{"id":4953,"date":"2020-02-18T14:00:19","date_gmt":"2020-02-18T17:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4953"},"modified":"2020-02-18T14:00:19","modified_gmt":"2020-02-18T17:00:19","slug":"uma-vida-feita-de-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/uma-vida-feita-de-sonhos\/","title":{"rendered":"Uma vida feita de sonhos"},"content":{"rendered":"\n<p>Maria Helena Gon\u00e7alves Pinheiro nasceu no dia 13 de outubro de 1957, em&nbsp;Lajeado&nbsp;Seco, zona rural&nbsp;que fica&nbsp;aproximadamente&nbsp;a&nbsp;30 km da cidade de Ortigueira\/PR, o munic\u00edpio mais pr\u00f3ximo da regi\u00e3o. \u201cDona Lena\u201d, como \u00e9 conhecida, morou no s\u00edtio com seus pais at\u00e9 os 21 anos de idade, quando resolveu se mudar para&nbsp;Ponta Grossa\/PR e tentar uma nova vida na cidade. Ap\u00f3s um per\u00edodo de dif\u00edcil adapta\u00e7\u00e3o no novo lugar, Dona Lena viu nos estudos e no trabalho uma forma de seguir em busca de seus sonhos. Sonhos esses realizados ao longo dos seus 61 anos e outros que ainda deseja alcan\u00e7ar. A rotina de trabalho de Dona Lena se mistura com a de diversos estudantes, professores e funcion\u00e1rios todas as quintas-feiras, quando ela e seu companheiro Joaquim participam da feira que acontece no Campus Central da UEPG. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>VIDA NO CAMPO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Lena viveu toda a inf\u00e2ncia com seus pais e a irm\u00e3 mais nova no s\u00edtio onde nasceu. Era a segunda filha do casal, que perdeu dois filhos ainda beb\u00eas por conta de falta de vacinas e medicamentos para tratamento. Dona Lena conta que n\u00e3o era poss\u00edvel chegar medicamentos at\u00e9 o local e que n\u00e3o havia possibilidade na \u00e9poca de seus pais irem para a cidade em busca de tratamento m\u00e9dico, que s\u00f3 tinha em Ponta Grossa. Ela e a irm\u00e3 frequentaram a escola at\u00e9 a quarta s\u00e9rie pela falta de oportunidade. As professoras eram as pr\u00f3prias moradoras do bairro e a sala de aula era na casa de uma tia. Sem \u00e1gua tratada, a nascente do rio era o lugar onde as fam\u00edlias da regi\u00e3o pegavam \u00e1gua para o consumo e os afazeres dom\u00e9sticos. Dona Lena relata a coletividade entre todos os moradores, segundo ela, eles trocavam alimentos das planta\u00e7\u00f5es e a carne era sempre dividida entre todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Lena casou com seu Joaquim aos 18 anos de idade e, aos 19, engravidou de seu primeiro filho, chamado Gerson. Quando ele completou um ano e oito meses, o casal resolveu se mudar, pois a falta de recursos no s\u00edtio podia comprometer a sa\u00fade do filho. Dona Lena alega que a vontade de ficar no s\u00edtio era maior, pois gostava da vida que levava.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>DO CAMPO \u00c0 \u201cCIDADE GRANDE\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando eu vim embora pra c\u00e1 eu me assustei. Eu n\u00e3o sabia que tinha gente dormindo na rua. Eu n\u00e3o sabia que tudo era pago\u201d, relata. Dona Lena n\u00e3o gostou do que viu na cidade quando chegou e a pobreza das pessoas era o que mais chamava a aten\u00e7\u00e3o. Menciona que no s\u00edtio havia pobreza, mas que ningu\u00e9m passava fome, pois todos ajudavam. Dona Lena e seu Joaquim tiveram ainda mais um filho, desta vez, uma menina, chamada M\u00e1rcia. A vida na cidade n\u00e3o era nada f\u00e1cil para o casal e os dois filhos. A casa em que passaram a morar n\u00e3o tinha \u00e1gua encanada e isso prejudicava a sa\u00fade de todos. Ela tinha vontade de voltar para o s\u00edtio, mas o emprego do esposo e a oportunidade que poderia dar para os filhos na cidade a fizeram aceitar a nova vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Lena procurou emprego em diversos lugares na cidade, mas disse que desistiu, pois n\u00e3o foi aceita em nenhum lugar. Ela conta que ia \u00e0s empresas e preenchia as fichas quando tinha vagas