{"id":4958,"date":"2020-03-02T19:42:57","date_gmt":"2020-03-02T22:42:57","guid":{"rendered":"https:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=4958"},"modified":"2020-03-02T19:42:57","modified_gmt":"2020-03-02T22:42:57","slug":"o-fiscal-de-berlim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/o-fiscal-de-berlim\/","title":{"rendered":"O fiscal de Berlim"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align:right\"> <em>Por S\u00e9rgio Luiz Gadini<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p>\n\nA atividade profissional de fiscal do metro (U-Bahn) em Berlim \u00e9, talvez, uma das mais enigm\u00e1ticas fun\u00e7\u00f5es que caracteriza a capital dos germ\u00e2nicos. Quem chega em Berlim e vai usar transporte coletivo logo fica sabendo que, como n\u00e3o h\u00e1 qualquer sistema de roleta, catraca ou controle de acesso aos sistema p\u00fablicos, deve-se levar muito a s\u00e9rio, pois o fiscal \u00e9 uma esp\u00e9cie de lenda onipresente. O esquema de fiscaliza\u00e7\u00e3o vale para todos os sistemas de transporte, que funcionam na Cidade: tram (bonde), \u00f4nibus e trem (S-Bahn). E, para,fechar, tem o RER, que no c\u00f3digo deles \u00e9 o trem intermunicipal. A Companhia (p\u00fablica), que administra os diversos modais de transporte, \u00e9 a mesma (BVG, na l\u00edngua deles, dispon\u00edvel no site BVG.de).<\/p>\n\n\n\n<p>Como o transporte da Cidade \u00e9 dividido em zonas ou \u00e1reas (A &#8211; centro expandido, B &#8211; periferia, e C &#8211; metropolitano, entorno ou cidades vizinhas), se voc\u00ea comprar o ticket A deve usar (n\u00e3o sem antes autenticar, nas m\u00e1quinas em corredores de acesso das esta\u00e7\u00f5es) apenas na \u00e1rea prevista. Se circular na \u00e1rea B (m\u00e9dio entorno ou bairros n\u00e3o centrais) pode andar na A e B. Mas n\u00e3o arrisque circular na C sem o ticket autenticado para a referida \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Equivale dizer que o ticket para circular na zona A tem menor valor que o da B e este, por sua vez, maior que a A e menor que a C. Em todos os casos, \u00e9 preciso levar a s\u00e9rio a l\u00f3gica germ\u00e2nica: validar o bilhete e seguir as normas deles. Do contr\u00e1rio, se o &#8216;fiscal&#8217; te encontrar, a multa \u00e9 $ 60 euros, seja por circular com um bilhete em outra zona que o previsto, se andar sem (perder, por exemplo) ou se esquecer de validar. O custo dos bilhetes, portanto, varia muito. E pode oscilar entre 1,70 e 7,00 Euros a unidade. A diferen\u00e7a do custo n\u00e3o \u00e9 o modal, mas alcance da linha, pois o valor (unit\u00e1rio, por duas horas ou di\u00e1rio) \u00e9 o mesmo e n\u00e3o importa qual servi\u00e7o vais utilizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem mora na cidade por algum tempo &#8211; dias, semanas ou meses &#8211; diz que conhece algum usu\u00e1rio (turista ou morador) que foi multado pelo fiscal do metro, respons\u00e1vel pela fiscaliza\u00e7\u00e3o permanente do servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O sistema aberto n\u00e3o cobra nada e tampouco obriga o usu\u00e1rio a comprar o ticket ou obriga a passar por qualquer meio de controle pr\u00e9vio. O usu\u00e1rio, no entanto, sabe que, cobrado pelo &#8216;fiscal&#8217; sem o ticket dentro do metro ou mesmo com o ticket n\u00e3o marcado para aquela viagem, a multa \u00e9 certa! E tampouco adianta pensar que, h\u00e1, sou turista e estou chegando na Cidade? Paga da mesma forma e, pois, melhor nem discutir. Pior ainda se reclamar sem um dom\u00ednio b\u00e1sico do alem\u00e3o. Em tais situa\u00e7\u00f5es, germ\u00e2nicos parecem n\u00e3o dispor de cordialidade e tampouco interesse em falar algo que o alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo, o &#8216;fiscal&#8217; de metro &#8211; que assim ficou conhecido, embora circule em todos modais de transporte da Cidade &#8211; se tornou uma esp\u00e9cie de lenda urbana onipresente em Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele &#8211; o &#8216;fiscal&#8217; &#8211; lembra a imagem do popular, que o escritor Luiz Fernando Ver\u00edssimo tentou perfilar em texto: \u00e9 uma pessoa que voc\u00ea n\u00e3o tem a menor ideia de quem pode ser. N\u00e3o se sabe, ao certo, qual o perfil e tampouco como a empresa contrata tais pessoas para atuar como fiscal. Talvez, por isso o enigma, que se reproduz e faz com que, ao usu\u00e1rio rec\u00e9m chegado em Berlim, ao entrar em um dos modais, come\u00e7a a buscar tra\u00e7os ou pistas para identificar quem, ali naquele vag\u00e3o ou carro, poderia ser um fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8216;popular&#8217; apresentado pelo Ver\u00edssimo \u00e9 algu\u00e9m que, na rua, anda com um pacote na