{"id":4918,"date":"2019-12-18T17:55:00","date_gmt":"2019-12-18T20:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4918"},"modified":"2019-12-18T17:55:00","modified_gmt":"2019-12-18T20:55:00","slug":"a-vida-vista-por-outros-olhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/a-vida-vista-por-outros-olhos\/","title":{"rendered":"A vida vista por outros olhos"},"content":{"rendered":"\n<p>Em uma tarde ensolarada de quinta-feira na cidade de Ponta Grossa, peguei o \u00f4nibus com destino \u00e0 cidade de Seng\u00e9s, Paran\u00e1, minha cidade natal que fica localizada a cerca de duas horas e meia de Ponta Grossa e conta com aproximadamente 20 mil habitantes. Em Seng\u00e9s fui ao encontro da dona Gilma Maria Jorge, uma senhora simp\u00e1tica e muito conhecida pelo povo sengeano, moradora da cidade desde que nasceu h\u00e1 61 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 40 anos, Gilma mora numa casa localizada num terreno atr\u00e1s da C\u00e2mara Municipal da cidade, com um amplo quintal, que possui muitas flores e \u00e1rvores que ela mesma cuida. Essa \u00e9 a mesma casa em que meu pai morou com meus av\u00f3s e meus tios na sua inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O dia estava bonito, fazia em Seng\u00e9s 26 graus. Gilma me recebeu com toda sua alegria e simpatia, me esperava em p\u00e9, na parte de fora da sua casa. Sentamos no sof\u00e1 da sala, no mesmo lugar que eu j\u00e1 havia sentado em uma visita anterior e ali mesmo come\u00e7amos a conversar sobre a vida. Apesar de ter tido uma vida muito dif\u00edcil desde sua inf\u00e2ncia na \u00e1rea rural, trabalhando desde cedo ajudando seus pais no sitio e compartilhando os dias com seus outros 16 irm\u00e3os, sendo eles nove homens seis mulheres, Gilma, que se define como a n\u00famero 11 dos irm\u00e3os, conta suas hist\u00f3rias de forma alegre e espont\u00e2nea, sempre mexendo as m\u00e3os e sorrindo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com 23 anos no ano de 1980, Gilma se casou e saiu da \u00e1rea rural, foi morar com seu marido em uma casa na \u00e1rea urbana de Seng\u00e9s. Seu esposo na \u00e9poca trabalhava numa empresa da cidade e assim os dois tentavam construir uma nova vida. Os anos se passaram, os dois ent\u00e3o foram morar na casa localizada na Rua Osvaldo Cruz, e l\u00e1 ela engravidou pela primeira vez, nesta mesma casa que ela mora atualmente com sua neta mais nova.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando engravidou, teve um aborto indesejado, ficou doente e teve que ser internada. Ao ser internada, o m\u00e9dico na \u00e9poca achou que seu beb\u00ea estava morto e encaminhou para fazer uma curetagem. Ao fazer o procedimento, constataram que o beb\u00ea ainda estava vivo, ficou durante seis meses num hospital na cidade de Jaguar\u00edaiva para tentar salvar seu filho que, ao nascer, conseguiu sobreviver por apenas duas horas. Depois de fazer tratamento, conseguiu ter a sua primeira filha chamada Maria, depois dela veio o segundo chamado Neto e por fim o ca\u00e7ula Muriel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o nascimento do seu \u00faltimo filho, Gilma teve problema de rim e fez sua primeira cirurgia. Ap\u00f3s a cirurgia no ano de 2015, em agosto, Gilma teve sua vida mudada. Com 59 anos, ao fazer o autoexame nas mamas, descobriu que havia um \u201ccarocinho\u201d na mama direita, o que mais tarde, ap\u00f3s ir ao m\u00e9dico e fazer v\u00e1rios exames, descobriu que era um n\u00f3dulo e estava com c\u00e2ncer de mama.