{"id":4964,"date":"2011-08-20T21:52:05","date_gmt":"2011-08-20T21:52:05","guid":{"rendered":"http:\/\/culturaplural.sites.uepg.br\/?p=212"},"modified":"2011-08-20T21:52:05","modified_gmt":"2011-08-20T21:52:05","slug":"benca-voiny","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/culturaplural\/benca-voiny\/","title":{"rendered":"Ben\u00e7a, Voiny"},"content":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Walter Benjamin afirma, num texto primoroso intitulado <em>O Narrador: considera\u00e7\u00f5es sobre a obra de Nicolai Leskov<\/em>, escrito em 1935, que \u2018os prov\u00e9rbios s\u00e3o as ru\u00ednas da tradi\u00e7\u00e3o\u2019. Se for pensar nos ditos populares, senten\u00e7as, rif\u00f5es e anexins que nos sobraram, \u00e9 preciso lembrar que, por remontar a tempos imemoriais, cada um deles encerra uma experi\u00eancia humana, uma forma de viver, toda uma tradi\u00e7\u00e3o de costumes e viv\u00eancias. Ao falar do rompimento da tradi\u00e7\u00e3o \u2013 ou, melhor dizendo, da irrup\u00e7\u00e3o da modernidade e sua forma de experi\u00eancia individualizada, personificada no romance, sobre a tradi\u00e7\u00e3o da oralidade e toda a sua carga de experi\u00eancias coletivizadas, quando se contavam hist\u00f3rias e mais hist\u00f3rias ao redor do fogo, numa forma de transmiss\u00e3o da experi\u00eancia humana dos mais velhos aos mais novos \u2013, esse v\u00ednculo entre gera\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito come\u00e7ou a se perder gradativamente. A ponto de se constatar, hoje, um estado de coisas em que o que sobrou foram as mem\u00f3rias, as reminisc\u00eancias \u2013 conforme o pr\u00f3prio Benjamin, ali\u00e1s, conclui em seu texto, que, em suma, fala sobre o fim da narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto posto, \u00e9 de se constatar, portanto, que, quando falece uma pessoa que j\u00e1 chegou no m\u00ednimo \u00e0 casa dos oitenta anos, parte de uma tradi\u00e7\u00e3o vai-se embora junto com ela.<\/p>\n<p>Todo esse intr\u00f3ito algo seco e um tanto quanto racional para falar de uma perda sem precedentes e completamente incomensur\u00e1vel que aconteceu em minha fam\u00edlia na madrugada do \u00faltimo dia 12 de agosto: a morte da minha av\u00f3 materna Leny Becher Wendler, enquanto dormia na ch\u00e1cara de um casal de tios, pr\u00f3ximo a S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais.<\/p>\n<p>A V\u00f3 Leny vinha com v\u00e1rios problemas de sa\u00fade. Entre interna\u00e7\u00f5es, idas e vindas entre a casa e o hospital e, por \u00faltimo, entre as resid\u00eancias de alguns dos seus sete filhos \u2013 j\u00e1 que a sua, na esquina das ruas Ot\u00e1vio de Carvalho e Henrique Thielen, no Jardim Carvalho, em Ponta Grossa, havia sido vendida \u2013, era percept\u00edvel que ela tamb\u00e9m j\u00e1 vinha morrendo aos poucos por dentro. Pode ter ajudado o fato de que ainda era um desejo acalentado seu voltar \u00e0 velha casa, constru\u00edda por meu av\u00f4, Leonardo da Rocha Wendler, em 1958; desejo que acabou n\u00e3o sendo cumprido.<\/p>\n<p>H\u00e1 quest\u00e3o de uns cinco anos, mais ou menos, a V\u00f3 Leny, talvez cansada das mis\u00e9rias do mundo, resolveu que queria morrer. Tanto fez que chegou a ser internada na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia. Aninhou-se na cama de um quarto do hospital e decidiu que iria se despedir de todo mundo, um por um. Pediu que lhe vestissem um conjunto de cor vinho, um par de sapatos, e se fechou para o mundo. Claro, n\u00e3o morreu. Continuou vivinha da silva, mesmo com os problemas (crescentes) de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, esse era um dos pontos altos da V\u00f3 Leny. Nos \u00faltimos tempos, ela havia perdido quase que totalmente a mobilidade das pernas, s\u00f3 era movimentada em uma cadeira de rodas, e n\u00e3o tinha mais coordena\u00e7\u00e3o sobre suas fun\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas. Praticamente