dispon\u00edveis. \u201cNunca ningu\u00e9m me chamou, porque eu n\u00e3o tinha experi\u00eancia\u201d. Dona Lena permaneceu dez anos cuidando da casa enquanto seu Joaquim trabalhava em uma ind\u00fastria da cidade. Como sempre gostou de cozinhar, menciona que seu sonho era trabalhar de cozinheira ou ajudante de cozinha, mas que nunca foi chamada. Dona Lena relata que perdeu sonhos ao chegar \u00e0 cidade, pois n\u00e3o podia trabalhar. A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a melhorar quando o casal conseguiu comprar uma casa pr\u00f3pria. A nova casa da fam\u00edlia, onde moram at\u00e9 hoje, fica no bairro Santa Luzia, foi depois da mudan\u00e7a que conseguiram \u00e1gua encanada e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00e3o ficar o tempo todo em casa, Dona Lena prestava alguns servi\u00e7os de gra\u00e7a para os vizinhos, lavava roupas, limpava casas e at\u00e9 fazia salgadinhos para festa de anivers\u00e1rio quando eles compravam os ingredientes e pediam o favor. Nesse per\u00edodo desempregada, ela contava com a ajuda do esposo seu Joaquim para os gastos da casa. Ele passou por dois empregos na cidade, mas acabou sendo demitido dos dois. Dona Lena reconhece o esfor\u00e7o do marido, mas fala que nunca quis que somente ele sustentasse a casa. Sua maior vontade mesmo era poder trabalhar fora de casa e de alguma forma contribuir financeiramente com a fam\u00edlia. O amor aos filhos e ao marido foi a for\u00e7a que a fez querer continuar em busca dos sonhos.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>NOVAS OPORTUNIDADES<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A nova vida de Dona Lena come\u00e7ou quando ela conheceu a Economia Solid\u00e1ria. Ao ver passar na TV uma reportagem sobre a feira solid\u00e1ria na Par\u00f3quia Bom Jesus de Ponta Grossa, ela preparou alguns artesanatos e alimentos e foi em busca de uma chance novamente. Dona Lena foi convidada para participar da reuni\u00e3o com as feirantes e foi aceita. \u201cNunca esque\u00e7o. O primeiro dia que eu fui [\u00e0 feira] eu vendi 40 reais. Foi a maior alegria do mundo\u201d, conta. Isso aconteceu h\u00e1 15 anos e a realiza\u00e7\u00e3o do primeiro dia de trabalho a emociona at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo era composto por 12 feirantes at\u00e9 que o p\u00e1roco decidiu que n\u00e3o poderia mais disponibilizar o espa\u00e7o para a Feira. Foi nesse momento que entrou o trabalho da Incubadora de Empreendimentos Solid\u00e1rios (IESol), um projeto de extens\u00e3o da UEPG. Ap\u00f3s dois anos de forma\u00e7\u00e3o com a IESol, nasceu a Associa\u00e7\u00e3o de Feirantes da Economia Solid\u00e1ria (AFESOL), em 2011. Dona Lena e mais seis feirantes formam a Associa\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. Seu Joaquim a ajuda na feira. Depois que ele perdeu o segundo emprego, passou a trabalhar com ela e essa parceria permanece at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois fazem a massa dos alimentos juntos e no dia da feira ele ajuda nas vendas. Apesar de ser mais t\u00edmido que Dona Lena, Seu Joaquim tamb\u00e9m \u00e9 conhecido no ambiente universit\u00e1rio. Dona Lena fala sobre trabalho coletivo na Associa\u00e7\u00e3o e relata que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil realizar trabalhos em conjunto. Mesmo ap\u00f3s alguns desentendimentos, ao final todo mundo almo\u00e7a junto e \u00e9 isso o que importa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Dona Lena voltou a estudar com 40 anos e completou o ensino m\u00e9dio na cidade. \u201cEu amei voltar a estudar, pois era meu sonho\u201d, relata. A primeira nora de Dona Lena tamb\u00e9m n\u00e3o tinha o ensino m\u00e9dio completo e para incentiv\u00e1-la Dona Lena n\u00e3o desistiu dos estudos e ambas terminaram juntas. Tamb\u00e9m come\u00e7ou estudar ingl\u00eas na UEPG, mas relata a dificuldade em aprender outra l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s tantos anos trabalhando