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do ano de 2016, no dia 06 de junho de 2016, o m\u00e9dico marcou a cirurgia para fazer a retirada do n\u00f3dulo do seio direito no Hospital Regional de Ponta Grossa. Moradora da cidade de Seng\u00e9s e sem condi\u00e7\u00f5es financeiras, ela ia com o \u00f4nibus disponibilizado pela Prefeitura, conhecido pela popula\u00e7\u00e3o como \u201c\u00f4nibus da sa\u00fade\u201d que leva todos os dias da semana muitas pessoas para Ponta Grossa para consultas e cirurgias, como foi o caso de Gilma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de realizar a bi\u00f3psia, foi constato que o c\u00e2ncer do seu seio direito era mesmo maligno e naquele momento, no hospital que ela havia sido encaminhada, n\u00e3o tinha o tipo de tratamento adequado para aquele tipo de c\u00e2ncer. Gilma ent\u00e3o foi encaminhada para o hospital Santa Casa, enfrentou dificuldades ao chegar no hospital, pois teve que refazer todos os exames que j\u00e1 havia feito no Hospital Regional. \u201cTive que refazer todos aqueles exames de novo, at\u00e9 tomografia \u00f3ssea para ver se realmente era s\u00f3 naquela regi\u00e3o da mama que estava o c\u00e2ncer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de todos esses procedimentos ela come\u00e7ou ent\u00e3o a fazer a quimioterapia. \u201cEu iria usar 16 sess\u00f5es s\u00f3 de quimioterapia, 4 vermelhas e 12 brancas porque tava no come\u00e7o ainda o c\u00e2ncer. Mas quando tomei uma quimio vermelha, porque era de m\u00eas em m\u00eas para poder tomar, era muito forte, foram aplicadas seis ampolas de uma vez no bra\u00e7o direito\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voltou para sua casa em Seng\u00e9s, depois da segunda sess\u00e3o de quimioterapia, Gilma j\u00e1 estava muito mal, sentindo fortes dores e ent\u00e3o teve que voltar para Ponta Grossa. Depois de ficar internada, precisou ser transferida para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e l\u00e1 permaneceu por 16 dias. \u201cSai da UTI e fui pro quarto, fiquei mais 12 dias no quarto e ali sem conseguir me mexer, depois de alguns dias melhorei e recebi alta, fui liberada a voltar para minha casa, mas quando fiquei na UTI peguei uma bact\u00e9ria que levou 1 ano e 7 meses para sarar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s todo esse tempo doente, ela conta que quando j\u00e1 estava come\u00e7ando a andar, seu marido que estava ao seu lado em todos os momentos, veio a falecer de infarto fulminante no dia 21 de julho de 2017. \u201cQuando o Jaime, meu marido morreu, eu fiquei fazendo transfus\u00e3o de sangue em Ponta Grossa, saia de madrugada daqui e voltava no outro dia \u00e0 noite, enquanto n\u00e3o terminasse eu n\u00e3o podia vir. Estou at\u00e9 hoje indo pra l\u00e1 de seis em seis meses para fazer o acompanhamento m\u00e9dico, mas gra\u00e7as a Deus t\u00e1 dando tudo certo at\u00e9 hoje\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de conversarmos por horas sentadas ainda no mesmo sof\u00e1, perguntei a ela o que tinha mudado em sua vida ap\u00f3s a doen\u00e7a, e ent\u00e3o olhando em meus olhos, com sua simpatia de sempre, Gilma respondeu: \u201cMudou muita coisa, principalmente a rela\u00e7\u00e3o com os filhos, o cuidado que eles tem comigo, o amor deles com a m\u00e3e. Claro que eles j\u00e1 tinham antes, mas agora redobrou\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao encerrarmos nossa conversa, ela me oferece um caf\u00e9 que estava preparando para quando eu fosse \u00e0 sua casa e com um abra\u00e7o encerra dizendo: \u201cTemos que viver um dia de cada vez n\u00e9, a gente nunca sabe o que vai acontecer amanh\u00e3, aproveitar viver os dias que estamos vivendo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos levantamos do sof\u00e1 e fomos at\u00e9 a cozinha para eu experimentar o seu caf\u00e9 e ver os panos que ela, com muito orgulho, disse que bordava. Depois do caf\u00e9 e de mais conversas, me despedi de Gilma com outro abra\u00e7o, ela me convidou para voltar em outra tarde na sua casa enquanto eu caminhava em dire\u00e7\u00e3o ao port\u00e3o para ir embora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto escrevia este texto, lembrava carinhosamente de cada conselho da dona Gilma e da frase que ela disse \u201cTemos que viver um dia de cada vez\u201d.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma tarde ensolarada de quinta-feira na cidade de Ponta Grossa, peguei o \u00f4nibus com destino \u00e0 cidade de Seng\u00e9s, Paran\u00e1, minha cidade natal que fica localizada a cerca de duas horas e meia de Ponta Grossa e conta com aproximadamente 20 mil habitantes. 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