n\u00e3o via quase nada e, para conversar com ela, era preciso chegar bem perto do seu ouvido. Mas se alimentava sozinha e, mais que tudo, mantinha uma lucidez de dar inveja a qualquer neto ou bisneto fedelho seu. Ria de todos e de si mesma \u2013 at\u00e9 mesmo de sua \u2018quase-morte\u2019, motivo de muitas risadas e galhofas entre a fam\u00edlia durante muito tempo. Esse esp\u00edrito jovial a manteve antenada neste mundo do qual j\u00e1 sentia um pouco de t\u00e9dio. A V\u00f3 Leny contava piada e fazia blague com qualquer assunto que lhe aparecesse pela frente, sem pestanejar, do alto da sua autoridade de matriarca.<\/p>\n<p>Pois bem. Depois de uma conviv\u00eancia \u00e0s vezes pr\u00f3xima, outras distante, incluindo at\u00e9 mesmo algumas discuss\u00f5es entre eu e ela, h\u00e1 alguns anos deu-me o chamado \u2018estalo de Vieira\u2019. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que eu era um pi\u00e1 de bosta e que, n\u00e3o obstante ser o mais velho dos netos, faltava-me o discernimento de que o caminho natural de um ser humano que se preze, que quer fazer jus a esse t\u00edtulo, era me mancar. O que eu mais tinha a fazer, portanto, era respeit\u00e1-la mais ainda e procurar privar de sua presen\u00e7a em qualquer m\u00ednimo tempo de que dispusesse. Nos \u00faltimos anos, ent\u00e3o, o que fiz foi me aproximar cada vez mais da V\u00f3 Leny. Olhava para a minha filha, Beatriz e, com o desejo de que ela pudesse conviver o maior tempo poss\u00edvel com a sua Bisa, sempre que podia a levava junto nas visitas \u00e0 V\u00f3 Leny, e tamb\u00e9m a minha mulher, Ligiane.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a V\u00f3 Leny me pedia para que eu tocasse viol\u00e3o e cantasse para ela. O que fazia com enorme prazer e devo\u00e7\u00e3o. Carregava meu viol\u00e3o estropiado e uma maleta com diversos pap\u00e9is com letras cifradas de valsas antigas, <em>Luar do Sert\u00e3o<\/em>, <em>Cuitelinho<\/em>, a <em>Moda da Mula Preta<\/em>, os sambas do Adoniram Barbosa, <em>Vide Vida Marvada<\/em>, entre tantas. Muitas eu sei de cabe\u00e7a; outras, a minha incompetente mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o ajuda; por isso a necessidade das letras cifradas. Todas essas m\u00fasicas faziam a V\u00f3 Leny sorrir, cantar e lembrar-se de coisas da sua inf\u00e2ncia e juventude. Ela ficava com o olhar perdido, \u00e0s vezes fechado, mas com certeza com alguma mem\u00f3ria a lhe percorrer a mente. Nunca perguntei do que ela se lembrava, mas todos esses momentos foram, para mim, valiosos. Espero que para ela tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Se eu consegui evoluir ao menos um pouquinho como ser humano, por meio da minha rela\u00e7\u00e3o com a V\u00f3 Leny, eu n\u00e3o sei. S\u00f3 o tempo ir\u00e1 dizer isso. Se eu consegui lhe proporcionar alguns momentos de alegria, suspeito que, algumas vezes, sim. Mas do que tenho certeza \u00e9: eu tentei.<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o j\u00e1 h\u00e1 tempos me acompanha: o que sobra de uma pessoa com 88 anos \u2013 que fez de tudo na vida, criou sete filhos, passou pelos mais diversos tipos de problemas de sa\u00fade, presenciou brigas familiares e que, nos \u00faltimos tempos, vinha assistindo a uma esp\u00e9cie de desconstru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida, com o rateio da mais singela toalhinha de croch\u00ea at\u00e9 m\u00f3veis e objetos de uso pessoal? O que lhe resta a n\u00e3o ser as suas mem\u00f3rias, as suas reminisc\u00eancias, a sua hist\u00f3ria de vida? Que se dane um momento ou outro em que ela foi intransigente ou teve qualquer outro sentimento n\u00e3o muito agrad\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 de se aceitar que uma pessoa, nas suas condi\u00e7\u00f5es, tem mais \u00e9 o direito de mandar \u00e0s favas tudo e todos? O que sobra de uma pessoa assim sen\u00e3o a sua valios\u00edssima presen\u00e7a entre n\u00f3s?