{"id":4825,"date":"2019-11-20T19:59:09","date_gmt":"2019-11-20T22:59:09","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4825"},"modified":"2019-11-20T19:59:09","modified_gmt":"2019-11-20T22:59:09","slug":"valdemar-um-tropeiro-de-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/valdemar-um-tropeiro-de-verdade\/","title":{"rendered":"Valdemar, um \u2018tropeiro de verdade\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cPosso te pedir uma coisa, meu filho? Me queira bem que n\u00e3o custa nada\u201d.<br><em>\t<\/em>\u00c9 o que pede, solene, o homem de mais de 1,80m sentado na cadeira da varanda com postura reta e um chap\u00e9u Panam\u00e1 surrado, mostrando que o objeto fora recentemente usado para um trabalho duro.<br>\tValdemar Jos\u00e9 dos Santos &#8211; ou \u201cValdemar Tropeiro\u201d, como prefere ser chamado &#8211; tem 89 anos. Nascido no interior do Paran\u00e1, o tropeiro viu na \u2018lida\u2019 com animais o sustento de uma vida. Valdemar sempre soube que o trabalho era duro e perigoso, mas em 1940, quando come\u00e7ou a aceitar pequenos servi\u00e7os para guiar os cavalos de uma fazenda pr\u00f3xima para outra, n\u00e3o existiam muitas oportunidades para um garoto de 11 anos. <br>\tHoje, o cavaleiro carrega as marcas dos anos de trabalho pesado exercido em fun\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o. Possui diversas fraturas pelo corpo: dois joelhos quebrados, uma cicatriz na cabe\u00e7a &#8211; escondida pelo chap\u00e9u &#8211; de um coice de \u00e9gua prenha, seus p\u00e9s tamb\u00e9m s\u00e3o quebrados e h\u00e1 cerca de dez anos teve t\u00e9tano no p\u00e9 direito devido a um ferimento com tesoura. Mas, sem d\u00favida, o mais surpreendente \u00e9 um furo que atravessa o p\u00e9 de um lado a outro, feito ap\u00f3s cair de um cavalo em uma cerca na qual acabou pisando em um <em>cravo <\/em>(prego de 10cm). Todos esses ferimentos foram tratados em casa, com \u201cch\u00e1 de alho\u201d, como descreve sorrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem atendimento m\u00e9dico, as fraturas cicatrizaram irregularmente, de forma que n\u00e3o pode mais vestir botas, seu cal\u00e7ado preferido. \u201cS\u00f3 tem um tipo de bota que posso cal\u00e7ar, que \u00e9 uma que um amigo sapateiro faz. Ele mede e deixa certinho para usar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre sorridente, orgulha-se do que diz ser seu maior tesouro: os amigos e a fam\u00edlia. \u201cEm qualquer lugar que voc\u00ea v\u00e1, \u00e9 preciso saber entrar para saber sair. Por isso sou t\u00e3o querido\u201d, diz. A vontade de estar perto das pessoas que gosta e ter sempre algu\u00e9m para conversar \u00e9 tamanha que foi o que o motivou a sair de uma casa que alugava na \u00e1rea rural para, aos 80 anos, construir uma nova resid\u00eancia \u00e0s margens da rodovia, pr\u00f3ximo da entrada da cidade de Siqueira Campos\/PR, onde o movimento e o tr\u00e1fego de pessoas \u00e9 alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Dali, de sua varanda, ele pode ver as pessoas se aproximando de longe e suas dezenas de amigos e conhecidos o cumprimentam ao passar &#8212; cumprimento este que \u00e9 correspondido imediatamente com acenos de m\u00e3o e um grito surpreendentemente forte para algu\u00e9m com a sua idade: \u201cA\u00ea, companheiro!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Valdemar parece ter sa\u00eddo diretamente de uma m\u00fasica do Teixeirinha, \u00e9 um nato contador de hist\u00f3rias. O <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=n47iU8Hj8KY\">Tropeiro Velho<\/a> gosta de \u2018prosear\u2019. No fog\u00e3o \u00e0 lenha aceso, que aquece a casa de madeira nas noites frias, sempre tem uma chaleira de \u00e1gua fervendo para tomar um mate quando o pr\u00f3ximo \u2018companheiro\u2019 chegar &#8212; o que geralmente acontece a cada duas horas. S\u00e3o amigos que chegam, falam sobre o dia, a vida; e depois de uma cuia de chimarr\u00e3o, levantam-se e v\u00e3o embora.