m\u00e3o ou embaixo do bra\u00e7o. N\u00e3o se imagina o que pode ter dentro, pois o papel n\u00e3o \u00e9 transparente. Em uma manifesta\u00e7\u00e3o, o popular est\u00e1 presente, por certo, mas n\u00e3o fala, pouco reage (a favor ou contra) e, geralmente, fica do meio ao fundo da concentra\u00e7\u00e3o. Quem ousa intimar algu\u00e9m para rastrear a identidade do popular, logo se decepciona, pois \u00e9 dif\u00edcil busc\u00e1-lo na multid\u00e3o, an\u00f4nima, dos movimentos massivos, que despersonalizam indiv\u00edduos. Ver\u00edssimo, por certo passou em Berlim, mas dif\u00edcilmente suspeita que a mesma l\u00f3gica do popular vale ao enigm\u00e1tico fiscal de transporte na capital alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>No U, S, Tram, Bus ou RER, a d\u00favida gera curiosidade ou at\u00e9 excita\u00e7\u00e3o para quem busca alguma pista de onde poderia estar o fiscal, naquele instante, linha e viagem do dia. Seria aquele senhor tipicamente germ\u00e2nico (1,85m, 90kg, que segura um exemplar de di\u00e1rio popular gratuito)? Ou pode ser aquele jovem, com a mesma estatura, mas na faixa de 80kg, que n\u00e3o senta e fica com o celular na m\u00e3o, enquanto passeia o olho no comportamento de passageiros? Que tal aquele moreno, estatura mediana, com tra\u00e7os de migrante turco, que entra na esta\u00e7\u00e3o seguinte, senta e observa a mulher que est\u00e1 na outra fila do carro? Pode n\u00e3o ser nenhum deles, hein? Mas, por certo, pela l\u00f3gica de que a fiscaliza\u00e7\u00e3o se mostra eficiente, algu\u00e9m ali h\u00e1 de ser!<\/p>\n\n\n\n<p>Como a temperatura m\u00e9dia em Berlim oscila mais ao frio a maior parte do ano, razo\u00e1vel suspeitar que um senhor na faixa dos 40 anos, de jaqueta (possivelmente comprado em lojas de produtos importados e acess\u00edveis, a la Primark), e cal\u00e7a jeans, com \u00f3culos suspenso na camisa, tem pinta de fiscal. Talvez, mulheres, simples, com roupas b\u00e1sicas de primavera, podem fiscalizar tamb\u00e9m? N\u00e3o se sabe praticamente nada! No m\u00e1ximo, suspeita-se, com base em relatos de quem viu algu\u00e9m ser multado em um metro, \u00f4nibus ou trem. E como era o fiscal? Pergunta-se logo ao narrador, pois o desdobramento da multa j\u00e1 se sabe: paga ou vai com o fiscal at\u00e9 um posto policial, na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Os relatos sobre o perfil de fiscais que foram vistos multando passageiros s\u00e3o controversos, variados e plural. O que dificulta qualquer tentativa de padronizar perfil e figura, contratada para um dos servi\u00e7os mais enigm\u00e1ticos em Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 padr\u00e3o em roupa, h\u00e1bito ou modo de reagir que identifique o fiscal de metro, o que se sabe &#8211; por relatos de flagrados, com ou sem o ticket no exato instante da cobran\u00e7a &#8211; \u00e9 que o fiscal, que pode ser a pessoa ao teu lado no vag\u00e3o, te aborda, fala alem\u00e3o e pede o bilhete, checa na m\u00e1quina de bolso que carrega e sai, na esta\u00e7\u00e3o seguinte, em geral sem olhar para o passageiro abordado. Ah, mas isso \u00e9 comportamento germ\u00e2nico! Pode ser, mas fato \u00e9 que, deste modo, ajuda a manter o suspense sobre a identidade do &#8216;dito cujo&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem boatos de que alguns peri\u00f3dicos j\u00e1 tentaram, em variados momentos, fazer um perfil jornal\u00edstico do &#8216;fiscal&#8217; de Berlim. Nada foi publicado, ao menos do que se tem registro na m\u00eddia digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Em bairros, pr\u00e9dios, escolas e fam\u00edlias, cogita-se que algum conhecido ou parente, certa feita, tentou participar de um concurso para atuar como fiscal. Adivinha? Isso mesmo: nenhum dos que relatam a tentativa obtiveram aprova\u00e7\u00e3o. E qual seria a m\u00e9dia salarial e a jornada di\u00e1ria de trabalho de um fiscal? A empresa n\u00e3o informa. Sindicatos de trabalhadores dizem desconhecer quem, entre os milhares de s\u00f3cios, poderia ser fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por essas e outras, suspeitas, que ainda n\u00e3o seriam pistas, fica dif\u00edcil pensar e, pois, falar o que caracteriza o enigm\u00e1tico &#8216;fiscal&#8217; de transporte p\u00fablico de Berlim!&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O autor \u00e9&nbsp;professor, jornalista e pesquisador da \u00e1rea cultural.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por S\u00e9rgio Luiz Gadini A atividade profissional de fiscal do metro (U-Bahn) em Berlim \u00e9, talvez, uma das mais enigm\u00e1ticas fun\u00e7\u00f5es que caracteriza a capital dos germ\u00e2nicos. 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