{"id":4831,"date":"2019-11-21T13:33:49","date_gmt":"2019-11-21T16:33:49","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4831"},"modified":"2019-11-21T13:33:49","modified_gmt":"2019-11-21T16:33:49","slug":"cronicas-lendas-urbanas-da-cultura-popular-na-regiao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/cronicas-lendas-urbanas-da-cultura-popular-na-regiao-2\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas &amp; lendas urbanas da Cultura Popular na Regi\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h2><strong>Um (Outro) Lobisomem na Ronda (3)<\/strong><br><\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das hip\u00f3teses sobre a persist\u00eancia e atualidade das lendas urbanas deve-se ao modo como as pessoas conversam sobre personagens que n\u00e3o saem do imagin\u00e1rio coletivo, ao longo de meses, anos e d\u00e9cadas. Este \u00e9 o caso de uma das lendas urbanas mais presentes em Ponta Grossa: o Lobisomem da Ronda. Aos pr\u00f3ximos ou \u00edntimos, diz-se \u2018Lobi\u2019 ou mesmo \u2018lubi\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>A vers\u00e3o que justifica a escolha do Lubi pelo bairro da Ronda foi se legitimando na mesma propor\u00e7\u00e3o em que importantes servi\u00e7os p\u00fablicos passaram a ter como sede o entorno da municipalidade. Por l\u00e1, reza a lenda, se consegue fazer (quase) de tudo! Pagar imposto, acertar as contas com o \u2018le\u00e3o\u2019, pedir o que ainda resta de aposentadoria, reclamar da gest\u00e3o question\u00e1vel dos servi\u00e7os prestados (com ou sem resultado), criar leis como prev\u00ea a tal \u2018casa\u2019, abrir e fechar uma \u2018firma\u2019 e, claro, ou mais estrat\u00e9gico ao Lubi, negociar cargos, comiss\u00f5es, eventuais regalias e fun\u00e7\u00f5es na gest\u00e3o coletiva sem a necessidade dos disputados concursos p\u00fablicos, que habitualmente enfrentam os milhares de trabalhadores que optam pela profiss\u00e3o de servidor. Ao Lubi, claro, dispensa-se exig\u00eancias pr\u00e9vias, curr\u00edculo ou habilidade para o exerc\u00edcio funcional na \u2018coroa\u2019 gestora.<\/p>\n\n\n\n<p>O Lobisomem se tornou, l\u00e1 pelas ladeiras (asfaltadas ou n\u00e3o) da Ronda, uma esp\u00e9cie de celebridade que n\u00e3o aparece. Ele seria um quase equivalente ao \u2018popular\u2019, imaginado pelo Luiz Fernando Ver\u00edssimo: algu\u00e9m que est\u00e1 em todas, mas n\u00e3o pode ser facilmente identificado, n\u00e3o d\u00e1 entrevista, mas sabe as respostas para as perguntas \u00e0 queima-roupa da reportagem ao vivo. N\u00e3o \u00e9 visto, mas \u00e9 sempre lembrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele, o Lubi, figura ainda como um \u2018ghost writer\u2019 da pol\u00edtica tradicional. A cadeira que voc\u00ea imagina estar vazia ao lado da chefia, l\u00e1 pode estar o Lubi, sentado, embaixo da mesa, circulando no teto ou batendo no copo quando algum convidado desavisado pensa que vai tomar a \u00e1gua que est\u00e1 na mesa apenas para marcar cen\u00e1rio fotogr\u00e1fico (\u2018\u00e1gua boa de beber\u2019, cantou um poeta mineiro, que passou pelo FUC, em um Inverno destes nos Campos Gerais).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 existe, inclusive, suspeita de que, quando um entrevistado vacila ou tenta enrolar na resposta sobre eventual inefici\u00eancia da gest\u00e3o p\u00fablica,&nbsp;na pr\u00e1tica, estaria aguardando a resposta certeira para desnortear a reportagem, em geral, esquivando-se ou responsabilizando a imagin\u00e1ria oposi\u00e7\u00e3o. A velha estrat\u00e9gia valeria at\u00e9 mesmo para um cen\u00e1rio de quase 20 dos 23 representantes eleitos pelo povo e que integram, em variadas propor\u00e7\u00f5es, a ampla base de apoio de um alcaide familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, tamanha assimila\u00e7\u00e3o funcional do Lobisomem na vida coletiva da Ronda gera interpreta\u00e7\u00f5es desgostosas. Em uma das vers\u00f5es, o Lubi teria uma pr\u00e1tica de trairagem, ratazana ou <em>habitu\u00e9<\/em> da combalida infidelidade partid\u00e1ria eleitoral. E isso pela suspeita de que, t\u00e3o logo troca o \u2018dono\u2019 das prestigiadas cadeiras girat\u00f3rias, o Lubi esquece da chefia anterior e, em tempo record, demonstra familiaridade com os rec\u00e9m-empossados, gozando de simpatia e confian\u00e7a na \u2018nova alian\u00e7a\u2019 para o atraso. \u201cTra\u00edra\u201d! \u201cBagre ensaboado\u201d! \u2013 teria assoprado um ex-governista de plant\u00e3o, ao constatar que o Lubi, oito anos depois, encostou da mesma forma no eleito.<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, uma suspeita corrente \u00e9 de que o Lobisomem exerceria, nos entornos da velha ronda, um papel de \u2018esp\u00edrito\u2019 obsessor, que encosta para usufruir das benesses e vantagens dos renomeados (e hipot\u00e9ticos) saqueadores de plant\u00e3o. Mas, esta \u00e9 uma outra hist\u00f3ria, que precisa ser verificada e, se procede, futuramente apresentada com mais detalhes, sob pena de gerar incompreens\u00f5es aos adeptos de emergentes cren\u00e7as ma\u00e7o-neo-pentecostais da medievalidade contempor\u00e2nea nos Campos Ge(ne)rais do Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\tIneg\u00e1vel \u00e9 que na Ronda o Lobisomem parece se sentir t\u00e3o em casa que, ao menos at\u00e9 o momento, sequer teria consultado as ofertas imobili\u00e1rias para ocupar outros bairros na Cidade.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>S\u00e9rgio Luiz Gadini<\/em><\/strong>, professor, jornalista, pesquisador da cultura popular ao Sul do Ecuador.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um (Outro) Lobisomem na Ronda (3) Uma das hip\u00f3teses sobre a persist\u00eancia e atualidade das lendas urbanas deve-se ao modo como as pessoas conversam sobre personagens que n\u00e3o saem do imagin\u00e1rio coletivo, ao longo de meses, anos e d\u00e9cadas. 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