{"id":4907,"date":"2019-12-11T20:50:53","date_gmt":"2019-12-11T23:50:53","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4907"},"modified":"2019-12-11T20:50:53","modified_gmt":"2019-12-11T23:50:53","slug":"ser-diferente-atualmente-e-fazer-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/ser-diferente-atualmente-e-fazer-politica\/","title":{"rendered":"Ser \u201cdiferente\u201d atualmente \u00e9 fazer pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>Cesar Lima foi criado em uma \u00e1rea rural do munic\u00edpio de Teixeira Soares at\u00e9 dois anos atr\u00e1s, quando veio para Ponta Grossa estudar Economia na Universidade Estadual de Ponta Grossa &#8211; embora admita ser ruim com n\u00fameros e c\u00e1lculos. Filho de um casal de produtores rurais, mudou-se para Ponta Grossa seis meses depois que entrou no curso. Antes disso pegava \u00f4nibus que a prefeitura da cidade disponibiliza para trazer universit\u00e1rios para a UEPG.<\/p>\n\n\n\n<p>\tAos 20 anos se mudou para uma cidade que conhecia pouco. Quando passou no vestibular viu a oportunidade de conhecer outras coisas e se libertar do lugar de opress\u00e3o em que estava.<\/p>\n\n\n\n<p>\tMora na casa que seus pais t\u00eam em Ponta Grossa, uma resid\u00eancia humilde no bairro Castanheira. Vive s\u00f3, por\u00e9m nos finais de semana seus pais vem para a cidade. Acorda cedo, \u00e0s 6h da manh\u00e3 para pegar dois \u00f4nibus para ir ao trabalho, uma loja de produtos agr\u00edcola no bairro Oficinas. Fica no trabalho at\u00e9 o meio da tarde, e esse meio tempo entre aula e trabalho ele usa para comprar produtos para o seu segundo trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tCesar, quando n\u00e3o est\u00e1 trabalhando ou estudando, \u00e9 <em>drag queen <\/em>e faz performances em eventos, festas e baladas da cidade. Geralmente, \u00e0s sextas-feiras, depois da aula, muitas vezes em banheiro p\u00fablico, tira da mochila pinc\u00e9is, sombra, r\u00edmel, batom e uma longa peruca ruiva. A partir da\u00ed surge quase como uma entidade Angel Houston. O barulho do salto alto ecoa pelo banheiro, o vestido arrasta pelo ch\u00e3o e sai do banheiro masculino uma mulher. \u201cCesar n\u00e3o existe mais, ou melhor, est\u00e1 na mochila\u201d, brinca Angel.<\/p>\n\n\n\n<p>\tEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, Cesar sempre foi convicto e aceitou o que sentia, mas escondeu dos pais e irm\u00e3os. Quando se mudou para Ponta Grossa se libertou e conheceu o primeiro menino.<\/p>\n\n\n\n<p>\tQuando morava na zona rural de Teixeira Soares, Cesar nunca havia ouvido falar de <em>drag queens<\/em>, a primeira vez que ouviu ou soube da exist\u00eancia da arte <em>drag<\/em> foi passando na frente de uma casa noturna da cidade. Para ele, homens que se vestiam de mulher eram travestis e s\u00f3, n\u00e3o poderiam ser outra coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tO come\u00e7o da \u201cmonta\u00e7\u00e3o\u201d foi aos poucos. Iniciou com l\u00e1pis de olho, blush e p\u00f3 apenas, e seguiu assim por alguns meses at\u00e9 juntar dinheiro e comprar uma peruca de outra <em>drag<\/em> de PG, Morgana Firebomde, e come\u00e7ar a se jogar no universo das <em>drag queens<\/em>. As roupas no in\u00edcio foram compradas em lojas do Cal\u00e7ad\u00e3o, Cesar lembra que a primeira roupa que pode comprar foi um top, uma saia e um salto alt\u00edssimo, que segundo ele \u00e9 essencial para ter um bom desempenho nas performances.<\/p>\n\n\n\n<p>\tA inspira\u00e7\u00e3o para Cesar virar Angel surgiu em 2017 quando estava muito em voga a arte <em>drag<\/em> nos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o. Artistas como Pabllo Vittar, Lia Clark, Gloria Groove, Aretuza Love e, claro, Rupaul, internacionalmente conhecida pelo <em>reality show<\/em> Rupaul Drag Race, entraram para a lista de divas do pop.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tA fam\u00edlia de Cesar n\u00e3o sabe da sua vida dupla. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 principalmente com o pai: \u201celes me expulsam de casa. Como moro na casa dele, tenho que manter segredo e ter que me virar do jeito que d\u00e1\u201d. Sem poder assumir sua sexualidade e sua vida dupla, mant\u00e9m escondida sua personalidade at\u00e9 dos irm\u00e3os que, segundo ele, n\u00e3o aceitariam ter um algu\u00e9m na fam\u00edlia que se veste com roupas que n\u00e3o condizem com o g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u201cQuando eles est\u00e3o aqui ou quando meu pai vem me visitar tenho que esconder \u00e0s pressas roupas, maquiagem, salto e peruca. \u00c0s vezes, ele acha e joga fora. Dai tenho que comprar tudo de novo. Quando me pergunta de quem \u00e9 digo que \u00e9 de uma amiga\u201d. Cesar conta que j\u00e1 gastou mais de mil reais, tendo que comprar roupas novas, maquiagens, c\u00edlios, perfumes, bijuterias, que seu pai jogou fora.<\/p>\n\n\n\n<p>\tQuando os pais ligam avisando que est\u00e3o vindo, corre esconder em cima do telhado as roupas novas para n\u00e3o serem jogadas fora. Mesmo com tantas evid\u00eancias de uma vida dupla, acredita que o pai n\u00e3o desconfia de nada, pois a menor desconfian\u00e7a j\u00e1 seria motivo para uma expuls\u00e3o de casa. Ele lembra que, quando crian\u00e7a, o pai o batia por ter trejeitos femininos, principalmente quando bebia.<\/p>\n\n\n\n<p>\tA inseguran\u00e7a se d\u00e1 tamb\u00e9m da porta para fora de casa. \u201cSer <em>drag<\/em> vai muito al\u00e9m de ir por a\u00ed com peruca, maquiagem chamativa e vestido, \u00e9 um ato pol\u00edtico, pois preciso ter muita coragem para sair como o sexo oposto e mostrar para o mundo como eu realmente sou. N\u00e3o posso sair sozinho. Preciso estar em grupo, com squad, caso contr\u00e1rio apanhamos ou at\u00e9 morremos na rua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\tConheceu outras <em>drags<\/em> quando come\u00e7ou a sair para lugares onde elas est\u00e3o em Ponta Grossa, e fazer amizades com elas ajudou em diversos aspectos a se encontrar na vida, como se comportar, usar as roupas, al\u00e9m do companheirismo que uma d\u00e1 a outra, principalmente quando est\u00e3o na rua.<\/p>\n\n\n\n<p>\tAngel j\u00e1 teve que correr na rua para se proteger, principalmente quando precisa pegar \u00f4nibus montada de volta para a casa, e vira a atra\u00e7\u00e3o dos lugares por onde passa, pois a peruca vermelha e o salto chamam muito a aten\u00e7\u00e3o. A drag garante n\u00e3o se sentir confort\u00e1vel quando est\u00e1 montado e anda nas ruas, pois os olhares a incomodam.<\/p>\n\n\n\n<p>\tPara se dedicar exclusivamente \u00e0 arte <em>drag,<\/em> Cesar pensa em sair do trabalho no escrit\u00f3rio. N\u00e3o saiu antes porque \u00e9 o que lhe d\u00e1 o sustento, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 algo que quer fazer para a vida inteira, pois n\u00e3o se v\u00ea o resto da vida nesse trabalho. Ele deseja se mudar para uma cidade maior e continuar com a arte que lhe atrai.<\/p>\n\n\n\n<p>\tPara ele, se montar \u00e9 algo inexplic\u00e1vel: \u201c\u00e9 ter prazer e sentir-se completo e realizado como nenhuma outra coisa\u201d.&nbsp; Mesmo que tenha que enfrentar sua fam\u00edlia e a sociedade, para ele esta decis\u00e3o n\u00e3o tem a ver com identidade de g\u00eanero ou aceita\u00e7\u00e3o do corpo, mas sim com a busca por se sentir realizado.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cesar Lima foi criado em uma \u00e1rea rural do munic\u00edpio de Teixeira Soares at\u00e9 dois anos atr\u00e1s, quando veio para Ponta Grossa estudar Economia na Universidade Estadual de Ponta Grossa &#8211; embora admita ser ruim com n\u00fameros e c\u00e1lculos. Filho de um casal de produtores rurais, mudou-se para Ponta Grossa seis meses depois que entrou&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":524,"featured_media":4908,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4907"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/524"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4907"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4907\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4907"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4907"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4907"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}