como feirante, ainda sente certa discrimina\u00e7\u00e3o nos ambientes em que trabalha. \u201cAt\u00e9 aquele tempo [quando chegou \u00e0 cidade] eu n\u00e3o sentia tanto. Sinto mais agora\u201d, afirma. Na Universidade ainda h\u00e1 preconceito com o trabalho das feirantes, mas o ambiente tamb\u00e9m proporcionou muitas amizades e aprendizado. \u201cSe eu j\u00e1 era independente, eu fiquei ainda mais. Eu aprendi sobre pol\u00edtica, aprendi sobre defender meus direitos. Eu conheci outra vida\u201d, afirma. Realizar o trabalho na Universidade tamb\u00e9m possibilitou a quebra de preconceitos enraizados em Dona Lena. Conviver com pessoas de culturas distintas e com outras formas de vida proporcionou um crescimento humano para ela. \u201cNo s\u00edtio a gente n\u00e3o conhecia muita coisa ent\u00e3o tinha muito preconceito. Aqui eu aprendi a aceitar as pessoas do jeito que elas s\u00e3o\u201d, completa.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/P_iWgus1zwvqAvkvTWACnVuLdBGTWji4jlubbt0XTBslPKvI3SGTx4tlTUiw4haGiUtuFsCpPtBYKJj01J6bpxpfazQfjm8LPJiZJLdyBTdWKCxSF-jt6jKMZzJOlJIOhvTFsq03xtitE15hSE54sK8\" alt=\"\" \/><figcaption>Dona Lena na sede da AFESOL<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>SONHOS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando frequentou a escola no s\u00edtio, tinha o sonho de ser professora, mas pela dificuldade de continuar os estudos deixou esse sonho de lado. O sonho de ser cozinheira se transformou e ao inv\u00e9s de trabalhar numa escola, ela hoje trabalha na feira e se sente realizada com o que faz. Sua maior felicidade \u00e9 poder trabalhar e ter a oportunidade de ajudar seus filhos e netos. A filha M\u00e1rcia estuda Administra\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia na UEPG e o neto Guilherme, de 19 anos, faz Engenharia de Computa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m na Universidade. \u00c9 o motivo de maior orgulho de Dona Lena, que tinha como sonho tamb\u00e9m o estudo dos familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da Economia Solid\u00e1ria, alguns sonhos j\u00e1 foram realizados, mas Dona Lena ainda tem outros. A vontade de se aposentar tamb\u00e9m est\u00e1 presente. Se conseguir, ela pretende vender o trailer e continuar s\u00f3 fazendo artesanato. Mas por enquanto, cultiva outros sonhos. O atual \u00e9 reformar a casa. \u201cEu s\u00f3 vou parar de sonhar quando eu morrer\u201d, diz entusiasmada. Dona Lena tem quatro netos e fala com carinho da rela\u00e7\u00e3o entre eles e da forma como tentar ajudar nos seus sonhos. \u201cEu quero que eles estudem e que os sonhos deles sejam mais f\u00e1ceis do que meus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p> <em>Produ\u00e7\u00e3o realizada em parceria com a disciplina de Estudos da Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura da 3\u00b0 s\u00e9rie do curso de bacharelado em Jornalismo sob a supervis\u00e3o da professora Karina Janz Woitowicz<\/em>. <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Helena Gon\u00e7alves Pinheiro nasceu no dia 13 de outubro de 1957, em&nbsp;Lajeado&nbsp;Seco, zona rural&nbsp;que fica&nbsp;aproximadamente&nbsp;a&nbsp;30 km da cidade de Ortigueira\/PR, o munic\u00edpio mais pr\u00f3ximo da regi\u00e3o. \u201cDona Lena\u201d, como \u00e9 conhecida, morou no s\u00edtio com seus pais at\u00e9 os 21 anos de idade, quando resolveu se mudar para&nbsp;Ponta Grossa\/PR e tentar uma nova vida&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":524,"featured_media":4954,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4953"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/users\/524"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4953"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4953\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4953"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4953"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4953"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}