<\/p>\n<p>Presen\u00e7a com a qual que eu tive o privil\u00e9gio de contar no dia 16 de julho passado, um s\u00e1bado, na casa da minha m\u00e3e, tamb\u00e9m na Henrique Thielen. Foi nesse dia que a V\u00f3 Leny achou por bem distribuir os seus \u00faltimos pertences \u2013 muito provavelmente os mais \u00edntimos \u2013 entre o nosso n\u00facleo familiar. Acabei ganhando dela uma leiteira com apito; uma concha incrementada com uma escumadeira, para pegar da panela somente o caldo ou os gr\u00e3os de feij\u00e3o; algumas latas (j\u00e1 que fa\u00e7o cole\u00e7\u00e3o delas); um martelo para amaciar carne; uma queijeira; uma toalha de mesa redonda, entre outros objetos. Senti-me ao mesmo tempo feliz por ganhar os presentes e triste por causa do seu gesto. Pensava comigo: \u2018Como pode uma pessoa se desprender de suas coisas a esse ponto, logo ela que sempre teve o maior zelo pelos seus pertences?\u2019. At\u00e9 cheguei a me perguntar se aquele dia n\u00e3o seria o \u00faltimo que eu teria na sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Infelizmente, acabou sendo. Pois n\u00e3o \u00e9 que, mesmo com um quadro no qual todos esper\u00e1vamos pela sua morte a qualquer momento, a V\u00f3 Leny nos pregou uma pe\u00e7a? Sem dar sinais do que estava para acontecer, ela foi dormir normalmente na noite de quinta-feira, 11, conforme relatou meu tio Os\u00f3rio. \u00c0s 7h45 do dia seguinte, quando ele e minha tia, Lena, foram acord\u00e1-la para tomar alguns medicamentos, a V\u00f3 Leny j\u00e1 havia falecido. Segundo um m\u00e9dico de Curitiba, a hora mais prov\u00e1vel da sua morte foi entre quatro e cinco da madrugada.<\/p>\n<p>Ou seja, ap\u00f3s incont\u00e1veis percal\u00e7os, a V\u00f3 Leny teve a gra\u00e7a de morrer dormindo. Assim, sem mais nem menos, deu seu \u00faltimo suspiro. Um tipo de morte que todos desejamos. Porque desprovida da dor final da exist\u00eancia. Porque suave. Porque singela. Porque po\u00e9tica.<\/p>\n<p>O escritor portugu\u00eas Jos\u00e9 Saramago dizia que a diferen\u00e7a entre viver e morrer \u00e9 a mesma de estar e n\u00e3o estar no mundo. A V\u00f3 Leny \u2013 ou Voiny, como eu a chamava quando crian\u00e7a, e que durante algum tempo foi seu apelido para mim, meu irm\u00e3o, Dilso, minhas irm\u00e3s, Celinha e Nizi, e alguns primos \u2013 n\u00e3o est\u00e1 mais no mundo. Triste constata\u00e7\u00e3o a que temos que nos acostumar, queiramos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que me resta, neste momento de muita dor, \u00e9 pedir a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, V\u00f3 Leny. Ou, simplesmente: ben\u00e7a, Voiny. Descanse em paz.<\/p>\n<p>Do meu lado, vou tentar manter viva a sua imagem \u2013 sorrindo; fazendo pilh\u00e9ria; cantando; me abra\u00e7ando; me beijando; me desejando boa-sorte; me dizendo \u2018crie ju\u00edzo\u2019, e eu respondendo \u2018tentei, mas tive que colocar quemicetina na \u00e1gua dele, mas morreu todo encorujado&#8230;\u2019; aben\u00e7oando minha mulher, Ligiane, e minha filhinha, Beatriz; dando um beijo de estralar no rostinho dela; me puxando a orelha para n\u00e3o cham\u00e1-la de Bia ou de Bibi, e sim de Beatriz. Vou tentar, enfim, manter viva um pouco da sua tradi\u00e7\u00e3o, um pouco da nossa hist\u00f3ria familiar. Uma tradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem representada pela Voiny durante sua dif\u00edcil, mas bela, vida.<\/p>\n<p>Vou tentar fazer a minha parte, disso a senhora pode ter certeza. \u00c9 o m\u00ednimo que eu posso fazer.<\/p>\n<p>Fique com Deus, Voiny, e vele pela sua fam\u00edlia. N\u00f3s precisamos.<\/p>\n<p>Por Helcio Kovaleski<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo alem\u00e3o Walter Benjamin afirma, num texto primoroso intitulado O Narrador: considera\u00e7\u00f5es sobre a obra de Nicolai Leskov, escrito em 1935, que \u2018os prov\u00e9rbios s\u00e3o as ru\u00ednas da tradi\u00e7\u00e3o\u2019. 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