e1fico dos atores. E ele acerta ao colocar atores, no fundo do palco, caminhando lentamente \u2013 como a mostrar a vida lenta do sert\u00e3o. Ou quando faz Miguilim e seu pai correrem em c\u00edrculo, mas em sentidos contr\u00e1rios. Mas, se a m\u00e3o pesada da dire\u00e7\u00e3o pode ter sido talvez o \u00fanico caminho no caso de unir elenco jovem mais adapta\u00e7\u00e3o de texto dif\u00edcil, o espet\u00e1culo resulta em um esquematismo por vezes rigoroso. Consequ\u00eancia disso \u00e9 uma montagem que em alguns momentos chega a ser monoc\u00f3rdica, o que dificulta a aprecia\u00e7\u00e3o de cenas muito po\u00e9ticas, nas quais se somam tamb\u00e9m a sonoplastia e a ilumina\u00e7\u00e3o \u2013 um dos pontos altos do espet\u00e1culo, ali\u00e1s. Para usar at\u00e9 mesmo uma imagem bastante rosiana, falta o elenco se sentir \u00e0 vontade no palco para que o espet\u00e1culo possa \u2018voar\u2019.<\/p>\n<p>Outro cuidado que se deve tomar \u00e9 com a articula\u00e7\u00e3o vocal dos atores. Dependendo de onde estiver o espectador, a compreens\u00e3o do espet\u00e1culo torna-se muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>De qualquer forma, Miguilim prendeu o p\u00fablico durante 70 minutos. Prova de que \u00e9 um bom espet\u00e1culo. Mas \u00e9 importante que se diga tamb\u00e9m que a disponibilidade \u2013 e, por que n\u00e3o dizer, a generosidade \u2013 de um p\u00fablico de abertura do Fenata pode ser maior do que uma recep\u00e7\u00e3o a princ\u00edpio favor\u00e1vel ao espet\u00e1culo. Teatro tem disso. E \u00e9 preciso muita cautela ao se aferir a aceita\u00e7\u00e3o de uma montagem por parte da plateia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Helcio Kovaleski<\/strong><span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span>\u00e9 cr\u00edtico de teatro desde 2000, quando come\u00e7ou a escrever para o site<span class=\"apple-converted-space\"> Convoy<\/span>. Desde 2001, publica regularmente cr\u00edticas sobre os espet\u00e1culos do<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span><strong><em>Fenata<\/em><\/strong><span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span>no jornal<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span><strong><em>Di\u00e1rio dos Campos<\/em><\/strong>. Tamb\u00e9m j\u00e1 publicou cr\u00edticas de espet\u00e1culos que vieram a Ponta Grossa em outros per\u00edodos do ano.\u00a0Entre 2002 e 2004, escreveu cr\u00edticas de cinema no jornal<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span><strong><em>d\u2019pontaponta<\/em><\/strong><span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span>e, entre 2005 e 2006, cr\u00edticas de televis\u00e3o no jornal cultural<span class=\"apple-converted-space\">\u00a0<\/span><strong><em>Grimpa<\/em><\/strong>.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o deixa de ser um alento um festival do porte do Fenata abrir a temporada trazendo o escritor mineiro Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa ao palco, um dos maiores nomes da literatura brasileira, autor do cl\u00e1ssico \u2018Grande Sert\u00e3o: Veredas\u2019. 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