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/yWSDpOqxzOD6CDptMIqRwGMdxINkpsPlPdpPEB321kyiRm21z46z0bVFnBS6mZ3ztjPUjQjxsh8wp1v5r8vKJRAqumDPcuwnq4ariuWEx8RZ_bGoMU46BoNn785KJ8Zeeg8vqYBrG59s4rjYfM91MnE\" alt=\"\" \/><figcaption> <strong>Valdemar Tropeiro e o amigo Avelino de Jesus<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/WzXKyNzyAuIqXr2IBBdsbDS8e5YeINtwNUHZzg-gL2dhvGvNrBrYV73WOc3pTaY4FPkqvgnErBFaINusN8dQyWOLm1KH_hhq5jWtmpZoGuMXhkJKhwT2mCeqmlG5Hs-bJzDqyTdhqZGbtvgBRcBkUsA\" alt=\"\" \/><figcaption> <strong>Valdemar encilhando seu cavalo<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na casa, mora apenas com sua esposa dona Maria, que cuida da comida e dos rem\u00e9dios, enquanto ele faz alguns \u2018rolos\u2019, comprando e vendendo \u2018tralhas\u2019 e cavalos para ganhar um dinheirinho extra. Valdemar nunca trabalhou de carteira assinada. Na verdade, sequer tinha documentos com exce\u00e7\u00e3o da certid\u00e3o de nascimento e casamento. \u201cEu nunca votei e nem me vacinei, s\u00f3 consegui a certid\u00e3o de casamento porque um amigo meu trabalhava l\u00e1\u201d.<em> <\/em>Ainda assim, aos 82 anos, Valdemar conseguiu se aposentar, gra\u00e7as a um amigo fazendeiro conhecido na regi\u00e3o que disse para as autoridades que o tropeiro trabalhou em sua fazenda durante muitos anos.<br> Pai de 7 filhos, ele afirma que nunca bebeu nem fumou durante toda a sua vida. O motivo \u00e9 ter desenvolvido um trauma da bebida alco\u00f3lica e do cigarro ap\u00f3s ser obrigado a carregar seu pai dos bares para a casa durante a adolesc\u00eancia. \u201cVendo aquilo ali, meu pai naquela situa\u00e7\u00e3o, eu prometi pra mim mesmo que nunca ia fumar, beber ou jogar\u201d, conta.<br> <\/p>\n\n\n\n<p>As \u2018tropeadas\u2019 duravam longas semanas. Numa de suas maiores viagens, pegou uma tropa de 100 mulas xucras no Rio Grande do Sul e entregou todas domadas e mansas em Sorocaba-SP. A viagem durou quase tr\u00eas meses e foi acompanhada apenas de mais um tropeiro e um menino de madrinheiro. As dificuldades iam do terreno ruim, falta de pasto, o mau tempo como chuva e frio at\u00e9 ind\u00edgenas hostis protegendo as terras.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns de seus filhos ele foi conhecer apenas quando j\u00e1 estava com meses de vida. \u201cEu fazia o que era preciso para conseguir ganhar um dinheiro e dar de comer \u00e0 fam\u00edlia\u201d.<br>\tLonga como uma \u2018tropeada\u2019, o tropeiro diz que \u00e9 a sua vida. Hoje, suas ambi\u00e7\u00f5es s\u00e3o simples. \u201cAgora que eu estou parando de lidar com os animais, s\u00f3 quero poder ir visitar meus companheiros de lida\u201d, conclui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao me despedir, Valdemar Tropeiro me faz um \u00faltimo pedido inusitado: \u201cPosso te pedir uma coisa antes de voc\u00ea ir? N\u00e3o precisa se lembrar de mim, \u00e9 s\u00f3 n\u00e3o me esquecer, companheiro!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/TfpMzu4zXt2I5BgaHTwclUXsGvnOmxGRWXOSeooljFwHFPn3o71OvPHDTTjOuFxqBh9tYvh3OAiUsiRZglzzhvok0y5JDBsKq4QNJfcSr2kNahPx7ayakVUDqvWzsx8yVSrmaIwPTaOdbqlq_VEE_RM\" alt=\"\" \/><figcaption> <strong>Valdemar (89) e seu bisneto Bryan Santos (09)<\/strong> <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>* Tropeiro de Verdade \u00e9 uma m\u00fasica feita pelos filhos de Valdemar em homenagem ao pai. Disponivel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=93bKvAjJCpE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=93bKvAjJCpE<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPosso te pedir uma coisa, meu filho? Me queira bem que n\u00e3o custa nada\u201d. \u00c9 o que pede, solene, o homem de mais de 1,80m sentado na cadeira da varanda com postura reta e um chap\u00e9u Panam\u00e1 surrado, mostrando que o objeto fora recentemente usado para um trabalho duro. Valdemar Jos\u00e9 dos Santos &#8211; ou&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":524,"featured_media":4826,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4825"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/524"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4825\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}